Livro de Consolação: Romance

Part 15

Chapter 151,333 wordsPublic domain

Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.

O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.

Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada quanto penosa viuvez.

Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então serenamente:

--Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de sua mãe.

E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!

Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo; mas como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios da vida, calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.

Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.

--Não m'os conduza aqui--accrescentou elle--porque ainda ha colericos n'este predio.

E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:

--Coragem, senhor!

--Que vae dizer-me, padre Manoel?

--Que os seus filhos...

--Morreram?

--Estão no céo, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes dê a alma de seu pae.

Venceslau perdeu o alento.

Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espaço nas trevas da morte.

Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida, inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.

Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros duque de Palmella, que o levantou nos braços, e o amparou até o assentar na sua carruagem.

Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam a torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos quarenta e dous annos estava quasi cego.

E viveu!

Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde fôra depois que o duque de Palmella fallecêra.

E vivia então pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que herdára de seus filhos, mandára entregar aos herdeiros de sua mulher; e a maior parte de seus ordenados de official-maior aposentado era repartida pelos filhos de D. Anna Vaz, já morta áquelle tempo no mosteiro da Encarnação, alanciada em todas as fibras do coração de esposa, de filha e de mãe, porque a morte apiedou-se d'ella, só depois que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o derradeiro aperto.

CONCLUSÃO

CARTA DE LUIZ DA SILVA

«Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da azinhaga.

«Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, não tenho encontrado o caso triste.

«Se a opulencia, adquirida nas lettras, te não remiu da galé de escriptor portuguez, conta a historia de Venceslau.

«Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do tumulo d'aquelle calcinado coração?

«Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e mostral-o.

«Se lhe queres vêr a sepultura, vae á casa onde elle nasceu, ahi nos arrabaldes de Lamego.

«Morreu rico. Em 1868, succedeu na herança do irmão morgado, realista inflexivel que nunca lhe perdoára a loucura de trocar o habito de benedictino pela fardeta de voluntario da Rainha no cêrco do Porto. Colhido de sobresalto pela morte, não teve tempo de desvincular os bens e dal-os ao Papa.

«Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida onde o viste.

«Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os abrira.

«Viveu lá seis mezes.

«Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos velhos contadores de seus avós.

«Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento não nomeia o nome do marido d'aquella senhora.

«Um dos filhos está em Africa cumprindo degredo por crime de morte na pessoa d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de esquineta. O miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau, tinha cahido até áquella paragem.

«O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com ignominia d'um logar de confiança que o conselheiro indirectamente lhe impetrára, estava marcador de bilhar no Café-Grego.

«A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a mãe.

«Suspeito que a herança vae cahir nas fauces do dragão que sorveu todos os personagens da tua inedita historia.

«Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes pintados, guiando dois alazões, que tiravam um char-à-bancs, em que íam reclinadas e retrançadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella especie ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros dos hospitaes.

«Ouvi dizer que a reclusa da Encarnação, senhora de quarenta e nove annos, é pretendida d'um major reformado.

«O outro herdeiro, que está em Moçambique, se tiver juizo, em recebendo a herança, levanta-se com o vice-reinado de Africa.

«Se estas novas achêgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu livro, ahi as tens.

«Não me esqueça satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.

«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos grandes haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de lhes entregar a herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa onde vivera cincoenta annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira onde costumava sentar-se D. Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito onde haviam nascido e morrido os dous meninos, e o levou comsigo, e o queimára. Os herdeiros de D. Julia riem d'esta excentricidade. Eu vi no fundo da nobre alma do padre, a significação d'aquelle aniquilamento. As lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto sacrificio do ancião, foram as ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos apagados de Venceslau, voltou para os parentes que o acolheram, e finou-se. Adeus.»

* * * * *

Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que denominasse este romance LIVRO DE CONSOLAÇÃO?

Foi, como se me dissesse:

«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro, infortunios que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»

As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas, e ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas e tão avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que não ha medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.

Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.

FIM.

[1] _Memorias da vida de José Liberato Freire de Carvalho._ Lisboa, 1855, pag. 94 e seguintes.

[2] Esta resposta é trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis que pertenceu ao fallecido bibliographo o desembargador Thomaz Norton. Na folha de guarda do livro escreveu o citado possuidor o seguinte: _Theotonio José Maria de Queiroz, penultimo ministro da Congregação de Oliveira pertencente aos padres Congregados. Morreu de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. Norton._ O collector rubricou a collecção em 1811.

[3] Veja _Os Portuguezes e os factos_. Londres, 1833, p. 39.

End of Project Gutenberg's Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco