Part 5
--Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção--replicou Eduardo, dissimulando a custo o dezar.--O que tenho que dizer-te é pouco mais, todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é causa innocente dos nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me absolvas da culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér descobrir que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato me será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as forças da minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.
--Respondo--voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu artigo.--Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama, paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que esse amor é luz para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe será agradavel conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço dizer que elle as não tem; mas sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te á felicidade, se a procurares áquem da opulencia. Não sei que mais deva dizer-te sobre o ponto.
Eduardo não redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e intallador na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho. Contava com lances irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do commendador. A situação por tanto era a mesma, era boa, mas elle queria peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o trago do seu absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o coração ao seu tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e recomeçar o seu ir-se d'olhos no céo pelas regiões sombrias da saudade immortal.
Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no pateo d'um palacete ás Amoreiras.
Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana; e já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.
--Está aqui, snr. Pimenta!--exclamou Julia.--Procura-me ou vae de passagem?
--V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.
--Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que ella se queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.
Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e severas salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como nota) de ter n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora, condemnados ao supplicio por seu pae--acquisição, a das alfaias, legitimamente feita, por ter sido um brinde do marquez de Pombal ao ministro que, em particular e não por sentença, incumbíra os tres carrascos de mostrarem previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor, os supplicios reservados para o esposo, filho e parentes.
Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito, e por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:
--Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...
--Foi talvez--interrompeu a dama--felicital-o por ter sido eleito deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle rapaz! Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.
--É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá; mas, snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto que nem me occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja rasgadamente franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?
--Oh! pois não!
--Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?
--E sou deveras, snr. Pimenta.
--E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma irmã?
--Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.
--V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.
--E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?
--Raras vezes tenho trocado duas phrases com a snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...
--Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...--interrompeu D. Julia, retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem discursada elegia.
--Venceslau--tornou o lastimado Pimenta--é um caracter nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos actos do seu bem ordenado juizo. Venceslau consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da enxada de um coveiro.
N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.
D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte scenica:
--Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz, dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos--o que se fechou e outro que se abre.
--Porque?!--atalhou D. Julia.
--O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes desgraçados...--a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu presagio era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia comprehendel-a eu.
D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:
--V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?
--Sim...
--Não me está accusando no silencio da sua alma?
--De quê?
--Nem me accusará?...
--Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?
--Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as... Mas...--disse elle com suspensivo receio, adocicando o aranzel á feição de galan timido:--No semblante de V. Exc.ª ha uma alteração que me está opprimindo...
--Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste... Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não ignora...
--Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará estancar.
A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.
--Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de esperanças!--proseguiu Eduardo enfaticamente.--Como ousaria voltar eu a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...
D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de fronte--coisas que a gente vê nos palcos e nas salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.
Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu, principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse:
--Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.
--Não se enganou, minha senhora...
--Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem declarado nas suas cartas...
--Sem duvida...
--E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos quinze annos.
--Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...
--Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...
--Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?
--Fugir!... que ingratidão!...
--E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa iniquidade!... Eu, que nem pude ser ingrato a uma sombra!...
--Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor extremo, e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem o obriga a fugir?
--A honra.
--Pois semelhante amor deshonra-o?
--Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.
--Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do cavalheirismo...
--Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em funesta hora, apresentado.
--Não tenho a certeza de que elle a ama...
--Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da amiga de V. Ex.ª
--É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor percepção lhe terá sondado o espirito...
--É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube dizer porque eu não devia amal-a.
--E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V. Sas.? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita--continuou D. Julia com mui senhoril compostura e gravidade.--Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...
--Não, minha senhora--accudiu Eduardo--o infortunio é conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...
E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha fixidez, e ajuntou:
--Vim pedir-lhe a sua amisade...
--Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.
--Não tenho...
--Não tem? outra singularidade! Porquê?!...
--Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.
E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.
D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada do imprevisto desfecho do dialogo.
Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era o seu com a face encostada á palma da mão direita, relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?
A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...
IX
A desgraça não os tomará de assalto. Bom é esperal-a, para que a alma se lhe affaça, e o supportal-a seja menos exulcerante.
LUCIANO,--_Da Astrologia._
D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi, como tencionava, a casa do commendador Vaz.
--Olha que estou afflicta, Lulu!--exclamou Anna, atirando-se-lhe aos braços.
--Afflicta! que é?
--O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito fidalgo, e que ainda havia de ser um grande homem em Portugal.
--E depois? aposto que te fallou em casares com elle?
--Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?
--Então o Venceslau pediu-te?
--Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.
--E tu, fizeste biquinho? choraste?--voltou Julia, rindo.
--Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal encarados, e disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido alguma leviandade? Anna, vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu pae não ha segredos nem disfarces.» E, depois, disse já muito zangado: «Respondes ou não? Se a tua boa estrella te dér por marido Venceslau, agrada-te este casamento?» Eu que havia de responder, Lulu? Dize lá, tu que respondias?
--Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos apertos de taes perguntas. Respondeste que sim?
--Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu fui chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á porta, eu limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a lêr. Disse-me elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter sahido deputado ás côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das virtudes e talento do Taveira, dizendo que elle era deputado aos vinte e oito annos, e seria ministro de estado antes de ter quarenta. Ora que me importa a mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou desgraçada! Foi Deus que te trouxe. Tu has de valer-me, has de aconselhar-me, sim?
--Socega--respondeu Julia.--Se o teu casamento com Venceslau depende da vontade do noivo, estás tu bem.
--Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?
--Sei que Venceslau não te ama.
--Não? ai que alegria! quem t'o disse?
--O Eduardo.
--Sim? viste-o hoje?
--Esteve em minha casa.
--Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!
--Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar d'isso, desconfia que sim...
--Oh diacho! isso é máo?
--O que é máo?
--Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!
--Que lamuria, Deus da minha alma!--atalhou D. Julia sorrindo ás lastimas e gesticulação da linda creança.--Não te disse eu já que Venceslau não te ama?
--Disseste, sim.
--Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa que elle não quer?
--Achas, Lulu?
--Acho; mas...
--Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?--voltou já muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os tregeitos jubilosos.
Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano, folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
--A minha admiração--dizia Francisco Vaz--foi grande quando hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...
--Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu, quasi sem me conhecer.
--Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua malicia de serpente, seu maganão!--dizia o commendador espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.--Sabe o que me admirou? foi a nenhuma importancia que V. S.ª dava ás honras que lhe estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!
--Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr que os meus amigos se regosijem?
--Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos, pouco abastado em bens...
--Pouco!--interrompeu Venceslau a sorrir.--Parece-me que eu já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.
--Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!--acudiu o commendador, batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.--Venceslau Taveira, se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço! paga-me generosamente!--proseguiu severisando o aspecto.--O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, para que não possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braços.»
Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:
--Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.
--Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.
Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e estreitando ao seio o moço, continuou;
--Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?
--Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito nova--dizia elle--verá chorar o pae, terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus brinquedos.»
--Enganou-se o meu infeliz filho--disse o commendador enxugando os olhos.--A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:--Não morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim abençoaria a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz--aqui tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...
--Em que a temos todos os que a conhecemos.
--Alegra-me essa opinião--exclamou o velho com vehemencia--enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous santos amores que o esperavam--o de Julia, a sua amada desde a infancia, e o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio dos pobres...
--Oh snr. commendador!--atalhou Venceslau--a sua amisade vae tão adiante do que eu fui e sou...