Part 9
Tal reparo antevejo eu que me ha-de ser feito pelos pensadores da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo--o que escrevi escrevi. A primeira vez que puz os olhos naquelles bonitos versos do Child Harold, impei. Fui vivendo e lendo, e affiz-me ás injurias de estranhos. Livros, jornaes serramadeiras, jornaes populares, jornaes atoalhados, jornaes lençoes, em se tocando em Portugal, sancta Barbara, advogada dos trovões, nos acuda! Fervem as calumnias, os motejos, as accusações de todo o genero; o que inquestionavelmente é grande, é nobre, é generoso! O dar é assim!--n'uma nação cuja lingua, pouco conhecida na Europa, torna impossiveis as represalias. E se fosse a verdade só! Muitas verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas as nações do mundo; mas a calumnia tem mais pilheria; e Portugal é um thema em que até os inglezes querem ter graça! Os francezes ainda alguma vez por engano nos fazem justiça: elles nunca. Em Inglaterra não ha nenhum tolo que não faça um livro de _tourist_, nenhum architolo que não o faça sobre Portugal: estes livros e os sermões constituem o grosso da sua litteratura[4]. Assim, oh philosopho idealista progressivo, eu sei tão bem como tu o que nos ha-de custar a festa de S. Pantaleão, quando esta famosa historia for caír nas mãos dos criticos d'alem-mar. Mas pensas que me faltará moeda para dar troco ás miserias de revisteiros, touristas, magazineiros, e fazedores de livros em sarapatel mascavado de normando e teutonico, surripiado por metade em cada palavra na melodiosa pronunciação britannica? Enganas-te, oh caricatura viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os inglezes se rirem de elles terem muito dinheiro e nós pouco, torçamos a orelha, e choremos como creanças pelas barbas abaixo. Quando elles compararem o Strand ou Regent-Street com os arruamentos da nossa cidade baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as nossas azinhagas reaes, cubramos a cara. Mas quando compararem as venturas do homem de trabalho inglez com a triste sorte do peão portuguez, risada. Quando oppozerem as virtudes e illustrações das suas classes infimas á barbaria e estupidez das nossas, duas risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades (do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwell e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular, e da clareza, simplicidade, e rectidão de todas as suas leis em geral, e nos atirarem á cara o absolutismo dos nossos antigos monarchas, a bruteza da nossa ordenação, a intolerancia dos inquisidores, trinta risadas. Quando, emfim, nos offerecerem em escambo das nossas crenças, dos nossos costumes religiosos, os seus costumes e a sua crença, que esborôa ha mais de dous seculos em quatrocentas crençasinhas, com seus nomes muito arrevesadinhos, quatrocentas risadas ou antes uma risada só, mas retumbante, macissa, inextinguivel, como aquellas famosas gargalhadas dos deuses de Homero. O caso é d'isso! Se caíssemos na troca ficavamos logrados. Traziam-nos de involta na carregação dos sermões domingueiros os dizimos e as bruxas, de que ha muito estamos livres pela misericordia divina, e que são os dous maiores flagellos da Inglaterra, depois da lei dos cereaes e dos arrendamentos das terras, que ahi alugam, até por semana, a dez milhões de esfaimados quatrocentos mil proprietarios gordos e anafados.
Ao menos são quatrocentas mil barrigas de uma amplidão respeitavel, campeando entre dez milhões de irmãos nossos, que não foram formados de barro, como nós e Adão, mas de massa insonsa de batatas.
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[1] Isto escrevia o nobre Lord em 1809, quando os inglezes reivindicavam dos francezes o throno de Beresford 1.º occupado pelo usurpador Junot 1.º--_(Nota do gamenho que fala)._
[2] Estylo epico em Inglaterra e na Cafraria.
[3] _Poor paltry slaves!_--_Pobre_ na livre Inglaterra é synonimo de _desprezivel e vil_, por isso traduzo assim.--_(Nota do gamenho orador)._
[4] Não me persuado de que nenhum leitor tome ao pé da letra este brinco litterario. A Inglaterra é uma grande nação, e possue no seu gremio muitos homens honestos, sabios, e por todos os modos respeitaveis. Mas a essa classe não pertencem por certo aquelles, que, propondo-se illustrar o povo, escrevem ácerca de uma pobre nação, que nunca os offendeu, toda a casta de absurdos e mentiras insulsas.
V
EXCURSO PATRIOTICO.
Falemos serio: não comtigo, philosopho esthetico-romantico-progressivo, que não vales a pena d'isso, mas com o povo portuguez, que fala portuguez chão e intelligivel. Falemos serio, porque estas materias de crença e de culto são cousas graves e sanctas. Saber resistir á violencia é forte, mas vulgar; saber resistir á calumnia e aos motejos é maior esforço e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos nossos costumes; envergonhemo-nos de muitas vezes não seguirmos na vida practica os dictames do christianismo: não nos envergonhemos, porém, do culto dos sete seculos da monarchia. A lingua e a religião são as duas cadeias de bronze, que unem no correr dos tempos as gerações passadas ás presentes; e estes laços que se prolongam através das eras são a patria. A patria não é a terra; não é o bosque, o rio, o valle, a montanha, a arvore, a bonina; são-no os affectos que esses objectos nos recordam na historia da vida: é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a lingua em que pela primeira vez ella nos disse:--"meu filho!"--A patria é o crucifixo com que nosso pae se abraçou moribundo, e com que nós nos abraçaremos tambem antes de ir dormir o grande somno, ao pé do que nos gerou, no cemiterio da mesma aldeia em que elle e nós nascemos. A patria é o complexo de familias enlaçadas entre si pelas recordações, pelas crenças, e até pelo sangue. Tomae, de feito, as duas dellas que vos parecerem mais estranhas, collocadas nas provincias mais oppostas de um paiz: examinae as relações de parentesco de uma com outra familia, quaes as desta com uma terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que tão estranha vos pareceu á ultima, achareis um fio, enredado sim, talvez inextricavel, mas sem solução de continuidade. Uma nação não é só metaphoricamente uma grande familia: é-o tambem no rigor da palavra.
A oração que consolou nossos avós nos consola no dia da amargura: o gesto com que imploramos a providencia é mais vehemente quando nos foi transmittido por aquelles que pedem por nós a Deus. É por esse meio que os homens apertam mais os laços invisiveis que os unem aos seus maiores; porque o sentimento mysterioso da familia, e portanto da nacionalidade, se purifica e fortalece quando se prende no céu.
Vêde na historia a prova de que a religião póde por si só crear uma nacionalidade mais rapidamente que todos os outros elementos que tendem a compôr as nações. Considerae as cruzadas; essa multidão de homens nascidos em paizes diversos, entre os quaes não ha nenhuma communidade de interesses, antes muitas vezes odios sangrentos e fundos. Lá na Asia, em frente do islamismo, formam um só povo; são irmãos, porque ajoelham todos ante o mesmo altar; combatem todos pela mesma idéa religiosa. Olhae para os mussulmanos: vêde o koran agglomerando, assimilando o beduino e o egypcio, o alarve do Atlas e o negro de El-Sudan. Onde quer que um pensamento grande precisa de toda a energia de uma unidade social para se desenvolver e realisar, lá haveis de encontrar a religião produzindo essa energia.
Se isto é assim, qual culto, entre os de todas as parcialidades christans, será mais efficaz em gerar essa unidade forte do amor patrio, que dá, não tanto a vida activa e exterior, como uma vida intima, escondida, tenaz, que resiste á morte e á dissolução social? Serão essas mil variações do protestantismo, que diariamente se vão subdividindo, e condemnando umas pelas outras; essas crenças incertas, em que o filho já despreza o culto que o pae seguiu, e o neto desprezara o de ambos? Quando e onde, não dizemos na mesma cidade e na mesma rua, mas na mesma familia, em quanto o marido dorme ao som monotono do sermão anglicano, sublime de trivialidade e tedio, a mulher dá representações de Bedlam[1] n'uma senzala de quakers ou de methodistas, póde-se acaso dizer que ahi a religião é laço que impeça a morte do corpo da republica, não nos dias de ventura e prosperidade exterior, em que é facil conservar pelo orgulho a unidade nacional, mas nas epochas de calamidade e decadencia? Parece-nos pouco provavel. Ahi, as prisões moraes da familia são apenas habitos humanos, e não estão harmonisadas e sanctificadas por se prenderem no céu: o primeiro sopro das paixões ou da desventura as reduzirá a pó. A historia tambem no-lo diz, e a historia não é senão a prophecia do futuro.
O protestantismo accusa o catholicismo de se haver afastado da pureza christan antiga, e gaba-se de ter revocado o christianismo ás suas tradições primitivas. O discutir tal materia, em relação ás doutrinas, fôra insensato: os tempos dessa argumentação consummaram-se; tudo por este lado está dicto de parte a parte. Quanto, porém, ás formulas exteriores do nosso culto, são essas que ainda hoje attrahem os insulsos motejos da imprensa protestante; é o culto catholico principalmente que dá origem áquellas graças inglezas, tão agudas como a intelligencia dos habitantes do _Bethnal-Green_ de Londres ou do _Winds_ de Glasgow, embrutecidos pela fome, pela embriaguez e pela immundicie; tão brilhantes e leves como o fumo de carvão de pedra, que constitue a atmosphera britannica. Diariamente são accommettidas as duas nações das Hespanhas nos seus habitos religiosos por homens que empregariam melhor o tempo em estudar os cancros asquerosos que devoram moral e materialmente a classe popular no seu proprio paiz, e em pedir á riqueza, só poderosa, só respeitada, só insolente, mais alguma caridade para com os muitos milhões dos seus compatricios, que lidam, cheios de fome e de frio, cubertos de farrapos e vermes, para accumularem aos pés de bem poucos homens as fortunas incalculaveis e quasi fabulosas que alimentam o luxo desenfreado de Londres, da Roma, ou antes da Babilonia moderna.
Por certo que no culto catholico se tem introduzido abusos, e para isso contribue muitas vezes o proprio clero, menos instruido, menos bem educado, moralmente, que o clero anglicano. Mas em que é culpado o culto da pouca instrucção dos seus ministros, e dessa falta de educação moral, que diversas causas, alheias á religião, têm trazido e trazem ainda? É a igreja que recommenda a ignorancia? São os abusos consequencias logicas das doutrinas catholicas? Eis o que cumpriria se provasse, como não é difficultoso mostrar, que o protestantismo, querendo annullar as pompas e espectaculos, as formulas externas e brilhantes do catholicismo, matou tudo o que a crença do Calvario tinha de uncção, de consolações, de affectos para o commum dos seus sectarios, e converteu a religião n'uma certa metaphysica nevoenta, que foge á comprehensão das almas rudes e vulgares, quebrando todos os esteios, a que nesta vida de tristezas e dores ellas se encostavam para confiarem no céu, e consolarem-se na esperança; porque esses arrimos, necessarios á sua fraqueza intellectual, eram o unico meio de subirem até o throno de Deus, e descerem de lá armadas de resignação para continuarem a luctar com as tempestades da existencia. O protestantismo foi só feito para os ditosos e abastados da terra!
Vêde aquella casinha, tão humilde e só, no meio de um descampado. Lá, sobre camilha dura e rota, delira em accesso febril um filho, unico amparo da mãe idosa, que véla chorando ao pé delle. Na sua solidão e miseria nenhuns soccorros humanos póde esperar a pobre velha, cujas mãos trémulas em vão tentam conchegar as roupas, que o febricitante arroja, murmurando afflicto com o ardor que o devora. Uma lampada de ferro, que allumia frouxa o aposento, arde no canto opposto diante de uma grosseira e affumada imagem da Virgem. A triste mãe volve para lá os olhos embaciados da idade e das lagrymas, e sente que não se acha inteiramente abandonada. Alli está outra mãe que tambem derramou pranto por um filho; pranto mil e mil vezes mais amargoso que o seu. Ella ha-de comprehender-lhe a afflicção e valer-lhe, porque é boa, e poderosa ante Deus. Ei-la, a pobre velha, que trôpega se arrasta, e ajoelha aos pés da imagem, e cruza as mãos enrugadas, e ora; ora com fé viva. Na procella de terrores que a cercam começa a bruxulear uma luz de esperança: espera, porque crê na possibilidade da intercessão e dos milagres; e anima-se, e a tempestade da sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se, porque, no meio das lagrymas e das resas, ella pensa lá comsigo que aquella imagem trouxe já muitas consolações a seus paes, a ella mesma, e a toda a familia, e que a Virgem Sanctissima ha-de acudir-lhe ao seu filho, que desde pequenino gostava de ir apanhar as flores campestres para enfeitar a Senhora, e que tantas vezes á noite antes de se deitar ía pôr-se de joelhos alli onde ella estava, e resar uma salve-rainha. E quantas vezes, depois destas orações ardentes, volve Deus olhos compassivos para a morada da miseria e da amargura, e obra, não um milagre inutil, mas o beneficio que faria qualquer medico, se na habitação solitaria houvesse a possibilidade de se buscarem os soccorros da sciencia humana!
Dirá o protestantismo que isto é idolatria? Que! Ignora, acaso, o mais grosseiro catholico que acima dessa imagem está o espirito puro que ella representa, e que acima desse espirito está Deus? O catholicismo no seu culto das imagens, nas suas festas, nas suas _visualidades_, como vós lhes chamaes, commetteu o grave erro de suppôr que a maioria do genero humano não era composta de philosophos, nem capaz de um espiritualismo absoluto; de abstrahir inteiramente das cousas sensiveis para remontar ao céu. O catholicismo lembrou-se das doutrinas do Christo; accommodou-se á curta comprehensão dos pequenos e humildes. Vós tendes um evangelho mais fidalgo e altivo. O protestantismo convem por isso ao Reino-Unido, onde os quatrocentos mil senhores do solo são tudo, e são nada quinze ou vinte milhões de servos de gleba e de mendigos.
E como deixaria elle de ser exclusivo, aristocratico, orgulhoso? Essa crença, ou antes essa infinidade de crenças, unidas só em guerrear a igreja de dezoito seculos, e que no dia em que lhes faltasse o inimigo commum se despedaçariam mutuamente, não podem deixar de viver de um mysticismo perfumado, de um culto inintelligivel para o povo. Desde que a reforma substituiu á auctoridade e á tradição a sciencia humana, o raciocinio e a discussão, saíu do templo para a eschola; transformou-se de fé em theoria. Então o christianismo deixou de ser uma cousa practica e positiva para todos os homens: os espiritos grosseiros e ignorantes acceitaram-n'o como um costume que acharam no mundo, sem affecto nem má vontade, e as imaginações desregradas fizeram cada qual uma religião a seu modo. Deram uma biblia ao ganhapão, ao porcariço, ao belforinheiro, e por esse facto constituiram-n'o theologo, sancto-padre, e até concilio. Creram ter estendido ao genero-humano a maravilha das linguas de fogo que desciam sobre os apostolos, e ficaram muito contentes de si. As multidões é que ficaram tristes e desconsoladas, porque tinham desapparecido de redor dellas todos os symbolos, todas as imagens, que lhes serviam como de marcos miliarios para buscarem a Deus.
Affigurae-vos, de feito, o exemplo da mãe idosa e miseravel, que vê em transes mortaes o filho, seu unico abrigo; buscae este exemplo ou outro qualquer, porque entre os pequenos não são raras nem pouco variadas as occasiões de asperos infortunios. Lançae-a no seio do protestantismo. Qual refugio lhe offerecerá a religião; refugio immediato, solido, esperançoso? A biblia? Tambem nós sabemos que thesouros encerra a biblia: tambem nós sabemos quantas vezes as suas paginas divinas têm feito dilatar em torrentes de lagrymas as negras aperturas do coração: tambem nós sabemos que dessa fonte inexhaurivel mana a resignação e a paz: a igreja catholica sabia-o muitos seculos antes de vós existirdes. Mas quem vos assegura que a pobre velha achará a passagem analoga á sua situação; que encontrará nas palavras do livro sacrosanto o conforto de que carece, e a esperança do soccorro immediato e sobre-humano de que não menos precisa? Quem vos assegura, emfim, que ella saberá ler? Ou é que no paiz dos quakers a inspiração tambem faz de mestre-eschola, como exercita o mister de mestre de theologia?
E depois, não sabeis que a dor moral do homem do povo tem gemidos e queixumes; é estrepitosa, delirante, sincera? que não se reporta, não se esconde, e vem ao gesto, aos meneios, aos olhos, á voz, como a dor physica! Julgae-la acaso semelhante ao _spleen_ do dandy, ou ao devorar intimo e calado das almas, a quem a educação e a sciencia ensinaram a dignidade das grandes agonias? Estes taes, exteriormente tranquillos, podem encostar-se ao braço, fitar os olhos no livro aberto ante si, e aspirar naquellas paginas sublimes e profundas o halito consolador que dellas espira. Mas para o homem do povo, quasi primitivo, quasi selvagem, cujos olhos nadam em pranto, e que se estorce e brada flagellado pela afflicção, a biblia é nesses instantes inutil, porque é impossivel. Deixae-lhe a imagem do sancto, o crucifixo, o voto, o altar domestico, a lampada accesa ante o vulto do martyr ou da Virgem: deixae-lhe o ajoelhar, o gemer, o resar, o fazer promessas. Deixae os symbolos materiaes da confiança na providencia á imbecilidade da natureza humana, aliás, crendo anniquilar a superstição e a idolatria, não fareis senão matar a vida moral e religiosa do povo.
Se nos dias, desgraçadamente mui communs, das máguas extremas só o catholicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento só o catholicismo tem festas que convertam para a gratidão e para Deus o seu goso interior, que tende a trasbordar em risos e folgares. O simples repouso do domingo, para o que, condemnado a lavor indefesso durante a semana inteira, compra á custa de suor e cansaço um pouco de pão duro e grosseiro, é uma alegria semelhante á do preso, que, adormecendo em ferros, despertasse livre. Aquelle coração precisa de dilatar-se, aquelles sentidos de recrearem-se, aquelle espirito murcho e triste de se tornar viçoso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos n'alguns desses dias reservados ao descanço. É então que o catholicismo lhe offerece as pompas das suas solemnidades; o templo illuminado, os canticos dos sacerdotes, as harmonias do orgão, o espectaculo brilhante das vestes sacerdotaes e dos adornos do altar, os ramilhetes povoando os degraus do sanctuario, ou juncando o pavimento, o incenso embalsamando a atmosphera. E como tudo isto é para as multidões, o culto trasborda do estreito recincto e derrama-se pelas ruas, pelas praças, pelos campos em procissões, em cirios, em romarias, e o povo fluctua, folga, resa, tripudia, esquece-se dos seus destinos de miseria e trabalho, ama a religião que o consola, e voltando ás suas habituaes fadigas, leva para o meio dellas a saudade do dia-sancto e as recordações affectuosas da igreja.
E o protestantismo? O protestantismo despedaçou os vultos dos sanctos, prohihiu os oragos, as procissões e as romagens: esfarrapou alvas, casulas, amictos, pluviaes; apagou as luzes; varreu as flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebração do domingo; e fez bem! bem ao povo, a quem para tedio e tristeza, nos paizes protestantes, sobeja o domingo. E porque fez elle isto? Foi porque essas cousas eram superstições papistas: as imagens idolatria, a agua benta agua lustral, as vestes sacerdotaes indecencias ridiculas, as ceremonias visagens, a missa mentira. Passagens de biblia e compridos sermões ficaram bastando ao culto externo, e se alguma cousa deixaram ainda a este, poetica e attractiva, foi o canto dos psalmos e as harmonias do orgão; porque, como todos sabem, nas agapas dos christãos primitivos cantavam-se os psalmos ao som do orgão!! Os protestantes são indubitavelmente antiquarios eruditos, mas, sobretudo, logicos.
Qual foi o resultado desta reformação insensata de instituições antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou n'um habito machinal, n'uma acção que se practíca na impossibilidade de se practicar outra. A policia vigia sobre isso. Deixe ella ao domingo abrir as lojas, os passeios, os estabelecimentos publicos, os espectaculos, as fabricas e as officinas; deixe correr nas veias do corpo social o sangue comprimido, e os templos dos districtos d'Inglaterra mais fervorosos no protestantismo ficarão tão ermos como as igrejas da Irlanda, onde o reitor préga ao sacrista o suado sermão, que ha-de um dia, impresso, allumiar o mundo, emquanto o seu recalcitrante rebanho, á porta do presbyterio solitario, ouve ajoelhado na rua a missa que em altar portatil lhe diz o pobre clerigo catholico, verdadeiro e legitimo pastor, a quem incumbe o consola-los, bem como ao parocho protestante pertence... o que? Fazer predicas ás paredes, e comer os dizimos, sacramento, que, de certo, o puritanismo protestante achou n'algum alfarrabio velho ter sido instituido por Christo!
Temos ouvido lamentar ás pessoas de boa fé excessiva, destas que estudam as nações nas apparencias, e não na vida intima, que o catholicismo não tome entre nós a severidade e decencia exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor não seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas não offereçam na celebração dos officios divinos a gravidade, o silencio, a ordem, o aceio de um templo protestante, nas horas destinadas á oração. No estado actual das sociedades, em que o fervor dos primeiros tempos christãos tem esfriado, em que, tanto entre catholicos como entre protestantes, a religião deixou de ser o primeiro, ou, ao menos, o exclusivo negocio dos homens, o que elles desejam seria impossivel, e se absolutamente um bem, relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse estado de cousas em Inglaterra são a prova mais clara da morte, se não de uma certa religião vaga, em que os espiritos mais cultivados se alevantam até ao pé do throno de Deus, ao menos da religião positiva, practica, definida, morta e enterrada ha muito na mina de carvão de pedra chamada Gran-Bretanha.
Já dissemos que não é tanto o sentimento religioso que guarda em Inglaterra a decencia do culto, como a admiravel policia ingleza. Quem não o sabe? Quem ignora que naquelle paiz a religião tem a natureza de outra qualquer formula material da sociedade; que é uma cousa como o regimento, a nau de guerra, o _workhouse_? Ao christão um vigario, uma biblia, e a cadeia se perturbar o officio divino; ao soldado um coronel, uma espingarda, e uns açoutes se mecher a cabeça na fórma; ao marinheiro um commodóro, um posto juncto da amurada, e um mergulho por baixo da quilha se offender a disciplina; ao miseravel que vae cahir no workhouse um director implacavel, uma atafona, e ração curta para aprender a deixar-se estalar á mingua sem pedir esmola. A cada instituição suas condições, sua sancção penal, seus destinos: o regimento serve para provar aos chartistas que a melhor organisação politica possivel é a que faz morrer annualmente milhares de obreiros de fadiga, de fome, e de febres putridas sobre uma pouca de palha fetida e humida, no fundo de subterraneos; a nau serve para civilisar a India pelas contribuições, e moralisar a China pelo opio; o workhouse serve para curar radicalmente os que não têm nem pão nem camisa, do vicio infame da mendicidade; emfim a igreja dominante _(established church)_ serve para sustentar de dizimos muitas familias honradas com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre as quaes nenhuma excede a vinte mil libras esterlinas _per annum_, ou, em moeda portugueza, a obra de uns mesquinhos duzentos mil cruzados.