# Lendas e Narrativas (Tomo II)

## Part 15

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Maitre Jean Legris era um verdadeiro arraes normando: duro, carrancudo, e inexoravel como os piratas do seculo duodecimo seus antepassados, de que tão pavorosas memorias restam nas costas de Portugal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa, mas com respeito, porque não havia replicar. O chasse-marée obedecia ao leme, o leme ao marinheiro, o marinheiro ao capitão, e o capitão, pactuando com o vento, resolvêra empalmar-nos Saint-Maló e a Bretanha, para nos dar em troco Granville e a Normandia. Por isso, antes de nos communicar as suas intenções, mestre João tinha dado a pôpa á tempestade e tomado o rumo de leste. Contava d'antemão com a obediencia, que não lhe podiamos refusar.

Emfim anoitecera: a unica luz que viamos nas campinas do ceu e das aguas era aquella especie de branquejar phantastico e transitorio da escuma, que é para o luar o que um retrato de morte-côr para um vulto original--menos que frouxissima claridade, e mais que o crepusculo esbranquiçado e indeciso de um corpo alvo e que mal se divisa no meio das trevas.

O chasse-marée, galgando por cima das ondas, no meio do refluxo dellas, devia parecer, visto de longe, um baixel mysterioso e infernal, perseguido por espectros que surgiam successivamente dos abysmos, e que em roda delle dançavam danças maldictas, involtos em seus alvos sudarios.

Bem importavam a Mr. Graham, o fratricida psychologico, aquellas solemnes tristezas de uma noite procellosa! Tirou um frasquinho de aguardente que trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e alevantou-se, dirigindo-se á escotilha da especie de camara que nos ficava de baixo do tombadilho. Era um pinheiro! Quando o vi em pé receei que o sul o partisse; mas nem sequer rangeu. Se me não mente um calculo rapido, Mr. Graham era, ao menos physicamente, um poeta da força de oitenta cavallos, medida britannica: era um poeta de alta pressão: era um poeta _warranted_, para me exprimir como os laconicos letreiros de todas as peças de fazendas inglezas falsificadas. Mr. Graham Junior seguiu Mr. Graham Senior, _non passibus aequis_, como mais curto que era. Ouvimos lá embaixo ainda dous ou tres regougos; depois tudo cahiu de novo em silencio.

O velho, que se me encostára sobre os joelhos, apenas viu os seus compatriotas buscarem acolheita para a noite, ergueu-se, e cambaleando chegou á ingreme escada que conduzia á estreita camara. Poz um pé no primeiro degrau, poz o outro no segundo, tornou a pôr aquelle no ar, e disse com o corpo no fundo--pan!

Era o som d'um _cask_ de cerveja cahindo de vinte pés d'altura. Ouviu-se-lhe um grito rouco e mais dous grunhidos dos seus respeitaveis patricios. Tinha arrebentado o saxonio, ou espalmado o poeta? Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes levados pelo primeiro impulso de humanidade. Os primeiros impulsos, nestes casos, não prestam nem para Deus, nem para o diabo, porque são estupidamente involuntarios. Seja isto dicto, com paz do leitor, como desculpa da nossa caridade, e como descargo de consciencia nacional.

Para clareza desta importante narração é de saber, que apenas viraramos de rumo, o marinheiro substituíra o grumete no governo do leme, como ministro responsavel de mestre João, e o grumete fôra assentar-se á proa no logar que deixára o seu successor, exactamente como um ministro demittido, que vae tomar assento nos bancos da opposição. D'alli olhava para o tombadilho, fazendo a segunda, com um assobiar monotono, ao bramido do vento.

Chegámos dous ou tres á escotilha onde soára o baque do velho. Iamos a descer, a risco de nos despenharmos tambem, quando a cabeça de Mr. Graham Senior começou a surgir como uma visão de Manfredo:

_What dost thou see?--_

_I see a dusk and awful figure rise._

Á luz da bitacula, que enviava um raio frouxo ao rosto do grumete, o poeta acenou-lhe que se approximasse, sem se dignar sequer de olhar para nós humildes creaturas, que haviamos parado em roda de sua grandeza.

O rapaz chegou-se a Mr. Graham.

"_Brandy!_[1]"--rosnou este, com o aspecto temerosamente carrancudo e imperativo de um Nelson dando a ordem de accommetter na batalha de Trafalgar. Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco de aguardente virado de boca para baixo. O rapaz poz-se de novo a assobiar.

Nós então ousámos perguntar a sua extensão se por ventura succedêra algum fracasso aos seus compatricios. Elle lançou-nos um olhar obliquo, e em voz mais alta bradou ao grumete:

"_Rhum!_"

"Não ha:--respondeu o rapaz entre dous assobios.

"_Bring rhum, boy!_--insistiu o cantor da temperança, já colerico, e fazendo-se desentendido.

"_Chien d'anglais_, não percebes?..."--exclamou o grumete na sua lingua nativa, com um gesto de impaciencia; e accrescentou voltando-se para nós:

"Que diz este diabo?"

"Que lhe ponhas para alli cachaça:"--ia eu a dizer, paraphraseando em francez os trez monosyllabos britannicos, quando fui interrompido por um mugido, subito, incisivo, retumbante, que sobrelevou o rugir da tempestade. Soltara-o Mr. Graham, que, cerrando os punhos, com todos os ademanes de um professor de sôcco, crescia já para o pobre grumete, o qual avaliára erradamente a linguistica do poeta. Elle percebêra ás mil maravilhas as duas personalidades de _cão_ e _diabo_, que ousára dirigir-lhe o imberbe e enfarruscado normando.

Felizmente para este, uma onda galgando exactamente nesse momento a pôpa, veio lavar o tombadilho, e em forte balanço, fazendo perder o equilibrio ao filho da Gran-Bretanha, o estendeu ao comprido na agua que passava em demanda da prôa, com grave perigo do precioso manuscripto do casacão. Estirado sobre a tilhá do chasse-marée, e colleando e bufando para se alevantar, Mr. Graham representava soffrivelmente o papel de um congro tirado naquelle instante do mar. Quando elle, emfim, pôde concluir o plagiato que fizera ao tombo do seu velho compatriota, o grumete tinha-se já retirado ao anterior posto, sobre os escovens, e continuava o seu acompanhamento de assobio ao estrepitar do vento.

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o abalo da quéda e a frescura da agua lhe modificaram poderosamente o orgão da _combatividade_; porque, sem dizer palavra, desceu outra vez para a limitada camara da fragil embarcação.

Este incidente, que passára com grande rapidez, podia ter dado motivo a uma séria desavença entre o arraes e o poeta, porque mestre João mostrava-se demasiado cioso da propria auctoridade, para não consentir que um dos seus subditos fosse punido por haver recusado uma cousa que talvez não houvesse realmente a bordo, e por ter dicto duas verdades duras a um conterraneo dos nevoeiros e dos beef-steaks. Mas porque não se exprimiu Mr. Graham de modo que o grumete o entendesse? Como imaginou elle que o pobre rapaz podesse perceber os seus tres monosyllabicos grunhidos? É que o orgulho e o patriotismo britannico andam aninhados em tudo. O que nos outros paizes se olha como um primor d'educação, em Inglaterra é uma indecencia. Um inglez parece envergonhar-se de saber algum idioma estranho, e muito mais o francez, que nos paizes continentaes não é permittido ignorar a qualquer individuo medianamente instruido.

A lingua franceza, pela sua simplicidade, regular sintaxe, determinada prosodia, e mais circumstancias que a tornam facil para os estrangeiros, tem obtido uma certa universalidade, que a vae convertendo, por assim dizer, em lingua geral, principalmente na Europa. Este predominio da lingua franceza deve ter talvez n'um remoto futuro graves consequencias politicas. É por essa razão, que aos inglezes doe excessivamente tal predominio. Primeira nação do mundo como potencia material; representando nos tempos modernos uma imagem da antiga Roma, a Inglaterra soffre de mau-grado o ser intellectualmente inferior á Allemanha e á França. A influencia moral que pelos seus livros esta ultima exercita na Europa, nomeadamente nos paizes occidentaes, tende a augmentar ahi a sua influencia social, na razão directa do progresso de civilisação desses paizes. A França actua pelas idéas, em quanto a Inglaterra o faz pelas esquadras: mas a acção das idéas cria a semelhança de crenças, de costumes e de affectos, em quanto o temor das esquadras, o apparato do poder, as insolencias do forte contra o fraco só geram odios fundos, que se vão legando de paes a filhos: que se vão accumulando no thesouro commum das gerações que vem surgindo. Estes odios são um incendio que lavra, e que póde abrasar a Inglaterra n'um desses dias aziagos, que amanhecem para as nações como para as familias. Uma crise basta para perder o Reino-Unido, e esta crise é facil n'um corpo moral cuja physiologia é monstruosa e antinomica. A Gran-Bretanha deve saber que os ecchos do continente repetem de contínuo a grande voz do povo, que, em mais de um paiz, murmura aquelle terrivel verso do poeta italiano:

_Siam'servi, si:--ma servi ognor frementi!_

Ninguem como os inglezes tem o instincto da vida politica. N'uns este instincto é ajudado pelo raciocinio, n'outros pelo orgulho nacional. A Inglaterra desejára tirar á França as influencias intellectuaes: para isso fôra necessario generalisar a propria lingua. Ahi é que bate o impossivel. Entretanto o inglez vae falando inglez na terra e nos mares, quer o entendam, quer não, e só em casos desesperados recorre a algum idioma estranho, não sem o torcer, estafar e mutilar, com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimhri. É uma teima perpetua entre a Europa e a Gran-Bretanha:

"O mundo a porfiar que os bretões grunhem; E os bretões a teimar que o mundo mente"

Aquelle caso de Mr. Graham fôra mais um capitulo desta polemica eterna.

Nós os portuguezes pensámos então em buscar uma guarida para passarmos a noite, porque algumas pingas grossas de chuva nos annunciavam um aguaceiro imminente. Dirigimo-nos a mestre João, que nos declarou categoricamente ser impossivel dar-nos entrada na tóca miseravel, a que elle tivera a ousadia de pôr o nome de camara; e isto pela razão composta de que os tres inglezes a occupavam inteiramente, e não podiam ser d'alli expulsos, tendo pago trinta shellings por cabeça, em quanto nós pagáramos só vinte. O argumento era de uma solidez irreprehensivel. Pedimos-lhe todavia humildemente nos declarasse em que sitio nos poderiamos resguardar da agua do mar e do ceu; porque se houvessemos pretendido passar a nado de Jersey para França, escusáramos ter-lhe pago a mal-aventurada capitação d'uma libra esterlina, que nos fazia descer na escada social dez shellings, ou dez furos, abaixo dos tres inglezes.

Os selvagens têem mais que os homens civilisados a eloquencia do gesto, e o bom do normando, forçoso é confessa-lo, dava todos os indicios de verdadeiro botecudo. Tomando a postura sublime de um _seekoenig_, o rei do mar dos antigos sagas da Islandia, e com um--_là!_--que podia fazer ainda mui decente papel ao lado do--_qu'il mourut_--de Corneille, o arraes, especie de Buonaparte juncto ás Pyramides, nos apontava para a escotilha d'avante, a escotilha da boca do porão, e parecia dizer-nos no seu gesto mudo:--"Ahi quarenta dores rheumaticas vos esperam!"--Melhor era isso, comtudo, que amanhecer inteiriçados sobre a tolda; e assim, dando-nos por avisados, arremettemos com o abysmo.

Escada não a havia; e as trevas interiores não eram menos densas que as trevas exteriores, de que resa a Biblia, onde ha o chôro e o ranger de dentes. A altura, porém, não devia ser grande. Como os cavalleiros do Palmeirim d'lnglaterra, cada um de nós se encommendou á dama dos seus pensamentos, e do modo que pôde desceu áquella especie de _bolgia_ dantesca.

O chasse-marée, destinado a transportar gado de França para as ilhas do Canal, ía em lastro, e o lastro era d'areia. Se não fossem os terriveis balanços da embarcação, a pocilga em que nos achavamos poderia passar ao tacto, unico sentido de utilidade naquella situação, por uma praia deserta. Depois de apalparmos por largo tempo em volta de nós, achámos por fim uma véla e alguns cabos, lançados para uma extremidade do areal fluctuante. Ao menos tinhamos um leito, se não mais macio, ao menos mais enxuto que esse com que já contavamos. Uma pouca d'areia humida por pavimento, algumas braças de lona por leito, e por agasalho e cobertura a tolda d'um miseravel barco eram, com as trevas que nos rodeavam nesse momento, toda a nossa consolação e abrigo.

Se esta recordação escripta, humilde e obscura, como seu auctor, passar ante os olhos do major C***[2] elle ha-de por certo lembrar-se de que essa noite foi uma das bem dolorosas e tristes da sua larga vida de soffrimento e abnegação; da sua vida de honesto e valente soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com os trabalhos e estreitezas do desterro, e posto que o seu animo de ferro lhe não consentisse o soltar um só queixume, o incendio lavrava lá dentro, e a dôr, que não podia subjugar-lhe o espirito, ás vezes se lhe revelava no gesto confrangido. O seu estado gerava em nós, que sinceramente o amavamos, serios receios. Mas como o padecer se não traduzia em gemidos, no meio da escuridão, e entretidos com a scena ridicula do poeta da temperança e da aguardente, haviamo-nos persuadido de que esse padecimento diminuira consideravelmente.

Deitados em cima da véla convertida em colchão, os meus companheiros breve adormeceram. Quando a consciencia está tranquilla a mocidade encontra facilmente o repouso ainda no mais duro leito. Só eu velei; porque lhes levava uma vantagem, talvez antes desvantagem, uma imaginação mais ardente. O major C*** tambem parecia dormir.

Achava-me finalmente só!

Havia muito que para mim não existia a vida íntima senão no silencio da noite. O dia, esse passava-o como embriagado na agitação tumultuosa de peregrino, vendo fugir diante dos olhos, na terra e nos mares, os quadros e as scenas de uma natureza e de uma sociedade diversas daquellas que me tinham cercado na infancia e na primeira juventude. Era de noite que a imagem da patria, terribilissima de saudades, se me assentava como um pesadelo sobre o coração, e me expremia delle bem amargas lagrymas! Aos vinte annos a nossa alma, viçosa e virgem, tem affectos para derramar com mão larga por tudo o que nasceu e cresceu juncto de nós; por todos aquelles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras palavras, e nos guiaram os primeiros passos no caminho da vida. Para achar deleite em vaguear fóra do nosso ninho paterno, é preciso haver passado a idade das esperanças; é preciso ter já calcado aos pés, inteiramente sugado, o pomo das illusões, e assistir ao drama da existencia, não como actor possuido do seu papel, mas como espectador indifferente, que sabe ser esse drama um embuste, algumas vezes attractivo, mas semsabor as mais dellas; é preciso ser homem; e eu tinha então vinte annos. Por isso este errar entre estranhos teria para mim demasiado tedio e tristeza, quando se lhe não ajunctassem outras maguas e privações de muitos generos.

O desterro é uma das mais profundas miserias humanas; mas a pobreza no desterrado é o tormento mais intoleravel do espirito, porque é um composto monstruoso de saudade, de humilhação, de abandono, de desesperança, que vos lembra cada dia, cada hora, cada instante, a vossa situação desgraçada; que vos recorda sem cessar que sois uma especie de Ahasvero, de judeu errante, que a maldicção de Deus guia, em meio do desprezo dos homens, dos vituperios, dos trabalhos, por uma peregrinação sem termo e sem horisonte. Tendes de experimentar a affronta e calar, os maus tractos e soffrer, a fome e a nudez e não ousar pedir uma esmola, porque o pobre estrangeiro é um ente médio entre o homem e o animal, a sua linguagem inintelligivel e ridicula, a sua dôr e o seu sentimento quasi um impossivel, o nome do seu paiz a fabula e o escarneo das gentes, sobre tudo se esse paiz é fraco, limitado e obscuro. Então vem o comparar tudo isso com os commodos e gasalhado do lar domestico, com o amor e amizade, que vos cercavam de suavidade o viver de outro tempo, e a comparação vos converte em fel e lagrymas o sangue mais puro das veias. Tombastes de pedra em pedra no fundo de um abysmo: lá acharam os vossos membros pisados e feridos um leito de çarças; e d'ahi medís de contínuo a altura da quéda, porque vos luz lá em cima o céu da patria, e a saudade vos mede palmo a palmo a distancia que vae do despenhado a essa imagem querida.

Que todos aquelles que nunca saíram de sob o tecto da sua infancia; que nunca buscaram debalde o sol esplendido da terra occidental para o saudar na manhan de primavera; que nos remansos do seu rio natal não imaginam o ennovelar-se e bramir das vagas do oceano; que nunca viram o céu chato do norte pesar sobre a campina, estendida como um cadaver, e coberta do seu sudario de neve; que esses alguma vez se recordem e compadeçam do pobre foragido, a quem as intolerancias insensatas e ferinas de paixões politicas arremessaram para estranhas regiões. Seja qual fôr a vossa crença, a vossa parcialidade, doei-vos d'elle; porque as doutrinas podem ser erros mas não são crimes. E de mais, quem vos diz que essa opinião, que vos parece verdadeira e sancta, vos não parecerá com o tempo absurda e má, se de sincero coração a seguís?

Engolfado nestas idéas, posto que bem desperto, conservava-me calado no meio dos meus companheiros, os quaes dormiam placidamente ao murmurar da agua no costado do chasse-marée, que rompia pelas vagas agitadas. De vez em quando os mastros rangiam com os turbilhões de vento, e sentia-se um golpe soturno e embaçado sobre a tolda. Era alguma onda que salvava por cima do baixel, como a que viera acalmar a colera do esgrouviado Mr. Graham. Depois ouvia-se a voz do arraes, que proferia algumas palavras inintelligiveis: depois outra vez só o silvar da procella.

O major C*** revolvia-se entretanto perto de mim, ao que parecia grandemente inquieto. A persuasão, talvez, de que ninguem o escutava, e a intensidade da dôr arrancaram-lhe, emfim, um gemido. A sua energia moral succumbíra. O veterano, depois de largo combate de muitas horas, declarou-se vencido.

Falei-lhe em voz baixa: na tristeza da noite o padecimento physico parece achar consolo no som da voz humana. Era o unico soccorro que na situação em que nos achavamos lhe podia ministrar.

A nossa conversação durou por algum tempo; nesta conversação havia para mim o refrigerio do espirito, porque nos recordavamos da patria; elle buscava assim um allivio para dous generos de angustias, as do espirito e as do corpo. Era mais infeliz do que eu!

Por este modo passou grande parte da noite. A tempestade crescia progressivamente, e o balanço do chasse-marée era já intoleravel. Começámos então a sentir por cima das cabeças os passos apressados dos marinheiros, e um som estranho, como de mar quebrando ao longe em agra penedia. Este som, semelhante ao disparar de artilharia por sotavento, approximava-se gradualmente.

D'ahi a pouco ouvimos correr rapidamente a amarra pelos escovens. Era incrivel que tivessemos chegado tão depressa ao termo da nossa viagem. As seguintes palavras de mestre João, precedidas de uma praga, não nos deram vagar de fazer sobre isso largas conjecturas:

"_Ventre-Saint-Gris_ ... a amarra ... vamos a pique![3]"

Foi o que pudémos perceber. E era sobejo.

O major C*** ficou immovel. Quanto a mim, o primeiro pensamento que me scintillou no espirito foi o de despertar os nossos companheiros. Mas porque não haviam de morrer tranquillos? Deixei-os.

O brado do arraes fôra seguido de um momento de tremendo silencio: depois senti que o chasse-marée fazia um singular movimento, como galgando pelo dorso de enorme vaga; após isto pareceu-me que subitamente parára, e ouvi de novo falar na tolda. Era a voz de Mr. Graham, o poeta agoureiro e esguio.

Este momento de incerteza foi horrivel. Então conheci bem a verdade de uma phrase de Milton "_a escuridão visivel_." Nas trevas profundissimas em que estava via o reluzir do mar ao redor da véla branca em que jaziamos; e os olhos da minha imaginação enxergavam através da agua os rochedos de sorvedouros submarinhos, onde os nossos cadaveres deviam dentro em pouco achar uma sepultura desconhecida.

Não sei o como, mas a verdade é que, no meio do terror de morte afflictiva e demorada, me veio á cabeça uma idéa ridiculamente consoladora. Foi esta a imagem de Mr. Graham sumindo-se nas goelas de um tubarão com a sua fabrica inteira de versos, e a meia fabrica de Leeds, que trazia distribuida pelos seus quatro casacões incommensuraveis.

Passou um minuto: passaram dous: passou terceiro; e a nossa véla enxuta, e o baixel perfeitamente tranquillo. A morte, se tinha de vir, era tão lenta e derreada como a melopéa da declamação ingleza.

Porventura haviamos encalhado n'algum banco de areia, porque o chasse-marée evidentemente não abríra; aliás o mar devia ter-nos já sorvido.

Lembrei-me de subir á tolda. Mas como? O logar em que nos achavamos representava uma verdadeira masmorra de castello feudal. O escotilhão por onde desceramos era mais alto do que um homem: além d'isso o estrado da bôca tinha sido ahi collocado, como a campa sobre um tumulo, e em cima do estrado sentíramos lançar uma lona breada para impedir a invasão das ondas que galgavam pelo tombadilho.

Esperei, pois, que amanhecesse, e que então obtivessemos a luz e a liberdade da munificencia de Micer Jean Legris. Entretanto o major parecia mais tranquillo: a quietação do chasse-marée, e a somnolencia da ante-manhan eram apparentemente a causa d'isto.

A alvorada assomou, emfim, no oriente: alevantou-se o estrado, e a luz branda do romper do dia veio allumiar o nosso calabouço marinho com uma claridade frouxa e suave. Não esperára debalde em mestre João: o _seekoenig_ concedia-nos o favor de aspirarmos um ambiente puro e livre.

Subi á tolda. O sol surgia como um grande orbe vermelho fluctuante sobre as ondas levemente crespas. No sudoeste uma nuvem negra e ampla parecia firmar-se em pé no horisonte, prolongando os cimos dentados pelas alturas do ceu: era a procella, que fugia varrida pelo nordeste. A superficie enrugada do oceano tinha não sei que semelhante a um gesto humano que sorri. Eu contemplava uma dessas raras alvoradas do navegante, em que no aspecto do mar se lê o nome de Deus, e no sussurro da brisa se escuta o hymno da creação.

Onde estavamos nós? No recife de um ilheu, vizinho das costas de Normandia, cujo nome se me varreu da memoria. A caldeira em que nos achavamos teria tres vezes o comprimento do chasse-marée e ainda menor largura. Olhei para a entrada, e os cabellos eriçaram-se-me ao vê-la. Custava a perceber como o nosso baixel a atravessára sem se fazer em pedaços: era um labyrintho de rochedos agudos quasi indelineavel.

Mestre João Legris, não sei por qual razão nautica, pretendêra fundear junto aos penedos que defendem a bôca daquella abra, até que chegasse a manhan. Ao lançar ancora a amarra se partíra roçando pelas rochas. Este successo desastrado arrancára da bôca do arraes a energica exclamação, que tão terrivel fôra ferir-me os ouvidos no meio das minhas dolorosas cogitações. Felizmente uma vaga monstruosa, erguendo o chasse-marée sobre o dorso, o arrojou por entre os parceis, talvez por cima delles, e nos salvou da morte, que aliás sería inevitavel.

A saída do recife deu mais trabalho aos nossos marinheiros do que lhes dera a entrada. O sol ía já mui alto quando abrimos todas as vélas ao vento. Este era de feição; e dentro em poucas horas aportámos a Granville.

[1] Aguardente.

[2] Actualmente (1843) brigadeiro Celestino Soares.

[3] Textual.

FIM DO TOMO II.

INDICE.

A DAMA PÉ-DE-CABRA

(SECULO XI)

Trova primeira

Trova segunda

Trova terceira

O BISPO NEGRO (1130)

A MORTE DO LIDADOR (1170)

O PAROCHO DA ALDEIA (1825)

Prologo

I A Aldeia e o Presbyterio

II Noitadas parochiaes

III Uma escorregadela

IV Alhos e Bugalhos

V Excurso patriotico

VI Bartholomeu da Ventosa

VII Tantaene animis?

VIII Gloria ao padre prior

DE JERSEY A GRANVILLE (1831)

