Chapter 4
E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos.
É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas.
Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do myosotis no nosso globo.
Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava, afogou-se de pezar.
As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram.
MYRTHO.
O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento, tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como planta bem amada.
Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais veloz na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em myrtho, planta com que em seguida se enfeitou para constantemente recordar o ultrage de que fôra victima.
Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida.
Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da Europa central, especialmente na Allemanha.
Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos de myrtho nos altares da _Bona Dea_, por isso que o myrtho fazia recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser completamente esquecidos.
PINHEIRO.
O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.
Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por Cybele em pinheiro.
Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.
Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças de _saké_ diante de um pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da harmonia em que vireram durante toda a longa vida.
A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.
Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.
Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide, continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.
O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra.
Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e poetica lenda:
Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção.
A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a abençoara.
PILRITEIRO.
Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya por Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que Polydoro possuia.
Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em signal do triste facto que elle simbolisava.
SERRALHA.
O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.
A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.
O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria, esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.
S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.
--Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo.
--Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os bons vegetaes em troca de outros maus.
E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.
--Que tendes, perguntou S. Paulo?
--Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.
--Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...
--É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente, mas o outro?
--O outro é a serralha.
--A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de insignificante valor.
MANGERONA.
A mangerona (_Origanum majorana_ L.) é a _amarakos_ dos gregos. Os romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.
A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior confiança e da mais alta responsabilidade.
Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.
Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do desastrado Amaracus.
LINHO.
Gubernatis escreve o seguinte do linho:
«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se ainda hoje _alva_ á camisa branca dos padres e dos meninos de côro.
O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na ilha de Rugen, servia de moeda.
«_Apud Ranos_, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn (_Kulturpflanzen u. Hausthiere_, Berlin, 1874) _non habetur maneta, nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in foro mercari volueris, panno lineo comparabis_».
Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno.
Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.
Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada pelo sol.
No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.
O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança começar a crescer e a andar».
PLATANO.
O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que especialmente se abrigavam da chuva.
A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter metamorphoseado em touro.
Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.
Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia.
TREVO.
Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma haste.
Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.
Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa lenda metereologica relativa ao trevo:
«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite.
Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada para levar mais commodamente o cantaro.
Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava avidamente.
Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha acontecido».
CENTEIO.
A vida de Jesus e principalmente a sua perseguida infancia deram origem a um grande numero de lendas de uma doce poesia cheia de belleza e de encanto.
Já demos conta de algumas, e as que agora apresentamos, verdadeiramente encantadoras, são inspiradas pelo mesmo assumpto--a fuga da Virgem á perseguição das gentes de Herodes.
A Virgem e S. José fugindo com o filho á matança dos innocentes, passou por um campo onde muitos lavradores estavam atarefados a semear centeio.
Que semeaes, perguntou a mãe de Jesus?
Pedras, responderam elles.
Pois pedras vos nasçam; d'aqui a tres dias vinde quebral-as.
Mais adeante encontrou novo grupo de aldeãos na mesma faina.
Que semeaes?
Semeamos centeio para nosso sustento.
Pois centeio vos nasça, replicou a Virgem, d'aqui a tres dias vinde segal-o.
Passados tres dias estava o campo dos maus lavradores transformado em enorme penedia e o dos que tinham sinceramente respondido ás perguntas da Virgem, coberto de louras messes. Cheios de jubilo pelo milagre, que reconheciam, os lavradores segavam atarefadamente o centeio, quando chegaram os soldados de Herodes, que andavam em perseguição de Jesus, e perguntaram aos ceifadores te tinham visto passar por alli uma mulher a cavallo n'uma jumenta, com um menino ao colo e acompanhada de um homem já velho.
Passou, responderam os segadores, quando estavamos a semear o centeio n'este campo.
Então os soldados, imaginando que o centeio tinha crescido naturalmente, desanimaram, e deixaram de continuar a perseguição, pelo que Jesus pôde escapar á furia dos seus perseguidores.
SILVA E TREMOÇOS.
Liga-se ao mesmo facto da lenda anterior--a perseguição de Jesus pelos soldados de Herodes--a lenda da silva e dos tremoços, lenda muito conhecida no norte do paiz, onde a ouvimos a grande numero de pessoas.
A Virgem acossada de perto pela soldadesca, chegou proximo de um campo de tremoços em frutificação. Atravessando-o rapidamente, os tremoços, ao contacto dos corpos, fizeram um grande ruido que denunciou aos perseguidores o caminho seguido pela desolada mãe.
No fim do campo estendia-se um enorme silvado, uma insuperavel barreira que ia sem duvida reter os fugitivos e fazel-os cahir em poder dos judeus.
Porém as silvas ante as lagrimas e o desespero da mãe de Deus, desviaram-se abrindo caminho á sagrada familia, e logo que todos passaram tornaram a unir-se entretecendo-se mais fortemente, de modo que ao chegarem os soldados junto d'ellas, voltaram para traz e seguiram outro caminho, acreditando que a Virgem não podéra transpor o emmaranhado silvedo que os retinha.
A Virgem passado o perigo abençoou as silvas a quem deu a faculdade de vegetarem em todos os terrenos, produzirem fructos saborosos, ficarem defendidas por agudos espinhos dos ataques de todos os inimigos, e amaldiçoou os tremoços dando-lhes um travor semelhante ás amarguras que elles com o seu indiscreto barulho lhe tinham causado, e condemnando-os a nunca podêrem saciar pessoa alguma.
LOTUS.
O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os egypcios.
No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que, quando o rio trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas regiões, a superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr.
É por isso que os egypcios representam a creação por uma immensa superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles que no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um lotus que, estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando a tudo a luz e a vida.
É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea.
A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a Brahma.
Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido sobre o umbigo de Wishnou.
A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa belleza oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de lotus.
A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-o a todas as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos da sua amada que lhe realçam a belleza do rosto, _diz que sobre uma flôr de lotus brotaram outras duas bellas flores eguaes_.
As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões.
Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e que é devido a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as partes sexuaes das mumias.
Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era sempre recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram tambem o lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com estas flores.
Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de Athenas, nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus.
Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se doidamente por Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande heroe, atirou-se a um rio, onde morreu afogada.
Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha, transformou-a na brilhante flôr do lotus.
Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que sustentou com vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente guardado, em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para provar o seu poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a uma grande fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém, mal os restos do dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se completamente, brotando logo do centro da fogueira uma enorme flôr de lotus, no interior da qual foi encontrado intacto o dente de Buddha.
Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo sendo depois um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade indiana.
A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo perseguida por Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus.
Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda indiana, que encontramos publicada no _Jornal de Viagens_:
Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a gentil Hevah, a dos olhos de esmeralda.
Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o senhor dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os olhos fitos na imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino Brahma:
«Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra com a fronte, e não se atrevia a olhar.
E Brahma repetiu:
«As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava, pudica, de rojo, ante o divino senhor dos mundos.
Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor.
Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e fugiu do templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo remanso das verdes aguas.
Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam n'um pé só, sobre o dorso dos grandes reptis.
E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que os seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os olhos se lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a voz de Brahma:
«Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
SENSITIVA.
A sensitiva, a _Mimosa pudica_ dos botanicos, é uma das plantas que mais téem sido discutidas e das que até hoje mais despertaram a attenção não só dos homens da sciencia mas tambem de todos os profanos, pelos curiosos movimentos das suas folhas.
As sensitivas são dotadas de movimentos espontaneos e movimentos provocados.
Ao cahir da tarde os foliolos começam a pender a unirem-se uns aos outros, dispondo-se para o somno nocturno.
São os movimentos espontaneos.
Este _somno_ póde ser provocado artificialmente colocando a planta na obscuridade. A falta de luz faz com que o phenomeno acima apontado se produza logo nas suas folhas.
Os movimentos provocados são porém de todos os mais curiosos e os que deram o nome e fama á planta. Basta que um pequenino insecto pouse em qualquer dos foliolos da sensitiva, ou que se toque n'elle com um corpo estranho, para o foliolo se comprimir immediatamente e apoz elle os outros proximos, movimento que se propaga ás folhas de todo o ramo e até ás de todo o vegetal, se o contacto do corpo estranho fôr violento ou demorado.
Estes movimentos estão em relação directa com o desenvolvimento e vigor da planta.
Quanto mais a planta é forte e robusta tanto mais os movimentos são accentuados e demorados.
Uma forte corrente d'ar, uma violenta trepidação do sólo, uma obscuridade repentina do sol é o bastante para o apparecimento d'estes movimentos.
As excitações muito frequentes desorganisam porém o sistema nervoso da sensitiva e fazem-a rapidamente morrer.
A _Mimosa pudica_ foi conhecida dos antigos, a quem muito impressionou a sua mobilidade. Escriptores gregos e romanos trataram repetidas vezes d'esta interessante leguminosa, e poetas varios cantaram-a enthusiasticamente.
É de um d'elles que aproveitamos a lenda que segue:
A nimpha _Mimosa_ era tão casta e tão pura que apesar de estar para casar com o pastor Iphis nunca consentira que elle lhe tocasse com os dedos sequer. Na vespera do dia em que devia ser para sempre unida ao eleito do seu coração, encontrou-se por acaso com elle no centro de um copado bosque. Iphis ao vêl-a tão seductoramente bella perdeu a cabeça, e quiz estreitamente unil-a de encontro ao coração. Mimosa conhecendo que não podia fugir ao doce amplexo do seu apaixonado, ficou tão tremula e aterrada, e implorou tão desesperadamente o deus Hymineu, que, este, compadecido, a transformou logo na planta que ainda hoje ao ser tocada por mão profana reproduz a extrema sensibilidade da casta nimpha.
MELÃO.
O melão em virtude das suas numerosas sementes e por se multiplicar com extrema facilidade, era tido pelos antigos como simbolo da geração. Segundo uma lenda arabe vegeta no paraizo onde significa que Deus é um só e Ali o seu propheta. Esta significação vem-lhe de n'um só todo reunir sementes innumeraveis que vão depois reproduzil-o por toda a eternidade. É como o propheta Ali que em si encerra toda a sabedoria e doutrina religiosa que lhe foi inspirada por Deus, para que por toda a eternidade a transmittisse aos miseros mortaes.
A mais formosa lenda relativa a este saborosissimo fructo, por nós conhecida, é a seguinte, muito popular ainda hoje na Toscana: