Part 11
O casamento de Leonor Telles, e as consequencias delle são o primeiro acto do drama terrivel, da Iliada scelerun da sua vida politica. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance historico. Todo o drama daria, nessa fórma da arte, uma terrivel chronica. Desde esta conjunctura, até ser arrastada em ferros para Castella por aquelles mesmos que chamára a assolar o seu paiz, a Lucrecia Borgia portugueza é na historia daquella epocha uma espécie de phantasma diabolico, que apparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue, ou d'atrocidade.
[1] Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 75.
[2] A rainha... como era ousada e muito faladora: Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 126.
[3] Ibid. Cap. 72.
[4] O selo de puridade ou do camafeu era aquelle que se estampava no proprio pergaminho, e que servia ordinariamente para o rei expedir documentos de menos importancia, na falta do chanceller-mór, que tinha o sêllo grande, curial, ou do cavallo. Veja-se a Dissertação 3ª de J. P. Ribeiro.
[5] Os tumultos contra o casamento de D. Fernando não se tinham limitado a Lisboa. Pelas doações dos bens dos treedores mortos ou decepados se conhece que houve assoadas e depois vinganças em Satarem, Leiria, Abrantes e outras partes.
[6] Neste século ainda barbaro o uso de hervarou envenenar as armas de tiro ou arremesso era vulgarissímo nos combates.
[7] a nota é imaginaria, mas esta mercê acha-se com effeito registada a f. 128 do L.º 1.º da chancellaria de D. Fernando; cumpre todavia advertir que dessa chancellaria apenas existe original o 3.º livro: o 1.º é dos reformados ou estragados por Gomes Eannes de Azurara.
O CASTELLO DE FARIA (1373)
A breve distancia da villa do Barcellos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longo um convento de Franciscanos. Aprazivel é o sitio, sombreado de velhas arvores. Sente-se alli o murmurar das aguas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silencio daquella solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horisontes parece encaminha e chamar o espirito á contemplação das cousas celestes.
O monte que se alevanta ao pé do humilde convento, é formoso, mas aspero e severo como quasi todos os montes do Minho. Da sua corôa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colloeado no cimo daquella eminencia volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, e os prados e as fragas, e os soutos e os pinhaes apresentam-lhe o panorama variadissimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.
Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre elle se ouviram gritos de combatentes, ancias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, e estrondo de machinas de guerra. Claros signaes de que ahi viveram homens; porque é com estas balisas que elles costumam deixar assignalados os sitios que escolheram para habitar na terra.
O castello de Faria com suas torres e ameias, com sua barbacan e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou ahi como dominador dos valles vizinhos. Castello real da meia idade, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão ha muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de marmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcacer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e cahiu. Ainda no seculo dezesete parte da sua ossada estava dispersa por aquellas encostas: no seculo seguinte já nenhuns vestigios delle restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremiterio fundado pelo celebre Egas Moniz era o unico eccho do passado que ahi restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança D. Affonso. Era esta lagea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, ultimo senhor de Ceuta. D. Affonso, que seguíra seu pae D. João I na conquista daquella cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a comsigo para a villa de Barcellos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do christianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?
Serviram os fragmentos do castello de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitorios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbraes das balhesteiras e postigos em janellas claustraes. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas delle alevantou-se a harmonia dos psalmos e o sussurro das orações.
Este antigo castello tinha recordações de gloria. Os nossos maiores, porém, curavam mais de practicar façanhas, do que de conservar os monumentos dellas. Deixaram por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heroicos feitos de corações portuguezes.
Reinava entre nós D. Fernando. Este principe, que tanto degenerára de seus antepassados em valor e prudencia, fôra obrigado a fazer paz com os castelhanos depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que esgotou inteiramente os thesouros do estado. A condição principal, com que se poz termo a esta lucta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha d'elrei de Castella: mas brevemente a guerra se accendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Telles, sem lhe importar o contracto de que dependia o repouso dos seus vassallos, a recebeu por mulher, com affronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pae a tomar vingança da injuria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exercito, e recusando D. Fernando acceitar-lhe batalha, veiu sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso proposito narrar os successos deste sitio, volveremos o fio do discurso para o que succedeu no Minho.
O Adiantado de Galliza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela provincia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavallo, emquanto a maior parte do exercito portuguez trabalhava ou por defender ou por descercar Lishoa. Prendendo, matando e saqueando, veiu o Adiantado até as immediações de Barcellos sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saíu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Cêa, e tio d'elrei D. Fernando, com a gente que pôde ajunctar. Foi terrivel o conflicto; mas por fim foram desbaratados os portuguezes, cahindo alguns nas mãos dos castelhanos.
Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mór do castello de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para soccorrer o conde de Cêa, vindo assim a ser companheiro na commum desgraça. Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello d'elrei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros, de bom grado désse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escaceavam. Estas considerações suggeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castello; porque elle com suas exhortações faria com que seu filho o entregasse sem derramamento de sangue.
Um troço de bésteiros e de homens d'armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O exercito victorioso ía tomar posse do castello de Faria, que lhe promettêra dar nas mãos o seu captivo alcaide.
De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior ou barbacan.
Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda[1] pelas quadrellas do muro, e subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro aonde se haviam acolhido os habitantes da povoação, estava cuberlo de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos, das mulheres, e das creanças, que alli se julgavam seguros da violencia de inimigos desapiedados.
Quando o troço dos homens d'armas, que levavam preso Nuno Gonçalves, vinha já a pouca distancia da barbacan, os bésteiros que coroavam as ameias encurvaram as béstas, os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrarios os seus quadrellos e virotões, em quanto o clamor e o chôro se alevantava no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.
Um arauto saíu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacan: todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se n'um silencio profundo.
"Moço alcaide, moco alcaide!--bradou o arauto--teu pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galliza pelo muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo de fóra de teu castello."
Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e chegando à barbacan, disse ao arauto:--"A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero."
O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacan. Chegados ao pé della, o velho guerreiro saíu d'entre os seus guardadores e falou com o filho:
"Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castello, que, segundo o regimento de guerra, entreguei á tua guarda quando vim em soccorro e ajuda do esforçado conde de Cêa?"
"É--respondeu Gonçalo Nunes--de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem."
"Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas delle?"
"Sei, oh meu pae!--proseguiu Gonçalo Nunes em voz mais baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.--Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistencia?"
Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:--Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castello de Faria! Maldicto por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castello, sem tropeçarem no teu cadaver."
"Morra!--gritou o almocadem castelhano--morra o que nos atraiçoou."--E Nuno Gonçalves cahiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças.
"Defende-te, alcaide!"--foram as ultimas palavras que elle murmurou.
Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacan, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros: grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.
Os castelhanos accommetteram o castello: no primeiro dia de combate o terreiro da barbacan ficou alastrado de cadaveres tisnados, e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca: o vento suão soprava nesse dia com violencia; e dentro em pouco os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castello, pereceram junctamente com as suas frageis moradas.
Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldicção de seu pae: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o ultimo grito do bom Nuno Gonçalves:--"Defende-te, alcaide!"
O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castello de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exercito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.
Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento, e pelas façanhas que obrára na defensão da fortaleza, cuja guarda lhe fôra encommendada por seu pae no ultimo trance da vida. Mas a lembrança do horrivel successo estava sempre presente no espirito do moço alcaide; e, pedindo a elrei o desonerasse do cargo, que tão bem desempenhára, foi depôr ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavalleiro, para se cubrir com as vestes pacificas do sacerdocio. Ministro do sanctuario, era com lagrymas e preces que elle podia pagar a seu pae o ter cuberto de perpetua gloria o nome dos alcaides de Faria.
Mas esta gloria, não ha hoje ahi uma unica pedra que a atteste. As relações dos historiadores foram mais duradouras que o marmore.
[1] Roldas e sobreroldas eram os soldados e officiaes encarragados de rondarem os postos e atalaias.
A ABOBADA (1401)
O CÉGO.
O dia 6 de Janeiro do anno da Redempção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens: os campos, cubertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosissimos dias de inverno, mais gratos que os do estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da terra, ennegrecida pela humidade, errando por entre os troncos pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de creanças no primeiro viço da vida a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual ha muito sussurrou o ultimo ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos acceitar como cousa mui poetica
Esses gêlos do norte, esses brilhantes Caramellos dos tópes das montanhas,
sem se lembrarem de que
Do sol do meio-dia aos raios vividos, Parvos!--se lhes derretem: a brancura Perdem co'a nitidez, e se convertem De lucidos cristaes em agua chilre;
destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades.
No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem elrei D. João I tinha doado esse magnifico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquellas altas abobadas, onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do celebrante, que entoava os kyries.
Mas não era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recincto sonoro daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja, e diante do rico presepe que os frades tinham alevantado juncto ao arco da capella do fundador então apenas começada. A concorrencia era grande, porque os habitantes da Canoeira, d'Aljubarrota, de Porto-de-Mós e dos mais logares vizinhos, desejosos de ver tão curioso espectaculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros para o valle por sendas torcidas, aquellas multidões, vestidas de cores alegres, e semelhantes no seu todo a serpentes immensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando a planicie, em que avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa.
No campo contiguo ao edificio, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cubertas de madeira, e abertas para todos os lados, á maneira de simples telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do tempo eram as moradas dos mestres e artifices que trabalhavam no edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n'uns pedras só desbastadas, n'outros algumas onde se começavam a divisar lavores, n'outros, emfim, pedaços de cantaria, em que os mais habeis esculptores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel porção de pedras, lavradas, pulidas, e promptas para serem collocadas em seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro, que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis rendados, peças dos fustes, capiteis gothicos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou ainda no chão endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, officiaes, e mais obreiros desta maravilhosa machina. Quem de longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos primores de esculptura, julgára ver o assento de uma cidade antiquissima, arrasada pela mão dos homens ou dos seculos, de que só restára em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento d'um convento de frades dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria, vulgarmente chamado a Batalha!
Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das proximas povoações, e de todo o ruido e algazarra que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do orgam, soltando a espaços suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe, suaves como um pensamento do céu.
Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edificio. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, veneravel de aspecto, que parecia embebido em profundas meditações: pendia-lhe sobre o peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre elle uma capa curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados morava um animo rico de alto imaginar: as faces do velho eram fundas, as maçans do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva, e o perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada como quem vivêra vida de continuo pensar, e correndo com a mão os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou approvava com eloquencia muda os primores ou as imperfeições do artifice, que copiára á ponta de cinzel aquella pagina do immenso livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam simplesmente o mosteiro da Batalha.
Emquanto o velho scismava sósinho, e palpava o canto subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, á portaria do mosteiro, que perto d'alli ficava, outras figuras e outra scena se viam. Dous frades estavam em pé no limiar da porta, e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés, e estendendo os pescoços, parecia quererem descubrir no horisonte, que as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto: depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços, e voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar.
"Oh homem!--dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabellos grisalhos davam certo ar de auctoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na côr negra da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.--Já disse a vossa reverencia, que elrei me escreveu de seu proprio punho que viria assistir ao auto da adoração dos reis, e de caminho veria a casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abobada."
"E nego eu isso?--replicou o outro frade.--O que digo é que me parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que lá vae o meio-dia; daqui a pouco tocará a vesperas e ás duas por tres é noite. Não vêdes, padre mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que ahi está, que ahi vem, ha-de ir com o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com raparigas..."
"Tá, tá--interrompeu o prior.--Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos elrei e os de sua companha."
"Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido tanto descanço como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestavel: o peior é que, segundo me parece, e dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"
"Não falta quem tarda: elrei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas, que tem de fazer suas representações no auto, estejam a ponto e vestidos, para elle começar logo que sua senhoria chegue."
"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é de que comecemos, se por elrei houvermos de esperar."
O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia, e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do habito uma especie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do sol, que, já muito inclinado para o occidente, batia de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.
Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar de olhos viu o cégo, que estava ainda assentado sobre o fuste da columna.
Para escapar talvez ás reflexões do seu companheiro, o reverendo bradou ao velho:
"Oh lá, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale, na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que em seus alforges trazem por ahi os physicos."
Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e encaminhou-se para o cégo.
"Quem é que me fala?--perguntou este, alçando a cabeça.
"Fr. Lourenço Lamprêa, vosso amigo e servidor, honrado mestre Affonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?"
"Perdoae-me, mui devoto padre prior:--atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Fr. Lourenço Lamprêa chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne, procurador do mosteiro:--perdoae-me! Foi-se o vêr, vae-se o ouvir. Em distancia, já não acérto a distinguir as falas."
"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:--disse Fr. Lourenço, segurando o cégo pelo braço:--O indigno prior do mosteiro da Victoria não consentirá que o mui sabedor architecto e imaginador Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que traçou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João á nossa ordem, se alevante para estar em pé diante de pobre frade..."
"Mas esse religioso--interrompeu o cégo--é o mais abalisado theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor João das Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei: Affonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis n'isso muitos de vossa igualha."