# Lendas e Narrativas (Tomo I)

## Part 8

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O manhoso cortesão vira claramente que a partida d'elrei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculára n'um momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel, e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decahir da graça de D. Fernando.

Para os calculos de Diogo Lopes faltáro, porém, um elemento: era a delação do beguino; e era justamente, esta falta que os destruia todos. Assim é a politica.

O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvação e agradecimento. Então elle, saíndo do circulo, aproximou-se a Fernão Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.

"Falhou a traça:--disse o velho cortezão em voz sumida ao alfaiate.--Elrei acaba de saír da cidade."

Fernão Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.

"O que vos digo é a verdade,--continuou Pacheco.--Mas não affrouxar! Elrei de Castella é por nós, e bom numero de fidalgos portuguezes o são tambem. Mais; são por nós a maior parte dos que ora aqui vêdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto de mim e ... de quem vós sabeis."

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Diniz.

"Mas elrei tomará por mulher D. Leonor--acudiu o alfaiate aterrado:--voltará a Lisboa com seus cavalleiros e homens d'armas, e então coitados de nós!"

"Não temaes: o matrimonio adultero será condemnado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D. Fernando póde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal têem homens d'armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leaes burguezes, que tão ousadamente se oppozeram á deshonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles. Mandae-lhes que façam silencio."

Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuára durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, que pouco mais ou menos terão previsto como seria. Misturando amargas reprehensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Alludiu á resistencia por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo, a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as idéas que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças aos peões de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o proprio conde de Barcellos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da colera da arraya-miuda.

Durante aquella larga arenga esta guardára silencio, interrompido a espaços por um desses borborinhos, que são como os annuncios das erupções do volcão popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos outros fidalgos; aquellas bôcas semi-abertas prestes a proromper em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos do povo ía o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio do povo apinhado, e até dois virotes de bésta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas apertando os acicates, os cavalleiros seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de affécto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto numero de cortezãos, alguns dos quaes tinham fundados motivos para receiar a irritação desses animos ferozes, exaltados pela fuga d'elrei.

A cavalgada linha desapparecido, quando um troço de bésteiros e peões desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.

Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei, lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto medonho. As affrontas, que até ahi quasi só se encaminhavam contra Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldieçòes, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam ás mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais elle entraria em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reaes. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquieta-los; nem já escutavam o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D. Fernando lhes tivesse apparecido, não teriam talvez respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.

Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencêra fugindo!

O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente perdidos.

[1] Moeda de prata de cinco soldos.

[2] As terecenas ou taracenas reaes, isto é o deposito dos aprestos das galés, de guerra, eram juncto ao sitio em que hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Açougues era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua da Praia.

[3] Nom quis alla hir e partiose da çidade com D. Lionor, ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; "Oulhaae, &c."--Fernão Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.

UMA BARREGAN RAINHA.

O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas, e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão, lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto, expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre, e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral, semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta, em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos, quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um amor tenaz d'independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio, até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas[1]. Na rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros[2], como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escaceára mercês[3]. Depois em folgares e caçadas vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero, agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia de festa o seu mui canonico burgo[4].

A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra; ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos. Adiante d'elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura dos noivos[6].

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei, mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança de opinião.

Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que, ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina; no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte, nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d'elrei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor Telles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem: após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos, as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole[7].

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo assistir ás bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma, e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas: elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

"Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio: como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres d'entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.[8]"

O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao volver d'olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do seu capital inimigo.

Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem á que representava um papel analogo ao daquella desventurada, salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle, naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos, e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.

Só faltava D. Diniz, que continuára a ficar immovel. Houve um momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio era para todos indefinido, mas terrivel.

D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmão, enleiado, ao que parecia, em scismar profundo.

