Part 11
Foi só muito tarde que os servios começaram a escrever os seus _pesmas_. Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles, precedeu a prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da primeira metade do seculo passado.
Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro, começando elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas italianos, Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem comprehendeu que os assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as suas producções merece especial menção a comedia _Belgrado na antiguidade e em nossos dias_, que teve um grande successo nos theatros provisorios levantados em Agram e Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo da Servia; Martinho Ban, auctor dos dramas _Lazaro_ e _Meirima_, póde ser considerado o Sophocles servio. A _Meirima_ tem por assumpto o amor de um christão por uma mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por Voltaire e Byron, offerece comtudo um certo encanto de execução.
Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem contar-se as _vilas_, a que chamamos _feiticeiras_, á falta de melhor vocabulo, mas que são creaturas mysticas, que presidem aos votos do povo e que pairam silenciosamente sobre a existencia dos homens. São ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, passando, com os seus longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos regatos, sobre o Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é coberto de neves eternas.
Mas se as _vilas_ são os genios bemfasejos da Servia, existem, em opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do genero humano. São os _viétchizés_ que, flucctuando nos ares, surprehendem os pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara magica, fixam o dia da sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o peito das victimas e desapparecem.
Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois expiram.
Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é o _vampiro_, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos vivos.
Entre os typos dos _pesmas_ heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e Roland da Servia.
Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que mais nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção amorosa, que rompe dos labios de uma rapariga: «_Ó tchardak_ (leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, está á minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva, assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.»
FIM
INDICE
Pag. I O primeiro mosquito 5 II A comedia das praias 11 III N'uma praia solitaria 20 IV Os frequentadores das praias 30 V Casos... 38 VI Á volta dos pés da imperatriz 56 VII Loucura alegre 65 VIII A mascotte 73 IX Era em abril... 80 X A felicidade e a camisa 85 XI Morte de um gentleman 91 XII A «season» lisbonense em 1883 100 XIII Gostos não se discutem 106 XIV Peccadilhos metricos 114 XV Os amaveis 130 XVI A sepultura d'um traidor 137 XVII A caminho do Alemtejo 148 XVIII A mulher 155 XIX O carnaval... 163 XX O chapeu 171 XXI Os antipodas 181 XXII As uvas 190 XXIII Pessoas conhecidas de vossas excellencias 197 XXIV Comer a dois carrilhos 207 XXV O ultimo puritano 212 XXVI Os principes do Perú 221 XXVII A poesia da Servia 229
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ERRATAS
Pag. 69, lin. 9, onde se lê--um bilhete Colyseu leia-se--um bilhete do Colyseu.
Pag. 104, lin. 30, onde se lê--Á vista de um trabalho--leia-se--Á custa de um trabalho, etc.
Pag. 142, lin. 23, onde se lê--deixaria na primeira leia-se--deixaria ir na primeira, etc.
Pag. 155, lin. 2, onde se lê--havido acontecimentos leia-se--havido acontecimento, etc.
Pag. 176, lin. 16, onde se lê--E como--leia-se--É como, etc.