Part 14
Do outro lado estendia-se o mar, chão e espelhado, que se interpunha entre nós e a França; entre nós e esse paiz, que para a mocidade das nações occidentaes da Europa é como uma segunda patria; porque lá está o centro das idéas que hoje agitam os espiritos, tanto no que respeita ás questões sociaes, como no que interessa á sciencia e á litteratura; porque lá vivem os escriptores que melhor conhecemos; que, até, amâmos como se foram nossos: paiz, a cujos habitos, tradições, successos e glorias nos têm associado os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao approximarmo-nos da França o coração não bate violento, nem se derramam lagrymas, como ao avistar a terra em que nascemos; mas o animo desaffoga-se, e abre-se á esperança; vamos tractar homens, que nunca vimos, mas com quem de largo tempo vivemos pelas intimas relações dos affectos e da intelligencia.
Eramos seis portuguezes a bordo do chasse-marée, além de dous marinheiros francezes e um grumete, entidades analogas aos nossos antigos desembargadores; porque cada um delles cumulava seis ou sete cargos daquella vacillante e pequena republica, cargos disparatados, que, todavia, as tres personagens desempenhavam perfeitamente, destruindo assim, em parte, a analogia radical, que tinham com esses magistrados de pedante e pesada memoria, que não desempenhavam bem nenhum. Um cão e tres inglezes completavam a collecção dos animaes inclusos entre as quatro taboas da fragil embarcação.
O chasse-marée é um transporte maritimo, que, na minha profunda ignorancia das cousas navaes, me parece semelhante ao hiate portuguez, ao menos na immundicie e na carencia absoluta de tudo o que seja commodidade. N'isto, entre parenthesis, não sou eu ignorante; porque tenho experimentado uns e outros, e posso asseverar que sería mui difficultoso de resolver qual dos dous generos de navios tem parentesco mais proximo com as rudes e acanhadas galés, em que, ha sete seculos, Guilherme o conquistador transportou, através daquelle mesmo canal, da Normandia para Inglaterra os ascendentes da actual aristocracia britannica.
Commoda ou incommoda, era necessario aproveitar aquella detestavel jangada para passarmos a França, e isto por duas razões urgentissimas; a primeira, porque nenhuma outra embarcação havia no porto de Saint-Hélier com destino immediato para a costa fronteira: a segunda, porque o preço da passagem era apenas uma libra esterlina, e uma libra esterlina era o folego maior que podia saír da bôca das nossas bolsas, cuja phtysica pulmonar ia já no ultimo periodo. Tendo-nos, portanto, ajustado com o marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e havendo mettido a bordo os nossos bahus, que, pelo leve e desempedido, podiam servir-nos de botes de salvação em caso de naufragio, saímos da caldeira de Saint-Hélier com uma brisa forte da terra, que brevemente nos arremessou para o largo. Era muito depois do meio dia. Algumas nuvens brancas do lado do poente recortavam as suas franjas irregulares sobre o chão do céu, que a luz do sol tornava de um azul desbotado. Raras e diaphanas, aquellas nuvenzinhas balouçavam-se no ar, ao que parecia, mais voluptuariamente do que nós, que sentiamos arfar, pinchando d'entre as vagas crespas, o nosso pequeno baixel. Pouco a pouco esses vapores accumulados, cujos contornos occidentaes barravam orlas de ouro, engrossaram, tomando fórmas determinadas. Depois, correndo gradualmente mais rapidas, e interpondo-se entre os raios do sol já inclinados e o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o dorso semelhante á pelle mosqueada do tigre. Este jogo da luz dava ao mar um aspecto verdadeiramente accorde com a sua natureza. Que é elle, de feito, senão a mais terrivel das bestas-feras?
E o vento refrescava de instante a instante, e os mastros do chasse-marée principiavam a soltar de quando em quando um gemido doloroso, curvando-se para as vélas quadrangulares retesadas diante delles.
O grumete ía ao leme: o marinheiro, que representava e resumia a companha, de bruços e com os joelhos sob o ventre, no ademan de um gato que se apresta a saltar sobre o murganho immovel de terror, parecia examinar os novellos de nuvens tenebrosas, que se rolavam no horisonte e cresciam para nós, como uma visualidade de camara obscura. A barlavento o arraes ou capitão (_capitaine_ lhe chamavamos nós pelo menos) que representava e resumia a officialidade do navio, com o corpo torcido, e encostado á amurada, firmando a barba nos braços cruzados em cima da borda, tambem parecia esquadrinhar o céu e o mar. Dir-se-hia que o encapellar das ondas se regulava e media pelas rugas que successivamente augmentavam em numero e profundeza na fronte tostada do antigo marujo. Um susto vago e inexplicavel como que pairava no meio de nós. Era que a postura e o gesto daquelles dous homens tinham um não sei que sinistro e mysterioso, semelhante ao bofar morno do vento que precede e annuncia a procella.
Nós os passageiros, assentados n'uma especie de canapé mal affeiçoado, que circumdava a coberta á pôpa, tinhamos insensivelmente cahido em completo silencio; ou, para falar com mais exacção, nós os portuguezes eramos os que nos haviamos calado; porque nem o cão, nem os tres inglezes tinham proferido, aquelle um só ladro, estes um só grasnido desde o momento em que saltaram a bordo, na abra de Saint-Hélier. O unico ruído que sussurrava era o ranger do baixel, e o sibilo de vento embatendo em nós, e abysmando-se nos nossos ouvidos, o que nos fazia escutar um som semelhante ao do pinhal que se estorce e vérga ao redemoinharem-lhe por entre as ramas os mil braços da tempestade nocturna.
Dos tres inglezes um velho de cabeça inteiramente branca e rosto inteiramente vermelho dava certidão, nas cans, de que a agua do baptismo passára por alli havia muitos annos, na côr da tez dava-a de que tambem não havia poucos que elle, levado de um sancto respeito pela materia do principal sacramento, abjurára de coração o tocar-lhe com os labios, contentando-se de humedece-los com os tres liquidos fundamentaes de todos os contentamentos possiveis entre os netos dos kimhris e saxonios--o rhum, o vinho e a cerveja. Dos outros dous, um mostrava ser inglez de cincoenta annos, outro de quarenta; o primeiro, magro, da altura de cinco para seis pés craveiros, faces encovadas, nariz meridional, ou antes judaico, isto é, prominente e adunco, tez não tanto morena como macilenta: o segundo, typo saxonico, isto é, rosto largo e achatado, olhos azues, guedelhas louras, bôca profundamente vincada nas extremidades do beiço inferior, de aspecto aborrido e orgulhoso, como se todo o fumo de carvão de pedra britannico o cercasse com a sua auréola de gloria nacional. De resto não havia que duvidar-lhes da patria: indicava-a o cheiro dos seus vestidos, suavemente impregnados do fartum sebaceo de carneiro, e aromatisados com os effluvios nauseantes da infusão do chá preto, os quaes constituem a formula odorifera da sociedade politica chamada os tres reinos unidos.
Pois tambem ha cheiros nacionaes?--dirá o leitor.--Que duvida! Cada nação tem a sua crença, a sua lingua, e o seu cheiro. O credo inglez é representado não sei ao certo por quantos centenares de seitas, que se mandam reciprocamente para o inferno, desde a igreja anglicana, em que os bispos e arcebispos (poetas, amphytriões, millionarios e politicos) bradam anathema contra as vaidades, luxo e cubiça de Roma, até os methodistas, que vão para os seus templos caçar as inspirações de cima, inspirações que muitas vezes são papadas por velha fanatica e tonta, e ouvidas pelos seus irmãos com uma compunção que daria vinte comedias a Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse pelo _Might Empire_ do vapor e da cerveja.
A brisa, que ao saírmos de Jersey era em pôpa, rodou successivamente para noroeste, e antes do pôr do sol soprava já violenta do lado do oeste. Nós seguiamos, pouco mais ou menos, o rumo do sul, e a mudança do vento, posto que ameaçadora, tinha sido momentaneamente uma vantagem de commodidade: o chasse-marée corria á bolina, e por isso o seu arfar se tornára mais suave. No horisonte, quasi pela pôpa, divisavamos ainda o promontorio de Noirmont, e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as costas de França, como uma linha negra lançada ao través dos mares. O silencio que reinava a bordo dava certa melancolia solemne ao quadro do céu nublado, das vagas revoltas, e da terra que parecia quasi desvanecer-se na orla das solidões do oceano.
O inglez velho, que ía justamente assentado á minha direita, a pouco mais de meia milha de Saint-Hélier começou a empallidecer. O ar marinho é inimigo figadal do fastio, e por isso, teriamos apenas navegado duas horas, quando começámos a experimentar, nós os portuguezes pelo menos, a immutabilidade inflexivel desse axioma dietetico. Tirámos algumas das nossas provisões, e pozemo-nos a despachar os requerimentos do estomago. Offereci ao velho que tomasse parte naquella refeição; mas elle recusou, declarando-se _sea-sick_ (enjoado); todavia para não perder, como verdadeiro inglez, os prós da minha boa vontade, entendeu que podia trocar uma obra de misericordia por outra, e, deixando-se escorregar do banco ao convez, fincou-me sobre os joelhos a cabeça entontecida, e cerrou os olhos. Recommendei então a Deus os meus pobres ossos cruraes, ameaçados de chegarem a França em estado de para nada prestarem, visto ser a cabeça do velho uma verdadeira cabeça ingleza; dura, pesada, e macissa, como o governo da Companhia na Asia.
Porque não repellia eu a familiaridade ominosa do bom do inglez; de um homem cuja nação, como portuguez, tenho a obrigação moral de desamar? Era porque em contrario havia duas considerações igualmente moraes. Uma cabeça branca é sempre respeitavel, ainda que assente sobre o tronco ermo de coração de um filho da Gran-Bretanha. Além d'isso, o cesto de verga em que íam as nossas provisões estava alli como um espectro, que me embargava sacudir a fronte do ancião para o travesseiro macio do convez gordurento. O porque desta acção sympathica do cesto sobre o meu espirito di-lo-hei em breves palavras: é uma historia como qualquer outra.
Miss Parker de Plymouth era uma donzella de sessenta annos; excellente creatura, que nos hospedára por dous mezes naquella cidade, mediante a bagatella de tres shellings semanaes por cabeça. A Inglaterra, como todos sabem, é o paiz da franca e sincera hospitalidade. Eramos ahi nove portuguezes, em seis camas e tres aposentos, o que dava certo ar pythagorico e mysterioso á familia, que, dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ainda viviam em Plymouth. Ninguem tinha uma patroa como nós, e os seus _lodgings_ eram a perola das albergarias de Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos preparar a comida; mas poucos dias podémos resistir aos abominaveis temperos do paiz. É precisa uma raça de estomagos que ainda fosse antropophaga no meado do quinto seculo da era christan para luctar vantajosamente com a cosinha d'Inglaterra, e estes estomagos só os inglezes os possuem, segundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os nossos cederam a tão dura prova, e vimo-nos obrigados a dispensar Miss Parker do mister de nos envenenar. Quanto ao mais eramos verdadeiramente seus filhos em espirito, em espirito, digo, porque, afóra muitas reflexões pias de que se dignava fazer-nos, a nós pobres idolatras do catholicismo, obrigava-nos a respeitar o domingo no pleno rigor da igreja anglicana; isto é, a morrer de tedio e tristeza, prohibindo em sua casa todo o genero de divertimento, ainda o mais innocente, desde pela manhan até sol posto, momento em que naquelle abençoado paiz Deus cede ao diabo o resto do dia dominical, e em que a devassidão e a embriaguez, tripudiando nos prostibulos e nas tabernas, se vingam das dez ou doze horas de sermões impertinentes dos _clergymen_, e de psalmos desafinados pelas vozes roufenhas e prosaicas da turbamulta, debaixo das abobadas sanctas, poeticas e venerandas das antigas igrejas catholicas, repartidas hoje em camarotes de theatro pela pureza aristocratica e beata do protestantismo inglez.
Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de nós. Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em cima dos joelhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a Inglaterra.
O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo: depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e tudo voltou ao anterior silencio, que só era interrompido pelo marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-marée.
Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste, que representava no meio de nós a previsão de imminente procella.
O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se assentado ao pé do outro inglez affeiçoado pelo typo saxonico, no topo esquerdo da banqueta corrida á pôpa. Duas ou tres vezes, desde que levámos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura, a que este respondeu com o estirado monossyllabo _Yes_. Á quarta vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopéa de resignação, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um volver d'olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade. Mas o inglez aguçado carregou o sobr'olho, e, mettendo a mão ao seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta scena; sabia o que póde o spleen, e o receio de algum anglicidio passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas começavam a tingir-se de negro, e o céu estava completamente toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver baldeando no mar completariam uma epopéa. Nas feições do inglez esgrouviado parecia-me ler duas palavras--Spleen e Poeta--e por isso os meus temores não eram tão infundados, como, no primeiro momento, talvez os tenha julgado o leitor.
E o mais era que eu acertára farejando em Mr. Graham Senior (eram os dous inglezes irmãos, segundo depois soubemos) um fazedor das regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas do meio-dia é e se chama versos. O honrado Mr. Graham não procurava na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas, a pistola suicida. Não! Era cousa mais atrozmente assassina; era um quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se continham as suas inspirações ineditas! Estava explicada a longa taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio intellectual desde a partida de Saint-Hélier, e os quatro grunhidos abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham Junior parecia inteiramente resignado.
Aquelle atenazador das orelhas do proximo começou a sua leitura pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e já se podia prever que tinha a boa tenção de atormentar-nos emquanto durasse o dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel, percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola de Pope, ou como quem o dissesse entre nós, um poeta da Arcadia. Cá teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes, nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona não sei de que deusa: lá, nas inspirações de Mr. Graham, eram as paixões, os vicios, os affectos personalisados quem fazia o serviço dos seus poemas: aqui a esperança, alli o desalento; ora a temperança, logo a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo me consolava das miserias domesticas, ao vêr que a poesia cadaverica das fórmas e convenções não vivia unicamente entre nós, mas ainda ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das vagas, que entoavam accordes a sublime invocação da procella.
O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao gemer rabugento de uma creança na primeira dentição. O pobre diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de nós o entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e extasiarem, a nós selvagens da Europa, como com tanta graça e verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando volvia para nós os olhos com aquelle sorriso de complacencia estupida, que é peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente de si.
Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano é a persuasão em que os escriptores de Inglaterra estão de que possuem uma lingua litteraria falada; isto é, que os sons quasi inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente aos grupos de caractéres alphabeticos, de que elles se servem para representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nação se exprime: são dous typos diversissimos, que dão fórma sensivel ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou desde a infancia entenderá tudo ou quasi tudo, se escutar essa leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural de Inglaterra não entenderá provavelmente uma unica palavra. É que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes chamados letras não tem um valor constante e determinado, e por isso não podem corresponder rigorosamente a um som.
A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As fórmas externas são rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e Byron foram dous selvagens, um porque estava além da civilisação, outro porque estava áquem della; mas foram talvez as duas almas mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, não souberam ajunctar a melodia material ás harmonias intimas das suas ideas? Foi porque não podiam converter em palavras humanas o intoleravel grasnido dos seus compatriotas.
Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez é notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por exemplo a lingua alleman: é um idioma perfeitamente accentuado; os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados: não ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas representam um som ou uma articulação. Os caractéres do alphabeto nunca serviram para enganar o estrangeiro. Não achaes n'isto uma expressão do animo leal, franco e singelo daquelle povo? A _Deutsche Treue_, a _fé germanica_, não se reflecte como em um espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous terços de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, não se proferem: devora-os o leitor: são uma armadilha para obrigar os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ouriços lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. Não achaes n'isto um typo de cubiça e avareza? Um pensamento enganoso? O algodão tecido á sorrelfa com a lan? Não descubris lá o pensamento do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? Não se revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros o _British Interest_?
Taes eram as reflexões em que eu estava embebido emquanto o poeta mastareu acreditava ter-nos enleiados a todos com as mellifluas toadas do seu poetico lavor. A noite, entretanto, tombando de castello em castello de nuvens, lançava sobre o dorso do mar revolto o seu manto de obscuridade. O sectario de Pope cedeu então ás trévas: fechou o canhenho, e resguardou-o outra vez dos olhos profanos debaixo da meia fabrica de Leeds, que fora absorvida na mole immensa dos seus quatro casacões.
Mr. Graham Junior, apenas seu respeitavel irmão cessou de ler, volveu para elle o rosto melancholico, e murmurou, depois de um suspiro:
"_Aye!--Very good!_"
Com os tres _Yes_ precedentes fazia a conta de seis palavras, ou grasnos, que despendêra naquelle dia Mr. Graham Junior.
Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas mais ridiculas deste mundo.
O temporal que se preparára durante a tarde desfechou em cima de nós com o cerrar da noite. O vento saltára inteiramente ao sul, de modo que nos ficava ponteiro. As vagas accumulavam-se em serras, que, alçando-se e topando em cheio, se enlaçavam e confundiam como dous luctadores furiosos. Depois a mais possante, sumindo debaixo de si o grande vulto da sua contraria, erguia o topo esguio, que vacillava um instante, e cahia desfeita em catadupas de escuma nos valles profundos cavados momentaneamente em volta della. A lucta daquelles vagalhões gigantes, em pé sobre o abysmo das aguas, estreitando-se e despedaçando-se como as hyenas e tigres n'um circo romano, vista assim ao lusco-fusco sob um ceu achatado e cinzento, era uma sublime peleja! Todos os espectaculos da terra--dos homens ou da natureza--que são, ou que valem, comparados com a colera da procella que passa no oceano? Menos que farça semsabor de titeres comparada com o Hamlet ou com o Othelo representados por Betterton ou por Garrick. O mysterio dos mares é de todas as obras da creação aquella em que mais profundamente o Senhor estampou o seu verbo; a inscripção indelevel e indubitavel, que narrará perpetuamente ao genero humano o seu infinito poder.
O chasse-marée havia-se posto á capa. O vento não consentia já que surdissemos avante, e o arraes, depois de uma breve conferencia á prôa com o seu companheiro, veio declarar-nos que seria impossivel seguir o rumo de Saint-Maló; que era necessario pôr a prôa nas costas da Normandia, e dirigirmo-nos a Granville; e finalmente, que só ahi poderiamos tocar em terra na manhan seguinte. Recebemos esta desagradavel nova com mais heroica resignação, se é possivel, que a de Mr. Graham Junior ao levar a sova poetica das inspirações fraternas. E que não nos resignassemos! A immutabilidade do nosso destino proclamavam-n'a os silvos do vento, e, o que mais era, a declaração do arraes. Um capitão de qualquer baixel é o absolutismo incarnado: as suas decisões equivalem á fatalidade moslemica. Em muitos sermões politicos, que é a espécie mais impertinente do genero litterario--sermão--tenho lido comparações fulminantes contra os tyrannos, buscadas no despotismo asiatico. Se eu cahisse na miseria de fazer eloquencia politica, não ía tão longe busca-las. Saltava no primeiro hiate, chasse-marée, ou sloop, e travando do arraes dizia ao mundo: _ecce homo_; eis-aqui a flôr, a maravilha, o ideal de todos os despotismos possiveis. Os que andam incommodando Attila, Kulikan, ou Timur, para afferir por elles os tyrannetes quasi-ridiculos da Europa moderna, são dissertadores d'agua-doce, que (para me servir de uma phrase do auctor de Micer Harold) nunca pozeram a mão sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e arraes são synonimos: digam o que quizerem os extirpadores implacaveis das synonimias.