Part 2
Mas, se é inconveniente a gritaria dos marinheiros, bem pelo contrario é necessario que o official que commanda a manobra tenha voz sonora e vibrante, que domine o ruido do temporal e incuta coragem nos subordinados. Por isso nos Lusiadas, quando ruge a tempestade e é preciso que _não falte accordo_, o mestre dá as vozes do commando _rijamente_ e _a grandes brados_ (Lus. VI, 71, 72.)
Quando o seu navio fundeou no porto, começam para o homem do mar dias mais alegres e socegados que os passados na viagem. É então que elle se esquece da vida que levou durante tanto tempo e vae a terra,
Que não ha nenhum d'elles que não sáia, (Lus. IX, 66.)
como gente que é
De ver cousas estranhas desejosa Da terra. (Lus. V, 26.)
Ahi encontra sempre divertimentos, e quando os não encontra, improvisa-os. Outras vezes recebe elle a bordo as pessoas de terra, e faz-lhes as honras da sua morada com a satisfação e liberalidade que o caracterisa.
As festas de bordo fazem-se sempre _com a prata da casa_, e comtudo é por extremo agradavel a vista que offerece um navio preparado para celebrar qualquer data memoravel, ou para festejar a visita de um personagem. Galhardetes e bandeiras com as côres symetricamente dispostas adornam os mastros; outros forram os toldos e formam sanefas pelas amuradas; lustres e troféus feitos com armas e instrumentos nauticos transformam a tolda do navio em salão de baile elegantemente adornado; os proprios pandeiros de cabos colhidos com arte desenham no nitido convez florões e iniciaes, ou servem de divans aos convidados. Os altos personagens são recebidos com marchas tocadas pelas cornetas e tambores, com musicas executadas pelas charangas, com revista da guarnição a postos de combate, com salvas de artilheria. De noite illumina-se o mar com foguetes e tigellinhas. De tudo isto fallou Camões.
Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou Por receber com festas e alegria; (Lus. I, 39.)
Sonorosas trombetas incitavam Os animos alegres, resoando; (Lus. II, 100.)
Outros Instrumentos altinosos tangiam. (Lus. II, 90.)
Vem arnezes, e peitos reluzentes, Malhas finas e laminas seguras, Escudos de pinturas differentes, Pelouros e espingardas de aço puras, Arcos e sagittiferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas; As bombas vem de fogo e juntamente As panellas sulphuras tão damnosas. (Lus. I, 67, 68.)
Não faltam ali os raios de artificio Os tremulos cometas imitando; Fazem os bombardeiros seu officio, O céu, a terra, e as ondas atroando (Lus. XI, 90.)
Ás salvas de bordo _agradecem_ as fortalezas de terra, salvando tambem:
Respondem-lhe de terra juntamente Co'o raio volteando com zonido; (Lus. II, 91.)
e o canhão faz ouvir tanto e tão repetidas vezes a sua voz atroadora que as festas e cumprimentos entre gente maritima são sempre
Á maneira de peleja. (Lus., ibidem.)
Veja-se agora se n'este assumpto, aliás secundario, esqueceu ao Poeta alguma circumstancia notavel!
IV
Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama _navio_.
É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da maneira seguinte:
Já nas naus os bons trabalhadores Volvem o cabrestante, e repartidos Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, Outros quebram co'o peito a dura barra, Outros pendem da verga e já desatam A véla. (Lus. IX, 10, 11.)
Está o ferro a _pique_, redobram os esforços dos marinheiros para o suspender;
As ancoras tenaces vão levando, (Lus. II, 18.)
e ao mesmo tempo
Da proa as vélas _sós_ ao vento dado, (Lus., ibidem.)
obrigam o navio a _fazer cabeça_, e eil-o que vae em demanda da barra.
Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux ou o Bréart!
Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento, _apita á gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_,
Os traquetes das gaveas tomar manda, (Lus. VI, 70)
Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio. _Carrega a véla grande!_
«Amaina a grande véla!» (Lus. VI, 71.)
Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_;
No romper da véla a nau pendente Toma grão somma d'agua pelo bordo. (Lus. VI, 72.)
É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua. Por isso o mestre ordena:
«Alija tudo ao mar, Vão outros dar á bomba, não cessando!» (Lus., ibidem.)
e não se esquece de reforçar a _gente do governo_, pondo ao leme
Tres marinheiros duros e forçosos, (Lus. VI, 73.)
passando-lhe ainda para mais segurança
Talhas d'uma e d'outra parte. (Lus., ibidem.)
Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se com uma pedra á flor d'agua. É necessario _safar_ d'ella e quanto antes. Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor _guinar_, e por isso os marinheiros
Maream vélas, ferve a gente irada O leme a um bordo e a outro atravessando; O mestre da poppa brada. (Lus. II, 24.)
Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e _fundear em franquia_; por isso o commandante
Não entra pela barra, e surge fóra. (Lus. I, 102.)
Mas depois de reconhecida a barra já se póde tentar a entrada; então
já as proas se inclinavam Para que amainassem; A gente e marinheiros Tomam vélas; amaina-se a verga alta; Da ancora o mar ferido em cima salta; (Lus. I, 48.)
e por fim
Pega no fundo a ancora pesada; (Lus. II, 74.)
e aqui temos nós uma descripção completa da faina de fundear.
Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas. Uma das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que depois de uma viagem prolongada se acha coberto de incrustações, molluscos e algas marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios não eram forrados de cobre, como hoje são, esta operação era indispensavel, posto que difficultosa, sendo muitas vezes necessario _espalmal-os_, isto é, varal-os na praia, e até _viral-os de querena_. Não se esqueceu o Poeta d'este serviço maritimo, descrevendo-o assim:
Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos, Nojosa criação das aguas fundas, Alimpamos as naus, que dos caminhos Longos do mar vem sordidas e immundas. (Lus. V, 79.)
É tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por isso o commandante, logo que póde, determina
De vir por agua a terra; (Lus. I, 84.)
E vão a seu prazer fazer aguada. (Lus. I, 93.)
Para este serviço, bem como para todas as communicações com a terra dentro dos portos, serve-se a gente do mar dos _bateis_ ou embarcações miudas. Estas embarcações são quasi sempre movidas por meio de remos, cuja manobra é diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita official, a embarcação que o transporta vae de _voga larga e descançada_, e
O remo _compassado_ fere frio Agora o mar, depois o fresco rio, (Lus. VII, 43.)
mas quando, por qualquer motivo, é preciso chegar rapidamente, não se póde perder tempo com essas elegancias de manobra; _pica-se a voga_ e _aperta-se o remo_ (Lus. V, 32), duplicando a força de impulso e fazendo saltar o escaler por cima das ondas.
Não esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os tormentos e o inimigo. Ora é um desembarque:
Apercebido vae Em tres bateis. (Lus. I, 85.)
Eis nos bateis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia; A gente A povoação Esbombardea, accende e desbarata. (Lus. I, 89, 90.)
Ora é um combate entre as embarcações miudas dos dois contendores:
Huns vão nas almadias carregadas; Hum corta o mar a nado diligente; Quem se afoga nas ondas encurvadas; Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miudas bombardadas Os pangaios subtís. (Lus. I, 91)
Ora é finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas, quando
em sangue e resistencia O mar todo com fogo e ferro ferve. (Lus. X, 29.)
Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o vencedor
Das grandes naus, co'a ferrea pella Que sahe com trovão do cobre ardente, Fará pedaços leme, mastro, vela; Depois, lançando arpéos ousadamente Na capitaina inimiga, dentro nella Saltando, a fará só com lança e espada De quatro centos despejada. (Lus. X, 28.)
V
Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar, não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do homem do mar.
O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é possivel, os horrores que inspiram.
E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas circumstancias especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades maritimas que elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal no Cabo da Boa Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não transcreveremos por o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por uma nuvem _temerosa e carregada_
que os ares escurece; (Lus. V, 37.)
e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III, onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
chegando ao Cabo da Esperança Eis a noute com nuvens se escurece, Do ar _subitamente_ foge o dia E todo o largo Oceano se embravece; Em _serras_ todo o mar se convertia.
Voltando aos _Lusiadas_ observaremos que todo o horror do Cabo da Boa Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:
Quantas naus esta viagem Fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas desmedidas. (Lus. V, 43.)
E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo excepção a bonança. A tempestade
c'um medonho choro Subito d'ante os olhos se apartou, Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro Bramido muito longe o mar soou. (Lus. V, 60.)
Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas, ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa a navegação. E, pois, ahi
Já nos mares da India, (Lus. VI, 6.)
que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes é necessario _picar os mastros_, se o cyclone se não encarrega d'isso. O mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel tragedia pintadas pelo mestre:
O vento cresce D'aquella nuvem negra que apparece. Dá a grande e subita procella. Não esperam os ventos indignados Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella, Em pedaços a fazem. No romper da véla a nau pendente Toma grão somma d'agua pelo bordo. Os balanços, que os mares temerosos Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.) Nos altissimos mares, que cresceram, A pequena grandura d'um batel Mostra a possante nau. A nau grande Quebrado leva o mastro pelo meio, Quasi toda alagada. Agora sobre as nuvens os subiam As ondas, Agora a ver parece que desciam As intimas entranhas do profundo. (Lus. VI, 70 a 76.)
Os ventos que lutavam, Como touros indomitos bramando; Mais e mais a tormenta accrescentavam, Pela miuda enxarcia assoviando; Relampagos medonhos não cessavam, Feros trovões. (Lus. VI, 84.)
Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a exacta verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactidão. Os ventos são
Noto, Austro, Boreas, Aquilo, (Lus. VI, 76.)
recordando assim a direcção successivamente differente do vento, percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação. Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são substituidos pelos maçaricos, as _almas do mestre_, como lhes chama a poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios lamentosos a tristeza do espectaculo:
As Halcyoneas aves o triste canto levantaram, Os delfins namorados entretanto Lá nas covas maritimas entraram, Fugindo á tempestade e ventos duros, Que nem no fundo os deixa estar seguros. (Lus. VI, 77.)
Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas. N'este phenomeno em que _as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano_, começa a levantar-se
No ar um vaporsinho e subtil fumo, E do vento trazido, rodear-se; D'aqui levado um cano ao polo summo Se via, tão delgado que enxergar-se Dos olhos facilmente não podia; Da materia das nuvens parecia. Hia-se pouco a pouco accrescentando E mais que um largo mastro se engrossava; Aqui se estreita, aqui se alarga, quando Os golpes grandes de agua em si chupava; Estava-se co'as ondas ondeando; Em cima d'elle uma nuvem se espessava, Fazendo-se maior, mais carregada, Co'o cargo grande d'agua em si tomada, Qual roxa sanguesuga se enche e a alarga grandemente, Tal a grande columna, enchendo, augmenta, A si e a nuvem negra que sustenta. Mas, depois que de todo se fartou, O pé que tem no mar a si recolhe, E pelo céu chovendo em fim vôou; Ás ondas torna as ondas que tomou, Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe. (Lus. V, 19 a 22.)
Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões.
Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama
lume vivo, Que a maritima gente tem por santa, Em tempo de tormenta e vento esquivo, De tempestade escura, (Lus. V, 18.)
Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no canal de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se esperar que ella seja sempre contraria, porque, _como no mar tudo são mudanças_, tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do vento regular. É, pois, a corrente, como descreve o Poeta
tão possante Que passar não deixava por diante; Era maior a força em demasia, Segundo para traz nos obrigava, Do mar, que contra nós ali corria, Que por nós a do vento que assoprava. (Lus. V, 66, 67.)
Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente, que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões. Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos, giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois
Quem cerca em derredor este rotundo Globo e sua superficie tão limada, He Deus. (Lus. X, 80.)
Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto fórma o systema, diz Camões:
Este orbe, que primeiro vae cercando Os outros mais pequenos, que em si tem, Que está com luz tão clara radiando, Que a vista cega e a mente vil tambem, Empyreo se nomea. (Lus. X, 81.)
Segue-se o primeiro mobil:
Debaixo d'este circulo, que não anda, Outro corre tão leve e tão ligeiro Que não se enxerga: he o mobile primeiro. (Lus. X, 85.)
Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as outras mais notaveis do firmamento:
Est'outro debaixo esmaltado De corpos lisos anda e radiantes, Que tambem n'elle tem curso ordenado E nos seus axes correm scintillantes; se veste e faz ornado Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes Animaes doze traz affigurados, Aposentos de Phebo limitados. Por outras partes a pintura as estrellas fulgentes vão fazendo: A Carreta, a Cynosura, Andromeda e seu pae, e o Drago, Cassiopea, Orionte, o Cysne, A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra. (Lus. X, 87, 88.)
Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos, contando n'esse numero o Sol:
Debaixo d'este grande firmamento o céo de Saturno; Jupiter faz logo o movimento, E Marte abaixo; O claro olho do céo no quarto assento; E Venus; Mercurio; Com tres rostos debaixo vae Diana. (Lus. X, 89.)
Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos:
o _fogo_ e o _ar_, o vento e a neve Os quaes jazem mais a dentro, E tem co'o _mar_ a _terra_ por assento. (Lus. X, 90.)
Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite. Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul:
Lá no novo hemispherio nova estrella, Não vista de outra gente, que ignorante Alguns tempos esteve incerta d'ella; (Lus. V, 14.)
á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam o _Sacco de carvão_:
a parte menos rutilante, E por falta d'estrellas menos bella, Do polo fixo. (Lus., ibidem.)
Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer se esqueceu elle de fallar da _nautica_, parte pratica ou applicação d'aquella sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o marinheiro a _ver em que parte está_ (Lus. V, 26), isto é, a _pôr o ponto na carta_, pois que nos falla do
novo instrumento do Astrolabio Invenção de subtil juizo e sabio; (Lus. V, 25.)
que servia, como hoje o sextante, para
tomar do Sol a altura. (Lus. V, 26.)
VI
Está já cançada a penna de fazer transcripções, é tempo de pôr termo a este trabalho, e ainda não temos percorrido toda a escala de variadissimos tons com que Luiz de Camões teceu a sua harmoniosissima composição sobre as cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a meteorologia, é tambem essencialmente necessaria ao marinheiro.