# Lendas e Narrativas (Tomo I)

## Part 13

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Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança, e a Caridade: após ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba; todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo, vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo tablado, e seu forcado na mão, mui vistoso e bem posto. Feitas as venias a elrei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que a Fé acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fé não era culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar toda a gente; que se dava ao démo por vêr as perrarias que a Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando os grandes desvairos que pelo mundo íam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no inferno, a mandára para lhes apontar o direito caminho do céu; e por aqui seguia com razões mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas as razões da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e rosto acceso, começou de bradar, que esta dona era sandía, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros, e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com os senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fóra da geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Suberba que era. Não soffreu, porém, o animo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lh'o atalhou com tomar a mão naquelle ponto, e notar que os filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Suberba inventára as vans distincções entre os homens, e que á vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente á sua contraria com bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui corrida, por não ter contra tão grande auctoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria, o Diabo e a Suberba, e annunciar ás tres virtudes que as ía elevar ao céu, onde reinariam em gloria perduravel. Então o Diabo, fazendo horribilissimos biocos, pegou pelas mãos ás duas companheiras, e fugiu pela igreja fóra com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degráus das ondas de papelão para a terra de soalho) em vez de subir ao céu, como annunciára, desceu pelas pranchas, que davam para o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu á sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão victoriadas pelos espectadores, como apupado fôra o Diabo e as suas infernaes companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, saíram os tres reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina téla, mantos reaes, e corôas na cabeça. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas: logo após elle vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrella os guiára até Jerusalem, e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Bethlem, e com grande folgança encontravam ahi o presepe, para fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David, Divinal Salvador da triste raça Humanal, Que descestes lá do assento Celestial; Vós da gloria imperador Eternal, Acceitae este offertorio Não real, Pobre si. É quanto posso: Não hei al. O que fôra compridoiro De auto tal Bem o sei. Andei más vias, Por meu mal; Que dez dias prantei tendas De arrayal Nas soidões fundas d'Arabia, Mui fatal. Meus camellos ha tisnado Sol mortal; E um, de vento do deserto, Vendaval. O presente, que ahi vêdes, Pouco vai; É somente algum incenso Oriental; Que o thesouro que eu trazia, Mui cabal, Soterrou-mo a tempestade No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse:

Vindo sou Iá do Cataio A adorar-vos alto infante, Redemptor: Não me poz na alma desmaio Ser de lerra tào distante Rei, senhor! É bem torva a minha lace: Minhas mãos tingidas são De negrura; Mas na terra onde o sol nace Mais se cobre o coração De tristura; Porque o torpe Mafamede Sua crença mui sandia Mandou lá; E não ha quem della arrede Essa gente, que aperfia Em ser má. Real tronco de Jessé Mui fermoso, se eu podéra Vos levára; E comvosco á vossa fé Os incréus eu convertêra, E os salvára. Ora quero vêr se peito São José, que é vosso padre ....

Um sussurro, que começára no momento em que o rei preto ajoelhou, e que mal deixára ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pôde, continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a corôa de louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio delle saíam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidão, sem touca na cabeça, cabellos desgrenhados, bôca torcida e cuberto de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da têa, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou immovel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os bombros, como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!--exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!--gritou Fr. Lourenço, com todos os signaes de assombro.

"Mestre Ouguet!--repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?--rosnou David Ouguet, com uma voz comprimida e sepulchral.--Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fôra um cão judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha alma!"--E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar fôlego:-- "Não vos chegueis ahi!--bradou elle.--Não vedes essas fendas profundas como o caminho do inferno? São escuras: mas atravez dellas lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão cegos ... porque o vosso bom nome não se escoa por lá!... Cégos? Não vós!... mas elle!... Elle é que se ri e folga em sua orgulhosa suberba! Vêde como escancára aquella bôca hedionda; como revolve, debaixo das palpebras cubertas de vermelhidão, aquelles olhos embaciados!... Maldicto velho, foge diante de mim!... Maldicto, maldicto!... Curvada ja no centro ... sentia-a escaliçar e ranger... Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!... Anda, que eu bem ouço as tuas gargalhadas!... Não ha um raio que te confunda?.. Não!"

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mãos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh'os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"Não vou fóra disso:"--respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.--"O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as mãos.

O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção, e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

"Frade abominável, tambem tu és conluiado com o cégo?"

"Não ha duvida!--disse por entre os dentes o prior:--mestre Ouguet está endemoninhado."

Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escriptas varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeça do mestre, fazendo sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas, que horrorisam, e que tão frequentes são quando o padecimento moral sobrepuja as forcas da natureza.

"Cão tinhoso--bradou Fr. Lourenço--espirito das trevas, enganador, maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e refece demónio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sáias deste miseravel corpo."

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

"Não cedes?!"--proseguiu o prior--"Recorrerei ao septimo, ao mais terrivel exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer das creaturas feitas á imagem e semelhança de Deus."

Depois de varias ceremonias e orações, Fr. Lourenço chegou-se ao pobre irlandez, e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente:

"Hel--Heloym--Heloa--Sabaoth--Helyon--Esereheye--Adonay--Iehova-- Ya--Thetagrammaton--Saday--Messias--Hagios--Ischiros--Otheos-- Athanatos--Sother--Emanuel--Agla--......

"Jesus!"--bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

"Diabo!"--gritou mestre Ouguet; e caíu no chão como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.

Um ruído semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soára da banda da sacristia, tinha arrancado aquelle grito de mil bôcas, e tinha convertido em estatuas essa multidão de povo.

Ha situações tão violentas, que se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos; e então, melhor que nunca, elle sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais timido o individuo se mostrou, mais viva é a consciência da propria força, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito, e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia que Fr. Lourenço practicava; o ruído inesperado que rompêra o exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissão a uma grande manada de philosophos encyclopedistas, e que por isso, não é de admirar fizessem uma impressão vivissima em homens de um seculo, não só crente, mas tambem supersticioso. Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar alento a todos os que ahi estavam.

"É, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e ouvido--disse elle com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam;--mas cumpre indagar d'onde procede o ruído que veiu interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no mundo capaz de pôr espanto em cavalleiros portuguezes?"

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei ía adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia: ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto dava uma luz frouxa e mortiça, e a esta luz incerta e baça encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

"Jesus!"

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fóra, entulhando-lhe quasi um terço da altura. Olhando para o interior daquella immensa quadra não se viam senão enormes fragmentos de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a lua, que passava tranquilla nos céus, reflectia o seu clarão pallido sobre este montão de ruinas semelhantes aos monumentos irregulares de um cemiterio christão; e por cima daquelle temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Lourenço cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!

[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.

[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo, que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar. Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604--Tom. 3. pág. 83.

UM REI CAVALLEIRO.

Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro da Batalha, á roda de um bufete de carvalho de lavor antigo, cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma especie de escabéllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor já tractou nos antecedentes capitulos. Eram estas D. João I, Fr. Lourenço Lamprêa, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava á cabeceira da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo á sua esquerda Fr. Joanne. Além destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas lidas nas chronicas deste reino tambem conhecerão: taes eram os doutores João das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei, cavalleiros mui graves e auctorisados, e afóra elles mais alguns fidalgos, que D. João I particularmente estimava. Atraz da cadeira d'elrei um pagem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor. O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.

Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho, no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traça ou desenho do mosteiro, que delineára mestre Affonso Domingues, onde, além dos prospectos geraes do edificio, illuminados primorosamente, se viam todos os córtes e alçados de cada uma das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha a mão estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular, ao passo que falava com o prior:

"Parece impossivel isso; porque natural desejo é de todos os homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para mestre Affonso se doer da mercê que lhe fiz."

"Pois a conversação que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem, pouco antes de vossa mercê chegar."

"E como vae David Ouguet?--perguntou elrei.

"Com grande melhoria:--respondeu o prior.--Dormiu bom espaço, e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem após nós na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecêra que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentíra apertar-se-lhe o coração, e que com a sua afflicção corrêra pela crasta fóra como doudo; que no céu se lhe affigurava um relampaguear incessante e medonho; que via ... nem elle sabe o que via, o pobre homem. Depois disso, diz que perdêra o tino, e de nada mais se recorda."

"Nem dos exorcismos?--perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com um sorriso malicioso.

"Nem dos exorcismos:--retrucou Fr. Lourenço no mesmo tom, mas subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da colera.--A proposito, doutor. Dizem-me que Annequim é morto[1], e que elrei proveu o cargo em um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular?"

E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados. Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta, naquelle jogo de allusões que era as delicias do tempo, quando elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:

"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa á morada d'Affonso Domingues, dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso com tento; e lembrae-vos de que elle é um antigo cavalleiro, que militou com vosso mui esforçado pae."

O pagem saíu a cumprir o mandado d'elrei.

"Dizeis vós--proseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e a Martim d'Ocem--que talvez Affonso Domingues se enganasse em suppôr que era possivel fazer uma abobada tão pouco erguida, como é a que elle traçou para o capitulo. Não creio eu que tão entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem á noite procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta edificação."

"E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-m'o?--replicou João das Regras.

"A de não seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:--tornou elrei.

"E se a execução de sua traça fosse impossivel?--acudiu o doutor.

"Impossivel!?"--atalhou elrei.--"E não contava elle com leva-la a effeito, se Deus o não tolhesse dos olhos?"

"E é disso que mais se doe mestre Affonso,"--interrompeu o prior.--"A sua grande canseira é que ninguem saberá continuar a edificação do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu livro de pedra, porque ninguem é capaz de entender o pensamento que o dirigiu na concepção delle."

"Roncarías e feros são esses proprios de quem foi homem d'armas de Nunalvares:--disse o chanceller João das Regras.--Todos os de sua bandeira são como elle. Porque sabem jogar boas lançadas, teem-se em conta de principes dos discretos; e o cégo não se esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."

João das Regras, emulo de Nunalvares, não perdeu este ensejo de lhe pôr pêcha; mas D. João I que conhecia serem esses dous homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lançar na balança, em que João das Regras mostrava o grande peso da sua penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates salvado a patria do dominio estranho, e a cabeça do chanceller das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem os gráus de doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.

"Deixae lá o condestavel, que não vem ao intento;--disse elrei:--o que me importa é ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o capitulo de Sancta Maria da Victoria ficará em ruinas. Mestre Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abobada: se Affonso Domingues fôr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme, concluirei d'ahi que vale mais o cégo que o limpo de vista; e digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja, além de cégo, çopo[2] e mouco."

