Livro de Consolação: Romance

Part 3

Chapter 33,856 wordsPublic domain

Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; cá fóra, a irrisão, a farça, a jogralidade que a critica descobre á beira das grandes dôres, á beira até das sepulturas!

Mas ao pé da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador de Coimbra, se não havia preces nem olhos lagrimosos, tambem não passava o motejo sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do esquecimento que deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um chorar sem consolação no seio da eterna gloria.

Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida e ao mesmo tempo victoriosa; que morrer assim é triumphar.

A presença inesperada do esposo, que ella considerava morto, foi o osculo santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um lampejo final lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria reviveu-lhe o coração, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas, restituiu-lhe por momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o corpo subitamente arrefecido nos braços de Eduardo.

Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraçado por aquelle homem que relançava á volta de si o olhar sôffrego da posse da esposa morta. Quando elle, vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o murmurio das freiras que rezavam psalmos no côro. A desgraça faz prodigios de fé, desvarios de crença que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotencia divina se pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, accêso em ardente fé, escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos do cadaver ainda não fechados. O infeliz pedia a resurreição d'aquella mulher, dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmões revividos.

Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o cadaver; mas, não conseguindo desabraçal-o da morta, ajudaram-o a transportal-a ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.

Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins a reunir. Massena ordenára um movimento sobre Condeixa depois de se deter em Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo Pimenta, que servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o exercito.

Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe de Esling, e o levaram á força de ao pé do cadaver já amortalhado. Commovidos pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse a beijal-a no rosto, já quando a passavam para o esquife.

Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento á volta d'ella, ninguem diria que vida assim dilacerada podésse acabar por maneira tão singela!

Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibrações lentas não custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo aos que em si já sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina justiça nos deixaria melhormente comprehender os liames que prendem a terra ao céo, a creatura ao Creador, o espirito do homem perecivel á insuflação do grande espirito immortal...

Não sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre Condeixa.

Ahi fica esboçada a biographia do official que Venceslau Taveira encontrou em Santarem.

Ai! se elle então morresse! Que tragico vulto na legenda dos amores desgraçados! quantos anjos tristes, nascidos em almas de poetas, iriam deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na sepultura d'aquelles vinte e quatro annos! Quem cuidára então que os dons celestiaes da alma d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo d'esse peito germinavam os embriões de vicios que resvalariam á derradeira infamia!

V

Ah Senhor, Amor sejais vós de nós E não haja amor com dor.

GIL VICENTE.--_Farças._

No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.

Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.

Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com blasphemias, assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres do seu destino.

Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.

São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança nos homens, e--quantas vezes!--da fé em Deus. E, se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, ignorando-lhe as condições durissimas, o terrivel desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.

Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.

Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe tranquillamente:

--Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos gritos dos agonisantes.

Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as feridas.

Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, vigor para repugnar ao curativo.

Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e murmurou:

--Não sou um desgraçado vulgar...

E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:

--Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?

Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!

A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta onde fervem e affogam soluços, se as lagrimas da saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo--morrer no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas--seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?

Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas tortura.

Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais seis, mais nove dias, porque expia pelo corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.

Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem enxerga!

Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.

VI

Aperta-lhe a sorte ingrata O laço em que os pés lhe enreda.

THOMAZ RIBEIRO.--_A Delfina do Mal._

Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava entre jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente esfaqueado logo que os patriotas lhe descobrissem a paragem.

Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que primeiro o captivára com as dôres da alma, e agora com as da enfermidade. Ambos se haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á moda dos camponezes, inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.

Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o pae, e accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia na garganta.

Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa dos Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego perseguia os jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça summaria dos sicarios.

Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse dado a vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta dos máos corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma campa sobre a victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para que a sua posteridade podésse apontar para ellas, quando outros aventureiros ousassem pôr olhos no rosto defeso das mulheres de raça.

No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos pela justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras, atterrando a mãe de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de afflicção a dar-lhe o descanço eterno.

Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado, receoso de compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão o valor do patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.

Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que depois em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o para fazer traducções no periodico intitulado _O Investigador_.

Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia o moço com o seu amigo, adoçando-lhe delicadamente o agro da dependencia, com a clausula de que eram emprestados os recursos que lhe offerecia.

Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de sua viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde lhe transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma alma.

N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis annos viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das preoccupações dos outros emigrados.

Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos seus conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços. Pimenta era sempre o inconsolavel.

São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados, no correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo de Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da saudade da patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre carregados da sua paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.

Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do seu martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam com a trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal não desejaria pertencer, nem eu. Afóra o almoço e jantar, o viuvo consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo interno que o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço as molas digestivas. Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia que, logo abaixo de um coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com um estomago de ógre. Raro conseguem estes infelizes amiserar ninguem com suas lastimas em verso ou prosa, porque a nediez do musculo os está sempre a desmentir de modo que o observador incauto cuida que o humor vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume que lhes sobeja. É mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que a alçada bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche--expressão grega que os gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a chorar e a comer ao mesmo tempo.

Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno 1820, amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o fidalgo da Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.

Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval que então redigia o _Astro da Lusitania_.

Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto escriptor, cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da gloria de lhe poetisar a infancia.

No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o habilitasse a indemnisar os favores do companheiro.

Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.

Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia: era antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o vexava. Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e disparam em villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano que se chama _alma_, a qual se decompõe em _lama_, se lhe trocaes as lettras.

Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo. Recebe a noticia da morte do pae.

Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de 1820, patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho d'Este, um dos Codros que tomaram parte no assassinio do general portuguez Bernardim Freire de Andrade, tal sujeito, a não poder afogar n'agua benta a liberdade em pessoa, devia morrer apopletico, e de feito morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e tres solemnes maldições ao filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia não foi das mais fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva escrevia a Eduardo.

Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.

O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o irmão clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de prata abafado pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que chegaram ás ultimas, esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto, o qual tinha apanhado o faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de um dragão que elle ou outros tinham matado. O pae do clerigo--Deus lhe perdoe--gabava-se d'isso, e o filho, theologo casuista, não achou em Bazembáo o caso da restituição da coisa roubada a ladrão! 1:600 missas davam ensanchas para maroteiras maiores.

Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.

O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda melhor quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto fareja essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é mais allemã. Os olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os ouvidos afinam-se tão agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada gaita de feira sôa-nos como a tuba de Oberon.

Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de oiro nas cabeças negras, castanhas e loiras das mulheres lindas, das feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda a botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é naça que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz isto: quando nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a quem não tem dentes, nem dinheiro principalmente.

Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim, Eduardo fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de muitas mulheres vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina, de Collona, de Leonor, de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella Antonia, que elle andára sete ou oito annos a procurar no crepusculo das tardes e no diluculo das madrugadas, d'essa, que se mirrava entre os farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, não dizia nada.

--Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?--perguntou-lhe o collaborador do _Astro da Luzitania_, rodando sobre a sua banca de trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.--Empregas esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?

--Hei-de pensar n'isso...--respondeu desattentamente o outro.--Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença quando t'o não dever.

--N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha presença--disse Venceslau com semblante sereno e severo.

--Sabes quanto é?

--Não.

--Calcúla.

--Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do outro.

--Vejo-te muito sério!--atalhou Eduardo.--Offendi-te?!

--Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence. Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico. Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena parte...

--Eu?! que fazia eu?

--Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha da tua indole...

--Ora essa!...--interrompeu pondunorosamente Eduardo.--Então figurei de parasita aos teus olhos...

--Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado em luctos de viuvez eterna...--respondeu Venceslau sorrindo.--Quem havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se arreiga dolorosamente na alma; porém, lá vem um dia em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á luz da razão.

--Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem discursadas?!--perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.

--Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de _memento_, quando escreveres á filha do commendador.

--A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D. Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...

Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:

--Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...

Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco; Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu: