Livro de Consolação: Romance

Part 2

Chapter 23,787 wordsPublic domain

Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao martyrio, requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a turbulenta fidalga, que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de Santa Catharina, virgem e martyr. A regente, diga-se verdade liza, parece ter tido escrupulos de mentir, e receios de não poder entrar no reino da gloria eterna com a dupla corôa da santa anavalhada. Não lhe pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos que D. Antonia lhe ameaçou tres vezes ou mais.

O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura por sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.

N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com elle a vanguarda de ideias livres, vestidas com as pompas da egualdade humana--santas palavras que desafogaram corações abafados ás mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na escuridade da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general estava em Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da que tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua sepultura, abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de cruciantes agonias, como no discurso do livro se irá vendo.

Dizia assim a carta a Junot:

«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia á minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa generosidade, Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos habitantes de Portugal uma protecção que, fazendo a nossa gloria, é a mais sublime recommendação da vossa virtude e nobreza. Estes dons tão preciosos me animam e prestam valor de elevar minhas supplicas e lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre guerreiro que participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, saberá como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte immortalisa seu nome.

«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á honra de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os direitos mais sagrados combatidos que se refugiam no asylo de vossos pés.

«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha mais tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um dos regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como minha familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as almas nobres. Por um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as virtudes puras (porque lhes ignoram o preço e os encantos) oppõe-se minha familia fortemente á minha escolha, prevenindo nossas vistas definitivas de um casamento occulto; e, conhecendo bastante a firmeza de nossos desejos, meus parentes solicitaram e obtiveram uma ordem para que o meu pretendido passasse á America. Este injusto procedimento feriu sensivelmente a minha delicadeza e reputação.

«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo, obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a minha mão e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte; lançou-se aos pés do throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a maior affabilidade; porém, o ministro de estado impediu a conclusão de tão ditosas esperanças, forçando meu esposo á cruel necessidade de se esconder dos seus perseguidores que o espiavam em toda a parte para satisfazerem o seu antigo odio e incompleta vingança. Em quanto elle se foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por meus parentes forçada a receber outro esposo. Resisti. Não pude. Abracei o ultimo partido que me restava para subtrahir-me ás suas violencias. Abandonei a casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz. Ahi mesmo a minha desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de astucia. Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me chamavam á penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira as virtudes mais bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas, Senhor, como n'aquelle Recolhimento os meus gritos de desesperação me dessem o triste semblante de louca, a commiseração dos meus parentes enviou-me a umas torturas novas n'este convento de Santa Clara, d'onde, banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. Ex.ª

«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento, consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes souberam que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos, instauraram processo contra o meu esposo com o proposito de o condemnarem a degredo. Exigiram de mim que eu negasse a minha assignatura na procuração, com o fim de o sentencearem como falsificador de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a minha honra, achei pequenas e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto de me ser negada a mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de meus irmãos chegaram ao throno; todavia, apesar do valimento de tão poderosos inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo fosse castigado sem ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e por tanto destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente para o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos perseguidores. É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado membro da regencia, e outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem tremer pela nossa sorte. O nosso triumpho está sómente reservado a um poder superior. Só um general de Napoleão, immortal como elle, poderá salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este prodigio de grandeza de alma é proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias do Anjo que já está gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.

«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o protector de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma graça que lhes será a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos digneis proferir a nosso favor, a iremos de joelhos agradecer, beijando-vos mil vezes a mão que nos abriu o céo; ao mesmo tempo que em nossas almas, Senhor, sereis adorado como homem a quem Deus conferiu poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é mais digna da vossa commiseração...»

Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general Tiebau, coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo scientifico, chamando-se Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual no talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de pauzas e modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito a commoções dramaticas.

D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:

«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao representante do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja justiça se distribue por vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade e passaporte para Lisboa. Vinde alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer sahir dos carceres do Porto o ente que vos interessa, e que, como vós, ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos protegerei a ambos. Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente servo--_Junot_.»[2]

III

Ton chemin est devant toi. Marche! marche!

ED. QUINET.--_Ashaverus._

Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimação militar para entregar D. Antonia de Portugal.

Os enviados á redempção da gentilissima captiva espavoriram as freiras, quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.

As mais avançadas em edade e virtude não ficaram estranhas ao receio de serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado á custa de muitas violencias, renunciações, cilicios e jejuns debilitantes. As menos jejuadas e mais propensas a crêr na malicia dos homens, se tivessem lido o que asseveram chronicas e o snr. A. Herculano repete no _Eurico_, a respeito de certas monjas em risco de serem presa lasciva dos sarracenos, é bem de crêr que pedissem á prioreza que as degolasse na crypta, antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes mareasse a candura, obrigando-as a córar.

E, tantos visos de exactidão offerece a hypothese lisongeira, que, ao saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas--que eram cento e vinte as professas--illudidas, talvez, pediram voz em grita que as deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo iria no empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no atrio dos seus jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma assentada, Portugal--torrão bastante sáfaro para tal messe!

Não eram já, entretanto, aquelles dias os azados para tão heroicos martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privação do holocausto, forçou a commedirem-se as noviças, as noviças principalmente, que tinham os olhos sedentos de mortificação fitos nos algozes que as remiravam do pateo com uns olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que os distinguiam dos frades portuguezes. Ora estes frades da comparação eram uns que frequentavam os locutorios, e suspiravam tão mysticamente quanto lhes permittia a eructação da orelheira mal esmoida.

Não pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses commemora algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a roupa d'elles e a virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para tão desmedidos facinoras, segundo affirmam piedosas tradições. Do que tenho certeza é que D. Antonia de Portugal sahiu do convento com tanta precipitação, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem sequer divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que parecia ajoelhar quebrantado pelo pezo da felicidade.

Quando Venceslau Taveira conheceu este moço, mezes depois dos acontecimentos referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braços com a desgraça que raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o coração humano tão inexoravelmente.

Um dia, o alferes promovido a capitão no exercito francez, foi mandado servir ás ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella dos valorosos portuguezes lampejou uns clarões que davam a lembrar o cyclo heroico de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta já agora uma briosa saudade.

D. Antonia estanceava então na Alhandra esperando que seu marido a mandasse recolher a Lisboa.

N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera na Roliça e com elle todo o estado maior.

E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam seus valedores no immenso infortunio, quasi a forçaram a cavalgar, caminho de Coimbra, onde, áquelle tempo, iam chegando os inglezes desembarcados na Figueira.

E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de homens, que levaram uma mulher estorcendo-se a brados afflictivos. Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que sobre o escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaiára, se é que a morte se não amerciára d'ella.

Entretanto, nem La Borde nem o capitão Pimenta haviam morrido dos ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal enfaixando um braço que sangrava. D'este encontro resultou o boato da morte, ao mesmo tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro do general na egreja do Carmo em Lisboa.

Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspára na espadua do capitão, fôra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle tempo a fidalguia d'estes reinos ainda resfolegava por taes respiradouros o sangue brioso que se lhe emborrascava nas arterias. O timbre das armas obrigava. Os paquifes do elmo, arcando-se sobre as cabeças d'uns mouros, esculpturados com barbaridade digna das proezas, obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a honra da familia com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos açougues da Asia.

Enviára Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D. Antonia a Cintra onde se estavam redigindo os artigos da convenção. Como fosse clausula antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as honras da guerra, o official contra-pesava o infortunio do desterro com o jubilo de passar com a esposa a França, onde os generaes portuguezes lhe promettiam protecção.

Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da Alhandra, algumas horas antes, acompanhada por milicianos.

Alanciado por tão inesperada agonia, o official affrontou o maximo risco, perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias e a rapidez da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o espingardiaram e feriram mortalmente.

Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada Cadafaes, nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a peito com a morte, o desgraçado venceu-a, quando lhe seria redempção de maiores penas succumbir.

Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de incertezas e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia. Os amigos negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos desamparos, a pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por entre as quaes lhe transluzia a consoladora ideia do suicidio.

O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes, ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára com jacobinos.

Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de justo, repulsou-o com vociferações dignas dos paes romanos que sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor patrio dos bracharenses.

--Fóra d'ahi, herege!--exclamou o ancião, estirando os braços á cara do filho.--Pegaste em armas contra a nação de Affonso Henriques--proseguiu o honrado portuguez com ira azedada pelas reminiscencias historicas--tu! jacobino! ousaste desembainhar a espada contra a tua patria! contra a patria de Affonso Henriques, que venceu cinco reis mouros, com auxilio de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! Vae-te da minha presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! Não me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão geral, impio, atheu!

Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou, referindo os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a servir o seu libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu commover o velho até ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de Barroso em casa de parentes.

Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua desgraça a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a moralistas de grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister enorme coração quem dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae esforçada valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da demencia--suprema injuria a essas pobres almas que a divina justiça não mandaria ás penas eternas sem lhes descontar os terribilissimos paroxismos, aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da desgraça, aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito d'alma n'esta dilacerante pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»

Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado e vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo de um irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros, occasionando perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em um convento de Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na batalha de Vimieiro.

Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.

IV

Il est plus glorieux de tomber généreuse, D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir, De fluir sans remords, comme une femme heureuse.

MAD. GIRARDIN.--_Poésies._

Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou em Coimbra.

Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D. Antonia de Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que nunca ella recebeu das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da supposta viuva e dos trances de agonia tão demorada.

Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de pavor, disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo contra a porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva, bradando que lh'a abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em avisar a reclusa de que seu marido a procurava.

Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos de pthysica. Disseram-lhe que a buscava seu marido, e ella cuidou que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos seus delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer de delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas religiosas que mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia sentou-se de golpe no leito, e circumvagou pelas faces de tantas mulheres os olhos torvos, não de lagrimas, senão do véo da morte.

Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe tinha segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto crendeiras em raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a viram ajoelhar com muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das Dores, á qual dizia com anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe Santisssima! Eu bem vi que os vossos labios se moveram hontem, quando eu me arrastei até junto de vós. Elle vive!... mas eu... vou morrer... morro n'este instante, ó consoladora dos afflictos, se me não daes algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de morte tão custosa nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem comigo! Outro milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»

E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa, exclamando:

--Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu expire abençoando todos os algozes, e beijando todos os instrumentos das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me despedaçaram... Eu quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu coração... Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim morta onde estiver Eduardo, ouviram?

Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a face ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das palpebras um suor frio.

--Estará morta?!--perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios do convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.

Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a demora da reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a porteira a franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os depravados hereges, e sacudindo o hyssope da agua benta contra as paredes, uns francezes espadaúdos pozeram hombros contra as portadas em quanto outros escavacavam a roda a cutiladas, ou esgarçavam á ponta de sabre o crivo dos palratorios. Desacatos tamanhos e tanto para lastima eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, vezados desde 1792 a profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente as velhas.

Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi quem primeiro transpoz o limiar d'aquelle pombal de aves do empyreo, que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo tempo, mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina ambrosia volteavam e zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se, por mofina sorte, colmeia tão do céo, favos amellados com essencia de quantas flores perfumam cenobios de noviças, se--diga-se ao claro--aquellas raparigas cahissem nos colmilhos de tamanhos canibaes, com que vergonha nacional e minha não contaria eu aqui o escandalo!

Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante, ha sempre uma providencia que o salva illeso.

As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os gallos, (aqui a palavra _gallos_ não é contingencia de capoeira) se ellas mesmas não confessassem depois ao bispo e ás familias que os camaradas de Eduardo Pimenta haviam procedido mais castamente do que era de esperar de atheus, sem lei, nem rei, nem roque.

E disseram verdade.

Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito francez, no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes, segundo consta d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto javardos correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o cristallino pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia authentica de outro aggravo feito por parte da França á honra das nossas patricias. É regalo--não é?--poder a gente escrever isto, e, por isto mesmo, asseverar que na construcção das gerações sequentes a 1808 não ha gallicismo notavel que eu saiba. Não obstante, dizem praguentos que as joldas invasoras dos mosteiros arrebanhavam baixellas, pinturas, joias d'arte, e pospunham com desdem joias da natureza, as esposas do cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das nossas freiras, sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, primorosas, dignas patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, que tão celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje relidas com dó, admiração, e somnolencia.

Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos dormitorios para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo que Eduardo e os seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á cella de D. Antonia de Portugal.

Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras conclamaram tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.

N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos labios, crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:

--Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh! falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...

Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida agonizante, a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do trance doloroso, e observou-lhes:

--Não assistam a essa diabrura! Venham comigo ao côro pedir ao divino esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar escandalo n'esta casa.

--Assim é, nossa madre!--obtemperou a escrivã, offerecendo uma vez de simonte á madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que lhe careteava enviezando o beiço de baixo até cobrir a ponta do queixo.

O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!