# Lendas e Narrativas (Tomo I)

## Part 9

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Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas, que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se não fosse o respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos e hombros os seus ricos briaes[9].

Os labios d'elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufão. Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

"Infante D. Diniz, beijae a mão á vossa rainha!"

Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro das respirações cessára.

D. Diniz não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo escarneo:

"Onde está aqui a rainha de Portugal?"

"Infante D. Diniz!--disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido demudára.--Soffredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queiraes que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mão da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmão mais velho, de quem devereis haver vergonha.[10]"

"Nunca um neto do D. Affonso do Salado--replicou o infante com apparenle tranquillidade--beijará a mão da que elrei seu irmào e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ella descera desse throno e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu, não ella."

"De joelhos, dom traidor!--gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dous degraus do estrado.--De joelhos, vil parceiro de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"

D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos: achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se na voragem.

"Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?"

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um só hiato, fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia: brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:--para ti as penas eternas.

O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.

Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo, e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como se dissesse: aqui!

Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lagrimas:

"Senhor! que é vosso irmão!"

"É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho! Elle já não o é!"

Á palavra--mentes!--um relampago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:

"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."

Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.

Por uma reflexão instantânea a hyena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.

Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d'elrei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.

Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com voz pausada, mas trémula e presa, disse:

"Que esse malaventurado sáia d'ante mim."

O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o animo de D. Diniz, cujo coração antes d'isso parecêra de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirára.

Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende saiu do aposento.

Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.

D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o collo formoso por mal contido suspiro.

"Coração compadecido e generoso!--pensou lá comsigo o alferes-mór, que havia pouco a tractára pela primeira vez.

"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!--pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com violencia.

"Não te afllijas, Leonor:--disse D. Fernando, apertando-a ao peito.--Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!"

Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.

O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que era pesado e mortal, que resfriava todos os corações.

Á meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro: à pôpa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:

Mortos me sào padre e madre: Eu tamanino fiquei. Irmãos meus mal me quizeram: Eu mal não lhes quererei.

Vou-me correr esse mundo: Sabe Deus se o correrei! A alma deixo-a cá presa; O corpo só levarei.

De meus avós nos solares Nasci: dous dias passei: Meus irmãos, nada vos tenho, Senão o nome que herdei.

Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos cavalleiros o déra.

Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois continuaram:

Se fui rico, ora sou pobre: Choro hoje, se já folguei: Villas troquei por desvios: Muito fui: nada serei.

Sem padre, madre, ou irmãos, A quem me soccorrerei? A ti, meu Senhor Jesus: Senhor Jesus me accorrei!

Um gemido mnis angustiado, que saíu involto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompêra. O seu companheiro bradou aos barqueiros com a voz trémula e cansada de um ancião:

"Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!"

Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram lá comsigo que muito damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam tão devoto trovar.

Repararam, porém, que dos dous desconhecidos, o que suspirára e gemêra lançára os braços ao pescoço do que falára, e que este, affagando-o, lhe dizia:

"Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos creei, e á esclarecida e sancta memoria de vosso virtuoso pae."

Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que não fossem duas almas damnadas aquellas, mas sim malaventuradas.

[1] Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. Cunha, Cat. dos Bispos do Porto, part. 1.ª pag. 15.

[2] E fezerom mui ápressa hua grande praça ante S. Domingos e a rua do Souto, que era entom todo ortas. F. Lopes, Chr. de D. João I, P. 2. c. 96.--Isto era poucos annos depois da epocha de que vamos falando.

[3] A 25 de setembro de 1371, em Santarem, fez elrei mercê a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja e tenha em pagamento da sua quantia. Chancell d'elrei D. Fernando L. l. f. 84.

[4] Este bispo D. Affonso era ainda o mesmo a quem elrei D. Pedro, dizem, quizera açoutar por sua própria mão em consequencia de elle haver commettido adulterio com a mulher de um honrado cidadão, historia miudamente narrada por Fernão Lopes chronica daquelle rei, e que nós não sabemos dizer até que ponto seja verdadeira. D. Rodrigo da Cunha, suppõe que o bispo, corrido desta aventura, escandalosa não pelo delicto, trivialissimo no clero daquelle tempo, mas pelo ameaçado castigo, cousa inaudita antes e depois de D. Pedro, saíra do bispado e nunca mais voltára ao Porto, posto que ainda vivesse pelo menos até maio de 1732, como se vê do catalogo chronologico dos bispos portuguezes, por J. P. Ribeiro. Esta opinião, que assenta n'um argumento negativo--a falta de noticias desse prelado nos documentos consultados por D. Rodrigo da Cunha, posteriores aos eminentes açoutes--é desmentida pelo testemunho de Fernão Lopes, no cap. 49 da chronica de D. Fernando, que fez presente D. Affonso á renovação das pazes d'Alcoutim, juradas no Porto em 1371. É por isso que, apesar de Cunha, nos pareceu natural fazer abençoar por um bispo, que se pinta como manchado de adulterio, um casamento adultero.

[5] Sobre esta antiga topographia vejam-se as inquirições dos annos de 1268 e 1348 nas Memorias das Inquirições pag. 45 nota 2, e Dissert. Chr. e Crit. tom. 5.º pag. 292 e segg.

[6] Ácerca de semelhante usança veja-se F. Lopes. Chr. de D. João I, P. 2ª c. 96.

[7] Na supposta divisão dos bispados, attribuida ao rei Godo Wamba, dá-se ao Porto o nome de Festabole.

[8] Em grande parte extrahido quasi textualmente da Carta d'Arrhas de Leonor Telles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro de era de 1410 (1372).

[9] O brial era uma especie de camisola que os cavalleiros vestiam sobre as armas, e por cima da qual apertaram o cincto da espada. Tambem o vestiam sobre os pannos interiores quando andavam desarmados. O seu uso durou por toda a idade media, e era ainda lembrado nos fins do seculo decimo-sexto, em que o auctor, ou traductor, do Palmeirim d'Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuarias de Alfonso IV não se tracta é verdade de tal vestido; mas a razão d'isso é obvia: o brial era trajo militar, e aquellas leis versam sobre o vestuario civil. Na ordenação affonsina L. 1.°, til. 63, § 21, se manda cingir a espada ao movel sobre o brial. O diccionario de Moraes affirma que o brial era o manto dos cavalleiros: é um dos bastos destemperos daquella babel da lingua portugueza. Eis o que diz o auctor do poema do Cid, escripto no meiado do seculo decimo-segundo, falando no brial. (Sanches Pocs. Cast. ant. al siglo 15.° t. 1.° pag. 347.)

Vistió camisu de ranzal tan blanca como el sol . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sobre ella un brial primo de ciclaton

. . . . . . . . . . . . . . Sobre esto una piel bermeia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De suso cubrió un manto que es de grant valor.

[10] Dizendo elrei sanhudamente coulra elle: "Que non avia vergonça nenhuuma, beijarem a mão aa Rainha sua molher o Infante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmaão, e todollos outros lidallgos do reino, e el soomente dizer que lha nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle." Fern. Lopes, Chr. d'elrei D. Fern cap. 62.

JURAMENTO--PAGAMENTO.

Passára mais de um anno depois do casamento d'elrei. Este casamento, que explicava o repudio da infanta de Castella, não bastára em verdade para accender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando já de algum modo previsto nos capitulos addicionaes do tractado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante offensa devia gerar no animo do rei castelhano não fosse assás forte para servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitára novos motivos de sérias desavenças, que não particularisaremos aqui, por não virem a nosso intento. Baste saber que, depois de inuteis mensagens e queixas, D. Henrique de Castella, entrando subitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessára rapidamente a Beira, passára juncto aos muros de Coimbra, onde se achava D. Leonor Telles, e vindo offerecer batalha a elrei D. Fernando, que estava em Santarem, e que não acceitou o combate, se encaminhára para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Affonso III, de cujas torres e adaves viram os castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o arrabalde, sem lhes poderem pôr obstaculo. No meio deste apertado cêrco, desamparados d'el-rei, que apenas lhes enviára alguns de seus cavalleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com varia fortuna haviam resistido aos commettimentos dos castelhanos, e o que mais duro era de soffrer, á fome, á sede, e até ao receio de traições de seus naturaes. Finalmente D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu affastar dos seus muros o exercito d'elrei de Castella, que a tivera sitiada durante quasi dous mezes.

Era nos fins de maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de primavera. O ar eslava tepido e o céu limpo. Pelos campos e valles via-se verdejar a relva; a madresilva, e as rosas bravias, enredadas pelos vallados, embalsamavam a atmosphera. Mas estes eram os unicos signaes que nos arredores de Lisboa revelavam aquella estação suave no seu clima suavissimo. Tudo o mais contrastava horrivelmente com elles. Os extensos e bastos olivedos, que nessas eras a rodeavam, jaziam decepados em terra, como se por alli tivesse passado fouce gigante meneada por braço de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas resecadas antes de tempo, ou ennegrecidas pelo fogo, assimilhando-se a gandra coberta de urzes, que foi desbravada por fins d'outono. As vastas hortas, que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavallos, estavam incultas e abandonadas. Mas sobre este mal assombrado e triste chão do painel, mais melancholica e afflictiva avultava ainda a figura principal, a cidade.

O populoso bairro chamado o arrabalde, onde d'antes era contínuo o ruído discorde de tracto immeriso, achava-se convertido em um montão de ruinas. Para o lado do sul e poente não se viam desde os antigos muros (cujo perimetro pouco mais cercava do que o castello e o bairro a que hoje damos geralmente o nome d'Alfama) senão edificios queimados, ruas entulhadas, praças desfeitas, vestigios do sangue, peças de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de espadas, e aqui e acolá cadáveres fétidos, não só de cavallos, mas também de homens, cujas carnes, meias devoradas pelos cães ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos appareciam como phantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado ás chammas e ao inimigo; e juncto ás paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depennavam as barbas â roda dos rahbis, que recitavam em tom de pranto os versiculos hebraicos dos Threnos.

Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o loução dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafrens, as doudices dos donzeis, que ora correndo á rédea solta, ora soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos cortezãos letrados, os faziam vacillar e debruçar sobre os arções, o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e allãos, que atrellados forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitações derrocadas, d'onde saía de vez em quando uma exhalacâo de carniça: este rir, este folgar, este ruído do contentamento, este matiz de reflexos metallicos, de côres variegadas, passando como um turbilhão através daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar o veu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruida, e revoca-la a uma nova existencia.

Mas o povo, apesar d'isso, continuava a estar triste.

A cavalgada chegou ao terreiro da sé. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavalleiro, e depois desatou a rir.

Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.

D. Leonor Telles tinha razão para rir.

Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D. Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor e á imprudencia d'elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que cria serem-lhes affeiçoados.

Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços: "outro--diz o chronísta[1]--tomarom e pozerom-no na fumda d'huum engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida."

Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.

A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes, que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida, como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D. Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora, segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa situação.

Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2], assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.

Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes tinha bem differentes motivos.

