Lendas e Narrativas (Tomo I)

Part 6

Chapter 6 3,988 words Public domain Markdown

Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir ao auto solemne, em que da bôca d'elrei a nação devia ouvir ou uma resolução conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como dos senhores e cavalleiros, ou a confirmação de um casamento, mal agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas côres dos trajos cortezãos negrejavam as garnachas dos letrados e clerigos do paço, e entre o reluzir dos esplendidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos alcaides-móres e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d'elrei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado, e em todos os rostos transluzia o receio ácerca de qual seria o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam representantes de todas as classes sociaes.

Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por seu porte altivo o conde de Barcellos, D. João Affonso Tello, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se dá por excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei com sua sobrinha começaram, elle fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligencias para desviar o monarcha de levar ávante seus intentos. D. Fernando persistíra, todavia, nelles, e então o conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria Telles, irman de D. Leonor, suscitára a idéa de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Telles, odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até á altura do throno, ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais distincto membro da fidalguia[6].

"Velha raposa, em que te pese, não será a adultera rainha da boa terra de Portugal!--gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé delle, mas olhando de través para o conde que passava.

"Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço?--perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lançando tambem os olhos para D. João Affonso Tello.

"Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo?--acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.--Deixae-os morder uns aos outros, que é signal de Deus se amercear de nós."

"O que elles mereciam--interrompeu uma regaleira--era serem alagantados[7]--com boas tiras de couro cru."

"E ella, tia Dordia?--accrescentou um ferreiro.--Conheceis vós a comborça? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas della![8]"

"É costume, ergo direita a pena:"--notou um procurador, que gravemente contemplava aquelle espectaculo, e que até alli guardára silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo não lhes dar attenção, empallidecia e córava successivamente, e mordia os beiços de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o anímo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva, viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a sua união com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre elles, e o povo ao vê-lo passar saudou-o com um murmurio, que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devêra a um caso analogo, a morte de D. Ignez de Castro.

Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho d'elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu após elles, e esperou que se assentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão apinhada ao redor:

"Se elrei ainda não é presente--disse em voz intelligivel e firme--ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do seu conselho: porventura que elles poderão dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e elle virá depois confirmar o seu dicto."

"Senhor Fernão Vasques, sois o nosso propoedor: a vós toca o falar!"--replicou um do povo.

"Assim o queremos! assim o queremos!"--bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se então para os cortezãos, conselheiros e letrados do desembargo d'elrei, e disse:

"Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão junctas, de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por sua honra e serviço; e porque é direito escripto, que sendo as partes principaes presentes, o officio de procurador deve de cessar no que ellas bem souberem dizer, vós outros que sois principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a nós, devieis dizer isto, e eu não; porém, não embargando que assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vós outros em ello não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco da honra e serviço d'elrei....[9]"

"Cal-te, villão!--bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com voz affogada de cólera, que já não podia conter--se não queres que seja eu quem te faça resfolgar sangue, em vez de injurias, por essa bôca sandia."

O velho Pacheco pôz-se tambem em pé, exclamando: "Conde de Barcellos, lembrae-vos de que os burguezes têem por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de os reprehenderem. Nós somos menos que os reis."

Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação, e havia feito um signal com a cabeça. No mesmo instante o povo abríra uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rocío ao tropear da multidão, um semi-circulo de mais de quinhentos bésteiros e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.

Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Affonso Tello, e com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe:

"Senhor conde, vós sois que doestaes os honrados burguezes desta leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz senão repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propuz, não é meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor conde, nào receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte que o do peão, e se também a sua bôca não póde golfar sangue como a de um pobre villão."

D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mão á cincta onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cincto.

"Conde de Barcellos:--proseguiu o alfaiate com um sorriso--não recorraes a esse argumento; porque eu também estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhão."

Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram ouvidas: a grita na praça era já espantosa; as injurias, as pragas, as ameaças, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande brado da fúria popular, que só tem semelhança com o ruído de tufão abysmando-se por cavernas immensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi tão irritados como os dos dous contendores.

Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que a da vespera, a qual apenas se atrevêra ao throno.

Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes preludios de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capitulo.

[1] Hoje o monte da Graça.

[2] Hoje o bairro dentro da rua larga de São Roque, Chiado, Rua do Ouro, Rocio e Calçada do Duque.

[3] Hoje Rua dos Capellistas

[4] Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs, como se póde vêr da lei de D. Affonso IV ácerca dos trajos.

[5] D. Beatriz era irman dos infantes D. João e D. Diniz e meia irman d'elrei.

[6] O titulo de conde era o de maior preeminencia entre nós, e João Affonso Tello era então o unico que em Portugal tinha semelhante titulo.

[7] Açoutados.

[8] Segundo varios quadernos legaes do nosso direito consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se ás mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O alcalde vinha a casa da criminosa punha no chão um travesseiro, pegava d'uma vara e começava a bater em cima delle, fazendo-lhe o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo por que as mulheres estavam ás varas, pena que com menos apparato se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes.

[9] Textual.--Veja-se Fernão Lopes, Chr. de D. Fernando, cap. 61.

MIL DOBRAS PÉ-TERRA E TREZENTAS BARBUDAS

Mal Fernão Vasques travára do braço do conde de Barcellos, e a grita popular começára a atroar a praça, Fr. Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrára a quina que voltava para a Corredoura[1], e seguindo seu caminho por viellas torcidas e desertas, chegára á porta do ferro, d'onde, atravessando o contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres da muralha mourisca, chegára esbaforido a S. Martinho. A porta do paço estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capella-mór, e a tribuna communicava com o palacio por um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si, e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadiço e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e pôz-se outra vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma voz esganiçada e colerica perguntou;--Quem está ahi?"

"Eu:--respondeu o beguino.

"Quem é eu?--replicou a voz.

"Honrado D. Judas, é Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a elrei ou á mui excellente senhora D. Leonor, para negocio de vulto."

"Abre, D. Judas, abre!"--disse outra voz, que pelo metal parecia feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada escaçamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões de ferro, a qual dava para uma especie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrára na casa das arcas da corôa--do recabedo do regno. As duas personagens que ahi estavam, afóra a que abríra a porta, eram D. Fernando e D. Leonor. Elrei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pello[2].

D. Leonor, tambem em pé por detraz d'elrei, olhava attentamente para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mór D. Judas, grande affeiçoado de D. Leonor e valido d'elrei. O judeu apenas voltára a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recem-chegado, tornára immediatamente para ao pé da arca a que elrei estava encostado, e proseguíra a vehemente conversação, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvíra ao aproximar-se...

"Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel thesoureiro vos póde apurar neste momento, respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado, e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pogeia."

Elrei não o escutava. Apenas Fr. Roy entrára, D. Leonor se havia encaminhado para o ichacorvos, e, lançando-lhe um olhar escrutador, lhe perguntára com visível anciedade:

"Beguino, a que voltaste aqui?"

"A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez tenha já corrido sangue no rocío de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores e fidalgos da casa e valia d'elrei."

Fôra á palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender á voz esganiçada do thesoureiro-mór, que continuava em tom de lamentação:

"Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço, e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos d'Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d'Alemdouro, que são em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?[3]"

"Sangue, dizes tu, beguino?--exclamou elrei--Oh, que é muito! A quem se atreveram assim esses populares maldictos?"

"Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Fernão Vasques; mui grande numero de bésteiros, e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram os traidores atroavam a praça."

"Que me dêem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o meu estoque francez:--gritou D. Fernando escumando de colera.--Eu irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou acabarei ao pé delles. Pagens! onde está o meu donzel d'armas?"

"O teu donzel d'armas, rei D. Fernando,--interrompeu com voz pausada e firme D. Leonor--segue com os outros pagens caminho de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui só tens a mula de teu corpo[4] para seguires jornada."

"Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei despedaçar pelos peões desta cidade abominavel? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando ainda se não erguêra para te coroar rainha."

"Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te delle, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão deixar entregue á sua sorte o nobre D. João Affonso e os senhores que são com elle; mas não te esqueça que se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n'uma cidade revolta? Os homens d'armas do teu castello quebraram seu preito, e tumultuam na praça: muitos de teus ricos homens estão conjurados contra ti: teu proprio irmão o está. Partir! partir! Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperança está no partir breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não podermos salvar aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expôr á furia de homens refeces e crús, para esconder nossa fuga... fuga; que é o seu nome!"

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiçados da adultera, e a afflicção e o temor comprimidos n'uma lagryma que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas que derramára na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçára, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

"Partamos. E seja feita a vontade de Deus!"

"Amen--murmurou o ichacorvos.

"Beguino,--interrompeu D. Leonor, voltando-se para Fr. Roy--corre já ao rocío, e dize em voz bem alta aos populares amotinados, que me viste partir com elrei caminho de Santarem. Talvez assim o conde seja salvo, porque a furia desses vis sandeus se voltará contra mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado, o meu palafrem terá já transposto as portas da cruz. Guardae-vos, mesquinhos, que elle a torne a passar com sua dona. Ichacorvos! esse dia será aquelle em que a adultera pague todas as suas dividas!"

Fr. Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentíra na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Telles cravou nelle era diabolico, e a palavra--adultera--proferida por ella, soava como um dobrar de campa, e vinha como involta n'um halito de sepulchro: o beguino arrependeu-se desta vez mui seriamente de ter sido tão miudo e exacto na parte official que apresentára na vespera. Calou-se, todavia, e saíu com o seu ademan do costume, cabeça baixa e mãos cruzadas no peito.

Os tres ficaram outra vez sós.

"D. Judas, meu bom D. Judas:--disse elrei com um gesto de afflicção--eu não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua arithmetica. Estou certo de que não deves ao thesouro real uma unica mealha, e de que nas arcas do haver não existe senão o que tu dizes: mas de certo não queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como um romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro..."

"Ai!--suspirou o thesoureiro-mór--juro a vossa real senhoria que me é impossivel achar agora outra quantia maior que a de mil dobras pé-terra e trezentas barbudas."

"Fernando--atalhou Leonor Telles--ordena aos moços do monte que ahi ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu affeiçoado D. Judas, que com duas palavras eu obterei o que tu não podeste obter com tantas rogativas."

Ella sorriu alternativamente com um sorriso angelico para elrei e para o thesoureiro-mór. D. Fernando obedeceu, e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira áquella por onde entrára o beguino, desappareceu. O thesoureiro ía a falar; mas ficou com a bôca semi-aberta, o rosto pallido, e como petrificado, vendo-se a sós com D. Leonor. Era que já a conhecia havia largos tempos.

"D. Judas,--disse esta em tom mavioso--tu has-de fazer serviço a elrei para esta jornada. Darás os dous mil maravedis velhos."

"Não posso!--respondeu D. Judas com voz trémula e afogada.

"Judeu!--replicou D. Leonor, apontando para um cofre pequeno, que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tres altos de pó--o que está naquella arca?"

O thesoureiro-mór hesitou um momento, e depois balbuciou estas palavras:

"Nada ... ou para falar verdade... quasi nada. Bem sabeis que d'antes eu alli guardava algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia, mas ha muito que nem essas poucas mealhas me restam."

"Vejamos, todavia:--tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregava.

"Misericordia!--bradou D. Judas com indizivel agonia. Mas reportando-se, por um destes arrojos que inspiram os grandes perigos, procurou disfarçar o seu susto, continuando com um riso contrafeito:

"Misericordia, digo; porque fôra mais facil achar entre os amotinados do rocío um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do logar onde terei a chave de uma arca ha tanto tempo inutil e vazia."

"Perro infiel! eu te vou recordar quem póde dizer onde as havemos de achar."

"Estaes hoje, mui excellente senhora, merencoria e irosa:--replicou o thesoureiro-mór, trabalhando por dar ás suas palavras o tom da galantaria, mas visivelmente cada vez mais enfiado e trémulo,--Assim chamaes perro infiel ao vosso leal servidor, por causa d'uma chave inutil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe della, e eu a irei procurar."

"Generoso e leal thesoureiro!--interrompeu D. Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava--não te dês a esse trabalho, por tua vida. Quem póde faze-la apparecer é um velho cão descrido, que mora na communa de Santarem. Eu sei de um remedio que lhe restituirá á lingua a presteza d'uma lingua de mancebo de vinte annos. O seu nome e Issachar. Conhéce-lo?"

"Alta e poderosa senhora, vós falaes de meu pobre pae!--respondeu o thesoureiro-mór, redobrando-lbe a pallidez.--Mas tractemos agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras pé-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes..."

D. Leonor lançou para o judeu um olhar d'escarneo, e proseguiu:

"Do que importa é que eu tracto. Sabes tu, meu querido D. Judas, que sejam as tuas dobras mil, ou mil e quinhentas, ámanhan a estas horas eu D. Leonor Telles, a rainha de Portugal, estarei em Santarem? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres do alcacer, ha um excellente potro capaz de desconjuntar n'um instante os membros do mais robusto villão? Veiu-me agora a idéa que o velho Issachar amarrado a elle deve ser gracioso, porque tendo vivido muito, constrangido a falar, ha-de contar cousas incriveis, quanto mais dizer onde está uma chave, cujo paradouro elle não póde ignorar. Não achas tu tambem que é folgança e desporto digno de qualquer rainha o vêr como estouram os ossos carunchosos de um perro de noventa annos?"

Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacillantes se recusavam a suste-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas, o judeu tinha cahido de joelhos aos pés della.

"Por mercê, senhora,--exclamou elle n'um trance horroroso de angustia--mandae-me açoutar como o mais vil servo mouro: mandae-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoae a meu velho pae, que não tem culpa da pobreza de seu filho. Se eu tivera ou podéra alcançar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que offereci a meu senhor elrei..."

"Judeu!--atalhou D. Leonor--tu deves saber tres cousas: a primeira é que os tractos do potro são intoleraveis; a segunda é que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que se neste momento de aperto eu te podesse applicar o remedio, não o guardaria para a ossada bolorenta de um lebréu desdentado."

"Vendido cem vezes,--proseguiu o thesoureiro-mór lavado em lagrymas, e procurando abraça-la pelos joelhos--eu não poderia apresentar neste momento mais que a somma já dicta de duas mil e quinhentas dobras, e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse assar vivo."

"És um louco, D. Judas!--interrompeu Leonor, affastando de si o judeu com um gesto de brandura.--Por uma miseria de pouco mais de quinhentas pé-terra consentirás que Issachar, que teu pae, honrado velho! pragueje nas ancias do potro contra o Deus de Abraham, de Jacob e de Moysés?"

O thesoureiro-mór conservou-se por alguns momentos calado, e na postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos olhos, enxugou as lagrymas e ergueu-se. A resolução que tomára era a de um desesperado que vae suicidar-se.

"Aqui estarão, senhora,--murmurou elle--os dous mil maravedis quando os quizerdes. Procurarei obte-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem á vossa partida."

"Adeus, meu mui honrado D. Judas:--disse D. Leonor sorrindo.--Não perderás nada em ter cedido aos meus rogos."

Dicto isto, saíu pela mesma porta por onde saíra elrei.