Part 10
Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á vista do publico! eu te admiro e te venero!»
Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.
Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe, para evitar cumprimentar-lhe o pé!
Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com ella o gosto de passar na rua do Oiro.
Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.
Os seus collegas diziam:
--O Seabra agora está muito caido!
Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.
Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.
Pediu-me muitas desculpas, e recusou.
--Já não vejo nada! dizia elle.
--Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu.
E elle, muito sentencioso, respondeu-me:
--Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.
De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do chefe.
--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.
--Não, Seabra, até ámanhã.
O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a gravata, escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.
E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em publico nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.
Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava esburacada.
O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido em maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou, cheio de dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama.
E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:
--Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças?
Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se entretivesse, lendo-o.
--Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição.
XXVI
Os principes do Perú
Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não tarda nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua costumada pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas ruas de Lisboa, um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.
Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações.
As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do Natal, na bonecada e nos bolos.
Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, que é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto se finge rezar muito devotamente...
Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto para descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.
Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á imaginação fogosamente credula.
As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as carnes rosadas e divinas do pequenino Jesus.
No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia soar, mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a consciencia do perigo que a esta hora está correndo,--felizmente para elle.
Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima _avenida_, dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar em disposições testamentarias, tão felizes são os perús!
As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do perú do Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em mil guloseimas, que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, mas o perú setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, porque a tradição local não exige como victima senão a gallinha gorda e o gallo nedio.
Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, andava estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que lhe fizera a mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.
Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio de difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: tres filhas e quatro filhos.
Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de perús luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez tostões não era quantia que um servente de repartição, cheio de filharada, podesse dispender. Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia muitas vezes á mulher:
--Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús.
A mulher sorria com desalento e replicava:
--Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos, que hão de ser nossos genros?!
--Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e verás.
Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram, principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha quinze annos; a mais velha dezesete.
--E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido, fazendo um _calembour_ inconscientemente.
--É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles ahi estão a bater á porta...
--Os principes?
--Não, os perús.
--Fia-te n'essa, pateta!
--Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu derriço?
--Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?
--D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as suas filhas.
O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O estudante da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo ainda o caminho de ferro não tinha encurtado as distancias.
O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a entregar-se exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á noite.
Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha do servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o prendia talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um primeiro amor, como tambem porque o estudantelho era poeta e a rapariga parecia-lhe romantica.
Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra dizer! Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus olhos negros e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa em servente de repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo os canones e a prosa. As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e dormir melhor. Mas a rapariguinha dos quinze annos tinha suas _reveries_, contemplava o azul do céu, gostava de vêr o luar, o que o pae e a mãe muito extranhavam classificando de telhuda a filha mais nova.
Pois o Natal estava por um fio, chega não chega, como eu ia dizendo ainda agora.
O servente ressonava já ha muito tempo em competencia philarmonica com a cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes desse um vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava á janella, envolta no véu azul do luar, unico de que podia dispôr, a conversar idillios com o seu estudantelho do Minho.
--Tu és-me infiel, dizia-lhe ella.
--Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e só penso em poder casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria.
--São palavras... Não sentes o que dizes!
--Por que duvidas de mim?
--Porque tenho a certeza de que o teu coração não é sincero. Só te lembras de mim quando me estás fallando.
--Tambem isso são palavras, apenas.
--Nunca tiveste uma pequena lembrança que me désses, uma d'essas apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo custam. Agradece-se, estima-se a intenção, principalmente...
--E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?...
(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou).
--Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse tão pouco como o teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho má fé com ellas no amor. São como que o presagio de que tudo acabará de pressa. As flôres duram tão pouco!
--Um leque, Mariquinhas, um leque?...
(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens).
Ella replicou indignada:
--Eu não sou mulher que me requebre de leque na mão. Não sou d'essas mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a ventarola.
--Mas eu não te quiz offender, Mariquinhas.
--Talvez não quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo á sombra de meus paes, e que os adoro. Pésa-me de que elles sejam tão pobres e tão bons. Sabes no que eu penso? Em proporcionar-lhes um dia de Natal agradavel, como elles já não tiveram ha muitos annos...
--E como seria isso?
--Fazendo-lhes a surpreza de uma boa _meia noite_.
--Como?
--Comprando-lhes um perú sem o elles saberem.
O estudante sentiu uma punhalada no coração; duas punhaladas é que foram.
Primeira punhalada: Então ella, tão romantica, tão sonhadora, pensa agora n'um perú?
Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o perú?
Mas, emfim, era preciso não fazer má figura deante da Mariquinhas.
--Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes.
--Quando?
--Ámanhã... decerto, visto que depois d'ámanhã é vespera de Natal.
--Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas.
E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo:
--Ella é muito exigente para um estudante, mas, em compensação, parece ser muito boa filha.
No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um _Magnum Lexicon_, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau estado. Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na Praça da Figueira, um perú por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na algibeira o bello tostão para cigarros e café.
Á meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de perú debaixo da capa. Momentos depois o perú subia suspenso por um cordel, e a Mariquinhas era feliz.
As outras irmãs dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes podesse dar um vestido e um camarote? Não. Sonhavam, o que era verdade, que tinha cada uma um perú, que ellas pediram aos namorados, por conselho do pae.
Foi assim que o servente de repartição, como havia planeado, pôde ter perú na noite de Natal, perú no dia de Anno Bom, perú no dia dos Santos Reis. Tres perús a tres filhas,--por cabeça.
E sentado á mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para a missa do gallo, dizia elle á mulher:
--Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Perú. Os outros dois estão ainda em palacio. Não te dizia eu que elles haviam de chegar?
XXVII
A poesia da Servia
Perguntaram um dia a Miçkiewiez: «O que são os servios? »
E o grande poeta da Polonia respondeu: «Um povo destinado a ser o bardo e o menestrel de toda a raça slava.»
J. Reinach sae em abono d'esta opinião confirmando-a: «O caracter servio é essencialmente poetico, e a sua poesia não se traduz apenas nos _pesmas_, nos hymnos nacionaes que acompanham na _guzla_, encontra-se ainda na religião, nas cerimonias do culto, nas festas, na organisação da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos sonhos de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a Servia por patria, não podia deixar de ser, como disse Miçkiewiez, senão um povo de bardos e menestreis, e, nas horas de perigo nacional, um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas dos valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus bosques de castanheiros, os _Schumadia_, as margens accidentadas dos rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contém e inspira thesouros de poesia.»
Na familia servia o sentimento da fraternidade é talvez o mais desenvolvido, «Não ha uma joven servia sem irmão» diz uma velha lei. Quando a noiva deixa o lar da sua familia, é pelos irmãos que ella chora lagrimas semelhantes a _bagos que se destacassem de um cacho maduro_. A canção do desgraçado Iowo diz assim:
«O moço Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o braço direito.
«Quem o curará? Só a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a virtude das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede á mãe a sua branca mão direita; á irmã as tranças do seu cabello; á mulher o seu collar de perolas...
«A mãe dá, com a melhor vontade, a sua branca mão direita, a irmã dá as tranças do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas...
«Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lança veneno nos alimentos de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua mãe.
«Ouvem-se então gemer trez cucos: um que não deixa jámais de lamentar-se; outro que só se faz ouvir pela manhã e á noite; e o terceiro, que sómente geme quando lhe apraz.
«Qual é o que não deixa jámais de ouvir-se? A desgraçada mãe de Iowo. O que sómente se ouve pela manhã e á noite? A irmã de Iowo, profundamente afflicta. E o que só geme quando lhe apraz? É a joven viuva de Iowo.»
O casamento entre os servios é livre, o resultado do _mutuus consensus_. O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a mão da filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um antigo _pesma_ diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como perfume, um mangerico;--mas o annel só se dá para casar.»
Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara, dizendo: «Não te quero a ti nem ao teu pomo.»
Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas casamentos ricos. Os _pesmas_ protestam contra esta excepção. A pobre rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão pergunta-lhe: «Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não! não tenho frio nos pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração. Não é a neve que me molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo aquelle que eu aborreço.» Uma outra canção diz: «Vivia na montanha uma donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de seu rosto. Ó meu rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse, meu branco rosto, que um velho marido te devia beijar, oh! iria á montanha verde e colheria o absyntho, espremeria o seu suco e lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de que o velho, quando te beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, meu branco rosto, que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao verde jardim, colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te lavar, meu branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, ficasse perfumado do teu perfume.»
O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que os irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao som de musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas vem então ao encontro da noiva, que se adeanta para ellas: apresentam-lhe uma creança que ella deve vestir, bem como deve offerecer aos convidados pão, vinho e agua. Só quando dá á luz é que a noiva passa a ser considerada como fazendo parte da familia. Recebe um dote, que os servios chamam _persia_. Quando a noiva já não tem pae, é o irmão que deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido não póde fazer uso. Mas, circumstancia verdadeiramente notavel! quando uma rapariga casa sem auctorisação dos pais, a sua união é considerada legitima, pois que tem por base o amor.
Assim é que diz uma canção:
«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só não te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o peço eu.--Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae recusar-t'a-ha. Não penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem amado. Tenho nove irmãos e numerosos primos; quando elles montam nos seus cavallos negros, com as suas finas espadas na mão, só vel-os causa horror. Não quero que tu morras combatendo com elles; e se fugisses, não mais te poderia ouvir. Amo-te. Chama-me, eu irei voluntariamente lançar-me nos teus braços.»
Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem descobertos durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos e os vestidos. Os homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde o dia da morte até ao do enterro, não cessam de _naritsati_, quer dizer de cantar em voz alta a sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus.
«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos para o anjo luminoso de Deus, e exclamo: Fazei com que a minha vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai! contemplo o oceano da vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo abordar a porto e salvamento.»
Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a prantear longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos: é o Zaduchnitzi.
Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela sua coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á patria, usos e religião.
A festa dos ramos é a primeira do anno: celebra o advento da primavera. As raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreição de Lazaro: «A creança cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia: quando virá o imperio servio?» No dia seguinte, antes de nascer o sol, vão buscar agua e cantam em côro: «As pontas do veado tornam a agua turva, mas o seu olhar torna-a clara e limpida.»
Esta canção deve ser interpretada n'um sentido mythico.
O veado, cujas pontas tornam a agua turva, é o inverno, o tempo brumoso. Gubernatis, fallando do veado mythico, diz-nos que ha o veado negro, que symbolisa o céu coberto de nuvens, e o veado luminoso, que figura em muitas lendas da India. Ora n'esta canção servia, o olhar do veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser considerado como o triumpho alcançado pela primavera sobre o inverno.
Reinach diz que as raparigas servias saúdam no regresso da primavera a volta dos tempos felizes para o amor, entoando canções notavelmente simples, taes como esta: «Dois amantes beijaram-se na campina, e julgavam que ninguem os teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo ao branco rebanho, que o repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao viandante, o viandante ao marinheiro, que por sua vez o contou á barca. A barca foi dizel-o ao rio, e o rio á mãe da rapariga.» Os leitores de um livro meu, _Atravez do passado_, conhecem já a ideia fundamental d'esta canção encantadora, que se encontra tambem na Grecia, e que tem sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemão Chamisso.
No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da Servia. As mulheres vão ás montanhas colher hervas e flores, que lançam depois ao rio, onde no dia seguinte se banham. É assim pois que os servios, como os outros povos slavos, celebram o advento da primavera.
Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam Lelio, a Venus da Servia, a deusa do amor.
Segue-se o S. João, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sêco, procede-se a uma cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos consistem apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre, acompanhada por outras, os campos, que vae aspergindo com um regador, pedindo ao céu uma chuva fecundante, invocando o sol e a lua: _«Tako mi Suntza!_ (o sol) _Tako mi Semlie_ (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a lua me proteja! Ligeiras corremos atravez da aldêa; possam as nuvens do ceu, mais rapidas do que nós, beneficiar os prados e as vinhas. _Tako mi Semlie._» Quando, pelo contrario, o anno tem corrido chuvoso, os habitantes do campo imploram o auxilio de Elio, que não é senão o sol.
As festas domesticas na Servia têem um caracter deliciosamente intimo. Os viajantes, os estranhos são sempre recebidos com amavel hospitalidade. O chefe da familia, quando o repasto se realisa, entôa a canção de Batschka: «Tres passaros desferiram vôo atravez do espaço, levando cada um no bico um presente precioso: o primeiro, um grão de trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a alegria e a felicidade. O grão de trigo caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de uva sobre as montanhas de Gore; possam sobre a nossa mesa caír a alegria e a felicidade.»
Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal é a mais solemne.
Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae á floresta cortar um carvalho novo e, pondo-o ás costas, volta para casa. Quando entra, exclama:
«Boa noite! feliz Natal!»
E a familia responde: «Que Deus te proteja, e te dê boa colheita!» Depois, o carvalho (badujak) é posto no fogo. No dia seguinte, a gente moça percorre a povoação a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae de familia, apparecendo á janella, atira para a terra alguns grãos e sementes, dizendo: «Natal! Natal! Christo nasceu.» Ao que os moços respondem no estylo do Evangelho: «Em verdade nós vol-o dizemos, Christo nasceu.»
Então, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde, açoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: «Tantas faiscas, quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e bençãos do ceu teremos este anno.»
A festa do Natal dura tres dias. E até que entre o novo anno, toda a gente se saúda, dizendo: «Christo nasceu!» e respondendo: «Em verdade, nós vol-o dizemos, Christo nasceu!»
A universalidade das crenças populares é realmente um facto admiravel!
Assim como os servios tem o _badujak_. temos nós, nas provincias do norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto, o carvalho do Natal, que tambem se põe no fogo e que no fim da noite se guarda para tornar a accender-se em occasião de tempestade.
A Servia é decididamente o paiz das canções. Todos os seus habitantes cantam. Em cada casa ha uma _guzla_, especie de mandolim ou guitarra, que tem apenas uma corda de crina. Não ha festa sem canção e sem _guzla_. A Europa occidental conhece de varias imitações ou traducções muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mérimée, tendo aprendido cinco ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno romanceiro, que attribuiu a um imaginario tocador de _guzla_, Jacintho Maglanovitch.
Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, é geralmente curta; e o acompanhamento da _guzla_ apenas a toma nos ultimos versos. Os cantos nacionaes são compostos em trocheus; as canções de amor admittem os dactylos.
No estudo da poesia servia ha a distinguir os _pesmas_ heroicos que os homens acompanham na _guzla_, e as canções do lar, que as mulheres e as raparigas entoam.