Part 4
--Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.
VII
Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.
Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.
SCHILLER.--_Poesias._
D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de Almudena--commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os descendentes dos Pelagios e Ordonhos--era creança de quinze annos, quasi bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.
Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado, compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram Portugal.
Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.
O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos depois.
O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava ao lado de sua filha no canapé, disse:
--D. Julia, aqui tem o seu retrato.
Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:
--Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.
Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle, balbuciou:
--Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!
Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia illustre.
Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D. Julia:
Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.
Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o jornalista.
Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade.
Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.
Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão; homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.
Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.
Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na culpa incontestavel. N'este em meio, chegou a Eduardo a nova da morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a provincia.
No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D. Anna, e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina, descobriu a saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas de Eduardo.
Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista, perguntou-lhe se o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado sentimentos amorosos.
--Muitos e profundos, minha senhora--respondeu Venceslau, despercebido da pergunta intencional.
--A respeito de quem?
--Da sancta que ha dez annos está no céo.
--Ah! eu não perguntava isso...
--Que era então, snr.ª D. Julia?
--Já vejo que me enganei... Eu referia-me...
--Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu, affectos a outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse o contrario. Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o tiver.
--Porquê?--atalhou admirada D. Julia.--Os intentos, que um amigo esconde de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, é prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos não se communicam. O snr. Taveira, se amasse a minha amiga, duvidaria revelar tão bom sentimento a Eduardo?
--Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha pusillanimidade ao meu amigo.
--Santo Deus! como V. S.ª é austero!--voltou sorrindo a rica herdeira.--Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral tão rigorosas!
Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia. Penalisava-o o desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.
E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.
--Não me parece--proseguiu a dama gravemente--desdourar-se um rapaz que estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que houvesse de ser meu marido.
Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:
--Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A enorme desgraça da sua mocidade foi repellão de vento que lhe apagou na alma toda a luz das alegrias puras. A sombra d'uma martyr não consente que outra mulher, embora seja um anjo, repouse venturosa no coração onde ella deve ter deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o archanjo da espada de fogo.
D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:
--V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V. Ex.ª nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se conciliam e tão desejados se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurança da religiosidade com que V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se a snr.ª D. Julia me permitte o comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de maior obrigação e fineza á alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braços o cadaver da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve mais apertar n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras com que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza, nascimento, parentes, contentamento, futuro, e até a memoria hoje em dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.
D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na flor dos annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher amada, primeira e unica.
Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos, ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.
D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se affastára para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu desassocego.
--Tu vens triste?!--perguntou Anna assustada.
--Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?
--Choraste!... é verdade!... Porque?
--Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas na sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.
--Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?
--Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção franziu a testa, mudou de aspecto, e reprovou que tu amasses um homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não deves arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que lhe expirou nos braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar... Olha, filha, é extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda agora, sentia em mim não sei se assombro, se admiração, se profunda sympathia por elle!
--Mas então...--interrompeu a infantil menina, como se as admirações ou sympathias de Julia não diminuissem nada do seu alvoroço.--Disse elle que Eduardo não me ama?
--Tal não disse, creança...
--Pois que foi? Eu não entendi...
--Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle amou, e não póde repetir-se comtigo.
Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada longo tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga, sorriu com mais tristeza do que se chorára, e murmurou:
--Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os anjos adoram a Deus?
--E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...
--Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...
--Tu... quê, filha?
--Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e antes queria morrer que não o vêr mais...
--Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!--disse Julia beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.--Pois filha, tem esperança... As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os corações alheios hão de regular-se por preceitos mais faceis e humanos. Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vêr isso como virtude aos teus olhos... Mas... mas se...
--Mas se...--acudiu Anna impaciente da suspensão.
--Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?
--Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...
--Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma menina da tua qualidade? Eu bem sei que teu pae é o fidalgo menos vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e admittir em sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia d'ellas; mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como Venceslau Taveira... Ah!--esta subita exclamação de D. Julia foi solemnisada com um bater de palmas significativo de valioso descobrimento nos arcanos do coração.--Queres tu vêr que eu comprehendi perfeitamente agora as repugnancias de Taveira?
--Sim? que é?
--É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou em te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de manifestar-se a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que tal não imaginava fui fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a razão porque elle expoz as extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a ninguem. Pois não é outra coisa, Annica. O Venceslau ama-te, e começa a odiar o rival. Complicam-se as situações. Veremos o desfecho d'isto.
--Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me obrigue!--exclamou D. Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de mimo, que davam a lembrar irritações de menina por amor das bonecas.
--Pois então, creança--aconselhou Julia com o siso dos treze annos que levava de vantagem á sua confidente--tem prudencia, não te precipites. Parece-me que o Taveira, se teve aspirações, como creio que teve, á tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de prevalecer-se da estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. Entretanto, é preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a confiança de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve. Depois, eu te auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver resistencia.
Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.
Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre com as ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do commendador, já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.
O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo. Não duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu mentor gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim se emancipar da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia exercer-lhe na vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.
Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que estando elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de Miranda referia a um advogado presente o bom exito de certo pleito, d'onde acresciam aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta herdeira, em quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre, recolhido alguns segundos, respondeu:
--Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua excellencia não gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete annos dezoito a vinte mil cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de Collares, e póde sem receio de errar cem moedas, computar em quinhentos mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.
--E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?--perguntou o commendador.
--Comigo não os levo para a cova--respondeu a dama.--Os vinculos irão a quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.
Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua Anna viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma por seu filho Antonio.
Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns pensamentos, que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que merecem ser marginalmente assignalados por quem estuda a vida nos romances.
Dizia elle para dentro da sua consciencia:
--Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa na declaração á outra. Se Venceslau conseguir fechar-me uma porta, já sei a qual hei-de ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda flôr; mas Julia de certo é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas quinhentos mil cruzados...
--Quinhentos mil cruzados--dizia Venceslau Taveira ao commendador, como se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do amigo--não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade luminosa nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados não vingam ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias da morte, com as mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas palhas fetidas dos sótãos.
--Isso é pavoroso!--disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos circumstantes.
Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:
--Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a tentativa do roubo...
VII
Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade Póde ter duração e dar felicidade.
VISCONDE DE CASTILHO--No _Avarento_.
Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima das familias.
Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo, procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:
--Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.
Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou em silencio.
E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres, proseguiu:
--Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de inutilisar a minha aptidão para o trabalho, para o dever e para tudo que é proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a indignação: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das tuas liberalidades; a indignação, quando se me pedia esforço incompativel com a minha amargura. Esta doença moral durou nove annos, queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma, em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam com o trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria, chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e recompensados com as posições e empregos de que se estão gosando. Quiz, porém, a Providencia que um raio de luz entrasse á noite profunda do meu coração, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcançaram talvez da bondade divina que desviasse dos meus labios a taça da desesperação. Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a maldição de meu pae não chegasse a esterilisar o meu patrimonio. A minha felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para mim, quando de repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão claro se me prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu me apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter é nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de abnegação que se não descortinam sem grande iniciação de virtudes que não tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo. Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a não devias ter; outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és homem, porque és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos do coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte porque me não disseste que amavas D. Anna Vaz?
--Porque eu não amava D. Anna Vaz--respondeu serenamente o interrogado.
--Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?
--Nem antes nem depois.
--Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor, culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; sei que regeitarás a mulher que não teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas. O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração onde deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que sahisse do mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciações, não era natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...
--Que desperdicio de palavras!--atalhou Venceslau Taveira, vencido da impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.