Part 8
O padre prior tinha tido tempo de estudar individualmente o caracter dos seus freguezes, e por isso seguíra aquelle caminho para chegar ao fim moral que se proposera. De feito o velho moleiro andou abstracto todo o dia. Pois de noite? Não pregou olho! Ás escuras via diante dos olhos as setenta peças a reluzirem como uma visão ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquellas horas longas de vigilia punha-se a calcular a acção prodigiosa que ellas teriam incorporadas com mais de outras tantas que elle tinha enterradas. Era o que bastava para dar o harmonioso epitheto de _minha_ á azenha do Ignacio Codeço, e pôr lá o seu Manuel a labutar, e a ganhar dinheiro, muito dinheiro: e elle a tomar-lhe contas ao sabbado: meia moeda ... uma moeda ... duas moedas; e a pilha-lo em uma gaziva de seis vintens; e despertava daquella especie de extasi ao atirar-lhe o primeiro pontapé. Era um regalo! Ria ás vezes ao lembrar-se de uma que elle havia de pregar no outro dia ao Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o _créto_ de Perpetua Rosa por metade, por um terço, talvez.--"Oh sô Agostinho, você não vê que isso é dinheiro perdido? Cinco mil réis! seis mil réis! Vamos; é minha a divida."--E tripudiava na cama, e assentava-se, lançando mão dos calções, para ir, para correr, para voar, antes que algum diabo (pensava elle) fosse metter no bico ao usurario do tendeiro a mudança de fortuna de Bernardina. Chegava, naquelle fervor, a enfiar os calções mas recaía na cama ao vêr, ou antes ao não vêr, que era escuro como breu. Momentos havia em que as suas idéas tomavam outro curso: representava-se-lhe seu irmão Barnabé a largar-lhe o casal dos Caniços pelas vinte moedas e por mais umas trinta peças com que o engodava; e elle a fazer estercar as terras, e alqueivar, e lavrar, e semear, e mondar, e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durazio, e achar uma excommungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe á sorrelfa uma abáda daquelle grande trigo, e elle a desanca-la com uma tranca. E saía desse pesadello de homem acordado a ranger os dentes, e com a mão agarrada á maçaneta do catre. D'ahi a pouco vinha-lhe outra enfiada de imaginações, e d'ahi outra, e outra, até que por fim a idéa de que as setenta peças eram suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que o arrancar-lh'a de lá seria o mesmo que metter-lhe no bucho uma apoplexia. Então punha-se a scismar no pensamento capital e gerador de todas essas imagens bemaventuradas que lhe luziam no olho, o como chamaria á muxilla as setenta do dote. Abafa-las? Nega-las ao prior? Estremeceu horrorisado; porque Bartholomeu era homem de probidade, a seu modo, que, sem malicia seja dicto, vinha a ser um modo como o de tantos homens honrados que todos nós conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legitimo de arranjar o negocio. Caíu então no que o prior queria que elle caísse. Casou _in mente_ o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto, as peças eram suas; suas porque o Manuel pellava-se com medo delle, e casado ou solteiro havia de ficar-lhe sempre debaixo dos cabeções. Assentado este ponto, o moleiro sentia um certo refrigerio interior que o consolava. Não tardou a adormecer no somno do justo, e em placidos sonhos balouçou-se todo o resto da noite entre a azenha do Ignacio Codeço e o casal de seu irmão Barnabé. Saía ás vezes desta hesitação beatifica sonhando no gatazio que ía pregar ao Agostinho, e ria com um rir de innocencia. Era um sancto velho aquelle Bartholomeu da Ventosa!
O leitor deve estar já sufficientemente aborrecido de tão comprida historia do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso não o farei assistir ás explicações entre o pae e o filho. Mais repousado o sangue com o dormir, Bartholomeu reflectiu pela manhan que o propor ao parocho o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha suas parecenças com o haver-lhe proposto para ser dotada sua sobrinha Joanna, idéa maldicta que lhe tinha custado uma risada nas suas barbas e um revértere com texto de Biblia. Por outra parte pensava que Manuel era o seu unico herdeiro, e que se Bernardina trazia para a ceia, elle levaria para o jantar, principio consagrado pela philosophia saloia, talvez desde o tempo dos mouros. Emfim o pae nestes vaivens, e o filho com os receios que o leitor póde imaginar, fizeram ao declararem-se uma verdadeira scena de comedia. Ao cabo, porém, de tudo entenderam-se. Assim o padre prior, á custa das suas economias de quarenta annos, teve a consolação de fazer tres sermões, um a Bartholomeu sobre a cubiça e avareza, outro a Manuel sobre o trabalho, sobriedade e mais virtudes annexas á condição de pae de familia, outro finalmente a Bernardina sobre a honestidade, modestia e sujeição das mulheres casadas. Depois, quando veio a paschoa, regalou-se de atar o laço matrimonial entre os dous amantes, acabando por uma vez com as interpellações das lavadeiras, com as espreitaduras dos curiosos, e com as murmurações do beaterio. Custou-lhe a brincadeira setenta peças, e o atirar á rua o sermão sobre a avareza, porque o Bartholomeu continuou a ser sovina até a hora da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o diabo, não só por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto, que, perdendo a vergonha, já começava a sizar nas maquias, com escandalo dos freguezes, e grande mortificação de seu filho Manuel.
Agora duas palavras sobre a festa do orago da parochia, o meu rico S. Pantaleão. O leitor vio o padre prior caminhando pela estrada dolorosa da moral evangelica: é necessario que o veja tambem radiante no meio das pompas do culto.
* * * * *
[1] Assim se denominava ainda ha poucos annos uma casa, na proximidade da cada uma das aldeias vizinhas de Lisboa, emprestada por algum ricaço ou alugada, em que se ajunctava nas noites dos domingos para _brincar_ (dançar) a mocidade aldeian.
[2] Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para alli. Job: cap. 1, v. 21.
IV
ALHOS E BUGALHOS.
S. Pantaleão era, como disse, o orago da freguezia aldeian, cujos habitantes mais conspicuos o leitor já conhece, e por via dos quaes o puz em contacto com as differentes classes de que se compunha aquelle mundozinho, ou, para melhor dizer, e falar de modo que não me entendam, aquelle _microcosmo_. Esse grecismo expremeu-mo do espirito S. Pantaleão, que, conforme o que bem pondera a folhinha, foi medico, e os medicos finam-se por grego. O padre prior e o sacristão representam a igreja espiritual e materialmente, o Agostinho da tenda o commercio, o Barnabé a agricultura, a senhora Perpetua Rosa a industria, e finalmente o honrado Bartholomeu da Ventosa representa nos seus sonhos a industria-agricola, ou a agricultura-industrial, genero de existencia lembrado pelos economistas da Alemanha para salvar as classes laboriosas do horrivel futuro com que as ameaça o vapor; porque se ha-de advertir que alguns restos de prudencia e juizo que ainda havia cá por esta nossa Europa varreu-os Deus para aquelle canto do mundo, a que nós chamamos a terra das theorias e das chimeras; nós os homens do meio dia, que fazemos phalansterios e não sei quantas mais comedias politicas capazes de fazer rir... quem direi eu? O proprio mirradissimo S. Pantaleão da cidade eterna.
Eterna, entenda-se, até que o primeiro cometa venha embrulhar na cauda este nosso _microcosmo_ tão caturra e parvo chamado o orbe terraqueo.
Celebra-se a festa de S. Pantaleão a vinte-sete de julho; data preciosa e averiguada por mim em largas vigilias, consumidas em revolver breviarios, antiphonarios, legendarios, missaes, sanctoraes, e livros historiaes, na phrase daquelle grande rhetorico Gomes Eannes. Está a folhinha pontualissima; podem acreditar-me! Celebrou-se, celebra-se e ha-de celebrar-se a festa de S. Pantaleão, o bemaventurado physico, todos os vinte-sete de julho, até a consummação dos seculos; salvo o caso de ninguem se lembrar d'aqui a cem ou duzentos annos de que existiu no mundo o meu rico sancto; mas espero tal não aconteça ficando lançada a sua memoria nestas paginas, ás quaes incontestavelmente pertence a immortalidade.
"Mas--acudirão os leitores--que nos importa a nós que essa commemoração seja a vinte-sete ou a vinte-oito: seja em julho ou em dezembro? Vamos á festa, e deixemo-nos de historias."--Devagar, devagar! É justamente porque isto é uma historia grave, sisuda, erudita, que eu não me havia de metter abrutadamente na narração, sem deixar averiguada, esmiuçada e fixada a data precisa e irrecusavel do meu _recontamento_. Sabem o que é uma data? Uma data é, depois de uma questão de orthographia, do talho e feitura de uma judia, a que os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um phalansterio, a que os dictos velhos chamariam uma sandice, a cousa mais importante que conheço neste valle de lagrymas. No caso presente, supponhamos que eu fosse um cabeça de vento, que atirasse com S. Pantaleão para vinte-sete de dezembro. Ficavamos aceiados; não tem duvida! Ahi se me ía metter a segunda oitava do Natal com o meu sancto martyr; e eu a querer revestir o padre prior para a missa cantada e a vêr-me doudo na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me a canzoada dos criticos:--Fóra ignorantão! Vermelho na segunda oitava da Natividade!? Vae ler o Claudio de Vert, alarve! vae ler o Campello, o Gavanto, o Lambertini."--Atarantado com a grita, atirava-me ao gavetão da vestimenta branca. Peior! Vinha-me outra surriada de sotavento:--Olha a alimaria! Não querem ver? A um martyr vestimenta branca! Hypocrita! que nos anda aqui a prégar sermões a favor dos padres e dos frades, e ainda não sabe qual é a sua vestimenta direita. Ahi tem os taes escrevedores d'agua doce, que se riem á socapa das arcadias, e das odes pindaricas, e da sciencia em notas, e das chronologias dos academicos. A gente que fazia essas cousas trazia as vestimentas na ponta da lingua: distinguia-as como _hora horae_ de _servus servi_. Vae ler, oh taboa rasa de Locke, vae ler o Prado, o Clericato, o Bauldry, o..."
E eu, que não podia ir ler tanto calhamaço em folio, em quarto, em oitavo, e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o fio da narrativa, e não proseguia nesta notavel historia do padre prior, a qual me abriria as portas do Instituto Historico de París, se eu fosse tão creança que me resolvesse a pagar não sei quantos francos por anno para gosar dessa incomparavel honra.
Por isto façam os leitores idéa das deploraveis consequencias de um erro de data!--"Porém--replicarão elles--quem te obrigava a tractares essa questão chronologica, superior talvez ás forças do teu entendimento? Não foste andando até aqui sem te metteres nesses debuxos? Porque não descreves a festa, deixando aos entendidos em calendario o pô-la na epocha propria?"--Bonissimos leitores, pensaes vós que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por uma saraivada de perguntas? Enganaes-vos! A resposta vae caír dos bicos desta penna como as frechas de Apollo _longe-asseteador_ caíam no campo dos argivos, segundo resa Homero no capitulo primeiro da sua chronica das birras do Pelida e do Atrida: a minha tréplica vae tombar sobre os prelos convincente, irresistivel, irreplicavel. Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os respectivos auctores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleão no taboleiro do calendario, nem sequer pensava nisso, e começava _ex abrupto_ a scena da festa aldeian. Que succedia? Como estamos no inverno, e eu gósto do inverno, principalmente quando ruge uma boa nortada (são gostos), punha-me a descrever um destes formosos dias de dezembro ou de janeiro, em que o firmamento parece retincto de novo no seu tão lindo azul; em que a verdura infantil das searas á flor da terra sorri estirando-se dos topos arredondados dos outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a relva se mira á luz vermelha da aurora no espelho do caramelo, que envidraça a superficie dos pegos e remansos dos regatos. Falar-vos-hia de uma abençoada missa do gallo na aldeia em noite de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poetica do que toda a poesia protestante desde Luthero, o pae do protestantismo, até Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequencias; falar-vos-hia, emfim, de mil cousas, muito bonitas, muito viçosas, muito brilhantes, mas que viriam tanto a proposito de S. Pantaleão, como o anho paschal daquella sancta velha da tia Jeronyma viria a pello da Natividade com o seu caldo tradicional de perú, ou como o estylo do nosso drama moderno se casa com a linguagem da sociedade cujo transumpto deve ser. É por esta razão que em cousas serias, quaes a presente narrativa, eu sou muito pechoso em averiguar tudo quanto póde contribuir para a perfeição de obras em que a fórma de modo nenhum ha-de vencer a substancia:--e a essa classe pertencem estes estudos moraes.
Resolvida e assentada a questão de tempo e logar, sem o que não ha obra litteraria, segundo affirmam os glossadores e espivitadores daquella famosa embrulhada de Horacio chamada a Epistola aos Pisões, resta dizer alguma cousa ácerca de S. Pantaleão. Por muita importancia que eu ligue á feira, aos foguetes, aos buscapés, ás jarras de flores, aos tocheiros accesos, ao sacristão, á musica, aos festeiros, e ao padre prior, ligo muita mais á memoria daquelle cuja festa trazia n'um rodopio toda a aldeia, e até tivera a influencia magnetica de alargar os fechos da bolça ao veneravel moleiro Bartholomeu. Tenham, portanto, paciencia; que já agora hei-de dizer-lhes duas palavras ácerca do meu rico sancto. São reminiscencias do sermão, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito e prégado por Fr. Timotheo, o fradalhão arrabido de mendicante e espoliada memoria. É pouco mais ou menos um resumo da historia do sancto como a contou Fr. Timotheo. Parece-me que o estou ouvindo!
S. Pantaleão era um medico de Nicomedia: o bispo Hermolau converteu-o ao christianismo. Desde então elle reduziu o seu receituario á invocação do nome do Senhor. Seguiram-se d'aqui duas consequencias graves: as suas curas foram mais baratas e mais rapidas, ao mesmo tempo que as offertas dos doentes escaceavam nos templos pagãos, e os sacerdotes de Esculapio começavam a morrer litteralmente de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre sancto: os sacerdotes accusavam-n'o de impio e de bruxo, os medicos de charlatão. O odio contra elle chegou ao ultimo auge: só faltava uma occasião para a vingança: esta não tardou a apparecer.
"Não, que não havia de chegar!--rosnou o barbeiro, que, espécado em frente do pulpito, meneava a cabeça laudativamente de quando em quando, em honra da eloquencia de Fr. Timotheo, que, narrando a vida do sancto, esbravejava como um possesso.--Não, que não havia de chegar! Bastavam os medicos. Os medicos e os cirurgiões! Posto que até certo ponto pertença á faculdade, hei-de dize-lo: é a classe mais invejosa do merito, que eu conheço."
O barbeiro pensava assim havia muitos annos: desde que fôra cruelmente arranhado por tres raposas, que os lentes do Hospital lhe tinham largado ás pernas em um exame de sangrador. Boas ou más, eram as suas doutrinas.
Entretanto o arrabido continuava a lenda de S. Pantaleão: as idéas que della conservo são as seguintes:
Neste meio tempo veio a Nicomedia o imperador Maximiano. S. Pantaleão restituiu perante elle a um paralytico o uso dos membros, o que nem os sacerdotes pagãos, nem os medicos tinham podido fazer, mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos nazarenos. Mostrar aos poderosos que se tem razão contra elles é o maior dos perigos do mundo. S. Pantaleão experimentou-o. Lançaram-n'o ás feras no circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os pés. Cresceu a colera do imperador. Mandou ata-lo a uma grande roda e solta-lo por uma ladeira abaixo; mas as prisões quebraram-se e o suppliciado ficou illeso. Então ordenou que o degolassem. O sancto, segundo parece, estava já saciado de prodigios: ao golpe do algoz a cabeça voou-lhe dos hombros, e a sua alma, subindo ao ceu, viu o proprio nome escripto no livro dos martyres. O inferno e a tyrannia tinham sido mais uma vez vencidos.
Tal é em poucas palavras a historia do sancto orago da aldeia, que constituia os dominios espirituaes do padre prior.
A noite que precedeu á grande solemnidade da parochia foi semelhante naquelle anno em que succedeu o caso da Bernardina ao que havia sido no anno antecedente; semelhante ao que costumam ser taes noites nos campos deste nosso bom Portugal. Um coreto coberto de velhos razes alteava-se á porta da igreja: delle resfolgava uma selvagem e, ás vezes, atrozmente desentoada musica, e em baixo crepitavam as fogueiras. Como faltariam fogueiras no mez de julho e em festa saloia? Os fogos nocturnos são o symbolo da alegria; mas cumpre que se repintem no ceu diaphano e estrellado. Debaixo de uma atmosphera crassa e negra o seu reflexo tem o que quer que seja soturno e infernal. O sentimento poetico está mais vivo e puro nas almas habituadas ás harmonias campestres, do que em nós os habitantes das grandes cidades: é por isto que os camponezes accendem no estio as fogueiras festivas, usança que, como todos sabem, offende o nosso profundissimo e estupidissimo senso-commum. Eu, por mim, que, graças a Deus, não tenho a honra de pertencer á classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem no vertice da animalidade pura, e que se chamam homens da vida positiva, digo que, por mais ardente que vá o estio, amo uma fogueira no arraial em vespera de festa, e aquelle estourar e chispar dos foguetes que roçam rapidos pelo manto escuro da noite. Sei tambem que o consumir-se polvora em esbombardear cidades, e em alastrar de cadaveres um campo de batalha é cousa muito mais philosophica e sisuda, do que desbarata-la nas festividades supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser philosophos, e eu tenho quéda particular para a superstição.
E que quereis? O catholicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso, e risonho, e brilhante, e attractivo, e sociavel, e por isso debalde trabalharieis por arranca-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das privações. O domingo, o dia sancto, o orago da parochia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos sanctos?! Mil vezes bemdito quem os multiplicou! Ride-vos, se vos aprouver, dos que crêem que tal Senhora obra mais maravilhas que todas as outras Senhoras junctas; que tal sancto é remedio infallivel para esta ou para aquella enfermidade. As preces levam pelo menos uma vantagem ás drogas dos physicos: não custam nada, e são mais ricas de esperança; e a esperança é a maior, quasi a unica virtude dos medicamentos. E depois as devoções, as promessas geraram as romarias, as festas, e logo as feiras e todo esse franco e alegre folgar das multidões, que voltam de lá contentes, sem tedio e sem remorsos, o que nem sempre nos acontece nos nossos prazeres das cidades, a que bem longe estamos de associar nenhum pensamento de Deus.
Alguns economistas destes tempos dizem--"as feiras vão-se"--como certos doutores de ha uns annos diziam, alludindo ao christianismo --"_os deuses vão-se_."--Oh semsaborões de meus peccados! Nem os deuses, nem as feiras se vão! Tudo isso fica, porque o abriga e salva a egide encantada do amor popular: vós é que tendes seguro o passardes; e se fizerdes o vosso ablativo de viagem n'alguma aldeia como a do meu padre prior, lá do adro, onde haveis de jazer, alevantae a caveira descarnada, no dia de S. Pantaleão, ou do sancto influente do logar, qualquer que elle seja, e vereis o foguete subir aos ares, e os Manueis e as Bernardinas de então a feirarem-vos em rebemdita sobre as cinzas, que as ventanias terão espalhado, e ouvireis o ramram da guitarra, e o cantar ao desafio, e o bradar dos leilões de cargos, e aviventar-vos-ha o olfacto o cheiro do incenso, involto em rolos de fumo, que, espalmando-se nas faces dos gordos cherubins pintados no tecto, surdirão pelo portal da velha igreja remoçada d'ochre, e virão embalsamar os ares: inclinae, não as orelhas, que não as tereis, mas os ouvidos em osso, e escutae o futuro padre prior alevantando o _Gloria_, e o prégador--"ai! já não será um fradalhão arrabido!..."--contando, voz em grita, as maravilhas do martyr. Então reconhecereis a vaidade das vossas doutrinas, e morder-vos-heis e damnar-vos-heis, dizendo com as vossas costellas esbrugadas, á falta de botões:--"Bem nos prégava aquelle grande chronista do padre prior! Aquillo é que era homem de juizo! _Miserere mei, Deus, quia asinificavimus!_ Compadece-te de nós, Senhor, porque asneámos!"
Agora por asnear, acudamos a um reparo antes de ir mais longe. Já ouço um destes oragos de botequim (tambem aquelles templos tem seus oragos); um destes eruditos em Balzac e Marryat, em Paul de Kock e Dickens, sacudir a melena annelada, affastar da bôca o charuto apertado entre o pae-de-todos e o fura-bolos, salivar com os dentes cerrados, dando um som de espirro de gato, tomar a postura solemne que estudou n'uma gravura em madeira do Antony de Dumas, e dizer-me em tom pausado e soturno:--Oh malfeliz, malfeliz! que em vez de empregares esses raios do fogo ceruleo e invisivel das inspirações estheticas, que, da mysteriosa solidão em que se dilata o halito celeste da summa intelligencia, desceu aos abysmos íntimos da tua essencia, em depurares o sentimento religioso das suas formulas materialisadas para o transportares ás regiões ideaes do culto íntimo, seguindo os vestigios das notabilidades mais remarcaveis da intellectualidade actual que fluctuam nos grandes centros de luz progressiva chamados París e Londres, vertes os teus sarcasmos baixos, triviaes, e desgostantes, sobre o espiritualismo pantheistico, apoias o fetichismo, e poetisas (crês poetisar, digo eu) essas festas da populaça, e esses prazeres gordureiros das massas, que sublevam o coração daquelle que adora o supremo architecto no silencio interior, em quanto os seus labios estão immoveis como se elles fossem de marmore explorado nas carreiras de Paros! Escriptor retrogrado e condemnavel, que em logar de combateres a barbarie do paiz, pretendes atacar mais o povo ao obscurantismo, que dirão as summidades do jornalismo estrangeiro e os toiristas e impressionistas viageiros quando lançarem seu golpe d'olho d'aguias para o Portugal, e virem sua materialisação supersticiosa inculcada, e suas tradições grosseiras exaltadas? Repetirão o que o immortal marido de Lady Byron dizia de nós a proposito de uns cachações com que o massacraram certa noite á saída de S. Carlos:
"Nação impando de ignorancia e orgulho, Que lambe e odeia a mão que brande a espada Que do Gallo assanhado á zanga o rouba[1]...
* * * * *
Onde é sujo o palacio ao par da choça, E o hospede forçado em lama trepa; Onde nobres, plebeus nunca pensaram Em ter limpa a casaca ou roupa branca[2], Posto que a lepra egypcia os cubra e rôa, Intacta d'agua a pelle, e a grenha hirsuta.
Servos torpes e vis[3], bem que nascidos Nas pompas da creação. Tola és, natura, Com defunctos ruins em gastar cera.
Eis o que elles dirão lendo a tua inconscienciosa defeza dos costumes e credulidades dos tempos do jesuitismo e da inquisição."