Chapter 3
A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a que apresentamos relativa á laranjeira.
A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego restituiu-lhe a vista.
CARDO.
Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e lendario facto:
Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada.
MAÇÃ.
A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.
Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.
Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará.
No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.
A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.
Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a romã, ora a laranja, o figo e a maçã.
Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na lua e outra no sol que nos alumia e aquece.
FIGUEIRA DA INDIA.
A figueira da India (_Ficus religiosa_) é venerada na India principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.
Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é considerado local sagrado. A veneração dos indios pelo _ficus religiosa_, é devida á seguinte lenda:
Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha, sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje téem.
MAIAS.
No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 da _Revista de Guimarães_, o dr. Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:
«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em Belem.
Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta carnificina,--tal era o odio de morte que votava ao menino--que os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua morada--que tinha á porta um _ramo de maias_ como signal,--mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.
Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.
Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre das _maias_, salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».
ABOBORA.
Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.
A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de que as restantes não são mais que incorrectas variantes.
Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro, cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.
A segunda lenda--lenda americana--explica assim o diluvio.
Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados, deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada.
ARROZ.
É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos.
Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem antes ter feito as suas abluções.
Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas ceremonias funerarias.
A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso, com musicas e bençãos dos brahmanes.
Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor intensidade dos seus raios seccadores.
Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma gotta de suor de Mahomet e que o _Kuskussú_, o querido manjar nacional fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet, sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, comia antes um pouco de _Kuskussú_.
A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.
Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o, introduzindo-o depois no seu paiz.
Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da abundancia.
ZIMBRO.
Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia do Natal.
A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:
Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria annualmente á sua mais doce e sympathica festa.
NOGUEIRA.
A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração.
Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados que--ai de nós!--para sempre desappareceram do mundo, e eram estes saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz e prolifico agouro para os noivos.
Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que esperar muito pelo anciado marido...
Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»...
No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a noz o mesmo valor da nossa figa.
Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.
CLEMATIS INTEGRIFOLIA.
Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:
«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta é _Tziganca_ (planta dos Bohemios) ou _Zabii kruéa_ ou _Sinii lomonos_. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os incitavam á resistencia. O _hetman_, não os podendo conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.
Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou a _Clematis integrifolia_. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que este mandou semear a _Clematis_ na Ukranie. E desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas da _Tziganka_, que passou a ser uma planta nacional».
MOSTARDA.
Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos orientaes symbolo da geração.
Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.
A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.
O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.
O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.
Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.
TILIA.
D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal portuense _Diario do Commercio_, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:
«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.
Ah! como são bellas as tilias portuenses!
Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e--confessem! confessem!--nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilette _pompadour_, na Praça de D. Pedro--é o cumulo da audacia e do protesto contra o _meio_, mesmo em face do _domus municipalis_, que é o grande laboratorio das coisas sujas.
Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.
Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.
Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.
Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.
Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.
Ah! como eu amo as tilias».
LEITUGA.
A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.
Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel dissabôr.
Alberto o Grande, no seu curioso livro _De secretis mulierum_ diz que a leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não virgem: _Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est corrupta, statim mingit_.
Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.
Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos ardores do sol, um massiço de leitugas.
Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle morreu pouco tempo depois.
Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia e outros seis na de Venus.
Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e ficasse livre os restantes quatro.
OLIVEIRA.
A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.
Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os livrar do granizo e das inundações.
Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.
As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.
Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte:
_Si me vuo' bene, salta salticchia,_ _Si me vuo' male stá fissa fissa._
Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder completamente a esperança de encontrar marido.
Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal de que no quarto de cama quem manda é a mulher.
Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a Minerva a deusa da sabedoria.
Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á cidade o nome de Athenas.
Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus fabricaram a cruz em que pregaram Christo.
Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou.
O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos moribundos como simbolo da vida eterna.
A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz a origem de toda a vida terrestre.
MYOSOTIS.
O myosotis (_Hieracium pilosella_) a deliciosa florsinha das margens dos regatos, a _Nontiscordar di me_ dos italianos, a _Vergissmeinnicht_ dos allemães, e a _Oreja de raton_ dos hespanhoes, tem sido cantada pelos poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe dedicam particular e especial estima.