# Luar de Janeiro

## Part 2

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Do episodio que acabo de contar-te Tão simples, tão banal, que dá vontade, Para lhe pôr um boccadinho d'arte, De lhe roubar um pouco de verdade,

Foi que este amor espiritual nasceu, Nasceu, cresceu e se tornou eterno... Repara, amigo, como olhando o céu A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

Mas quem podia então adivinhal-o? O olhar dessa mulher era tão lindo Que deslumbrado me fiquei a olhal-o. Descera a noite. A lua ia subindo...

Era lua cheia e, para mais, d'agosto; Dava em toda a varanda. Assim, eu via As fórmas portuguêsas do seu rosto Nitidamente, como á luz do dia.

E cá dentro de mim senti nascer A dúvida, a incerteza, a hesitação Sobre o que mais desejaria ser: Se o noivo della, se o primeiro irmão...

Uma estrella cadente reluziu Por sobre as torres da vizinha egreja, Pensei commigo: Deus o decidiu: É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça, A claridade do signal aereo. (Na mesma direcção da egreja, passa A rua que vae dar ao cemiterio...)

Porém, como querendo agradecer-me A decisão que attribuira a Deus, Inclinou-se de leve para ver-me E os doces olhos demorou nos meus.

Sob a caricia desse olhar cinzento, Que ao abaixar-se parecia negro, O coração que me batia lento, Mudou o andamento para alegro.

Uma hora decorreu. Outras passaram. Passaram, foram-se; e naquelle enleio Que tempo os nossos olhos conversaram!... Estava a noite já em mais de meio.

Vinha dos montes uma brisa ardente. O céu ganhára tons d'azul cobalto. O luar cahia silenciosamente. Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

Arrependidos, ou então, cançados De se fitarem com demora em mim, Os seus olhos piedosos e sagrados Ao dialogo d'amor puzeram fim.

Desviára-os; e entre as palpebras discretas, Poisára-os nas mãos claras e pequenas, Como se foram duas borboletas Voando para duas assucenas.

Ergueu-se. O busto delicado e fino Tinha os suaves, religiosos traços Da Virgem num altar. Só o Menino Faltava na doçura dos seus braços...

Num olhar impregnado de candura, Disse-me adeus e recolheu. Depois... A luminosa noite fez-se escura. Calaram-se na sombra os rouxinoes.

Entrei em casa e quiz dormir. Raiára A madrugada sem que o conseguisse. Quem um sonho tão limpido sonhára, Inutil se tornava que dormisse...

Annos felizes neste amor gastei. Vieram em seguida as horas más. O que nellas soffri, o que passei, Um dia, noutra carta, o saberás.

MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

Dez da manhã. Vento da serra. Tres graus negativos

_Mãos frias, coração quente_! Quanta vez isto dizias Com o teu ar sorridente, Apertando-me as mãos frias...

Agora decerto o tenho Num brazeiro, num vulcão. O frio é tanto, é tamanho Que a penna cae-me da mão...

Q'ria dizer-te o que penso E o que faço e premedito, Mas posso lá ser extenso Com este frio maldito!

Tu perdoas certamente, Tu não te zangas, pois não? _Mãos frias, coração quente_ --Lá diz o velho rifão...

NOIVA

_A João da Silva_

«Anda a dôr dissimulada Mas ella dará seu fruito.»

Crisfal

«_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

(_Trecho duma carta_)

Tive noticias hoje a teu respeito: «Vae ser pedida. Casa qualquer dia». E o coração tranquillo no meu peito --Continuou a bater como batia...

Surpreso duma tal serenidade, Todo eu, intimamente, me sondava: Pois nem ciume? Nem sequer saudade?! --E nem ciumes, nem saudade achava...

Saudades, não; que o teu amor antigo Guardam-no as cinzas (neste coração) Como em Pompeia aquelles grãos de trigo Que após centenas d'annos deram pão...

Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu A lei antiga como o proprio mundo De que o prazer mal chega, já morreu, E só a dôr nas almas cava fundo?

Causei-te longas horas d'amargura, Não consegues voltar a ser feliz; A chaga que te abri não terá cura, E se curar--lá fica a cicatriz.

Á luz dum juramento que trahiste Tu has de vêr-me toda a vida pois. Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste E Deus casou-nos esse dia, aos dois...

Ciumes tambem não, por te venderes. Desgraçadinha! Antes te houvesses dado; Não descerias tanto entre as mulheres, Seria mais humano o teu peccado.

Porém, embora a tua falta aponte, P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz); O sol desapparece no horisonte --E a gente vê-o ainda a dar-nos luz...

Póde a desgraça erguer em frente a mim Altas montanhas d'elevados cumes. O sol do amôr doiral-as-ha, e assim, Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando, Em claras noites de luar silente, Ouvir vibrar alguma voz, cantando Os versos que te fiz devotamente.

Versos para te ungirem os ouvidos E os labios d'anemica e de santa, Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos, Que o povo humilde os acolheu e os canta.

Então, se te olhar bem, logo adivinha... Logo sombriamente se convence De que a tua alma se fundiu na minha --E apenas o teu corpo lhe pertence.

DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

_Á Leo_

Ao charco mais escuso e mais immundo Chega uma hora no correr do dia Em que um raio de sol, claro e jocundo, O visita, o alegra, o alumía;

Pois eu, nesta desgraça em que me afundo, Nesta contínua e intérmina agonia, Nem tenho uma hora só dessa alegria Que chega ás coisas infimas do mundo!...

Deus meu, acaso a roda do destino A movimentam vossas mãos leaes Num aceno impulsivo e repentino,

Sem que na cega turbulencia a domem?! Senhor! Não é um seixo o que esmagaes; Olhae que é--_o coração dum homem_!...

JOANNINHA

_A Mayer Garção_

Descance de quando em quando... Passar assim toda a tarde Sempre bordando, bordando, Sem que um momento desista, Até faz pena! Não lhe arde Nem se lhe perturba a vista?...

Descance de quando em quando... Erga os olhos do bordado E veja quem vae passando. O trabalho alegra a gente, Mas assim, tão aturado, --Não lhe faz bem certamente.

Erga a carinha tranquilla, Erga esse rosto tão lindo E veja os moços da villa A passarem por aqui, Uns descendo, outros subindo, --E todos d'olhos em si...

Descance de quando em quando E veja se escolhe algum; Já é tempo d'ir pensando Em casar. Não é assim?... Se não lhe agrada nenhum, --Diga se gosta de mim.

Desde os começos do outono Que eu a trago no sentido, Não como, não tenho sono, Tudo me dá ralação? Quer-me para seu marido? --Diga que sim ou que não...

QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM...

_A Cassianno Neves_

Bocca talhada em milagrosas linhas, A luz augmenta com o seu falar.

Esta manhã um bando de andorinhas Ia-se embora, atravessava o mar.

Chegou-lhes ás alturas, pela aragem, Um adeus suave que ella lhes dissera,

--E suspenderam todas a viagem, Julgando que voltára a primavera...

A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas realidades da vida, teriam observado que... o viver do povo encerra em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos theatraes.

... O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do lar, nestas sombras de Rembrandt.

_MICHELET_. _O Povo_

_A Manuel Penteado_

Buscava em algum assunto adrede A versos que inculcassem novidade, Quando uma intensa e irreprimivel sêde Me fez voltar do sonho á realidade.

E pedi agua (já se vê) que veio Consoante é d'uzo cá por entre o povo Num pucaro de barro ingenuo e feio, Servindo-lhe de salva um prato côvo.

Bebi o liquido dum trago só; E dito o «Deus te pague» habitual, Subi de novo a escada de Jacob No heroico intuito de escalar o ideal...

Mas o idealismo é como a nevoa ondeante Que os rios erguem pela madrugada; O olhar destingue-a, quando está distante, E da que nos rodeia--não vê nada...

De que serve afinal tentar a gente Reter, dentro das mãos, fumo de palha, Se aqui, aos nossos olhos, no existente, Ha tanta coisa que os attráia e valha?...

A agua vinda neste vaso fragil Que um ignorado artista modelou Num gesto--já mechanisado e agil-- Á força d'imitar o que encontrou,

É um assunto cheio de belleza, Cheio de claro e alto ensinamento. Assim na branda fala portuguêsa O désse eu, como o tenho em pensamento!...

A agua é como a esp'rança Que a tudo se sujeita... Onde quer que se deita Lá fica humildemente acommodada, Seja a concha da mão duma creança, Ou a taça lendaria da ballada...

Tanto sacia Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma (Que um só valia O rútilo oiro d'avaro banqueiro) Como a que se toma Na argilla porosa, Alegre trabalho dum simples oleiro...

E é Até Bem mais saborosa No barro suarento Deixado á janella, Que num opulento Copo lavrado Que seja pertença de rica baixella E sonho gentil, cinzel phantasista Dalgum grande artista Dos raros d'agora, ou do tempo afastado...

Bichos humanos, féras em pé, Sêde bondosos como a agua o é...

No luzente alcantil da magnitude, Ou no áspero declive da pobreza, Nunca cerreis o espirito á virtude, Nunca fecheis os olhos á belleza. Que todo o coração, Desde o sabio de genio ao cavador, Seja o Calix de paz e de perdão Contendo a agua limpida e lustral Dum irmanado e perpetuo amôr...

Agua que limpe a mácula do mal E mitigue a miseria, a ancia, a magua Desta cruenta e impiedosa guerra Em que tantas creaturas se consomem.

Nem só da agua Que vem da terra Tem sêde o homem...

Nasce uma fonte Rumurejante Na encosta dum monte;

E mal que do seio Da terra brotou, Logo o seu veio Transparente E diligente Buscou e achou Mais baixo logar...

E sempre descendo, E sempre a cantar, Vae andando, Galgando, Vencendo, (Ou tenta vencer...) Folha, raíz, areia, o que tolher A sua descida...

Ao brotar da dura frágoa --É uma lagrima d'agua...

Mas esse humilde fiozinho, Que um destino bom impelle, Encontra pelo caminho Um outro que é como elle...

Reunem-se, fundem-se os dois, Proseguem de companhia, E fica dupla depois A força que os leva e guia...

Junta-se aos dois um terceiro, Outros confluindo vão, E o regato é já ribeiro E o ribeiro é rio então...

E nada agora o domina Ao fiozinho da fonte. Entre collina e collina, Ou entre um monte e outro monte,

Caminha sem descançar, Circula atravez do mundo --Até á beira do mar Omnipotente e profundo...

Da altura em que estejaes (ou vos pareça; A vaidade é uma amante enganadora) Que o mais alto de vós se humilhe e desça Como se humilde e pobre sempre fôra...

E que os demais desçam tambem de todo O orgulho e mando sobre escravas gentes Até ao valle, de lagrimas e lôdo Onde a miseria brada e range os dentes.

E como as aguas que se vão juntando E juntas, e cantando, vão descendo, Reuni o choro derramado, quando Atravessardes esse valle horrendo.

E o atoleiro que se havia feito No val, dantesco, pútrido, sombrio, Mudar-se-ha no irrigante leito Dum fertilisador e claro rio;

E o rio, andando, andando, hade alargar --Com biliões de lagrimas vertidas-- Num infinito e luminoso mar De novas e amplas e cantantes vidas!

Outubro de 1909.

INDICE

Prefacio Dedicatoria Luar de Janeiro Sextilhas a um menino Jesus d'Evora Ballada da Neve Toada para as mães acalentarem os filhos O nosso lar O que o fogo poupou dum poemeto queimado Melodia confidencial O passeio de Santo Antonio Um grão de incenso A máscara In promptum pastoral Meditações sobre themas do Ecclesiastes A canção das perdidas Carta a um rapaz sentimental Mãos frias coração quente Noiva De profundis clamavi ad te domine Joanninha Quando as andorinhas partiam A parábola do pucaro d'agua

Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

