Part 5
"... A adultera:--proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio.
"Beguino!--atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva--melhor fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."
"Mas que faremos!?--murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.
"Havia ainda ha pouco tres expedientes,--respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade--combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!... Porque não o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"
"Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:--rei de Portugal, obedece á força?--Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:--desamae!--Elle ousa já dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim!"
"Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?--disse D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio olhava espantado para ella.
"Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subirás a elle."
Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:
"Então resta o fugir."
"Fugir!"--exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.
Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.
"Seja, pois, assim! Fujamos:"--murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão ao algoz.
D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu.
"Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."
O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram o vigor natural.
Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer palavra.
Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito, e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por onde entrára.
Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas. A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles, encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d'onde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia. Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo, cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga, abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas. No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.
Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.
Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços, exclamou:
"Fernando!"
Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do tigre.
Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Telles.
"Ámanhan--disse elle com voz affogada,--o rei mais deshonrado da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor! serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses."
Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando, embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.
"Fernando!"--proseguiu D. Leonor--"jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua."
Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.
"Juro-t'o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"
"Bem está, rei de Portugal!--atalhou D. Leonor.--Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça."
"Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."
"Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo, segundo foro de Hespanha."
"Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos é forte e roqueiro: são numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d'aguas vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora."
"Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t'as peço em dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."
"De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires."
D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:
"É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."
Elrei lançou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!
"Leonor, Leonor!--disse elrei com um som de voz cavo e debil--porque vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor? Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?"
"Rei de Portugal!--respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha com um brado de furor--ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? É porque esses de quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces? É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse preço a neta de D. Ordonho de Leão[2] nunca será mulher de D. Fernando de Portugal."
E com um braço estendido para o logar sem nome[3] do supplicio, e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.
"Tens razão, Leonor:--disse por fim D. Fernando, depois de largo silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel mudaram gradualmente.--Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injuria."
A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em um sorrir de inexplicavel doçura.
"Oh, como te hei-de amar sempre!"--murmurou ella. E estas palavras cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa.
Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.
[1] Isto era escrípto em 1844.
[2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leão.
[3] Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a pôr-lh'o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir. Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros no chão d'Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o lado oriental da sé. Além d'isso Aljami parece derivar-se do arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço e as mãos.
Um bulhão e uma agulha d'alfaiate
O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do almirante[2], outros da banda da alcaçova, outros, emfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante, informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello. Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos, fòra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.
Era a manhan immediata á noite em que occorreram os successos narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta moral com o seu rei, mas não se descuidára de vir prestes para uma lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada--não quero!--O elemento democratico erguia-se para influir activamente na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam os animos á revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia.
A hora aprazada para a vinda d'elrei ainda não havia batido; mas o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera, embevecido na idéa de que obrigaria elrei a quebrar os laços adulterinos que o uniam a Leonor Telles, não media o tempo pelo curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se espalhára a voz de que D. Fernando chegára, e duas vezes o povo corrêra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de lodão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimíra o esculptor, escarnecerem da colera popular, que, lenta como os éstos do oceano, começava a crescer e a trasbordar. Apenas lá dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do orgão e do cantochão monotono dos frades, que offereciam a Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saíam de mil bôcas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de resignação e de confiança em Deus.
O povo, porém, era como os homens robustos do Genesis: era impio, porque era robusto.
O dia crescia, e crescia com elle a desconfiança. As noticias corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedêra aos desejos dos seus vassallos e dos peões, e que viria annuncíar ao povo a sua separação de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava que elle era firme em sustentar a resolução contraria. Havia até quem asseverasse que na alcaçova e no terreiro de S. Martínho se começavam a ajunctar homens d'armas e bésteiros. A colera popular crescia, porque a atiçava já o temor.
No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente: eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino.
"Que não vira, vos digo eu:--gritava Ayras Gil.--Disse-m'o Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova, aos açougues, defronte das taracenas d'elrei."
"Mentiu pela gorja como um perro judeu:--replicou Fr. Roy--Não era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraya-miuda elegido por seu propoedor."
"Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados, e faze-los dormir até deshoras--retrucou o petintal.
"Que fazem falar as dobras do paço, sei eu:--tornou o beguino com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passára:--medo sabeis vós que faz fugir: inveja sabemos nós todos que faz imaginar..."
"Descaro e gargantoice que faz mendigar:--interrompeu Ayras Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para o ichacorvos, como galé que vae afferrar outra em combate naval.
"Excommunicabo vos"--murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal.
E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.
N'isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dous campeadores voltaram-se: era o alfaiate.
Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado, estendeu o braço e o index para o logar onde passava Fernão Vasques. Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal o seguia de longe, lento e cabisbaixo.
O alfaiate, cercado de outros cabeças da revolta da vespera, encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma sáia[4] de valencina reforçada, calças de bifa, çapatos de pelle de gamo, chapeirão de ingres com fita de momperle, e cincta de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. D'alli, em pé, com os braços cruzados, correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silencio. Depois, tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um tribuno.
"Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!..."
Esta exclamação d'um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre, foi repetido em grìta confusa por milhares de bôcas.
De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que pareciam correr á redea solta: todos os olhos se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram.
Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.--"São homens d'armas d'elrei!"--Aquelle oceano de cabeças humanas redemoinhou a estas palavras, e começou a dividir-se como o mar vermelho diante de Moysés. N'um momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abríra desde a rua de Gileanes até S. Domingos. As paredes desta adelgaçavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descórou; mas ficou immovel.
Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído: os bésteiros do concelho, postados ao longo dos paços do almirante, eram talvez os unicos em quem o terror não fizera profunda impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço da bésta os virotes hervados, e revolvendo a polé faziam encurvar o arco para o tiro. Os bésteiros de garrucha tinham já o dente desta embebido na corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nús dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas d'Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro do almirante.
Mas no meio deste susto geral apparecêra um heroe. Era Fr. Roy. Ou fosse imprudente confiança no cargo occulto que lhe dera D. Leonor, ou fosse robustez d'animo, ou fosse finalmente a persuasão de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua d'onde rompía o ruído, e mirando pela aresta do angulo um breve espaço, voltou-se para o povo, e curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas.
Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do ichacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquellas risadas produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos contemplam de Napoleão, na batalha das Pyramides. Os amotinados recobraram n'um instante toda a anterior energia.
Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu claramente a causa daquelle temor que apertára por algum tempo todos os corações. Era a còrte que chegava.