Livro de Consolação: Romance

Part 11

Chapter 113,841 wordsPublic domain

--Que imaginação a sua, snr. commendador!... Deixe-me lá ir, que estou inquieta... mas espero que isto não passe de alguma passageira tempestade de ciumes...

--Pois sim, será; mas n'essas tempestades é que naufragam as mulheres do coração... as desgraçadas que amam, e preferem morrer martyres a viver vingadas... Vá, vá, seja o anjo amparador d'essa creança... que ninguem quiz salvar... ninguem... Eu só... eu só previ este desastre; mas succumbi ao receio de a perder...

D. Julia foi recebida sem a costumada expansão. Anna Vaz estava recostada ao espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto enchugava as lagrimas.

--Que tens, filha?--perguntou Julia.

--Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...

A creada sahiu.

Anna pediu á sua amiga que fechasse a porta á chave, pegou-lhe das mãos com vibração nervosa, e disse-lhe:

--Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?

--Tudo, filha...--balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa suspeita.

--Olha que meu marido... ama-te.

--Jesus!--exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo pavor.--Tu deliras, Anna!

--Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito, apesar das palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram para me atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou da repartição, perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida como fui a tua casa. Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a inesperada nova do teu casamento com Venceslau. Não te posso pintar o transtorno das suas feições! Fitou-me com os olhos espavoridos, e perguntou-me em tom desabrido: «Que historia extravagante é essa?»--Isto não é historia--disse-lhe eu--é a noticia que me deu Julia. Mas ficaste assombrado! Estás pallido! Que tens? que te importa que Julia case ou que não case?--«Não me importa nada...--respondeu elle, disfarçando miseravelmente a agitação--não me importa... mas o espanto é, n'este caso, bem natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com ella... e nada me disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto, sem elle poder dominar a ancia em que estava de se esconder aos meus olhos... Chamaram para a meza...; e Eduardo n'esta occasião, muito perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz: «não janto cá hoje... Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do Sepulveda... Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu o contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não voltou ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na angustia que nunca podia prever a minha alma preparada para as maiores provações... Até hoje, eras tu a minha consoladora... Que has de ser tu para mim de hoje em diante?

--O que fui sempre...--disse Julia com firmeza. Se as tuas suspeitas são verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a vergonha de me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá conhecido.

--Pois sim; mas não serei eu a victima?

--Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...

--Então quem?

--Elle...

--Como?... Não te comprehendo...

--Será a victima do seu opprobrio... Perderá a estima de todas as pessoas de bem, e a tua...

--A minha? não! não que o amo...

--Has de odial-o, quando a sociedade o abominar... Mas não antecipemos as consequencias d'essa loucura... Se ella é verdadeira, lembra-te que vou casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar erguer os olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se é uma paixão... Paixão!--repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada duvida.--Paixão!... não creias que tal sentimento possa nascer n'um homem que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever a manifestal-o...

--E nunca t'o manifestou?...

--Porque me fazes tal pergunta?

--Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?

--Não...--respondeu sem turvação a interrogada, rosto a rosto.--Que lembrança a tua!

--É verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te mostrei...

--A carta?!

--Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido... Que outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não disseste, seria fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de boa amiga devia ser que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo... Permittisse Deus que elle me não désse rivaes com menos virtude...

--Rivaes!--contradisse Julia irritadamente.--Rivaes são as que acceitam a competencia... É preciso que duas mulheres amem o mesmo homem para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse as declarações de teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...

--Então confessas que era para ti a carta?

--Se confesso!...--tartamudeou Julia.

--Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me que meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e que elle te mandava depois aquella carta...

D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:

--É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas linhas escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda, se m'a elle enviasse... Lembra-te das palavras.

--Que eu não pude entender... bem me recordo... _Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide..._ Era isto; mas--proseguiu Anna em pranto desfeito--o meu infortunio ainda assim fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada, e perdida para sempre, onde o levará o desespêro...

--Paixão!...--repetiu Julia motejando a palavra.

--Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa como louco? Teria escripto uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...

--Ó filha, essa palavra em cartas de namoro não tem significação assustadora...--replicou Julia jovialmente.--Creio que não recebi uma só carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me não fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...

--E como tu pódes rir, sendo tamanha a minha infelicidade, ó Julia!...

--Não exageres, creança!--animou a noiva de Venceslau Taveira com incrivel frieza de animo.--Teu marido ha de voltar para ti curado pela reflexão e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado á mais estupida vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.

--Mas não te magôa vêr que é necessario acabarem as nossas relações?

--Como? acabarem...--acudiu D. Julia espantada.

--Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presença e na de meu marido?!

--Então queres dar ao caso as proporções do escandalo?--replicou Julia altivamente.--Dirás a teu pae que Eduardo me fez a côrte? Obrigar-me-has a dizer a Venceslau que as nossas relações se romperam, porque teu marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a infame que te amou o marido, e a ti a honesta dama que me expulsou de sua casa, e não quiz manchar-se no descredito da minha?

--Jesus! onde tu vaes!--exclamou D. Anna--pois, se eu deixar de ir a tua casa, é forçoso que se publiquem estes desgostos que ninguem sabe?

--É: ha de sabêl-o teu pae, ha de sabêl-o o homem que não será meu marido... nem eu o quero... com tal condição. E, depois, tu tens força para a lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a sua deploravel fraqueza? E não temes que teu pae, já tão quebrado de forças, morra de pena de ti, odiando o homem, que eu, tão enganada pelos teus olhos, affirmei havia de ser um excellente esposo?

--Que hei de eu então fazer, Julia? Aconselha-me...

--Fazes o que eu te pedir?

--Se podér...

--Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são sempre seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com azedume, não dês côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o mesmo amor, que cada vez t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e, na presença de teu marido, falla-me sem a minima reserva, e não procures surprehender nos olhos d'elle a intenção com que me olha. Se fizeres isto, restituo-te Eduardo com o juizo restaurado.

--Mas, se não poderes...

--Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.

Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:

--Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero que o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e que estou boa... Inventa qualquer coisa...

Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador, e explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D. Julia entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:

--Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o meu querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto... Agouro não sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais noivo!... Os homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia--a patria, e uma só paixão--a das conquistas da felicidade para o genero humano...

Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe repetiam na alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta crise em que as interrogações de Anna Vaz a mortificaram.

--Está febril minha filha, não está?--perguntou o commendador.

--Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.

--Mas que era?...--volveu Francisco Vaz.

--O que eu lhe disse...

--Ciumes?...

--Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...

--Torturas...--emendou o velho; e voltando-se para Taveira, continuou:--O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos cinco annos, snr. Taveira?

--Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.

--Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe pouco do coração do homem, snr. Taveira--contrariou o commendador.--A mulher que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o homem, capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa generosa, se algum existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha condão funesto...

--Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...--disse o deputado.--Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que a frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle não examinou quando era moço... Espero que o mentiroso prisma se lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a consciencia...

Chegou D. Anna.

A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira conversou nos assumptos habituaes--politica, e congresso dos reis em Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D. Carlota recusaria jural-a, etc.--materia duvidosamente lyrica para noivo.

Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse a perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo n'aquella noite.

--Ámanhã o procurarei--disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador escolhido pelo velho.--Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo que me devem levar a noite toda.--Accrescentou o deputado.

--Está a chegar o dia do repouso...--observou o commendador alludindo ao casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.

--O dia do repouso é o primeiro da morte--contraveiu Venceslau.--Ninguem repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais trabalhados, e talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil actividade. A riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos o thesouro dos bens da alma.

Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos, salvo se elles são philosophos; mas a raridade d'esta especie é já grande; e algum Socrates que ainda apparece a maridar-se, é contar com elle bem castigado por Xantipas.

Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao commendador o breve prefacio do seu projectado casamento; porém--rasoavelmente lh'o advertiu o velho--tão desenthusiasta expunha ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.

--Eu bem sei...--dizia o commendador--que entre pessoas sisudas o casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente fallarem do seu futuro...

D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma: «Estarei eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será bem o amor que preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente coração de um homem?... Com que frieza elle fallava de politica, olhando para mim hoje como hontem, como sempre, como se eu alli não fosse mais do que uma das costumadas pesssoas do seu auditorio... Mas...»

Proferia ella mentalmente aquella conjunção--aquelle _mas_, que daria as melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando da rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio das Amoreiras.

Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a pessoa que sahira á frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.

--Que é?--perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas, que afastou.

--Não se assuste, minha senhora--disse Eduardo Pimenta no mais baixo tom de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.

--Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?--murmurou ella tremendo a seu grande pesar.

--Esperava-a, snr.ª D. Julia... para lhe dar os parabens do seu consorcio.

--Acho improprio o local... Venho de sua casa; era lá que eu devia merecer-lhe essa delicadeza...

--Nada de ironias, senhora!

--Ironias!? em que tom V. S.ª me está fallando! Eu não preciso de contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna Vaz?

--Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, senão póde restituir-m'a... Um reptil que nos nauzêa esmaga-se com o pé... Que mais vale o coração do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V. Ex.ª? esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me despreza...

--Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga intima--disse D. Julia sensibilisada, mas serena.

--Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas resignadas...

--Que quer então?

--Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e o seu futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma denuncia...

--Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é que eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a brevemente prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão d'ella e de mim!

--De V. Ex.ª!?--interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se delatava no tremor da voz.--Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei eu de adoral-a, para offendel-a?

--Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua alma.

--Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois não viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa o preceito de lh'o não revelar?

--Falle baixo--acudiu Julia--que póde ouvil-o o creado. Jesus, que desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me, esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe morreu nos braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não obrigue a fugir de Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a minha alma, se me attendesse, se me deixasse ser sua verdadeira amiga! Juro-lhe pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não domina o desatino que está cavando a sepultura de sua mulher...

--Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?

--Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me respeite!--disse D. Julia com a maxima gravidade e decoro.--E, se não, adeus para sempre! Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha afflicções que se tornam ridiculas, se a coragem as não subjuga. Desterrar-me-hei para que o snr. Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que ha uma coisa mais preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que me deixe recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem de mim.

--Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de Portugal--supplicou Eduardo com apaixonada resignação.--Juro que não perturbarei a sua tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que fique; mas não me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um gemido, sem que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir devorando. Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?

--Ó snr. Eduardo...--balbuciou Julia.

--Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e talvez... muito ingrata... Adeus.

Eduardo desviou-se, e a sege abalou.

E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente chorava, porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando ninguem a observa.

Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração de mulher! Chorar! porquê?

Ai! chorava por que não podia odial-o...

Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo estima que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.

XVIII

C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...

A. DUMAS.--_Amaury._

A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do amago da alma que parecia gemer em grande afflicção.

O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao alvoroço proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus livros latinos, não tinha lido casos de noites desveladas por motivos molestos, se era amor quem desafinava a harmonia das funcções empenhadas no phenemeno do somno. Não obstante o silencio dos classicos romanos a tal respeito, padre Manoel indagou da propria fidalga a causa das suas noites mal dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios de infelicidade, resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez incompetente, assim a Venceslau como a ella.

O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar as apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso, aconselhado por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.

D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que desadorava entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu dizendo que a sua palavra estava dada.

--E o seu coração, minha senhora?--perguntou o padre.

--O meu coração...--murmurou ella--morreu quando as pulsações cessaram no coração do primeiro e unico homem que amei.

E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou que D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita, moralmente fallando.

E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame de tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar e a pedir a Deus que interviesse de modo que o casamento não se realisasse.

Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse, o casamento fez-se no fim do anno 1821.

Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro dos quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração publica muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas virtudes de patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro orador e preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que representava duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito abjecto--mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A traquitana de sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das Necessidades, onde então legislava o congresso. Madrugava mais que os seus collegas abastados para poder chegar ao mesmo tempo que as carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente mediocridade, auxiliada pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com que desculpamos os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a cara.

Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se admirava nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella tomou a isempção do marido, julgando-se por isso menospresada na riqueza. Quanto a ser amada, confessava D. Julia que o era como seria qualquer outra menina pobre que não désse tão brilhante, e tão desdenhada independencia a seu esposo.

O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.

Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das nações civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.

Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima pontualidade a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á exactidão do repasto domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio, não antepunha o gozo da familia aos deveres de cidadão estipendiado para a servir. A poesia aqui tambem não é que farte para um madrigal.

As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas, de bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a e ameigando-a:

--Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?

Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau, porém, notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da noite, difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam em abrimentos de bocca.

A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete onde trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto poesia, confessemos que em casa de cada mercieiro ha inspirações para tres opopêas.

E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não ía Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar convivencia do commendador?

É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.

Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.