# Luiz de Camões marinheiro

## Part 3

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Os _Lusiadas_ são por si só um completo tratado da sciencia da terra. Não ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta não falle, assignando a cada um a sua feição geographica caracteristica, a sua especialidade ethnographica. Mas as suas descripções tem ainda a particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao marinheiro o que mais importa saber, depois da posição dos logares, é a fórma com que elles se apresentam vistos do mar, fórma que o marinheiro precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes, cabos, praias ou enseadas aliás muito similhantes. Para isto serve-se muitas vezes o navegador da comparação com objectos conhecidos, e foi de certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete de S. Fillippe, Bonet de Jockey, Nariz de Nelson, e tantos outros, para designar e reter na memoria a fórma de certas saliencias da superficie da terra banhadas pelo mar. Ora, nas descripções geographicas de Camões, nota-se que elle procura muitas vezes dar o relevo da costa, e que quasi sempre refere a ella a descripção dos outros logares notaveis do interior, por modo que as suas descripções são preciosissimas para um roteiro e ensinam muitas _conhecenças_ do _debuxo da costa_ (Lus. X, 120), conhecimento altamente necessario ao navegador. Não se esquece tambem o Poeta de notar qualquer circumstancia, cujo conhecimento seja util ao navegante, como os productos da terra, a maior ou menor facilidade de se acharem mantimentos, a qualidade dos portos, etc.

Não sendo possivel transcrever todos os logares dos _Lusiadas_ que tratam de geographia, porque seria preciso copiar dezenas e dezenas de estancias, citaremos apenas alguns poucos exemplos, e seja o primeiro a descripção da Europa:

Entre a zona que o Cancro senhorea, Meta septentrional do Sol luzente, E aquella que por fria se arrecea Tanto, como a do meio por ardente, Jaz a soberba Europa, a quem rodea, Pela parte do Arcturo e do Occidente, Com suas salsas ondas o Oceano, E pela Austral o mar Mediterrano. Da parte donde o dia vem nascendo Com Azia se avisinha; mas o rio, Que dos montes Rhipheios vae correndo Na alagoa Meotis, curvo e frio, As divide, e o mar, que fero e horrendo Viu dos Gregos o irado senhorio, Onde agora de Troia triumphante Não vê mais que a memoria o navegante. Lá onde mais debaixo está do polo, Os montes Hyperboreos apparecem, E aquelles onde sempre sopra Eolo, E co'o nome dos ventos se enobrecem; Aqui tão pouca força tem de Apollo Os raios, que no mundo resplandecem, Que a neve está continuo pelos montes, Gelado o mar, geladas sempre as fontes. (Lus. III, 6, 7 e 8.)

A esta descripção geral da Europa segue-se a especial dos seus paizes. Como não as podemos descrever todas, lembraremos a da Italia:

Da terra um braço vem ao mar, que cheio De esforço, nações varias sujeitou, Braço forte de gente sublimada Não menos nos engenhos que na espada; (Lus. III, 14.)

a de Hespanha:

Eis aqui a nobre Hespanha, Como cabeça da Europa toda; Com Tingintina entesta, e ali parece Que quer fechar o mar Mediterrano, Onde o sabido Estreito se enobrece Co'o extremo trabalho do Thebano; Com nações differentes se engrandece Cercadas com as ondas do Oceano; (Lus. III, 17, 18.)

e a de Portugal:

Eis aqui, quasi cume da cabeça Da Europa toda, o reino Lusitano, Onde a terra acaba e o mar começa E onde Phebo repousa no Oceano. (Lus. III, 20.)

Veja-se como em duas palavras se demonstra a importancia do porto de Moçambique:

Esta ilha pequena He em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quiloa, de Mombaça e de Sofala; E por ser necessaria procuramos, Como proprios da terra, de habital-a; (Lus. I, 54.)

e como com outras duas se descreve a ilha de Mombaça:

Estava a ilha á terra tão chegada Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade n'ella situada, Que na frente do mar apparecia, Como _por fora ao longe_ descobria, Regida por um Rei de antiga idade; Mombaça é o nome da ilha e da cidade. (Lus. I, 103.)

A grande peninsula indostanica, esse theatro de tantas glorias nossas, é pintada assim:

Alem do Indo jaz, e aquem do Gange, Um terreno mui grande e assaz famoso, Que pela parte austral o mar abrange E para o Norte o Emodio cavernoso; Jugo de Reis diversos o constrange A varias leis; alguns o vicioso Mafoma, alguns os idolos adoram, Alguns os animaes, que entre elles moram. Lá bem no grande monte, que, cortando Tão longa terra, toda Azia discorre, Que nomes tão diversos vae tomando, Segundo as regiões por onde corre, As fontes sahem, donde vem manando Os rios, cuja grão corrente morre No mar Indico, e cercam todo o peso Do terreno, fazendo-o Chersoneso. Entre um e outro rio, em grande espaço, Sae da larga terra uma longa ponta, Quasi pyramidal, que no regaço Do mar com Ceilão insula defronta. (Lus. VII, 17, 18 e 19.)

Nomea depois o Poeta as principaes nações indianas, e não lhe escapa lembrar a serra dos Gates, que é uma boa _marca_ por ser visivel de muitas leguas ao mar:

Aqui se enxerga, _lá do mar undoso_, Um monte alto, que corre longamente, Servindo ao Malabar de forte muro Com que do Canará vive seguro; Da terrra os naturaes lhe chamam Gate. (Lus. VII, 21, 22.)

E ao passar pelos seus portos não se esquece de notar o phenomeno a que os modernos geographos francezes dão o nome de _raz-de-marée_, que em alguns d'elles se observa, principalmente em Madrasta:

Do mar a enchente _subita grandissima_, E a vasante que foge _apressurada_. (Lus. X, 106.)

Fallando de Aden, lembra o Poeta a circumstancia bem conhecida de nunca lá chover:

a secca Adem, pedra viva, Onde chuva dos céus se não deriva. (Lus. X, 99.)

E estas duas palavras--_pedra viva_--são por si só uma completa descripção d'aquelle arido rochedo, onde já correu muito sangue portuguez.

A Ieddah attribue Camões toda a importancia que esse porto tem por ser a unica communicação para os peregrinos que, por mar, vão a Mecca:

Lá no seio Erythreo Não longe o porto jaz da nomeada Cidade Meca; Gidá se chama o porto aonde o trato De todo o Roxo mar mais florecia. (Lus. IX, 2, 3.)

Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que abrange todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e America. Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no canto V contem a _derrota_ de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde, são um compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India; parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores, ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro LUIZ DE CAMÕES!

VII

No mais, musa, no mais, que a lyra tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. (Lus. X, 145.)

Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas, na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos da natureza taes como elles se manifestam.

E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do melhoramento do actual gosto litterario?

Nada.

Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades. Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia, suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.

E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as pennas que escreveram os _Lusiadas_ e as _Decadas_? E, deixando esses monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage, de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza o periodo da ultima decadencia.

FIM

