Part 7
O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava muito afogueada, e ao mesmo tempo pedia á sua criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio. Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraças.
--Vá dizer á menina que eu quero vêl-a--mandou o commendador já attribulado.
Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora indulgencia, beijou-lhe a mão.
Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo que não, e accrescentou:
--Isto não é nada, papá.
Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer que fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre, o estomago, devia ser a primeira a medicar-se.
Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção em que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o commendador que os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que debellam as lombrigas.
D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a doente, e deu-lhe uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que fosse, ao avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para logo as rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso quebrou, os labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se. Milagres que a cada passo se topam nos florilegios, por influxo de agentes d'outra procedencia. N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles prodigios de natureza toda humana, entra droga das boticas de Fausto, de Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes do luciferino bardo que cantou as «Trevas».
Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe conta dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das Amoreiras, e referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o commendador.
Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as impressões que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do que era de esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua desventura, que faria inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não omittir este escuro traço do caracter do seu confidente. A ferida da sua amiga queria balsamos, e não cauterio. Semelhante denuncia iria coar a peçonha da desconfiança--a tortura da morte--áquella alma flammejante de fé.
As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham duas phrases dignas do _Secretario dos Amantes_. Eduardo Pimenta promettia luctar contra a desgraça, e succumbir na lucta quando não podesse sahir com a victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados andavam na voga, no respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do abbade Prevost.
Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos olhos do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a convalescença, já para amollecer o coração do velho, já para afastar suspeitas de correspondencia clandestina.
Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O medico, na segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia inviolavel ás pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos lagrimaes, olhos pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica, illucidaram o diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da nomenclatura greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil temperamento da sua organisação ainda imperfeita muito a custo resistiria ás commoções devastadoras. Era o systema d'este medico: primeiro o apparelho digestivo; depois o espiritual, se as doentes eram novas e solteiras. O segundo prognostico havia-lhe rendido a mais selecta clinica da capital. Muitos maridos d'aquelle tempo os levára elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os medicos de hoje em dia lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados de bacalhau ou sulphato de ferro soluvel de Lerás.
Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua mulher e seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha prefigurou-se-lhe calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar, casando-a com homem somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão espinhos de remorso. A ternura encarecia-lhe o perigo; e o quebranto moral proprio da edade arguia-o de inclemencia e fereza.
Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois, ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.
--E se ella morre!--exclamava elle, invocando agora o juizo de Julia, tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.--Que lhe diz o seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se a minha boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares, conseguiriamos restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão innocente, tão meu, tão alegre?... Que me diz, D. Julia?
--Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir; a reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim que eu amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci, que violencias arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o convento, nem as ameaças de me privar do patrimonio me demoveram. A ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que valeram tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu sobrevivi... para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho muito dó de sua filha, meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais animada, porque lhe dei esperanças, como os medicos as dão a uma thysica já nas ultimas vascas; mas se ámanhã eu não podér animal-a, a febre voltará, e depois Deus sabe se no peito d'ella está o germen da terrivel doença...
--Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que um dia se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida, desfigurou-se, e... vinte dias depois, expirava-me nos braços, procurando com as mãos as cabeças dos filhinhos...
O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas que lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.
D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu conduzir o commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a presença d'ella, n'aquelle momento, lhe seria consolação.
Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos de affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços, chorando, como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição divina a d'aquella creatura! Se, tres mezes antes, a vissem ajoelhada diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma santa. Se Eduardo Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do amor que o revestira do crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os olhos tristes da meiguice que pede as consolações amantissimas d'outra alma, a creança seria ainda para seu pae o sorriso que do céo lhe enviava, em labios innocentissimos, a chorada esposa.
Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais nem a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo, os olhos do pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da saude, o sorrir florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e levou-a á sala, onde o fogão aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.
Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o commendador entre as duas.
A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios constipára a menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae, aquelle accesso dava o som aspero das crepitações pulmonares; figurou-se-lhe estar ouvindo tossir sua mulher.
Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.
--Anna--disse elle, tomando-lhe a mão com extremada caricia--eu quero que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que vivas. Reanima-te, filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.
A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou a cabeça ao braço d'elle, como se quizesse esconder a exultação que devia parecer reprehensivel ao amor de seu pae.
--Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel, cazando?--interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para D. Julia, accrescentando:--Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo que perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!... Casarás, filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me deixarás; o amor, que me tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás, não?
--Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o deixarei, nem amarei menos do que hoje.
--Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não a invoques para affiançar as mudanças da tua vida...
--Meu papá!--replicou a filha perturbada pela solemnidade da objecção--se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case. É melhor que eu...
--Que tu, filha?
--Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...
--Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és... Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em te dar a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de quarenta annos, eu nunca tinha encontrado condição mais nobre de homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos d'este homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se Venceslau Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu marido Eduardo Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente; paga-me esta alegria que te dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das tuas faces desmaiadas... Dize-me ámanhã que estás boa, e me não has-de deixar, n'esta escurecida velhice, a esperar o beneficio da morte, sósinho, entre tres sepulturas.
Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é este!...
E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do caracter de Eduardo. Um--aquellas amphibologicas palavras, que lhe elle dissera um dia antes, e ella recebêra com tal qual severidade. Outro--a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.
Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:
--Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem. Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com outra...
--Mas que quer dizer isso?!--interrompeu Anna.--Tu bem sabes que eu não amo o Venceslau.
--Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse melhor...
--Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e muito amavel?...
--E eu digo-te agora o contrario?
--Mas achas que o outro seria melhor...
--Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não calcula o que ha de vir pelo tempo além...
--Tu atterras-me Julia!--exclamou a enleada menina, fitando na impenetravel amiga os seus olhos explendidos.
--Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente, emendando as demazias da sua imprudencia.--Estou conversando comtigo, que vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e te falle a linguagem das meninas.
--Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...
--Eu desconfio?
--Sim... hontem não me dizias isso...
--E hoje que te digo?
--Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...
--Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.
O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:
--O papá chorou?
--Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes podem afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.
--Morrer, meu Deus!--exclamou Anna.--Ó papá, meu querido papá!... não me falle em morrer, que eu já não quero...--E susteve-se por segundos.
--Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a palavra, receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr... O remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...
Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente d'aquella sala o archanjo das propheticas agonias.
XI
Qualquer honesta se abala, Como sabe que é querida.
CAMÕES.--_Filodemo._
Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva.
Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito recente, e a honra da readmissão pouco desejada.
Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.
Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado. Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:
--Que dote tem ella?
--Eu sei lá!...--respondeu o outro enleado.
--Eu devia ter indagado...
--Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao coração da filha, acho eu.
--Fallemos serios--volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras morbidas.--Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde contar, quando se constitue chefe de familia?
--Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre se combina com o agradavel, como aconselha o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não presume herdeira?
--Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...
--É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.
--Que me suicide?!--bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a metter-se nas tezouras da parca.
--Sim, homem--voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de aborrecimento, se não era de menospreço.--Mata-te por egoismo. O amor proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...
--É pena que te não lembre...--acudiu ironicamente o outro.
--Ah!... lembrou: de infamia.
--Mercês!--redarguiu Eduardo--se fosses um qualquer homem, respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o direito de me aviltar, digo: obrigado!
--Ao campo da honra vão os honrados--concluiu Venceslau, erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.--Tenho que fazer... Não me dá Deus horas baldias para palestras d'esta especie.
E sahiu arrebatadamente.
Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita brandura:
--Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem espinhos...
--Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas por onde nunca possamos encontrar-nos.
--Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do commendador.
--Como te aprouver... adeus.
Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.
--Parabens!--exclamou ella, quando entrou á sala, onde era esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.--Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!
--É verdade, minha senhora!...
--Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!
--Obrigado, snr.ª D. Julia--respondeu elle glacialmente.
--Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...
--Me não amava?
--Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o seu? que é isso?!
--É a fatalidade--respondeu funeralmente o joven pallido.
--Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.
--Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira ouvir...
--Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...
--A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce até ao inferno abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.
Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:
--Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.
--Perdão, minha senhora!--balbuciou o galan, como quem não trazia mais diamantes no thesouro da memoria.--Perdão!
--Perdoei, porque... esqueci.
--Perdôa--volveu elle com alguma felicidade--perdôa, porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...
--Praza a Deus... mas... duvído.
--Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...
--Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia, enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.
--Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...
--E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!... Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!
--Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda, mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.
Disse e sahiu.