Part 9
--Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. É bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes. Ora, como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e probidade do meu amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem esforço que o decreto seja lavrado.
--Nobilissima alma!--exclamou o commendador, abraçando-o.
D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance, disse alegremente o deputado:
--Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é sempre uma felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa mais duas horas de convivencia com seu marido.
--Mas tem percalços o officio...--disse D. Julia.
--Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?
--Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o socego de Eduardo.
--D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do homem que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.
--A mulher, primeiro--redarguiu a dama.
--A esposa primeiro nas prerogativas do coração--obviou Venceslau--mas nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos concidadãos, que constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos em que seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de envergonhar-se os que nasceram n'elle...
--Vês, Anna?--disse Julia intencionalmente á sua amiga.--Não é isto que eu te dizia ha pouco?
Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:
--Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V. Exas. ...
--Foi--tornou a fidalga das Amoreiras.--Dizia Anna Vaz que V. S.ª, se fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.
--V. Exas. ambas tinham razão. Se eu fosse casado, deixaria de jantar com minha mulher, quando as obrigações indeclinaveis de cidadão me não deixassem jantar n'outra parte. Se esse infortunio, porém, acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar alguns dias successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe restituissem o cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.
Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade despretenciosa; mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma indirecta censura ao genro, murmurou:
--Democrito dizia eternas verdades, rindo.
--Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo--volveu o deputado, atinando com o intuito do velho.--Verdade é que, se a philosophia é ou foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V. Exas.
--Se recebe as nossas ordens--disse D. Julia--ámanhã irá jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.
--Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...
--Mas se a patria o impedir?--tornou ella.
--É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.
XIV
Cuida que as namora todas.
SA DE MIRANDA.--_Egloga._
Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque vivia magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu pae, e até dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além das cerimoniosas. Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o restante d'ellas e o mais da noute eram de Anna Vaz e do commendador que ella considerava sua familia.
O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a casar-se, a fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as salas desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e crear os netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle desadorava por immensamente brutos. «Se esta casa--dizia quasi iracundo o padre Manoel Ferreira--resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no céo, embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das suas quimeras. Caze-se, minha senhora! caze-se!»
D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:
--Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?
--Poeta!--resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.--V. Ex.ª não sabe o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines, nem Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis na immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do Nicola do Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento Bocage, é o safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!... Poeta era o snr. desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco Manoel do Nascimento mandou lá do desterro odes puro horacianas em resposta d'outras; pois saiba, excma. snr.ª, que seu pae, sendo poeta que não invejava Garção, nunca admittiu ás suas salas esses poetastros, que por ahi ornejam a trocar sonetos magros pelas sopas gordas d'uns Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o Tolentino... aquelle pedintão...
--Está bom, padre Manoel!--suspendia D. Julia--não me leccione a historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes como Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.
O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já quando a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.
Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras quando viu sentados á mesa grande--que estivera devoluta no lapso de nove annos,--o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe dava prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava virtudes sem alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.
Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que reverberavam a baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças indiaticas, a opulencia dos Henriques de Miranda, herdadas d'um celebrado avô, ministro e valido, que tão funesta e deshonestamente privára com Affonso VI.
Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da sumptuosa dama.
Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a serodia soberba da stirpe,--o tronco secular corroido pela ignorancia, com alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol ardente dos novos tempos.
Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os prazeres da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam, dançavam ou zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via. Perguntava a Eduardo se o seu amigo lhe teria sido levado de casa pela mãe patria. Ia o marido de D. Anna em demanda do philosopho, e encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel Ferreira folheando um Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando estafermo embalado no berço da arte typographica.
Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um provinciano emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das espaduas brancas como as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes mais ridiculos que lascivos, da refinação assucarada dos colloquios, e do ar, nem sempre fragrante de todas aquellas vaporações de flores desbotadas e de epidermes escandecidas.
Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da fidalga o desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos satyrisavam os máos costumes da geração nova, não levando em conta que a geração arguida era a dos seus filhos, educados por elles. Venceslau tractava-os com veneração, cedia-lhes a vantagem nos debates politicos, e captivava d'esta arte a estima dos mais testudos absolutistas.
Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem o reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de vontade ou sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este affecto entranhado lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão inversa o inquietava. O capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto extremo que o malsinava de ignorante, de vaidoso da sua profissão de petimetre, de bonifrate sem proposito de marido, olhando para todas as damas com tregeitos e galanices de piza-verdes, cacarejando uns dizeres improprios de homem casado, e apenas perdoaveis aos que andam de amoríos com quantas levianas fazem barato das suas finezas. Esta censura não era elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe cahia a talho, desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que lh'as ouvia indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em louvor de Venceslau Taveira.
A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do commendador, se não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições quinhentistas, e antes se queria nas salas a extasiar-se na nitidez dos typos do seculo XIX--era iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo, fórma, geito dramatico, attitudes ao romantico, verbo e nervo como á moderna se diz, isso tinha elle, como raros do seu tempo. E a menos valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a sobrepujal-o ao seu amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as Dydimas de Lisboa era importuno decerto com as suas, ainda bem que silenciosas, austeridades de Timão atheniense. Que o chefe do commissariado andasse galanteando as damas dos bailes de D. Julia é menos verdadeiro. O capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. Se alguem podia queixar-se era ella.
Mas não se queixava.
O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão immoral as ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos dissabores que resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas d'um homem desvairado, mantêm-se honradamente affectando que o não percebem em publico, e defendendo-se em particular com o desprezo.
Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com Eduardo Pimenta.
Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido da formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas de um livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de lagrimas, as mais commoventes que podem sahir de peito ferido pelo primeiro amor!
O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o temerario galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o vacillação.
Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que Eduardo era certo em determinadas horas. Elle abriu, releu-a de espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso estranho que rezavam assim: _Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á minha amiga D. Anna Pimenta que m'a leia_.
Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre, contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances analogos, crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua consciencia, ha de faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na escada da virtude.
Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás caricias da esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos piedosos na filha assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu pezar, mais que nunca, n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração desacostumada.
A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as assembleias aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.
Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e obsequiosas lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na polidez estrangeira. Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos conscias da cortezia parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga n'isto de amar quem as amava, as restantes senhoras, se deram suspeitas a padre Manoel Ferreira, sahiram impollutas. D. Anna, porém, affligia-se secretamente dos modos cortezãos do marido, porque não via tão azougados os moços solteiros á volta das mulheres e reparava nos sorrisos que ellas entre si trocavam, ao passo que a olhavam de travez lastimando-a ou escarnecendo-a.
Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor despeitado. Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio, irrital-a, dar-lhe a certeza de que outras mulheres mais viçosas e não menos fidalgas o não desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito. Julia, por sua parte, dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil artificio em sua propria casa, e dizia muitas vezes á sua consciencia que todo o seu despeito era isso, e de modo nenhum o orgulho de ser comparada. Como quer que fosse, e por mais protestos que fizesse de si para comsigo, é certo que ella, relampagueando olhares severos a uma ou outra condessa, que reclinava a face languida ao hombro de Eduardo, segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a moralidade das suas parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia, affligia-se, desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos sustos proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.
Que desconchavadas incongruencias!
Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á semelhança d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a cegueira dos olhos. A medicina chama a estes prodromos da amorose «moscas»: a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma, em crise de cegar, são «peneiras».
D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua alma. Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da dignidade abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.
Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais sereno e estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o seu coração a peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão ignominiosa. Louvavel deliberação!
Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e, com instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava pela terceira vez:
--Se eu podesse amar um homem!
XV
Flor la vimos primero, hermosa y pura, Luego....
FRANCISCO DE RIOJA.--_Epist. moral._
--O homem que V. Ex.ª ha de amar--disse padre Manoel, inculcando-se inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas da prophecia--o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado: chama-se Venceslau Taveira.
Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma, quando os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada; outra, quando o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando chromaticamente a pitada, espiritava no cerebro a previdencia dos matrimonios acertados. E como a fidalga o escutasse silenciosa, sem levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava o cotovêllo, o capellão proseguiu:
--Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não encarregou...
--Que missão!?--perguntou ella, erguendo o rosto.
--Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes, frequentam esta casa--respondeu o padre compassando as vozes--e, procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr. desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas immortaes da virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o mais pobre que vem a esta casa.
--Bem...--atalhou D. Julia--; mas deixe-me interrompel-o com uma observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O snr. padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha casa; mas sim entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor. Venceslau Taveira é homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do que é costume dizer-se ás pessoas que se respeitam ou simplesmente se estimam. O snr. padre Manoel sabe que elle, n'esta casa, o que mais conhece é a livraria; e em quanto á volta de mim ou do meu patrimonio se dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores dos poetas latinos. Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou até em crêr que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades as que promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a sciencia e a virtude do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser amada. Quem lhe disse que Venceslau me ama? foi elle?
--Não, minha senhora.
--Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o obsequio de me conceder o seu amor?
--Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão--replicou o padre.--Se dá licença...
--Diga então.
--Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a respeito de V. Ex.ª
--O espirito ou o coração?
--Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.
--Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.
--Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este mundo, lhe entregára o retrato da sua adorada noiva, por ser elle--o confidente de tantas angustias e saudades--alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.
--Que disse elle?...--interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.
--Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.
--Isso é amor?
--Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe _ex-abrupto_: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr. Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as não gastou em desenganos.»--Que quer isso dizer?--voltei eu bastante esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta peregrinação até ao arco do altar.--«Quer dizer (respondeu o modestissimo moço) que a snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil cruzados; tem provavelmente adoradores que façam consistir toda a sua actividade em adoral-a; tem a alma preza á saudade de outra que alguma vez a visita e enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um homem pobre--continuou elle--circumscripto aos deveres que contrahiu com a patria, sujeito a perseguições d'odios politicos, ameaçado com o desterro, e até com a morte no campo da batalha ou no patibulo, tal homem seria o involuntario algoz da felicidade d'uma senhora que o acceitasse para os gosos da vida intima, cercada por tantos perigos.» Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª, que o mandava chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de Villa-Cova. Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu com interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para a sala dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação. Eis-aqui, excma. snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu tenho precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!
--Precisa--respondeu ella prompta e serenamente.
--Preciso? Perguntar-lh'o-hei.
--Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando a resposta, casavam.
--O povo de Deus era assim.
--Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...
--Não é de Deus?--atalhou o padre.
--Estou que é; mas Deus é que não manda o seu divino espirito presidir aos casamentos da freguezia dos Martyres ou de Santa Justa.
--Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!--exclamou sombriamente o padre.--Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de Rousseau... a Encyclopedia... _etc., etc!_... Olhe que Venceslau, posto que sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo XVIII escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e crê que a alma de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da vida!...
--E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre, padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam comparavel ao sol...--disse ella rindo com o consenso do clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.
E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.
--Que é, filha!!--exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.
--Manda embora o capellão--disse-lhe ella ao ouvido.
O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de D. Anna.
A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade, disse entre soluços:
--Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar... Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta d'ella...
D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto era má.
D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:
--Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as, e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da repartição.