Luiz De Camoes Notas Biograficas Prefacio Da Setima Edicao Do C
Chapter 1
Produced by Pedro Saborano (from images made available by Google Book Search)
CAMILLO CASTELLO BRANCO
LUIZ DE CAMÕES
NOTAS BIOGRAPHICAS
PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT
NA LIVRARIA DE ERNESTO CHARDRON, Editor
PORTO E BRAGA
Luiz de Camões
NOTAS BIOGRAPHICAS
PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT
PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
Cancella Velha, 62
CAMILLO CASTELLO BRANCO
LUIZ DE CAMÕES
NOTAS BIOGRAPHICAS
PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT
Livraria Internacional
DE
ERNESTO CHARDRON--EDITOR
PORTO E BRAGA
1880
A
D. Antonio Alves Martins
BISPO DE VIZEU
OFFERECE O DISCIPULO E AMIGO
Camillo Castello Branco.
LUIZ DE CAMÕES
I
O protagonista do sempre formoso poema de Almeida-Garrett é um Luiz de Camões romantico, remodelado na phantasia melancolica d'um grande poeta exilado, amoroso, nostalgico. A ideal tradição romanesca impediu, com as suas nevoas irisadas de fulgores poeticos, passante de duzentos e cincoenta annos, que o amador de Natercia, o trovador guerreiro, fosse aferido no estalão commum dos bardos que immortalisaram, a frio e com um grande socego de metrificação, o seu amor, a fatalidade do seu destino em centurias de sonetos. Garrett fez uma apotheose ao genio, e a si se ungiu ao mesmo tempo principe reinante na dynastia dos poetas portuguezes, creando aquella incomparavel maravilha litteraria. Ensinou a sua geração sentimental a vêr a corporatura agigantada do poeta que a critica facciosa de Verney e do padre José Agostinho apoucára a uma estatura pouco mais que regular.
Camões resurgiu em pleno meio-dia do romantismo do seculo XIX, não porque escrevêra os LUSIADAS, mas porque padecera d'uns amores funestissimos. O seculo XVIII citava-o apenas nos livros didacticos e nas academias eruditas, como exemplar classico em epithetos e figuras da mais esmerada rhetorica. Tinha cahido em mãos esterilisadoras dos grammaticos que desbotam sapientissimamente todas as flôres que tocam, apanham as borboletas, prégam-as para as classificarem mortas, e abrem lista de hyperboles e metaphoras para tudo que transcende a legislatura codificada de Horacio e Aristoteles.
Luiz de Camões, qual o figuram Garrett no poema tragico e Castilho no drama ultra-romantico, e as musas indigenas e forasteiras nas suas contemplações plangentes, é o que se requer que seja o martyr do amor, o soldado ardído, o talento menoscabado pela camarilha dos reis. Os maviosos sentimentalistas afizeram-nos a estas côres prismaticas--ás refulgencias das auroras e dos luares theatraes. Mal podemos encarar o nosso Camões a uma grande luz natural. Queremol-o na tristeza crepuscular das tardes calmosas, na mesta solidão dos mares, nas saudades do desterro, no desconforto das primeiras precisões, vivendo da mendicidade do Jáo--do _escravo_, como se alguma hora houvesse em Portugal escravos de procedencia asiatica--e das economias da preta, arrastando-se sobre moletas do adro de S. Domingos para o catre do hospital. Quem nos mostrar Camões á luz com que a historia e a critica inductiva elucidam as confusas obscuridades dos homens extraordinarios--e por isso mais expostos á deturpação lendaria--poderá avisinhar-se da verdade? mas, do mesmo passo, se desvia da nossa inveterada opinião, e talvez incorra em delicto de ruim portuguez.
Eu me vejo n'este perigo e não me poupo ás eventualidades da ousadia. Pretender exhibir novidades inferidas de factos comparados e probabilidades em uma biographia tantas vezes feita e refeita, será irrisorio atrevimento quando m'as poderem contradictar com provas solidamente cimentadas. O que não parecer novo n'estes traços será uma justificada emenda aos erros dos biographos antigos e recentes em que nomeadamente avultam os senhores visconde de Juromenha e doutor Theophilo Braga que segue muito confiado aquelle douto investigador com uma condescendencia extraordinaria para escriptor que tanto averigua.
II
Direi primeiro do amor meio lendario de Luiz Vaz de Camões a D. Catharina de Athaide, como causa essencial da sua vida inquieta e dos revezes da sinistra fortuna procedentes d'esse desvio da prudencia na mocidade.
Diogo de Paiva de Andrade, sobrinho do celebrado orador, deixou umas LEMBRANÇAS ineditas que passaram da opulenta livraria do advogado Pereira e Sousa para meu poder[1]. Diogo de Paiva nascera em 1576. É contemporaneo de Camões. Conheceu provavelmente pessoas da convivencia do poeta. Poderia escrever amplamente, impugnando algumas noticias de Mariz, de Severim e de Manuel Corrêa. Era cedo, porém, para que o assumpto lhe interessasse bastante. Na juventude de Paiva, as memorias de Camões não tinham ainda attingido a consagração poetica de que se formam as nebulosas do mytho. Diogo de Paiva pouco diz; mas, n'essas poucas linhas, ha duas especies não relatadas pelos outros biographos:
_Luiz de Camões, poeta bem conhecido, tendo 18 annos, namorou Catharina de Athaide, e principiou a inclinação em 19 ou 20 de abril, do anno de 1542, em sexta-feira da semana santa, indo ella á igreja das Chagas de Lisboa, onde o poeta, se achava. A esta senhora dedicou muitas das suas obras, e ainda que com differentes nomes é a mesma de que falla repetidas vezes. Foi depois dama da rainha D. Catharina, e continuando os amores com boa correspondencia, mudou ella de objecto para os agrados de que Camões se queixa em suas composições. Por estes amores foi quatro vezes desterrado: uma de Coimbra, estando lá a côrte, para Lisboa; outra de Lisboa para Santarém; outra de Lisboa para a Africa; e finalmente de Lisboa para a India, d'onde voltou muito pobre, sendo já fallecida D. Catharina, por quem tão cegamente se apaixonára._
O desterro de Camões de Coimbra, onde estava a côrte, é a novidade que não pude conciliar com o facto de ter residido D. João III em Coimbra nos annos immediatos a 1542, anno em que o poeta vira D. Catharina na igreja das Chagas. Os impressos que consultei, e não foram poucos, não me esclareceram. Sei tão sómente que o rei esteve em Coimbra por 1527 e 1550. N'esta segunda data já Camões se repatriára do segundo desterro em Africa. Quanto á inconstancia da dama da rainha--novidade de mais facil averiguação--os factos que vou expender a persuadem coherentemente.
D. João III, o rei-inquisidor, e _piedoso_ por antonomasia, antes de fazer um filho em Isabel Moniz, fizera outro em Antonia de Berredo. Eram ambas de linhagem illustre. A primeira finou-se n'um convento da Guarda, sem ter visto seu filho Duarte que, aos 22 annos, morreu arcebispo de Braga. A segunda ficou na côrte, e achou marido de raça fina, sem embargo da concubinagem real, aggravada pelo acto da sua notoria fecundidade. A criança tinha morrido. Os nobiliaristas chamaram-lhe _Manuel_ e occultaram-lhe o nome da mãi, visto que ella propagou altos personagens, sujeitos envergonhados.
Antonia de Berredo casára com um viuvo rico e velho, Antonio Borges de Miranda, senhor de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, que de sua primeira mulher, da casa de Barbacena, tivera dous filhos, a quem competia a successão dos vinculos. D. Antonia concebeu do marido, e deu á luz um menino que se chamou Ruy Borges Pereira de Miranda. O marido falleceu. Os filhos do primeiro matrimonio, Simão Borges e Gonçalo Borges foram esbulhados da successão dos vinculos--um estrondoso escandalo em que influiu o arbitrio despotico do rei a favor do filho da sua amante[2].
Apossado iniquamente dos senhorios de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, Ruy Borges, filho de Antonia de Berredo, affeiçoou-se a D. Catharina de Athaide, filha de Alvaro de Sousa, veador da casa da rainha, senhor de Eixo e Requeixo, nas visinhanças de Aveiro. D. Catharina era pobre, como filha segunda; seu irmão André de Sousa era um simples clerigo, prior de Requeixo; o senhor da casa era o primogenito Diogo Lopes de Sousa.
D. Catharina aceitára o galanteio do poeta Luiz Vaz de Camões, talvez antes de ser requestada por Borges de Miranda. O senhor de Ilhavo, rivalisado pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirito da dama da rainha. Seria um estupido consciente; queixou-se talvez a mãi. Não é de presumir que a mulher de D. João III se aviltasse protegendo o galanteio repellido do filho da Berredo--amante notoria de seu marido; mas é natural que a mãi de Ruy Borges recorresse directa e clandestinamente ao rei solicitando o desterro do perigoso émulo de seu filho. Assim pôde motivar-se o primeiro desterro de Camões para longe da côrte, e o segundo para Africa em castigo da teimosia d'elle e das vacillações de Catharina de Athaide na aceitação do opulento Ruy Borges,--vacillações transigentes com a riqueza do rival do poeta pobre, a meu vêr. A dama não seria muito escoimada em primores de fidelidade. Das damas da côrte de D. João III, dizia Jorge Ferreira de Vasconcellos: «todas são mui próvidas em não estarem sobre uma amarra por não ser como o rato que não sabe mais que um buraco»--e talvez pensasse em Camões quando escrevia: «Elle cuida que por discreto e galante ha de vencer tudo: eu quizera-lhe muito mais dinheiro que todas suas trovas, porque este franqueia o campo, e o al é martellar em ferro frio[3]».
Sahiu Camões para a Africa em 1547, e lá se deteve proximamente dous annos. Quando regressou, a dama da rainha era já casada com Ruy Borges e vivia na casa do esposo convisinha de Aveiro, entregue ao ascetismo, sob a direcção de frei João do Rosario, frade dominicano.
Subsistem umas MEMORIAS communicadas a Herculano em 1852, e datadas em 1573 por aquelle frade, nas quaes o confessor revela que D. Catharina, quando elle a interrogava ácerca do desterro de Camões por sua causa, a esposa discreta de Ruy Borges respondia que não ella, mas o grande espirito do poeta o impellira a empresas grandiosas e regiões, apartadas. Esta resposta, um tanto amphibologica, argue e justifica o honestissimo melindre da esposa.
Se respondesse: «fui a causa de seu desterro», daria testemunho menos nobre de sua ingratidão, e teria de córar como esposa voluntaria de Ruy Borges, como treda amante do desditoso poeta, e ainda como filha espiritual do frade nimiamente indagador que varias vezes e indelicadamente a interrogava sobre o caso melindroso: _E todas las vezes que no poeta desterrado por saa rasão lhe falava..._--escreve frei João do Rosario.
O arrependimento, o tedio e a saudade não a mortificaram longo tempo. Morreu Catharina de Athaide em 28 de setembro de 1551, e foi sepultada na capella-mór que dotára no mosteiro de S. Domingos d'Aveiro em sepultura que talvez mandasse construir.
Camões não ignorava a tristeza raladora de D. Catharina. Este soneto exprime o sentimento d'uma vingança nobre até ao extremo de compadecida:
Já não sinto, senhora, os desenganos Com que minha affeiçao sempre tratastes, Nem vêr o galardão, que me negastes, Merecido por fé ha tantos annos.
A mágoa choro só, só choro os damnos De vêr por quem, senhora, me trocastes! Mas em tal caso vós só me vingastes De vossa ingratidão, vossos enganos.
Dobrada glória dá qualquer vingança, Que o offendido toma do culpado, Quando se satisfaz com causa justa;
Mas eu de vossos males a esquivança De que agora me vejo bem vingado, Não a quizera tanto á vossa custa.
Semelhante soneto dirigido á outra D. Catharina de Athaide, dama do paço que morreu solteira, não tem explicação. Claro é que Luiz de Camões allude á mulher que o vinga padecendo as mágoas resultantes d'uma alliança em que elle foi ingratamente sacrificado. Á outra dama que morreu, estando para casar, segundo a versão colhida pelos primeiros biographos, não diria Camões:
_... a vingança_ _Não a quizera tanto á vossa custa._
Como o vingaria ella, desconhecendo as tristezas de casada que não chegou a ser? Era mister que se désse mudança de vida irremediavelmente afflictiva e remordida de arrependimento para que o poeta se ufanasse de vingado,--e tanto que implicitamente lhe perdôa. O soneto que trasladei não attrahiu ainda notavel reparo d'algum biographo, sendo a pagina mais para estudo nos amores de Camões. Antes do generoso soneto, quando a julgava contente, Camões exprimia-se de mui diverso theor. O ciume, o despeito e a cólera desafogára n'outros versos perdoaveis á dôr, mas somenos fidalgos. Chamou-lhe _cadella_.
O viuvo Ruy Borges passou logo a segundas nupcias como quem procura em outra mulher a felicidade que não pudera dar-lhe a devota Catharina absorvida no mysticismo, como n'um refugio aos pungitivos espinhos da sua irremediavel ingratidão.
O poeta grangeára inimigos na côrte. Deviam ser os Berredos e os parentes de Ruy Borges de Miranda. Entre os mais proximos d'este havia um seu irmão bastardo, Gonçalo Borges, criado do paço, a cargo de quem corria a fiscalisação dos arreios da casa real. Teria sido esse o espia, o denunciante das clandestinas entrevistas do poeta com a dama querida de seu irmão?
Em maio de 1552, Gonçalo Borges curveteava o seu cavallo entre o Rocio e Santo Antão, no dia da procissão de _Corpus-Christi_, em que se mesclava um paganismo carnavalesco de exhibições mascaradas. Dous incognitos de mascara enxovalharam Gonçalo Borges com remoques. Houve um reciproco arrancar das espadas. N'este comenos, Luiz de Camões enviou-se ao irmão de Ruy Borges e acutilou-o no pescoço. O golpe, segundo parece, era a segurar; mas não deu resultados perigosos para o ferido. Camões foi preso; e, ao terminar um anno de carcere, solicitou perdão de Gonçalo Borges que, voluntario ou coagido por empenhos, lhe perdoou, visto que não tinha _aleijão nem deformidade_. A _Carta de perdão_, produzida pelo snr. visconde de Juromenha, é datada em 7 de março de 1553, e está integralmente copiada[4].
Dias depois, Luiz Vaz de Camões sahia para a India, na mesquinha posição de substituto d'um Fernando Casado, e recebia 2$400 reis como todos os soldados razos que embarcavam para o Oriente; e para isto mesmo prestou a fiança de Belchior Barreto, casado com sua tia. Aquelles 2$400 reis eram o primeiro quartel dos 9$600 reis, soldo annual do soldado reinol.
Expatriou-se na humilhação dos mais desprotegidos. Devia de ter alienado a estima e o favor de amigos influentes, porque sahia do carcere rebaixado pelo desbrio com que implorára o perdão, e réo confesso de uma vingança por motivos menos honestos aos olhos dos velhos serios, e desdourados na propria fidalguia pelas ribalderias amorosas d'um mancebo de nascimento illustre. Se Luiz de Camões embarcasse para a India como o commum dos mancebos fidalgos, receberia 300 ou 400 cruzados de ajuda de custo.
A familia _Camões_, no reinado de D. João III, esteve relegada da consideração da côrte. O mais notavel d'essa familia, o cruzio D. Bento, prior geral da sua Ordem, gozou apenas a prelazia monastica, mas sem influencia civil d'alguma especie. Simão Vaz de Camões, parente do poeta, senhor d'um morgado mediano, era, por esse tempo, um libertino espiado pela justiça, deshonrado por delictos graves e allianças matrimonialmente ignobeis. Os outros ramos vegetavam obscuros; e alguns d'essa familia que militaram na Asia não alcançaram alguma qualificação notavel nos minuciosos annaes de Graspar Corrêa. Diogo do Couto nem sequer os nomeia.
No reinado de D, João II, Antão Vaz, avô do poeta, casára com D. Guiomar da Gama, parenta de Vasco da Gama, a quem seguiu á India, capitaneando uma caravela, talvez escolhido por Vasco, em attenção ao parentesco. O heroe dos LUSIADAS enviou Antão Vaz embaixador ao rei de Melinde, a comprimental-o, a levar-lhe presentes e a concertar as pazes[5]. Luiz de Camões, com rara modestia, omitte o nome de seu illustre avô; dá-lhe, porém, predicados d'elegancia oratoria, e compraz-se em o fazer discursar largamente. Na dilação do discurso transluz uma licita vaidade. Vasco
Manda mais um, _na pratica elegante_, Que co'o rei nobre as pazes concertasse; ........................................
Partido assi o _embaixador prestante_, ...................................... Com estylo que _Pallas lhe ensinava_, Estas palavras taes fallando orava[6].
Nenhum biographo, que me conste, aproximou ainda a passagem do poema do nome do embaixador Antão Vaz. Verdade é que João de Barros, Damião de Goes e o bispo Osorio escondem o nome do enviado; e a maioria dos biographos não conheceu os mss. de Gaspar Corrêa, nem consultou senão os expositores triviaes. Antão Vaz, como se lê n'outros trechos d'aquelle prolixo chronista, é sempre o preferido nas mensagens em que é essencial o discurso. Conhece-se que Vasco da Gama o reputava efficaz no dom da palavra. Passado o anno 1508 não tenho noticias d'elle, nem sei que se avantajasse no posto com que sahiu do reino, commandante de caravela, em 1502. Provavelmente não «fez fazenda», como lá se dizia na Asia, ou porque tinha espiritos por demais levantados da terra nas azas da eloquencia, como se deprehende do conceito do neto, ou porque pertencia á raça ainda generosa e desinteresseira dos primitivos soldados do Oriente. O certo é que a sua descendencia, filho e neto, não inculcam herdar-lhe os haveres.
III
Posto que na _Carta de perdão_ se diga que o pai do soldado, Simão Vaz de Camões, cavalleiro fidalgo, morava na cidade de Lisboa, isto não affirma que elle, no anno em que o filho embarcou, alli residisse. Simão Vaz estanciára muito pela India, e possuíra em Baçaim, em 1543, a aldêa de Patarvaly que D. João de Castro, o vice-rei, lhe aforára por 60 pardáos[7]. Estes aforamentos eram vitalicios e concedidos como remuneração de serviços a fidalgos pobres, porque, dizia o vice-rei, não dispunha d'outra moeda. Fallecido D. João de Castro, os governadores subsequentes Garcia de Sá e Jorge Cabral, insinuados por D. João III, que já vivia do expediente de emprestimos, annullaram as concessões do vice-rei como nocivas aos interesses da monarchia. A aldêa de Patarvaly foi reivindicada para a corôa, e a fortuna de Simão Vaz manifestou-se na pobreza da sua viuva e do seu filho unico.
Pedro de Mariz e a serie de biographos mais antigos testificam que Simão Vaz, tendo naufragado em terra firme de Gôa, a custo se salvára e morrera depois n'esta cidade. Ora, em 1552, a nau _Zambuco_ varou no rio de Seitapor, a trinta leguas de Gôa, salvando-se a tripolação. Seria essa a nau em que Simão Vaz de Camões ia novamente no engodo da fortuna esquiva? Se era, em março de 1553, quando Camões sahiu do carcere, a morte de seu pai não podia ainda saber-se em Lisboa. É certo que, nas LENDAS de Gaspar Corrêa e DECADAS de Couto, o nome de Simão Vaz é inteiramente desconhecido. Seja como fôr, é necessario expungir da biographia de Luiz de Camões um _Simão Vaz_, residente em Coimbra, primo do poeta, que o snr. visconde de Juromenha por desculpavel equivoco da homonymia reputou pai de Luiz, descurando as inducções da chronologia e todas as provas moraes que impugnam semelhante parentesco.
Das poesias de Camões nada se deprehende quanto aos seus progenitores. Em toda a obra poetica e variadissima do grande cantor não transluz frouxo sedimento filial,--nem um verso referente ao pai. Em todos os seus poemas escriptos na Africa e Asia, na juventude e na velhice, não ha uma nota maviosa de saudade da mãi. Os poetas da renascença tinham esse aleijão como preceito de escóla. Desnaturalisavam-se da familia, da trivialidade caseira para se inaltecerem ás cousas olympicas. Gastavam-se na sentimentalidade das epopêas e das eclogas. O amor da familia, se alguma hora reluz, não é o da sua--é o das familias heroicas. Apaixonavam-se pelo mytho, e timbravam em nos commoverem com as desgraças de Agamemnon ou Nióbe. Isto não desdoura a sensibilidade do cantor de Ignez e de Leonor de Sá; mas vem de molde para notar que do poeta para com seus paes não se encontra um hendecasyllabo que lhe abone a ternura. O mesmo desamor se verifica em todos os poetas coevos, quer epicos, quer lyricos. Só uma vez em Diogo Bernardes se entrevê tal qual affecto de familia a um irmão que professa na Arrabida, e em Sá de Miranda a um filho e á esposa mortos: mas de amor filial é escusado inquirir-lhes o coração nas rimas. Parece que o haverem sido um producto physiologico do preceito da propagação os isentava de grandes affectos e respeitos a quem os gerou. Não os escandecia em raptos poeticos essa vulgar e material alliança de filhos a paes.
IV
Luiz de Camões achou-se bem, confortavelmente em Gôa. As suas cartas conhecidas não inculcam nostalgia, nem a estranheza dolorosa do insulamento em região desconhecida. Rescendem o motejo, o sarcasmo e a vaidade das valentias. Não se demora a bosquejar sequer, com séria indignação, o estrago, a gangrena que lavrava no decadente imperio índico pelos termos graves de Simão Botelho, de Gaspar Corrêa, Antonio Tenreiro, Diogo do Couto e dos theologos. Narra de relance e com phrases jocosas as façanhas d'esses ignorados acutiladiços, as basofias de Toscano, a moderada furia de Calisto, e as proezas do duellista Manuel Serrão. Era este Serrão um ricaço de Baçaim, senhor de quatro aldêas, que fizera desdizer um bravo da alta milicia. Comprazia-se Camões n'estas historias façanhosas, chasqueando os pimpões de lá e os de cá, uns que nunca lhe viram as solas dos pés por onde unicamente podiam vulneral-o como ao heroe grego. Acha-se tranquillo como em cella de frade prégador, e acatado na sua força como os touros da Merceana. Preoccupava-o fortemente a bravura. Como a metropole da India portugueza, não havia terra mais de feição para chibantes. Escrevia Francisco Rodrigues da Silveira: «Dentro em Gôa se cortam braços e pernas e se lançam narizes e queixadas em baixo cada dia e cada hora, e não ha justiça que sobre o caso faça alguma diligencia: dando por razão que o não permitte a India, porque cada qual pretende satisfazer-se por suas mãos de quem o tem aggravado[8]».
Depois, as mulheres. As portuguezas cahem de maduras, ou porque a lascivia as sorvou antes de sazonadas, ou porque vem ao chão de velhas:--é opiniativa a intelligencia do conceito picaresco. As indigenas são pardas como pão de rala, tem uns palavriados que travam a hervilhaca, e gelam os mais escandecidos desejos. São carne de salé onde amor não acha em que pegue. Lembra-se das lisboetas que chiam como pucarinho novo com agua, e manda-lhes dizer que, se lá quizerem ir, receberão das mãos das velhotas as chaves da cidade. De envolta com estas prosas facetas, envia um soneto e uma ecloga funebres á morte d'um amigo.
Esta carta encerra a nota melancolica d'uma phrase de Scipião: _Patria ingrata, não terás meus ossos._ Mas a comparação, para não ser um dislate d'orgulho, era de certo um gracejo de Luiz de Camões. Que lhe devia a patria em 1553? Elle tinha 30 annos; escrevera poemas lyricos excellentes, apenas louvados na roda dos palacianos e dos menos cultos. Ferreira e Sá de Miranda parece que não o conheciam. O bravo que sahira do carcere com perdão de Gonçalo Borges a quem golpeára o cachaço, ou o toutiço, como disseram os physicos do exame, em verdade, confrontando-se com Scipião Africano, ao desterrar-se, não primava em pontos de modestia. O seu avantajado e indiscutivel direito á gratidão da patria era um poema começado apenas, ou talvez ainda não tracejado. Camões tem ante si dezeseis annos para pleitear com Vasco da Gama a imperecedoura glorificação que lhe prepara. A patria desconhecia ainda o seu grande acrédor que se estava germinando no cerebro potentissimo d'aquelle seu filho--unico filho que todas as nações cultas conhecem, e o maximo na immortalidade que tem de sobreviver á terra que cantou.
Os feitos valorosos de Luiz de Camões na Asia não tiveram a notabilidade que os chronistas do Oriente e de D. João III deram a lances insignificantes de homens obscuros. O diffuso author das DECADAS, Couto, apenas o nomeia n'uma crise de pobreza convisinha da mendiguez. Os antigos biographos e commentaristas não o condecoram como quinhoeiro nos fastos das carnificinas memorandas. Seria grande elogio á primorosa probidade de Camões o excluil-o d'esses canibalismos, d'essa
...... _bruta crueza e feridade_,