Lendas e Narrativas (Tomo I)

Part 3

Chapter 3 3,668 words Public domain Markdown

E todavia a explicação era bem simples: estava no caracter extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado de principe absoluto, situação em que são faceis grandes virtudes e grandes crimes. Habituado á lisonja, a linguagem aspera e altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de ser para elle inaudita; depois a reputação de virtude de Al-gafir, a crença de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar e ao imperio, arrostára com a sua colera, e provára desprezar completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte, Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvação até o throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperança de um futuro incerto, que não podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando para o ceu. Mas, ás vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das expansões mais sinceras, dos mais ardentes vôos de uma piedade profunda, de uma confiança inteira na misericordia divina, o Fakih fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora, que ía gelar no coração do kalifa as consolações da piedade, e despertar remorsos e terrores, ou completa desesperação. Era um jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma estava o segredo da attracçâo e repugnancia, que ao mesmo tempo o velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava todos os dias.

A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas já de um verde amarellado e mortal, desprendiam-se das tranças das romeiras, dos sarmentos das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam, e, remoinhando nas correntes da ventania, íam, íam, até rastejar pelo chão e empeçar na grama sêcca dos prados. O kalifa, exhausto, sentia aquelle ciclo da vegetação moribunda chama-lo tambem para a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito. Al-muulin durante a conversação daquella tarde havia-se mostrado, contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava.

"Conheço que se aproxima a hora fatal:--dizia o kalifa.--Nestas veias em breve se gelará o sangue; mas, sancto fakih, não me será licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre os mussulmanos, o mal entre os infiéis: fiz emmudecer o livro de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno firmado no amor dos subditos e na veneração e temor dos inimigos da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer pela gloria do Islam. Que mais pretendes?--Porque não tens nos labios para o pobre moribundo senão palavras de terror?--Porque ha tantos annos me fazes beber gole a gole a taça da desesperação?"

Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava fazer gelar todas as ardentes idéas mysticas do principe, lhe assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento o do velho monarcha, onde de feito já vagueavam as sombras da morte: depois dirigiu-se á porta da camara, assegurou-se bem de que não era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando para ao pé do almatrah, tirou do peitilho um rôlo de pergaminho, e começou a ler em tom de indizivel escarneo:

"Resposta de Al-gafir o triste ás ultimas perguntas do poderoso Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor, justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raça dos Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia."

Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto. Al-muulin continuou:

"No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do propheta, e que não sabia torcer por humanos respeitos a voz da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmão de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais illustres do Islam, segundo diziam."

"Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros. Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso, e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia. Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um innocente."

As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

"Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

"Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão, ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir...! Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada. O moribundo arrancou um gemido.

"Estás um pouco melhor ... não é verdade, invencivel kalifa? Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida. Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu em torrentes."

"Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas. Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto fakih..."

Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi inintelligivelmente:

"Maldicto!"

"Boa cousa é a historia,--proseguiu o seu algoz sem mudar de postura--quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos; quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos. Ouve, ouve, kalifa!"

Al-gafir, ou antes Umeyya, levantára gradualmente a voz, e estendia os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos, e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo. A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena não seria facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante do cadaver era a expressão mais energica da atrocidade de coração vingativo.

"Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!..."--murmurou o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se depois a scismar largo espaço: as lagrymas rolavam-lhe a quatro e quatro pelas faces rugosas.--"Um anno mais de tormentos, e ficava satisfeito!--exclamou por fim.--Podéra eu dilatar-lhe a vida!"

Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta e grave disse:

"Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

Houve quem o visse saír, quem á luz baça do crepusculo o visse tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa. Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde aquelle dia.

ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)

A Arraya-Miuda

O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia que vem após a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado, quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima dos paços do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi, em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse; mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente a colera popular.

Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje, colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros, nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados, que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento, e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo, que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o pôr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello, elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

"Ouvide! Ouvide!"--bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador principiou:

"Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher de João Lourenço da Cunha?"

"Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques: --respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares.--Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

"Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:--bradou unisona a chusma.

"Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!--replicou Fernão Vasques, socegado o tumulto.--Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado, mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela de pipa?"

"Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha da bésta, me não estourar:--exclamou um bésteiro de conto, cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

"Amendico Vobis!--gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

"Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres vir nesse bordo por nossa esteira:--bradou um petintal d'Alfama, que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores, barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente povoado de semelhante gente.

"Digo por linguagem"--acudiu o beguino--"que ninguém como mestre Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles, do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons servos da igreja."

Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um delles se assentava.

Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando um pouco mais alto.