Part 15
"Mestre Ouguet:--tornou o cégo, parando.--Não sou tão vil que negue seu saber e habilidade: se a abobada desabar segunda vez, ninguem no mundo é capaz de a fechar com uma só volta, e para a firmar sobre uma columna erguida no centro, mestre Ouguet o fará. Quanto ao resto do edificio, fazei senhor rei que se prosiga meu desenho: é o que ora vos peço tão sómente."
E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas, que sustinham as traves dos simples: elrei, Fr. Lourenço, e os mais frades ficaram atonitos e calados.
"Que tão honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros castelhanos cousa é que se não póde soffrer: mas o voto é voto, senão..."
Estas palavras partiam da bôca d'uma gorda velha, cuja tez avermelhada dava indicios de compleição sanguinea e irritavel, e que de mãos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas do povo presenceava o caso.
"Tendes razão, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo eu:--acudiu elrei, voltando-se para a velha.--Mas juro a Christo, que estou espantado de só agora vos vêr! Porque me não viestes falar?"
"Perdoe-me vossa mercê:--replicou a velha.--Eu vim trazer pão á feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri ... se eu correria para vos falar! Mas estes bôcas abertas não me deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar... Parecieis-me carregado de semblante. Que é isso? Temos novas voltas com os excommungados castelhanos? Se assim é, trosquiae-mos outra vez por Aljubarrota, que a pá não se quebrou nos sete que mandei de presente ao diabo, e ainda lá está para o que der e vier."
Soltando estas palavras, a velha tirou as mãos das algibeiras, e cerrando os punhos, ergueu os braços ao ar, com os meneios de quem já brandia a tremebunda e patriotica pá de forno, que hoje é gloria e brasão da gothica villa de Aljubarrota.
"Podeis dormir descançada, tia Brites:--respondeu elrei, sorrindo-se.--Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a gente de nossa terra é cortez: elrei de Castella veio visitar-nos varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura suas visitações."
Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto; e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello, batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular. Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim Vasques.
Passada uma hora, aquelle montão de vigas, barrotes, taboas, cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela crasta fóra em collos de homens: os presos tinham sido postos em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vêr ir soltos os bésteiros castelhanos; e só no centro da ampla quadra se via uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito, estava assentado um velho.
A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle não lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco retirando da crasta, onde ao pôr do sol começou a bater o luar de uma formosa noite de Maio.
Três dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a pedra fria, nem se quer cedêra ás rogativas de Anna Margarida, que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevêra a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vêr se o movia a tomar alguma refeição: tudo recusou o cégo: a sua resoluçào era inabalavel. Também a abobada estava firme, como se fôra de bronze. No terceiro dia á tarde elrei, que tinha passado o tempo em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu á crasta acompanhado de Fr. Lourenço e de outros frades, e chegando á porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto á pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras cerradas encostado nos braços delles.
O mancebo e a velha choravam e soluçavam, sem dizerem palavra.
"Que temos de novo?--perguntou elrei, chegando á porta, e vendo aquelles dous estafermos.--Completam-se ora os tres dias do voto: ainda mestre Affonso teimará em estar aqui mais tempo?"
"Não senhor:--respondeu Martim Vasques, com palavras mal articuladas:--não estará aqui mais tempo; porque seu corpo é herança da terra; sua alma repousa com Deus."
"Morto!?"--bradaram a uma voz elrei e Fr. Lourenço; e correram para o cadaver do architecto, olhando, todavia, primeiro para a abobada com um gesto de receio.
"Nada temaes, senhores:--disse Martim Vasques--As ultimas palavras do mestre foram estas: a abobada não cahiu ... a abobada não cahirá!"
O architecto, já velho, não pôde resistir ao jejum absoluto a que se condemnára. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e Anna Margarida, se quiz erguer cahiu moribundo nos braços delles, e aquelle genio de luz mergulhou-se nas trévas do passado.
Elrei derramou algumas lagrymas sobre os restos do bom cavalleiro, e Fr. Lourenço resou em voz baixa uma oração fervente pela alma generosa, que até o ultimo arranco escrevêra sobre o marmore o hymno dos valentes de Aljubarrota.
Na pedra, sobre a qual Mestre Affonso expirára, ordenou elrei se tirasse, parecido quanto fosse possivel retratando-se um cadaver, o vulto do honrado architecto, e que esta imagem fosse collocada em um dos angulos da casa capitular, onde durante mais de quatro seculos, como as sphynges monumentaes do Egypto, tem dado origem ás mais desvairadas hypotheses e conjecturas. Á pobre Anna Margarida, que ficava sem arrimo, doou D. João I, tambem, as casas em que o mestre morava, fazendo-lhe, além disso, assignaladas mercês.
Mestre Ouguet, pelo que o cégo dissera a elrei ácerca da sua capacidade para o substituir, e porque, emfim, era estrangeiro, foi logo restituido ao cargo que occupára, e quando nos serões do mosteiro alguem falava nos meritos de Affonso Domingues e na sua desastrada morte, cortava o irlandez a conversação, dizendo com um riso amarello:
"Olhem que foi forte perda!"
[1] A louça de Estremoz é antiquissima em o nosso paiz. No tempo de Francisco I de França, mandavam-se buscar os pucaros desta louça a Portugal, para beber a agua, que então, bem como hoje, se tornava nelles excessivamente fria.
[2] Semanas.
[3] Martim Vasques foi o 3.º mestre das obras da Batalha e Fernão d'Evora o 4.º--Veja-se a Memoria de D. Francisco de S. Luiz no 10.º volume das da Academia.
FIM DO TOMO I.
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INDICE.
O ALCAIDE DE SANTAREM
(590--961)
I
II
III
IV
ARRHAS POR FORO D'HESPANHA
(1371--2)
I A Arraya-miuda
II O Beguino
III Um Bulhão e uma Agulha de Alfaiate
IV Mil Dobras Pé-terra e trezentas Barbudas
V Mestre Bartholomeu Chambão
VI Uma Barregan Rainha
VII Juramento--Pagamento
O CASTELLO DE FARIA
(1373)
A ABOBADA
(1401)
I O Cégo
II Mestre Ouguet
III O Auto
IV Um Rei Cavalleiro
V O Voto Fatal