Lendas e Narrativas (Tomo I)

Part 7

Chapter 7 4,012 words Public domain Markdown

O judeu estendeu os braços com os punhos cerrados para o reposteiro que ainda ondeava, levou-os depois á cabeça, d'onde trouxe uma boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fóra um saquitel pesado, sellado e numerado, e os dous mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos, e como se as forças se lhe tivessem exhaurido no espantoso combate que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena arca, e abraçado com ella desatou a chorar.

"Meu pobre thesouro, juncto com tanto trabalho!--exclamou por fim entre soluços.--Guardei-te neste cofre com medo de te vêr roubado, e os salteadores vim encontra-los aqui! Mas que se livrem de eu tornar a receber os direitos reaes das mãos dos mordomos. Meus ricos dous mil maravedis de bom ouro, não voltareis sósinhos quando vos tornardes a ajunctar com os vossos abandonados companheiros!"

Esta idéa pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e quando elrei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que não dava uma pogeia de mais da somma que lhe fôra requerida em nome do potro da torre de Santarem[5].

"Oh,--exclamou elrei, lançando os olhos para cima do desalmado folio, sobre cujas paginas amarelladas estava empilhado o dinheiro --temos os dous mil maravedis?!"

"Saiba vossa real senhoria que felizmente tinha em meu poder uma somma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da porta do mar, e de que não me lembrava: ao basculhar as arcas dei com ella: a quantia está completa, e o honrado mercador não levará por certo mais de cinco por cento ao mez, emquanto os ovençaes de vossa senhoria não vierem entregar no thesouro o producto dos direitos reaes vencidos. Então pagar-lhe-hei, até á ultima mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria não ordena o contrario."

"Faze o que entenderes, D. Judas:--respondeu elrei, que não o ouvira, attento a metter n'uma ampla bolça de argempel, que trazia pendente do cincto, os dous mil maravedis.--Tudo fio de ti, honrado e Seal servidor."

E recolhidos os maravedis, saíu. O judeu ficou só.

"No inferno ardas tu com Dathan, Coré e Abiron, maldicto nazareno!...--murmurou elle.--Porém não antes de eu haver colhido os dous...quero dizer, os tres mil e duzentos maravedis, que me tiraste com lanta consciencia quanta póde ter a alma tisnada de um christão."

Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saíu pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passára Fr. Roy, até que por aquella parte do palacio tudo caíu em completo silencio.

[1] A Corredoura era uma rua, que, passando ao sopé do monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).

[2] Para não enfadarmos os leitores com um sem numero de notas declarâmos por uma vez que todos os costumes e objectos que descrevemos são exactos e da epocha, porque para taes descripções nos fundámos sempre em documentos ou monumentos.

[3] O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos, isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo maravedi, excedendo em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem pelo contrario, o valor real d'uma dobra pé-terra era inferior ao maravedi velho na razão de 20 para 32 1/2. A alteração da moeda feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas, das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham a ser iguaes ás libras novas deste rei, porque, produzindo até ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova moedagem produzindo 165, o que dada a differença do toque entre o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo maravedi d'ouro correspondente á vigesima parte de um marco de prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos, isto é, ficava para aquella moeda na razão de 20 para 32 1/2.

[4] Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente a lei de D. Afonso III sobre os que vão a cas de elrei.

[5] Aquelles que não conhecerem as opiniões, estado de civilisação, e costumes da idade média, medirão o thesoureiro-mór D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se não nos engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez de Pombal em uma lei sobre os christãos-novos, e acharão inverosimil a scena antecedente, posto que esteja bem longe d'isso. A falta de christãos habilitados para tractarem materias de fazenda publica, obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das côrtes de 1211, que os inhibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha esta raça, olhada como abominavel em consequencia das convicções politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte assentava em bons fundamentos. A idéa que se fazia de um judeu na idade média acha-se expressa na lei 23.ª daquellas côrtes, e pinta melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto podessemos aqui escrever. "Os quaes judeus (diz o legislador) assy como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus, solamente porque som homeês." Juncte-se a isto o caracter cruel, hypocrita e cubiçoso de D. Leonor Telles, tão excellentemente pintado pelo grande poeta chronista Fernão Lopes, e poder-se-ha então avaliar devidamente a verosimilhança desta scena de imaginação no meio de outras scenas da vida real desses tempos.

MESTRE BARTHOLOMEU CHAMBÃO

Fr. Roy, saíndo da casa das arcas, atravessára os corredores vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomára por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o atrio do paço. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar na morada real ás horas mortas, e a saír nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrára, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é facil de suppôr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rocío, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida d'elrei.

Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exercito permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abríra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito e escuro vão da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos á meia luz que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje, nesses mesmos paços, e n'um desvão igual, talvez no mesmo sitio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de carne humana, e no esperar atroz rodêa com as garras os ferros do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.

Passára obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pateo interior do edificio. D'ahi a pouco um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave, e as rédeas de uma valente mula enfiadas no braço, chegou á porta e começou a abri-la. Era um dos donzeis d'elrei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão á espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas orações em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos os moradores da casa d'elrei, que respeitavam a sua apparente sanctidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.

"A madre Sancta Maria vos guarde de máu olhado, de feitiços e de ligamentos:--disse elle, chegando-se ao donzel, e fazendo sobresair esta ultima palavra.

"Vós aqui, Fr. Roy. por estas horas?--replicou o donzel, voltando-se admirado.

"Que quereis!--tornou o beguino.-Quando hontem os maldictos burguezes accommetteram os paços reaes com sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquelle desvão, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro como um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião não me consentia passar por meio de homens possuídos do espirito de colera, e inspirados por Belzebuth, nem o susto me deixava animo desaffogado para ir roçar o burel do meu santo habito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Tambem a humildade e mortificação christan se oppunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de vós outros os moradores da casa de nosso senhor elrei. Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento, alli me deixei ficar sohre as lageas humidas, sobre as duras e agudas arestas dos degráus daquella escada. Agora, que a revolta é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos, e confiado na providencia de Jesu-Christo, vou-me ao meu gyro diario para vêr se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou mil louvores ao justo juiz, que reina eternalmente nos altos céus."

O beguino revirou beatificamente os olhos, e fez uma visagem entre afllicta e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho, como se alli sentisse uma dor agudissima.

"Veneravel Fr. Roy!--atalhou o donzel com as lagrymas nos olhos--se tivesseis procurado o aposento dos donzeís, nós vos dariamos ao menos um almadraque para repousar, e repartiriamos comvosco da nossa cêa. Mas o mal esta feito, e o peior é que para hoje não vos posso offerecer abrigo. Vós crêdes, sancto homem, que a revolta é finda, e nunca ella esteve mais accesa. Sua senhoria vae partir já da cidade ..."

"Sancta Maria val! Sancto nome de Jesus! Accorrei-nos, virgem bemdicta!--interrompeu Fr. Roy.--Pois os populares teimam em sua assuada, e elrei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos e cidadãos pacificos, entregues ao furor dos peões?"

"E que remedio, bom Fr. Roy?!--replicou tristemente o donzel.--Sem cavalleiros, escudeiros e bésteiros não se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada d'isto tem elrei. Agora vou eu ao rocío avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho de Santarem, sob pena de incorrerem em caso de traição se ficarem em Lisboa, por signal que elrei me recommendou procurasse avisar primeiro que ninguém sua mercê o infante D. Diniz."

"No rocío, dizeis vós?--tornou o beguino arregalando os olhos.--Confesso que vos não entendo."

Durante este dialogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta do paço, cavalgado na mula que trazia de rédea, e saído ao terreiro seguido de Fr. Roy, que coxeava, estorcia-se, e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo, e sofreando a mula, caminho da sé, o pagem narrou ao beguino todas as particularidades succedidas aquella manhan, as quaes Fr. Roy sabia melhor do que elle. Chegados defronte dos paços do concelho, o pagem tomou pelo sopé da alcaçova e Fr. Roy pela porta do ferro, não sem terem primeiro saído da bolça do donzel para a manga do beguino alguns pilartes[1], e da bôca deste para os ouvidos daquelle alguns latinorios pios devidamente escorchados.

Apenas passára o largo da sé e transpozera a velha e soturna porta do ferro, Fr. Roy se achára perfeitamente sarado do seu tão agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no pelourinho[2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troco de bésteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente, ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambão, que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar no beguino:

"Já vo-lo disse: d'aqui ninguém bóle pé antes d'elrei nosso senhor saír para S. Domingos. Nada de bulha fóra de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao paço quando ahi fôr só a adultera. Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve saír da toca. Não digo que então não seja possivel esmagar-se-lhe a cabeça... N'um brandir de ascuma... Mas cautela, não haja sangue!... Pelo menos de innocentes... Leaes e esforçados cidadãos desta mui leal cidá... Sáfa, bruto!"

Esta peroração inesperada com que mestre Bartholomeu interrompêra o seu discurso, que se ía elevar ao ápice da eloquencia, procedêra de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do ichacorvos sobre o hombro, que lhe vergára como se houvessem descarregado em cima delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrêra uma idéa abençoada, a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe recommendára espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com elrei. O mendicante sabía que o tanoeiro era homem de bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido toda a cidade. Assim se esquivava não só a ser visto no rocío pelo donzel, de quem naquelle instante se apartára, mas tambem a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia poderia produzir, attenta a irritação dos animos. Além d'isto a lembrança do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D. Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebêra do fim da sua arenga) da commissão, que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbíra a Fernão Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D. Leonor. Estas considerações que lhe haviam passado rapidamente pelo espirito, e o vêr que mestre Bartholomeu não levava geito de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que só o sentíra quando elle lhe descarregára sobre o hombro a ponderosa mas amigavel palmada.

"Com mil e quinhentos satanazes!--exclamou mestre Bartholomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino.--Sabia que a mão da sancta madre igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Fr. Roy?"

"Dizer-vos que podeis mandar saír vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem elrei chegar e passar para S. Domingos."

"Fr. Roy,--replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera--para interromper-me com uma de vossas bufonerias não valia a pena de me aleijardes este hombro!"

"Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com elrei."

"Pois quê, morreu dos feitiços da adultera, ou lornou-o invisivel algum encantador seu amigo?"

"Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador (aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz..."

"Fr. Roy, olhae que estes honrados cidadãos vos escutam, e que o auto é mui grave para gastar truanices."

"Já disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei não dormirá em Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante mula de caminbo; n'outra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzeis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar ainda lhe ouvi estas palavras:--olhae aquelles villãos traidores como se junctavam: certamente prender-me quizeram, se lá fora[3]!--Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a prêa: agora catae-lhe o rasto."

"Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!--bradou o tanoeiro sopesando o montante.--Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burguezes?"

"Escarnidos, escarnidos!--respondeu com grande grila o tropel.--Mas à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!"

E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol oriental como um vasto brazido.

"Ao rocío! ao rocío!--gritou mestre Bartholomeu.--Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!"

E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta, e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.

Foi n'uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre, e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante D. Diniz.

Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:

"Estamos perdidos!"

Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo tom respondeu ao infante:

"O caminho de salvação que nos resta é o de Santarem. Obediencia e circumspecção!"

O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados, e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados. Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.

"Vistes a ordem d'elrei. Como um dos mais velhos entre nós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor elrei."

"Mas,"--atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente era ouvido como oraculo pelos cortezãos--"o caso é grave: o povo se nos vir retirar enviar-se-ha a nós: se lhes dizemos o motivo da nossa partida é capaz de desconcertos maiores que os já commettidos."

"Sua senhoria não devêra ter-nos emprasado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares."

Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo, no que não levava vantagem á maior parte dos outros membros do conselho real.

O conde de Barcellos guardava silencio. Não podia conceber como D. Leonor o não avisára a tempo, e por isso preoccupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fôra tomada mui tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era chamar á côrte os senhores e cavalleiros de mais confiança, acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem oppôr-se de novo á vontade de seu rei e senhor. D. Fernando aceitára o conselho, que, se não era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelações do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negocio.

A reflexão de Gil d'Ocem estava em todas as cabeças, e por isso os cortezãos ficaram outra vez em silencio, como buscando um expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza, o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano, que ameaçava traga-los, encapellavam-se aos pés deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n'um circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos para não poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei--disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso ÍV.--Resta-nos só um arbitrio."

"Dizei, dizei!--clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.

"É necessário que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da alcaçova de Santarem."

"Mas quem ha-de falar em nosso nome?--perguntou Gil d'Ocem.

"No vosso, mestre Gil das Leis!--interrompeu o conde de Barcellos.--Nem o receio das affrontas do alguns milhares de sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."

"Viram impendere vero nemo tenetur"--replicou Gil d'Ocem--"ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver."

Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.

"Mas quem ha-de falar ao povo?--insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.

"Eu, se assim o quizerdes"--replicou immediatamente Diogo Lopes.