# Lendas e Narrativas (Tomo I)

## Part 12

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"De merencorio humor estaes hoje:--disse o prior sorrindo.--Não só eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes, e dirigistes, em quanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"--bradou o velho--"Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escriptura."--Aqui mestre Affonso, puxando com a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito.--"Em Aljubarrota foi escripto o documento á ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre d'Aviz. Já lá vão quinze annos! Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha d'armas era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vós, veneravel prior, porque me concedeu uma tença!?--Que a guarde em seu thesouro; porque ainda ás portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres se reparte pão por cégos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenço tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito para o cégo durante algum tempo com o olhar vago de quem não o comprehendia. Depois a idéa da tardança d'elrei e da tardança do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o architecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silencio. Por fim segurando com força a manga do habito de Fr. Lourenço, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li já, e mais de uma vez:--respondeu o prior:--É obra prima daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura algumas ousadias contra o papa..."

"Pois sabei, reverendo padre,--proseguiu o architecto, atalhando o impeto erudito do prior,--que este mosteiro, que se ergue diante de nós, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia: cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina de canção immensa; mas canção que cumpria se escrevesse em marmore, porque só o marmore era digno della: os milhares de lavores que tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam mortos, não o estavam os do espirito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejára. Que direito tinha o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face de um archanjo que eu creára? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus çapatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que tem dispendido? O ouro! ... Não! OMeslred'Aviz sabe que o ouro é vil; só nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias. E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!... Com uma tença paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeço-vos, senhor rei, a mercê!... sois em verdade generoso ... mas o nome de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumirá este no brilho de sua fama mentida..."

O cégo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falára lhe exhaurira as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pé diante delle.

"Estaes mui perturbado pela paixão, mestre Affonso--disse Fr. Lourenço depois de uma larga pausa--por isso menoscabaes mestre Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho d'elrei que deviam propôr-lhe vos désse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor e experto architecto de Portugal, cuja memoria será eterna, e nunca offuscada."

"Obrigado--atalhou o velho--aos conselheiros d'elrei pelos bons desejos que em meu prol têm. São politicos, almas de lodo, que não comprehendem senão proveitos materiaes. Dão-me o repouso do corpo, e assassinam-me o da alma! Ácêrca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar: mas que ponha elle por obra suas traças, e deixem-me a mim dar vulto ás minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter vivido com a revolução, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adultera[2]; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. Não é este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse encommendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portugueza, que disse: não seremos servos do estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na sociedade dos irmãos obreiros[3], trabalhou nas sés de Inglaterra, de França, e de Alemanha: ahi subiu ao gráu de mestre, mas a sua alma não é aquecida á luz do amor de patria; nem, que o fosse, é para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mãos de portuguezes devia ser concebido e executado até seu final remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes lá foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães. Sei que não seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas nós deixariamos successores, que conservassem puras as tradições da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo virá em que, nesta obra dos seculos, não haja mãos vigorosas que prosigam os lavores que mãos cansadas não poderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficará truncado. Mas Affonso Domingues tem uma pensão d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos menção no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma janella no momento em que o cégo terminava estas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Está prompta a cêa, e começa a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

"Vamos lá, vamos lá, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o ourêlo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com o braço, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:--disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos, e de dous puxões nas barbas da estriga quasi fiada.

"Vá na graça do Senhor, filha:--respondeu Fr. Lourenço, e accresccntou dírigindo-se ao cégo:

"Meu irmão, Deus acceita só ao homem, em desconto da grande divida, a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens é que nunca me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a cêa ainda ao lume, foi puxando o cégo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te após a vista o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!... Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia, Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes. Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.

MESTRE OUGUET.

Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados--voz do povo é voz de Deus--ou--voz do povo é voz do diabo--seja o que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle: --"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"--grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:--dizia Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:--tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis de vos accusar, este não fôra o menos grave, e de que eu muito a custo absolveria vossa mercê:--retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paço, do que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:--disse elrei, parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenço o encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:--acudiu elrei:--que de Santarem aqui é uma corrida de cavallo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnez e braçaes, traz vestidos de seda. Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar mais lançadas, e não vieram a conclusão de treguas o Mestre de Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre; mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está elle? Quero agradecer-lhe a boa diligencia."

"Beijo-vos as mãos pela mercê:"--disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vêr aquella grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva:--"Se quereis vêr a casa do capitulo, vamos para a banda da crasta."--Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham soffrido grande distensão, em consequencia da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer havia bem vinte annos. Desde muito moço que começára a produzir grande impressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel fraqueza resolvêra traze-lo sempre sopeado. Não lhe dava treguas; se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pêso de dez atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso mister de cangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação. De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensavel ao proprio interesse: nunca matára ninguem, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadaver de seu pae para tocar a méta de qualquer designio ambicioso: com tres licções de phrases oucas dava panno para se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou obter e alcançou a protecção da rainha D. Philippa, que, havendo Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na sua mocidade subido ao gráu de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.

Esta é em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos das Côrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a apparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade e importancia, que por pirraça ás nossas glorias provavelmente os castelhanos nos levaram.

O lanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ía elrei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico recincto, olhou para lá, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquellas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se á risca nesta parte--tornou o architecto--o desenho geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa mercê m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma cousa que vos dizer ácerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:--respondeu elrei--que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia--proseguiu mestre Ouguet--de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que elle havia traçado?--interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:--replicou David Ouguet.--Cégo, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto, estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.

"Mestre Ouguet--acudiu elrei com aspecto severo--lembrae-vos de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:--tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falára.--Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior--disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço--vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a espaços:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3.°, em 1409.

O AUTO.

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.

Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.

