Lendas dos Vegetaes

Chapter 2

Chapter 23,950 wordsPublic domain

O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.

APAMARGA.

Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (_Achyrantes aspera_), uma vulgar planta indiana.

Segundo uma lenda do _Yagúrveda negro_ (II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.

Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herba _apamarga_, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.

TRIGO.

Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como d'elle se fabricava pão.

O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo que lhe forneceu um saborosissimo pão.

AMOREIRA NEGRA.

Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico de _Morus nigra_, tem uma commovente e celebre historia de amor.

Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, que o despedaçou, tingindo-o de sangue.

Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.

Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o corpo do amante.

Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre, negros.

CEDRO.

O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.

Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.

Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente deliciosas, uma chinesa e outra egypcia.

Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.

Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do do marido.

O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos, eternisar transformado o seu amor.

A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.

Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.

Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais formosa que até então existira.

Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.

Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia.

A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e com elle consegue vencer Batou e obter a mulher.

Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo da vida de Batou.

O cedro então é cortado e Batou morre.

Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.

Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se n'um touro que todo o Egypto venera.

A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, nova transformação de Batou.

O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella assiste jubilosa.

Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova incarnação de Batou.

MARMELLEIRO.

O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo considerado como um penhor de amor.

Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade altamente celebrou.

Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á deusa, um marmello com a seguinte inscripção: _Pela divindade de Diana, juro que serei esposa de Akontius._

A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.

ROMÃ.

A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos que o tinham em especial estima.

Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.

Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes contidas nos fructos.

Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que d'elle se espalharem pelo sólo.

A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.

Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, e é por isso--diz Oppiano--que estas aves nunca pousam na romanzeira, evitando-a cuidadosamente.

AÇUCENA.

Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos chamavam a _flôr das flores_.

Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e correndo pelo sólo além deu origem á _via lactea_ e á açucena.

A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiissimo pistillo.

PALMEIRA.

Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.

A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser santificada pelo christianismo.

Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.

Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical.

Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer--como mais tarde fez--a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.

RABANETE.

A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.

O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados entre altas montanhas.

Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as donzellas morriam.

A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e, montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do diabo.

TABACO.

Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.

Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e crúa guerra.

Para uns era a _herva santa_, o remedio certo e seguro de todas as doenças, para outros a _herva do diabo_, a herva maldita, a origem de todos os males.

A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras receitas.

Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.

O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e d'esta para a creança. É uma praga universal.

Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais curiosa é a dos Tchumaches.

Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.

O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico fumo que ellas desenvolviam.

Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro nauseante, embriagador, egual ao do tabaco.

MILHO.

As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da riquesa.

Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a propriedade do sólo.

Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.

Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que tocava.

Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.

Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da egreja não restava nenhum.

As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle momento passava por acaso na rua.

As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ella.

Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha.

Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.

A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro.

CANNAS.

Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda colhida em Rebordinhos, Bragança:

Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:

Toca, toca, ó pastor, Os meus irmãos me mataram Por tres maçãsinhas de ouro, E ao cabo não as levaram.

O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.

NARCISO.

Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se orgulhava em extremo.

Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.

Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.

Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.

ALGODÃO.

Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens brancos.

CHORÃO.

N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia, condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais crescessem mais haviam de virar para o sólo.

LARANGEIRA.

É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como emblema da castidade, da puresa absoluta e completa.

Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e deliciosos fructos.

Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:

«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino rico, maravilhoso, é o reino de _Portugal_; e no Piemonte chamam sempre _portogallotti_ ás laranjas. Portugal é a região mais occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, o _portogallotto_ e a maçã das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos como os piemonteses, chamam ás laranjas _+portogaliá+_ os albaneses _protokale_ e os proprios kurdos _portoghal_.

Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na Europa.

O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição das suas _Nouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine_ (Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação: «_Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente_».