Lendas e Narrativas (Tomo II)

Part 7

Chapter 7 3,860 words Public domain Markdown

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho, ou antes dos moinhos, porque para a exacção historica deve-se advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levára grande porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas. Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.--"Juro por esta--dizia elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre a bôca:--juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!"--Mas nem novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha com que as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés á porta. Desde este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar com a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das tres saccas gravada naquelle coração de avarento. Assim para elle seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a possibilidade de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha á união dos dous amantes.

E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez (dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito vêr! Mas a cousa ía correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana da murmuração, e o diabo que se lambia para, por estas e por outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa. O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina para se confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou a filha: persignou-se, benzeu-se, disse _mea culpa_, e começou sua confissão.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste ponto o _casus foederis_ de eu tomar a postura tragica a la moda, carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:--"O que ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem o soube!--!--!--!--Mysterio!--!--!--! Acontecimento horrivel e fatal!--!--!--! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos pés, mas o da infeliz) era de maldicção!--!--!--!" Limitada, porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre parocho d'aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar o segredo do confessionario. Os sigillistas já deram que fazer ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo. Calo-me, porque não quero caír no erro que elle condemnou. Direi só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao alevantar-se d'ante os pés do prior, ella trazia os olhos como punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando a penitencia em quanto a filha se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume. A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em cogitações; e tão fundas íam estas, que, em vez de traçar na terra com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas, conservava-a immovel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no mecher tremulo dos beiços, que algum grande cuidado o inquietava. E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias, deixando-se ficar sentado, e até, oh profanação! com o chapeu na cabeça. Felizmente não passava ninguem naquelle momento, que podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.

Mas um vulto assomou lá ao longe, e os olhos do velho brilharam como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte, e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro: o prior ergueu-se, estendendo a mão, e brandindo a bengala na direcção do vulto.

"Oh Manuel! psio, Manuel! chega á fala! Oh rapaz!"

O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma cousa lhe roía na consciencia. Mas vendo o prior em pé com ar de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou para elle com o barrete azul e vermelho na mão.

"Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?"

"Quero que você chegue aqui, porque temos que falar."

O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo aquelle _você_, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior tractava todos por tu, e o você na bôca delle era presagio infallivel de temporal.

O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no chão, torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos. O padre prior mediu-o de alto a baixo, e começou _ex abrupto_:

"Então que historias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi você aprender isso? (Esta pergunta era asnatica). É a doutrina que eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de modestia e honra que lhe dá seu pae? De ser um vadío, um seductor, um... Deixe estar: a cadeia não se fez para as aranhas, e elrei nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola historica) ainda não mandou queimar a náu de viagem..."

"Eu, padre prior... como lhe ía dizendo--interrompeu atarantado o saloio, coçando na cabeça, e procurando atar o fio das suas idéas inteiramente confundidas.

"Cale-se; não me responda:--proseguiu o velho parocho, achando talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.--Diga-me: que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?"

"Eu..."

"Não me replique; já lh'o disse. Lembre-se de que é o seu pastor que lhe fala. Ahi está porque você ainda não veio desobrigar-se. Pensava que, por ella ser miseravel e sua mãe uma triste viuva, não tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba que a poder que eu possa ha-de ír bater com o costado na India, ou casar com a Bernardina."

Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho, e exclamau soluçando:

"E é isso o que eu quero!... Juro-o por aquella arvore da bella cruz que alli está..."

"Vera cruz, salvage! vera cruz!--interrompeu o prior, visivelmente abrandado com o pranto, humildade, e declaração categorica do moço moleiro.

"Mas, como eu ía dizendo--proseguiu este--por'mor daquella diabrura das saccas meu pae não póde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe falasse em tal, fazia-me os ossos tão miudos como a picadura da mó. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse... Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não como, não durmo, ando doudo. Não basta a massada que gramei... Ahn! ahn! ahn!"

Chorava em berreiro, e o chôro não o deixava continuar. As lagrymas começaram tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns momentos pensativo.

"Levanta-te, rapaz dos meus peccados:--disse elle por fim, puxando pelo braço do moleiro.--Vamos; confessa a verdade: estás arrependido do que fizeste?"

"Estou, sim senhor! Ahn! ahn!"

Nesta parte, apesar do chôro e soluços, parece-me que o saloio mentia.

"Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?"

"Prometto, sim senhor! Ahn!"

"Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta. Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende? Olhe que!..."

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro, e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora, poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido. De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!

E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um aduar inteiro de philosophos:

_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc_[2].

O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume, Fr.

Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio de vulto, que lhe embargava o dormir!

Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.

Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:

"Jeronyma! oh Jeronyma!"

A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mão.

"Estão quasi feitas:--disse ella.--Tenha paciencia um instantinho."

"Não é isso, mulher:--replicou o prior.--Ouve cá: vae ao forro da escada e traze-me aquillo."

"Isso, eu lá ponho. Mas, com sua licença, d'onde veio maquia grossa? Hontem não houve baptisado nem enterro..."

E a tia Jeronyma estendia a mão esquerda coberta com a ponta do avental, para não sujar a maquia de que falava, e ao mesmo tempo volvia olhos ávidos, ora para o bofete, ora para o prior.

"Qual carapuça!--replicou elle fazendo-se vermelho.--Tira-se; não se põe. Faça o que lhe digo, e dê ao démo o que sabe."

A ama empallideceu. As palavras _tira-se; não se põe_ eram de ruim agouro; mas vendo já o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.

D'alli a pouco o velho parocho começava a tirar de um pé de meia uma, duas, tres peças de ouro; foi tirando até setenta: restavam apenas obra de uma duzia dellas.

"Basta:--rosnou o prior.--Póde occorrer uma doença. Então, Jeronyma, vem essas papas?!"

E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peças na folha de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da loba.

"Guarde isso, Jeronyma:"--disse elle á ama, que entrava com as papas. E empurrou pela mesa fóra o exangue pé de meia. A ama, ao vêr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a frigideira no chão, e de deixar o bom do padre sem almoço.

Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluçar.

"_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc._"

Murmurando esta profunda sentença da Biblia, o reverendo parocho saiu pela porta fóra. A ama, vendo-o saír, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa, afanado com a sua lida, em pé á porta de um dos moinhos, bracejava, ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe quebrado já duas cordas ao _enquerir_ as cargas de uma récua de machos pimpões presa á argola do moinho.

De repente viu um castão de bengala saír-lhe por cima do hombro. Voltou-se: era o prior.

"Olé, vossenhoria por aqui a estas horas?!... Psio, oh Zé Dorna, olha o rabicho daquelle macho!... Grande novidade, padre prior! grande novidade!... Raios te partam! Que tal'stá o filho do diabo?!"

Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois reverendissimos pontapés na barriga de uma das cavalgaduras, que já estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se em quanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo d'umas lembranças de Napoleão dictando ao mesmo tempo a dous secretarios.

"Falaste, Bartholomeu!--replicou o prior.--Novidade, e grande! Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e é a primeira vez que tal me succede. É negocio intrincado, e quero ouvir o teu conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes--accrescentou dirigindo-se aos moços do moinho--safa d'aqui, que tenho que dizer ao patrão em particular."

"Rua!--gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.--Entre vossenhoria."

O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripeça que estava a um canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia, e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

"Homem--disse por fim o prior--tenho em minha mão uma somma avultada; mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo. És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te com o coração nas mãos, e..."

"Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas--interrompeu o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;--essas mandrionas do soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os diabos me levem..."

"Tá, ta!--acudiu o prior.--Ajustaremos contas na desobriga. Vamos agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos este dote? Parafusa lá."

O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto, estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando em quando na testa.

"Nada ... a Genoveva da Theresa não:--disse por fim.--Tal mãe, tal filha. Aquella está arrumada."

"Nem pensar n'isso é bom:--retrucou o prior.--_Libera nos Domine._ Anda, vê se atinas."

"A Clara da Fonte tambem não..."

"Uhm!--rosnou o clerigo, abanando a cabeça.

"A Catharina Carriça menos. Heim?"

"Tó carapuça! Ahi vae já! Fundia-me o dote em menos de um anno com tafularias tolas. Adiante."

O leitor póde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha affastado por tres vezes do espirito essa lembrança como uma idéa importuna.

"Eu--disse elle finalmente, coçando na cabeça--tinha cá uma idéa... mas não sei... Não digo nada... Acabou-se."

"Desembuxa lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui."

"Então sempre lh'o direi. Minha sobrinha Joanna é um anjo. Boa rapariga! famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola, é verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Caniços arrasou-o este anno: deve-me já vinte moedas, e..."

O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bôca aberta no meio daquelle destampatorio.

"Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas vinte moedas?! Não é assim?--E, voltando immediatamente ao seu serio, proseguiu:--Bartholomeu! Bartholomeu! _Por causa da iniquidade da sua avareza me irei, e o feri_: diz o propheta. A cubiça que te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldêas alli para a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir á tua consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que o aconselhes? Isto não é bonito, Bartholomeu! Não é bonito!"

"Mas, padre prior..."

"Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o dictado:--Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim á minha remediei-me.--O melhor é seguir a primeira lembrança."

"Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo..."

"Tinha, tinha!--retrucou o prior:--Queria só ver se tu concordavas comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!"

E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.

"Pois diga vossenhoria--acudiu o moleiro ainda atrapalhado com o _revertere_:--e enforcado morra eu se..."

"Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a Bernardina d'ao pé do rio..."

A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:

"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras! Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me matem..."

"Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras? coitadínhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda? Pagar-lhe-hão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres, e Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento."

Emquanto o prior falava, uma idéa bem-aventurada illuminára subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam não estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa do norte.

"É verdade que a gente ás vezes tem cá as suas birras:--disse elle com certo ar que queria ser fino e saía parvo.--Cega-se com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra vossenhoria."

"Pois bem!--proseguiu o prior.--Esta lebre está corrida. Resta achar um noivo para Bernardina. Isso é bico d'obra que requer escolha e siso. Pensa no caso, Bartholomeu! Vamos a vêr se acertas melhor desta vez. Agora outra cousa. Tu és capaz: tens sabido guardar o teu dinheiro; saberás guardar o alheio. Eu para isso não presto: sou um mãos-rotas. Aqui te deixo setenta louras, que a seu tempo se hão-de entregar a quem tocarem. Incumbes-te d'isto?"

"Vossenhoria manda:"--respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam com o fulgor devorante da avareza ao vêr rolar as peças, que o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca das maquias. O velho parocho usava de uma esperteza de Satanás para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartholomeu, saíu. O moleiro ficou em pé e immovel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre as duas medidas iguaes de cevada: nem se podia affastar do ouro, nem ousava faltar á cortezia devida ao padre prior. A final, por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta fóra atrás delle, que já ía a certa distancia. Neste correr parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do coração.

"Se vossenhoria é servido do nosso almoço"--bradava o moleiro"--não tarda ahi um credo. Pobre, mas de boamente."

"Obrigado! obrigado!"--respondeu o prior sem se voltar, brandindo para trás a bengala, como quem dizia adeus. E pensava lá comsigo:--"Fóra, miseravel sovina!"

Apenas o bom do clerigo dobrára a quina, do muro de uma quinta, que se dilatava desde a encosta até a baixa do rio, truz!... Com quem havia d'elle dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa, de espingarda ao hombro, rede ás costas, chumbeira e polvorinho a tiracolo. O saloio ficou embaçado.

"Com que, sim, senhor! Já você por aqui me apparece a estas horas,"--disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por ser colerico.--"Heim?"

"É verdade, padre prior!... Entreter um bocado... A manhan estava boa."

"Pois não! Aos pardaes... bem sei! Ora corte-me para casa, e vá ajudar seu pae, o pobre velho, que lá anda lidando... e você feito caçador das duzias... Caçador! Pensava agora o sonso que me enganava! Vamos marchando!"

Deu alguns passos para diante, emquanto o Manuel da Ventosa fazia o mesmo em sentido contrario. Depois voltou-se de repente. O saloio também parára a olhar para trás.

"Olé. Escuta cá, Manuel!"--O Manuel aproximou-se.

"Depois d'amanhan é necessario que você se bote aos pés de seu pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe peça licença para casar com Bernardina..."

"Pelo amor de Deus, padre prior!"--interrompeu o triste do rapaz cheio de susto.--"Com os figados delle, põe-me os ossos n'um feixe."

"Não se perdia nada:"--acudiu o velho.--"Mas não é anno de fortuna. Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo, que não lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos."

"Se vossenhoria entende?!..."

"Entendo, sim, senhor. A paschoa não tarda; e passada a quaresma você ha-de receber-se. Mas d'isto nem palavra! E córte!"

O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado o negocio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente agarrou a mão do clerigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera. O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mãos callosas, que apertavam a sua mão enrugada, naquelles labios ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente, bradou com voz aspera, mas alguma cousa trémula:--"Deixa-me, pateta! Deixa-me! ... e Deus te alumie para que seja esta a ultima das tuas rapaziadas."

Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan não fez senão cantarolar, ora um pedaço do _Tantum ergo_, logo um versiculo do _Te Deum Laudamus_, e assim por diante. Até andou por mais de meia hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste dizer que, ao descalçar-se, arrumou os çapatos para um canto, e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de Carlos-Magno monastico sem o pôr de pernas ao ar. Aquelle coração sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.

E porque não cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria suave e intima, que nunca pôde entrar nos palacios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o premio, não do beneficio insolente da opulencia, mas sim da abnegação caridosa da humildade.