Lendas e Narrativas (Tomo I)

Part 2

Chapter 2 3,768 words Public domain Markdown

A sala denominada do Kalifa, a mais espaçosa entre tantos aposentos quantos encerra aquelle rei dos edificios, devêra a estas horas mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadarios de muitos lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman, alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman está ahi sósinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como se esperasse ouvir um ruído longinquo. No seu gesto e meneios pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico ruído que lhe fere os ouvidos é o dos proprios passos sobre o xadrez variegado, que fórma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo, uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto de Abdu-r-rahman, que o vê aproximar, pinta-se uma inquietação ainda mais viva.

O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das cans que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba negra. Os pés do que entrára apenas faziam um rumor sumido no chão de marmore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou tunica era de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto. Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia. Não era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do kalifa, que ficára immovel, cruzou os braços e poz-se a contempla-lo calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio:

"Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua é sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em Azzahrat senão para me saciares de amargura; mas apesar disso eu não deixarei de abençoar a tua presença, porque Algafir--dizem-no todos e eu o creio--é um homem de Deus. Que vens annunciar-me, ou que pretendes de mim?"

"Amir-al-muminin[1], que póde pretender de ti um homem cujos dias se passam á sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas noites de oração basta por abrigo o portico de um templo; cujos olhos tem queimado o chôro, e que não esquece um instante que tudo neste desterro, a dôr e o goso, a morte e a vida, está escripto lá em cima? Que venho annunciar-te?!... O mal; porque só mal ha na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos, entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre os seus eternos e implacaveis inimigos!"

"Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambições tem sido satisfeitas, todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira de gloria e prosperidade só fui inteiramente feliz quatorze dias da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e em que já o tinha escripto?"

"Pódes apaga-lo:--replicou o rude fakih--pódes, até, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vês estas faces sulcadas pelas lagrymas? vês estas palpebras requeimadas por ellas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se em breve as tuas palpebras e as tuas faces não estão semelhantes ás minhas."

O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman: os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na côr, tomaram a terrivel expressão que elle costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que só por si fazia recuar os inimigos. O fakih não se moveu, e poz-se a olhar também para elle fito.

"Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas póde chorar arrependido de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que mentiu!"

Os cantos da bôca de Al-gafir encresparam-se com um quasi imperceptivel sorriso. Houve um largo espaço de silencio. Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih proseguiu:

"Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem, o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah, o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"

"Oh,--replicou o kalifa sorrindo--já sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo... Os christãos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer já depoz a espada victoriosa, e crês necessario expôr a vida de um delles aos golpes dos infiéis. Vens prophetisar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih, creio em ti, que és acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro não hesitaria na escolha: fôra esse que eu mandára, não á morte, mas ao triumpho. Se, porém, essas são as tuas previsões, e ellas tem de realisar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em al-djihed[3] contra os infiéis?"

Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia. Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta:

"Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?"

"Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder, fakih?"

"E todavia é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento, entre um e outro. Um delles deve morrer na próxima noite, obscuramente, nestes paços, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo do cutello do algoz, ou do punhal do assassino."

Abdu-r-rahman recuára ao ouvir estas palavras: o suor começou a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma firmeza fingida, sentíra apertar-se-lhe o coração desde que o fakih começára a falar. A reputação d'illuminado de que gosava Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar o principe dos crentes. Com voz trémula replicou:

"Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim da vida a perpetua afflicção, a ver correr o sangue de meus filhos queridos ás mãos da deshonra ou da perfidia?"

"Deus é grande e justo,--interrompeu o fakih.--Acaso nunca fizeste correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedaçaste de dôr nenhum coração de pae, de irmão, de amigo?"

Al-muulin tinha carregado na palavra irmão com um accento singular. Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, não attentou por isso.

"Posso eu acreditar uma tão estranha, direi antes tão incrivel prophecía--exclamou elle por fim--sem que me expliques o modo por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome, seja-me licito dize-lo, é o terror dos christãos, e a gloria do islamismo?"

Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mão para o throno, e disse:

"Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio, e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religião do Koran, escuta-me, porque é obrigação tua ouvir-me."

O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse com voz presa:--"Pódes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!"

Tomando então uma postura humilde, e cruzando os braços sobre o peito, Al-gafir o triste começou da seguinte maneira a sua narrativa.

[1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de kalifa.

[2] Historico

[3] Guerra-sancta

[4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio, e o summo pontificado.

III

"Kalifa!--começou Al-muulin--tu és grande; tu és poderoso. Não sabes o que é a affronta ou a injustiça cruel que esmaga o coração nobre e energico, se este não póde repelli-la, e sem demora, com o mal ou com a affronta, vinga-la á luz do sol! Tu não sabes o que então se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo deixa fugir alguma lagryma furtiva, e até, ás vezes, é obrigado a beijar a mão que o feriu nos seus mais sanctos affectos. Não sabes o que isto é; porque todos os teus inimigos tem cahido diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabeça de cima do cêpo do algoz. Ignoras por isso o que é o odio; o que são essas solidões tenebrosas, por onde o resentimento, que não póde vir ao gesto, se dilata e vive á espera do dia da vingança. Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o coração chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina como será facil aos altos entendimentos o encontra-lo! É por isso que a vingança, que parecia morta e esquecida, apparece ás vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo debaixo dos pés como a vibora, ou despedaça-nos como o leão pulando d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno, a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades, meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!"

E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava para elle espantado.

"Mas--proseguiu o fakih--ás vezes Deus suscita um dos seus servos, um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de alguma idéa occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama urdida nas trévas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem? Para mal?--Não sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se prepara a ruina do teu throno, e a destruição da tua dynastia."

"A ruina do meu throno?--gritou Abdur-r-rahman pondo-se em pé e levando a mão ao punho da espada.--Quem, a não ser algum louco, imagina que o throno dos Beni-Umeyyas póde, não digo desconjunctar-se, mas apenas vacilar debaixo dos pés de Abdu-r-rahman? Quando, porém, falarás enfim claro, Al-muulin?"

E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual impassibilidade o fakih proseguiu:

"Esqueces-te, kalifa, da tua reputação de prudencia e longanimidade. Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu ... Não!... Tens razão ... Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do céu. Quero ser como elle ... Amanhan a estas horas o teu filho Abdallah ter-te-ha já privado da corôa para a cingir na propria fronte, e o teu successor Al-hakem terá perecido sob um punhal d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa a minha narrativa?"

"Infame!--exclamou Abdu-r-rahman--Hypocrita, que me tens enganado! Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr, mas é o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias quebrar a affeição mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir! A minha reputação de prudente, verás que era bem merecida."

Dizendo isto o kalifa ergueu as mãos como quem ia a bater as palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o menor indicio de perturbação ou terror.

"Não chames ainda os eunuchos; porque assim é que dás provas de que não a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir. Para matar ou morrer sempre é tempo. Escuta, pois, o infame, o hypocrita até o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e altivo Abdallah? Bem sabes que elle é incapaz de mentir a seu amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades possiveis."

O fakih desatára de novo n'um rir trémulo e hediondo. Metteu a mão no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras de pergaminho: pô-las sobre a cabeça e entregou-as ao kalifa, que começou a lêr com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as mãos, murmurou:--"Meu Deus! porque te mereci isto!"

Al-muulin fitára nelle um olhar de girifalte, e nos labios vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel.

Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos cheiks berebéres, dos que se haviam domiciliado na Hespanha, conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais importante, porém, de tudo era uma extensa correspondencia com Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem, que por graves offensas passára ao serviço dos christãos de Oviedo e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela. Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se via que Abdallah contava não só com os recursos dos mussulmanos seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infiéis por intervenção de Umeyya. A revolução devia rebentar em Cordova pela morte de Al-hakem e pela deposição de Abdu-r-rahman. Uma parte da guarda do alcaçar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarém com aquella individuação que nas suas cartas elle constantemente exigia. Al-muulin falára verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de si a longa teia da conspiração, escripta com letras de sangue pela mão de seu proprio filho.

Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dôr na postura que tomára. O fakih olhava fito para elle com uma especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o sentimento da vida.

"É tarde:--disse o fakih.--Chegará em breve a manhan. Chama os eunuchos. Ao romper do sol a minha cabeça pregada nas portas de Azzahrat deve dar testemunho da promptidão da tua justiça. Elevei ao throno de Deus a ultima oração, e estou apparelhado para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lançar sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando a justiça espera não são boas horas para meditar ou dormir."

Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal reprimido.

A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas cogitações. Poz-se em pé. As lagrymas haviam corrido por aquellas faces, mas estavam enxutas. A procella de paixões encontradas tumultuava lá dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrára apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mão mirrada de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse:

"Homem que guias teus passos pelo caminho do céu; homem acceito ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior á fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas tu esquece-lo! Agora estou tranquillo ... bem tranquillo ... Abdallah, o traidor que era meu filho, não concebeu tão atroz designio. Alguém lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo soberbo as vans e criminosas esperanças de subir ao throno por cima do meu cadaver e do de Al-hakem. Não desejo sabe-lo para o absolver; porque elle já não póde evitar o destino fatal que o aguarda. Morrerá; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus confiou-me no Andalus a espada da suprema justiça. Morrerá; mas hão-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo."

"Ainda ha pouco te disse--replicou Al-gafir--o que pôde inventar o ódio que é obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferença, e até da submissão. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo. Has-de confessar que se houve com destreza. Só n'uma cousa não: em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? ... não digo bem ... fazer-me seu instrumento ... A mim! ... Queria que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas allianças com os amires infiéis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado dos christãos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude colligir estas provas de conspiração. Loucos! as suas esperanças eram a miragem do deserto... Dos seus alliados apenas os de Zarkosta e das montanhas de Al-kibla não foram um sonho. As cartas de Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra de Umeyya, esse é um segredo que depois de tantas revelações, tu deixarás, kalifa, que eu guarde para mim ... Oh, os insensatos! os insensatos!"

E desatou a rir.

A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolução, que ameaçava trazer á Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil, devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessário afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do coração a cruel lembrança de que era um filho que ia sacrificar á paz e á segurança do império, o kalifa despediu Al-muulin, e mandando immediatamente reunir o divan deu largas instrucções ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente por salvar a vida de seu irmão, o kalifa mostrou-se inflexivel. A cabeça de Abdallah cahiu aos pés do algoz na propria camara do principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra em que o tinham lançado, evitou assim o supplicio.

O dia immediato á noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres famílias.

[1] Os árabes designavam os reis de Oviedo e Leão pelo titulo de reis de Galliza.

IV

Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah, ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas, faziam sobre-saír as feições enrugadas, a pallidez do rosto, o encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as características do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiriçadas dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida néssa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava com outro velho, que, em pé defronte delle, o escutava attentamente; mas a sua voz saia tão fraca e lenta, que, apesar do silencio que reinava no aposento, só na curta distancia a que estava o outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa.

O seu interlocutor é uma personagem que o leitor conhecerá apenas reparar no modo por que está trajado. A sua vestidura é uma aljarabia de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que nisto cifrou todos os commodos que acceita á civilisação. Está descalço, e a grenha hirsuta e já grisalha cahe-lhe sobre os hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez não é pallida, os seus olhos não perderam o brilho, como a tez e como os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina a côr mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo; nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixões ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a jorrar do volcão que ainda parece dormir. É Al-muulin, o sancto fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio da intentada revolução de Abdallah.

Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobríra a conspiração que se urdia, e desde então nunca mais se víra Abdu-r-rahman sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descêra como a maldicção do propheta sobre a cabeça do principe dos crentes. Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della senão momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonára os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da escrava Nuirat-eddia, a conversação instructiva da bella Ayecha, e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adoçava a existencia aborrida do velho leão do islamismo. Mas apenas Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem, tão temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas doutrinas, prégadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo. Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e, ao vê-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio que havia entre ambos ninguem o podia entender.