Livro de Consolação: Romance

Part 12

Chapter 123,809 wordsPublic domain

Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica; porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.

O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de velhos que nem sequer primavam nas jogralidades proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D. Anna.

O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis, que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.

Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».

Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.

Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse uma formosa mulher já realisada.

Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa forçada quimera senão tristezas.

Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da amiga.

--Tão cedo?--perguntou ella.--Tu vens febril!...

--E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...

--Para onde vaes?!

--Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede; mas eu não lhe disse a menor palavra a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo virá em que sejamos muito felizes...

--Eu? Nunca mais...--murmurou Julia.

--Porquê?...

--Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu não...--E susteve-se, como envergonhada de si mesma.

--Que tu...--instou Anna.

--Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu coração...

--Mas... para que...--disse D. Anna hesitante.

--Para que casei, queres tu perguntar-me?...

--Sim...

--Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me faças responsavel dos teus dissabores...

--Dize... que eu não te entendi...

--Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada... Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem que teu marido mais respeita...

D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e murmurou:

--É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...

--Nenhuns... ha-de trazer-me apenas--e já não é pouco--a satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma... Ha uma velhice que nos passa do coração para o rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a morte no frio que nos cerca...

--Mas, ó meu Deus!--exclamou Anna, pondo as mãos--Venceslau Taveira não te ama?

--Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...

--Pois, sim--redarguiu Anna Vaz--convenho que Venceslau seja tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...

D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.

--E tu verás--proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando a outra sorria--verás que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves prazeres da vida intima...

--Porque o não amaste, Anna?--perguntou de salto e desapropositadamente D. Julia.

--Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...

--Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro Venceslau... Porque o não amaste?--insistiu a arguciosa dama.

--Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado, fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o presava extremamente.

--Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os estremecimentos que lhe causou Eduardo.

--Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...

--Sei...

--Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus occultos desgostos, era desnecessario. Tão confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...

--Sacrifiquei-me então inutilmente?--interrompeu Julia.

--Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os prescreves ás tuas paixões...

--Quaes são as minhas paixões?--perguntou D. Julia por tão estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.

--Eu não digo que as tenhas, filha...--emendou ingenuamente D. Anna.

--Então?

--Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más... Comprehendeste, Julia?...

A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da amiga, e disse:

--Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as transcendentes, não as sigamos tambem.

Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho, com espaldar blazonado, e philosophemos, mas façamos philosophia portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito, portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em 1822, quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com todas aquellas bestas de que falla S. João.

Philosophemos então a respeito de D. Julia.

O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue, formando o seu juizo.

Formou? Philosophou?

Eu tambem.

Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á lucidez das suas previsões.

XIX

A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes sabios.

HOMERO.--_Iliada_, cant. IX.

As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas, que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.

O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador, ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo todas as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre, attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão ao temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era sempre excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios das assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á indulgencia do marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento nas menos expressivas alterações do semblante.

Padre Manoel--digamol-o de corrida--não lia sómente livros latinos, nem estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece que o sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta annos entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios, bem é de vêr que n'aquelle espirito escrutador se formassem desconfianças ingratas ao bom juizo de D. Julia, desde que ella se lhe figurou duvidoso exemplar de perfeição. Isto, aggravado pela secreta aversão que tinha a Eduardo Pimenta, explica o tom detrahidor com que lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar de travez que dardejava á phisionomia da desprecatada fidalga.

Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra «adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau avincou a fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma vizagem desabrida de zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com outro assumpto.

Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo ponto inquieta.

Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão, pediu-lhe o deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e rogou-lhe que, na presença de sua mulher, se abstivesse de contar historias de vicios, e principalmente de adulterios; visto que, em historias d'esta natureza, a moralidade do conto era sempre equivoca, senão era ridicula, como nas comedias de Molière, e de todos os propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:

--Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe que não perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das mulheres ou dos homens que não delinquiram ainda...

--Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...--objectou o padre.

--Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens, cujas consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente imagina atormentadas. Essa especie de contos rematava mais edificantemente, se o meu amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa de tal atraiçoou o marido, que era um homem de bem, extremoso por sua honra e sua mulher. Um dia, o marido, avisado da traição, matou a mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um desenlace tragico, talvez o unico para poder dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os circumstantes. Tudo mais que não for isto é prudente e honesto que não se divulgue ás pessoas que o ignorarem. Se o conde de tal vive, ha annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo, chorando, dilacerando-se a golpes de vergonha, em quanto sua mulher despejadamente alardêa seus vicios em Lisboa--se era essa a historia que o snr. padre Manoel ia hoje contar a minha mulher, com que moralidade tencionava encerrar o conto? O conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a moralidade? A condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?

--Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não levam suas esposas a casa da condessa.

--Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia não irá lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de regular proceder lá vão.

--Lisboa está assim...--murmurou o padre transigindo.--É o baixo imperio... a libertinagem da França de Luiz XV que chegou a Portugal cem annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As luzes são boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças. _Corruptio optimi pessima_, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles que circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas portas á ociosidade que se desenfastia a bailar, a jogar, a cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...

--Reduzindo, não, meu amigo--corrigiu Venceslau.--Não se persuada que eu reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella, faz-se o que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe parece. Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a mudança á natural e providencial transformação que se vae operando no animo das mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser que as saudades da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia. Felizmente, Eduardo volta para Lisboa na proxima semana, e eu muito estimarei que a intimidade das duas senhoras se renove como a tiveram em solteiras.

N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou n'aquella réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios oraes ás suas comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o espirito eram negras, inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir a si mesmo, sendo que um demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar na fragua da cabeça. Não ha ahi duvidar da esclarecida razão de padre Manoel Ferreira, que sabia latim a preceito e muitas sciencias boas e más; pois, sem embargo, ás vezes via-se tão importunado de satanicas suggestões contra Eduardo, que chegava a persignar-se e a repetir mentalmente o _et ne nos inducas in tentationem_.

D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de Eduardo a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes deslizes da verdade conjecturar que, no animo d'aquella senhora offendida pelo esposo, a amisade á outra que a fazia soffrer--bem que involuntariamente--cedeu o passo ao amor-proprio e a outros nobres sentimentos. O despeito era inevitavel, embora a sua bonissima condição lh'o demorasse. Este arrefecimento devia crescer á medida que ella deduzisse das tristezas silenciosas do marido vestigios da saudade indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia da mulher não esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse perigosa; e, se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra razão para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.

Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras visitas, e essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.

Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da maternidade, porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão, e dizia a sua mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama que se fazia venerar de seu marido, quando não fosse extremamente amada.

Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle colheu d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos pensamentos tanto podiam pruir no nariz como nos beiços.

Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe para D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.

O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e nocturnas. Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que Portugal ficava sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante paraplegico, bracejando, sem pernas que o movessem. Depois, a reunião das tropas francezas nos Pyreneos, ameaçando cassar as cartas de alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas. Em seguida as facções liberticidas conjuradas com o titulo de _Junta Apostolica_. Por ultimo a formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em jurar a constituição.

Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade, Venceslau Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos poderiam ser acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não lhes justificassem a iracundia. Depois que a rainha pediu licença para sahir de Portugal, visto que a lei a obrigava não jurando a constituição, as duas parcialidades do congresso defrontaram-se rancorosamente, até ao extremo de se arcarem peito a peito.

Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora e balla.

--Pistolas!--exclamou ella--isto que é?... Nunca te vi d'estas coisas!

--São hoje necessarias, minha filha--disse brandamente o deputado, desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.

--Para quê? tens inimigos?

--Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra «despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...--proseguiu elle abraçando-a.--O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente. Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que deixem a vida onde alardearam a deshonra.

--Mas que necessidade tens tu de te arriscares?--perguntou Julia.--És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica... Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.

--Iremos forçados--disse Venceslau--; mas, por emquanto, não. Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua estima...

--Mas eu--volveu D. Julia com meiguice--desejo que tu não penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...

--Sim... disse.

--Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que perderam.

Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:

--Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa santa da liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem de ti os bens da fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da patria, para que se não envergonhem de ser portuguezes.

Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.

Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus presentimentos.