Lendas dos Vegetaes

Chapter 5

Chapter 52,796 wordsPublic domain

Em tempos remotos, quando os reis casavam com simples pastoras, havia n'uma pequena povoação da Toscana uma casa habitada por tres irmãs que pobremente viviam da tecelagem. Uma tarde, passando o rei proximo da modesta habitação, e ouvindo dentro animada conversação, quedou-se a escutar.

«Todo o meu desejo, dizia uma das irmãs, era casar com o padeiro do rei. Teria ao menos pão magnifico e tanto quanto desejasse.

«Pois eu, replicou outra, preferia antes casar com o cosinheiro. Então o que me havia de regalar de comer bons petiscos.

A mais nova das tres, formosa a mais não ser, disse suspirando:

«As minhas aspirações são mais altas. Só me contentava casando com o rei a quem havia de dar tres filhos lindos como o sol e com cabellos de oiro e dentes de prata».

O rei, de regresso ao palacio, fez chamar as tres irmãs, e satisfez as aspirações de todas ellas, realisando-se em poucos dias os tres casamentos.

As irmãs mais velhas, ao verem a fortuna e felicidade da mais nova, encheram-se de inveja e juraram desde logo a sua perda.

Um anno depois a rainha tinha um filho. Era uma soberba creança de cabellos do mais puro ouro e dentes de uma alvura deslumbrante. As irmãs, esconderam porém a creança e fizeram crêr ao rei que o que nascera fôra um gato morto.

No segundo anno de casada a rainha teve novo filho, tão seductor como o primeiro.

As irmãs disseram ao rei que o que ella dera á luz fôra apenas um informe pedaço de pau.

No terceiro anno nasceu terceiro rapaz, lindo como os amores, porém as irmãs capacitaram o rei de que fôra uma serpente o que a irmã tivera.

O rei furioso, com a cabeça perdida, fez encerrar a esposa em medonha prisão a regimen de pão e agua.

Obtido isto, as duas irmãs, que até então tinham tido as creanças escondidas para o que désse e viesse, deitaram-as ao mar dentro de um pequeno bote.

O jardineiro do rei andando a passear na praia vê o bote fluctuando ao sabôr das aguas e indo apanhal-o depara com as tres creanças, que compassivamente recolhe.

Com o tempo o pae adoptivo ensina-lhes o officio e fez d'ellas tres notaveis jardineiros, que tinham os jardins reaes, como até então nunca se vira.

Uma tarde, merendavam os rapazes á sombra de uma copada arvore quando appareceu uma andrajosa velha, que lhes pediu uma esmola. Repartiram com ella da merenda, e, finda a refeição, a velha disse-lhe que os jardins estavam um primor reunindo tudo quanto havia de raro, faltando-lhe só, para serem uma maravilha, a agua que dansa, a arvore que toca e a ave que falla.

Os rapazes enthusiasmados, sob indicação da velha, partem á busca dos tres prodigios.

No caminho encontram o rei que ia á caça para se distrahir, e que simpathisa tanto com os rapazes que se queda esquecido a conversar com elles, abraçando-os e beijando-os ao separar-se. Mais adeante apparece-lhes a velha que lhes indica como devem encontrar a agua que dansa, o que elles afinal obtéem, continuando o caminho á busca da arvore que toca. Debalde a procuraram e já iam para regressar desanimados, quando a velha, surgindo, lhe diz onde a poderão encontrar e que basta trazer d'ella uma folha, a qual, plantada no jardim, dará uma arvore corpulenta, que fará ouvir doces melodias estranhas.

Na arvore que toca acharam tambem empoleirada a ave que falla. Recolheram jubilosos ao palacio e plantaram a folha que logo no dia seguinte appareceu transformada em enorme arvore, que fazia a delicia dos visitantes com as musicas divinaes, nunca até então executadas por humana orchestra.

O rei, ao saber do facto, correu a vêr a maravilha, e os tres rapazes, sob indicação da velha, brindaram-o com o melhor melão dos produzidos por um extenso meloal que cultivavam. O rei quiz servir-se logo do fructo, e ao partil-o encontrou-o, em vez de sementes, cheio de pedras preciosas.

--Como póde ser dar um melão pedras preciosas?

--E como póde ser, respondeu a ave que falla, que estava pousada na arvore que toca, uma mulher parir um gato morto, um pedaço de madeira e uma cobra. Estas creanças são teus filhos, e tu foste enganado pelas tuas cunhadas, castigando a esposa innocente.

Fez-se então a luz no espirito do rei que, arrependido, mandou soltar a esposa, implorando-lhe humildemente perdão, e enchendo-a de mimos e prendas riquissimas.

Ás más cunhadas, a essas, para exemplo futuro, fel-as queimar na principal praça publica do reino.

HERA.

Pela forte adherencia ás paredes e arvores com que está em contacto, é a hera simbolo do amor concupiscente, do amor ardente, pois faz seccar a arvore a que se une, como o delirio amoroso esmaga o coração onde uma vez dominou.

A semelhança da hera com a vinha, o serem ambas plantas trepadoras fez com que os antigos acreditassem que a hera tinha a particularidade de atenuar os effeitos do vinho. Para isso os bebedores enfeitavam-se com corôas de hera, ornamentando tambem com ellas as estatuas e o thyrso de Baccho.

Antigamente usava-se á porta das tabernas ramos de hera ou de carvalho. Os dois vegetaes tinham n'aquelles locaes, a mesma identica significação; recordavam o amor, a voluptuosidade, a força e a alegria que o vinho dá áquelles que o bebem.

É a hera tambem simbolo da ambição por subir mais alto que todas as outras plantas, aproveitando tudo o que a póde ajudar a subir, e terminando por aniquilar e deitar por terra o que lhe serviu de apoio.

Na Allemanha, ainda hoje, entre as classes populares existe a crença de que quem trouxer uma corôa de hera na cabeça, tem o entendimento mais lucido e gosa da propriedade de descobrir as feiticerias.

Segundo a mythologia, um filho de Baccho, por nome Kisso, indo a dançar deante do carro triumphal do pae cahiu por terra, e as rodas do vehiculo passando-lhe por cima mataram-o. A deusa Cybele compadecida do triste fim do infeliz moço, transformou-o em hera.

FIGUEIRA.

A figueira é uma das arvores que mais figura na legenda biblica.

É com as folhas d'esta arvore que Adão e Eva, após o peccado original, cobrem a nudez que desde então começara a envergonhal-os, e é tambem n'esta arvore maldita que, segundo alguns auctores, Judas se enforcou após a venda do divino Mestre!

É antiquissimo o caracter diabolico da figueira, a arvore onde se acoutavam os demonios e os mais horrendos e maleficos monstros.

Os doutores mahometanos dizem que foi o figo o fructo que Deus prohibiu que Adão e Eva comessem, por excitar os sentidos, e logo que elles transgrediram a ordem, conheceram a nudez, cobrindo-se com as folhas da mesma arvore que os fizera peccar.

CIPRESTE.

Adão, vendo-se velhissimo, com 900 annos, mas, cheio de vigor e saude, gabou-se deante de Deus de ser forte e immortal. Deus para lhe castigar o orgulho paralisou-lhe os membros inferiores, fez-lhe cahir os dentes e tirou-lhe a luz dos olhos, dizendo-lhe que eram os signaes precursores da morte. Adão não quiz acreditar na palavra do Senhor e mandou o filho mais velho ao Paraizo buscar um fructo da arvore da vida, afim de recuperar as forças perdidas. O filho em vez do fructo trouxe a vara com que Adão foi expulso do Paraizo. Adão partiu-a em tres pedaços que plantou no sólo, mas logo que as arvores nasceram Adão morreu.

As arvores nascidas da vara plantada por Adão foram a oliveira, o cedro e o cipreste. Desta ultima é que depois sahiu a madeira com que fabricaram a cruz em que Christo morreu.

ALECRIM.

O alecrim é uma planta funeraria. Os antigos acreditavam que o aroma do alecrim conservava os cadaveres, e sob esta crença, queimavam nas ceremonias funebres quantidades enormes d'esta planta aromatica.

No norte, os que acompanham os mortos á ultima morada, levam comsigo um ramo de alecrim por ser em virtude da folhagem sempre verde simbolo da immortalidade.

Os romanos ornamentavam os Lares com alecrim e empregavam-o como meio de purificação após as festas phallicas, crendo que elle tinha a propriedade de dar uma mocidade eterna.

Em algumas provincias de França é vulgar a crença de que as flores de alecrim em contacto com o corpo dão a alegria e felicidade a quem as traz. Para os cretenses é simbolo da sinceridade.

Dizem que foi sobre elle que a Virgem Maria estendeu a seccar as primeiras roupas que vestiu a Jesus.

Na Andaluzia é tambem o alecrim muito estimado, pelo motivo de ter escondido a Virgem quando com o divino filho fugia á perseguição dos soldados de Herodes.

Na Sicilia corre que é no alecrim que se escondem as fadas disfarçadas em serpentes.

É tambem originaria d'aquelle pittoresco recanto d'Italia a seguinte lenda relativa ao alecrim:

--Uma rainha esteril tanto contemplou os numerosos ramos e as verdes folhas de um copado alecrim que concebeu d'elle, tendo um pequenino alecrim, que plantou em luxuoso vaso regando-o quatro vezes ao dia com leite. Um sobrinho da rainha, intrigado com o caso, roubou o vaso e conservou a planta, regando-a com leite de cabra. Um dia, que estava tocando deliciosamente flauta, viu sahir do centro do alecrim uma formosa princesa, de quem ficou logo apaixonado.

Obrigado, porém, a partir para a guerra, recommendou instantemente a planta ao jardineiro do palacio, para que olhasse por ella com todo o cuidado. As irmãs do principe encontrando a flauta foram tocar para junto do vaso, e vendo sahir do alecrim a formosa princeza, ficaram tão cheias de inveja que a agarraram e desapiedadamente a moeram com pancada. A princeza desappareceu e o alecrim começou logo a murchar. O jardineiro escondeu-se para fugir ao castigo que receava, mas indo uma noite inexperadamente a casa, vê a mulher em colloquio intimo com um dragão, que lhe dizia que no alecrim estava encantada uma princeza, que morreria com a planta, se esta não fosse regada com gordura humana.

O jardineiro, então, entra de improviso, mata o dragão e a esposa culpada, derrete-os e com a gordura rega o alecrim. O encanto foi desfeito e a princeza readquiriu a liberdade e a saude desposando pouco depois o principe, a quem amava.

FETO MACHO.

O feto _Aspidium filix max_ representa um papel importante nas lendas das fadas. É com o feto macho que ellas fazem os seus mais importantes maleficios, servindo-se tambem d'esta planta para adevinhar o futuro. Diz a lenda que o feto macho só dá flôr na noite de S. João, e que aquelle que poder colher a flôr d'esta preciosa criptogamica tem a particularidade de adevinhar o futuro e descobrir todos os thesouros occultos.

Segundo uma lenda Russiana um pastor perdeu uns bois na vespera de S. João. Debalde os procurou, e recolhia a casa, chorando e lastimando a sua desgraça, quando ao passar perto de um feto--era meia noute exacta--a flôr d'este lhe cahiu dentro de um dos sapatos. Viu logo onde estavam os bois com os quaes se encaminhou para casa. Na estrada porém descobre um opulento thesouro, montões de joias e pedrarias que o deixaram deslumbrado. Corre a chamar a mulher para o auxiliar no transporte d'aquellas riquezas. A mulher vendo-lhe os sapatos todos molhados e enlameados aconselha-o, por inspiração do demonio, a mudal-os por outros seccos. O homem attende-a, tira os sapatos, a flôr de feto cáe no chão e elle immediatamente esquece tudo.

MYRRHA.

Myrrha--conta a fabula--apaixonou-se pelo pae, o rei Cyniras, de quem teve Adonis, avô de Priapo.

Envergonhada porém, do repellente incesto que praticara, rogou aos deuses que a transformassem em coisa que não fosse viva nem morta. Estes então transformaram-a no arbusto que produz a Myrrha.

POLYPODIO.

Uma lenda muito espalhada na Allemanha, narra que estando uma vez a Virgem a amamentar o seu divino filho, sentada n'umas pedras, ao erguer-se, cahiu-lhe uma gotta de leite na rocha, gotta de que logo nasceu o Polypodio vulgar. É em recordação d'este facto memoravel que os allemães dão a este feto o nome de _Unser Frauenmilck_, isto é, _Leite de Nossa Senhora_.

Entre nós é o Polypodio conhecido pelos nomes vulgares de: _Feto centopeia_, _Riços_, _Feto dos carvalhos_, _Feto doce_, etc.

ESPINHEIRO.

Quando a Virgem fugia com o filho á violenta perseguição dos seus inimigos, chegou junto de um espesso bosque de espinheiros, que lhe abriu passagem, fechando-se depois á chegada dos soldados romanos.

A Virgem abençoou então os espinheiros que se compadeceram da sua dôr e, Christo, fallando pela primeira vez, disse que em memoria d'aquelle facto, a corôa com que o adornariam no dia do martirio, havia de ser de espinheiro. E assim foi, pois a corôa que os judeus, para o ridicularisar, lhe forneceram, era d'aquelle vegetal.

Conta mais a lenda que um pisco, vendo que os espinhos do espinheiro feriam a fronte do Salvador, veio pousar-lhe na cabeça e com o bico os quebrou um a um. Molhando n'essa occasião o peito no sangue de Christo, ficou a ave, para sempre, com aquella sagrada mancha, recordação eterna do caridoso acto que praticara.

VIDEIRA.

É a videira uma das plantas mais celebradas pelos antigos. A sua cultura desenvolveu-se outr'ora muito na Grecia, Persia e Asia menor.

Era com pampanos que se enfeitavam Baccho, as Bacchantes, Silene, Rhea, Bona Dea, as Graças, a deusa Lætitia, etc. Narra a Biblia que Noé se dedicou cuidadosamente á sua cultura, sendo o primeiro mortal que fabricou vinho da uva.

Diz Santo Ambrosio, referindo-se á enorme embriaguez que a primeira absorpção do liquido extrahido da uva produziu em Noé, que não foram bastantes todas as aguas do diluvio para fazerem com que Noé ficasse nú, mas que o vinho o fez ficar fóra de si, sem juizo e vergonhosamente decomposto.

O philosopho Anacarsis tratando da videira relata que este vegetal tem tres varas, a primeira das quaes produz gosto, a segunda delirio e a terceira a loucura.

Para a mytologia a videira nasceu do sangue dos Gigantes, derramado na terra, quando, dementados, pretenderam escalar o ceu. É por isto que o vinho tem a propriedade de causar furor, uma enorme excitação a quem o bebe em demazia.

Uma lenda arabe conta que o diabo regou o primeiro pé de videira com o sangue do macaco, do tigre e do porco.

Por isso ao primeiro vinho bebido, o homem fica alegre, agitado, bulhento e brincalhão como o macaco; continuando a beber a alegria transforma-se em violentas arremetidas de tigre, para por ultimo, cahir, roncando, no somno bestialisador do porco.

Segundo os Persas foi uma mulher no feliz reinado de Djemschid, que, querendo matar-se, bebeu o succo das uvas, pensando ser veneno. O somno que elle e causou, foi porém tão agradavel que continuou depois a fazer vinho e a bebel-o, espalhando-se em breve o uso por todo o paiz.

O mitho hellenico sintethisa a vinha n'um companheiro e amigo de Baccho, no pastor Staphylo. Staphylo era um pastor do rei da Grecia Oenêo, que reparando que uma cabra do rebanho, a mais gorda e bem tratada de todas, recolhia sempre mais tarde que as outras, e não comia nunca do alimento fornecido ao resto do rebanho, a seguiu, indo ter a um bosque espesso, onde a viu a comer soffregamente uvas, fructo até então completamente desconhecido. Staphylo colheu grande porção de cachos com que brindou o rei Oenêo o qual fez d'elles vinho. Em recordação d'este facto, deram depois os gregos o nome de _Oinos_, ao saboroso licôr das uvas.

LOUREIRO.

Apollo apaixonando-se doidamente por Daphne, filha do rei Penêo, moveu-lhe uma tão intensa perseguição, que esta, para lhe poder fugir, conseguiu que os deuses a transformassem em loureiro.

Apollo quiz que o loureiro lhe fosse consagrado tecendo com elle uma corôa, que, depois, sempre trouxe comsigo; significava a referida corôa, que se a donzella não lhe pertenceu em vida, possuia porém o vegetal em que fôra transformada.

Baccho, em seguida ás gloriosas victorias na India adornou-se com o louro, e Esculapio fez o mesmo depois das maravilhosas curas que realisou e que lhe deram fama eterna.

Os romanos adoptaram o louro como simbolo da victoria.

INDICE.

ABOBORA. ABOBOREIRA. ACONITO. AÇUCENA. ALECRIM. ALGODÃO. AMOREIRA NEGRA. APAMARGA. ARROZ. CANNAS. CARDO. CARVALHO. CEDRO. CENTEIO. CHÁ. CHICÓRIA. CHORÃO. CHRISANTHEMO. CIPRESTE. CLEMATIS INTEGRIFOLIA. ESPINHEIRO. FETO MACHO. FIGUEIRA. FIGUEIRA DA INDIA. HERA. LARANGEIRA. LEITUGA. LINHO. LOTUS. LOUREIRO. MAÇÃ. MAIAS. MANGERONA. MARMELLEIRO. MELÃO. MILHO. MOSTARDA. MYOSOTIS. MYRRHA. MYRTHO. NARCISO. NOGUEIRA. OLIVEIRA. PALMEIRA. PAPOULA. PILRITEIRO. PINHEIRO. PLATANO. POLYPODIO. RABANETE. ROMÃ. ROSA MUSGO. ROSAS. SENSITIVA. SERRALHA. SILVA. TABACO. TILIA. TREMOÇOS. TREVO. TRIGO. VIDEIRA. ZIMBRO.

NOTA AO INDICE.

Os vegetaes a que se referem as lendas publicadas no presente volume, não estão por ordem scientifica, nem mesmo alphabetica, por isso que o livro foi impresso á medida que o auctor colleccionou as lendas que o compõem.

Para remediar em parte esta falta, foi o indice organizado alphabeticamente.

Notas de transcrição:

Foram corrigidos alguns erros tipográficos óbvios.

As palavras rodeadas pelos sinais + + estão em grego no original. Nesta versão electrónica não é possível representar os caracteres gregos pelo que as palavras foram substituídas pela transliteração para caracteres latinos.