Lendas do sul

Part 3

Chapter 3 4,009 words Public domain Markdown

Vestiam-se em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas, outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro marcado como por música... outras lá, acenavam-lhe para a lindeza dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite aberto e ardiloso...

Porém ele meteu o peito e passou, com as frontes golpeando, por motivo do ar malicioso que seu bofe respirava...;

Blau Nunes foi andando.

Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões, cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis para rostos de gente...

Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar de riso no canto dos olhos...

E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.

E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro — sem corpo — e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho; e tomou-lhe a mão.

E Blau Nunes foi seguindo.

Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente, fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, carquincha e curvada, e como tremendo de caduca.

E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e atava em nós que se destorciam, ficando sempre linheira.

— Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!

— Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.

E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou a varinha para o ar; logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas cairia. E disse:

— Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei... Paisano, escolhe!

Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam, do osso, que se sopesa, da rifa... queres?

— Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar contigo, e ao teu chamado irão — obedientes, como aves varadas pelo olhar das cobras — deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos, ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos... queres?

— Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido...

— Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e espumar os ossos... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas, descobrir invejas...; queres?

— Não!

— Para não errar o golpe — de tiro, lança ou faca — em teu inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?

— Não!

— Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo; ... queres?

— Não!

— Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no ouro, figuras no mármor’... queres?

— Não!

— Pois que em sete poderes te não fartas nada te darei, porque do que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!

Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou no queria dizer e não podia e que era assim:

—Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti, teiniaguá encantada!...

Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha, caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.

Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho; e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas, tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia entrado, sem engano.

E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado, o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro prateado, que era a água do arroio.

Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder; dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.

E pensou que tendo tido oferta de muito não lograria nada por querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.

Votou-se para entrar de novo... mas bateu co’o peito na parede dura do serro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma floresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse porte de homem!...

Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Nada quiseste; tiveste alma forte e coração sereno, tiveste, mas não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua:...

Não te direi se bem fizeste ou mal.

Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente, que te dou.

É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ele te dará tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma e nunca mais que uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!

E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra na sombra da reboleira...

Blau Nunes meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.

O sol tinha cambado e o Serro do Jarau já fazia sombra comprida sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.

VII

Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada mandou botar uma bebida.

Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu...

E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.

Calado, montou de novo, retirando-se.

No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!...

Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.

Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas e um rebenque de argolão.

Toda a compra passava de três onças.

E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada, todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau remendado começou a gargantear a guaiaca... e caiu uma onça... e outra... e outra!... As quatro, que por agora eram tão de jeito!...

Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas, porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma...

Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado, não falou do acontecido.

No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas, tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras, que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.

E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça... e segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de uma em uma, as quinze necessárias!

O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse, entre risonho e desconfiado:

— Cuê-pucha!... cada das onça das suas parece que é um pinhão, que é preciso descascar à unha!...

No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e como facilitou o preço, fechou-se o trato.

Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe, tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.

Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos, a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.

E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.

Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado, começou a gargantear a guaiaca... e foi logo aparando onça por onça, uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta, quarenta e cinco!...

O vendedor, estranhando aquela novidade e demora, não se conteve e disse:

—Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai uma de cada vez!...

Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças, aquerenciando.

O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...

Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo...

O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou, sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele ainda aparando onça traz onça...

Ao escurecer estava completo o ajuste.

Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão... E também era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre, valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra e nunca ao menos duas, acolheradas!...

Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério...

Mistério para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez... como pinhão da serra, que só descasca de um a um!...

Mistério para Blau, muito rico... muito rico... mas todo dinheiro que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro, desaparecia como desfeito em ar...

Muito rico... muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca, e elas começavam a pingar;... mas nem uma das que recebia lhe ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente...

IX

Então começou a corre um boquejo de ouvido para ouvido... e era que ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito porque, todos com quem tratava e recebiam das suas onças, todos entravam ao depois a fazer maus negócios e todos perdiam em prejuízos exatamente a quantia igual à de suas mãos recebida.

Ele comprava e pagava e pagava à vista, é certo; o vendedor contava e recebia, é certo, mas o negócio empreendido por esse valor era prejuízo, garantido.

Ele vendia e recebia, é certo; mas o valor recebido, que ele guardava e rondava sumia-se como um vento, e não era roubado nem perdido; era sumido, por si mesmo...

O boquejar foi alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era mandinga arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de uma feita... e que lá é que se jogava a alma contra a sorte...

E os mais vivarachos já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros mais sorros, p’ra lá tocavam-se ao escurecer; outros, atrevidaços iam à meia-noite, outros ainda ao primeiro cantar dos galos...

E como nesse carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais escondido, sucedeu que como sombras se pechavam entre as sombras das reboleiras, sem atinar co’a salamanca, ou sem topete para, na escuridão, quebrar aquele silêncio, chamando o santão, num grito alto...

No entanto, Blau começou a ser tratado de longe, como um chimarrão rabioso...

Já não tinha com quem pautear; churrasqueva solito, e mateava, rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às vezes todos...

A peonada foi saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes nada compravam-lhe e negaceavam para vender-lhe; os andantes cortavam o campo, para não pararem em seus galpões...

Blau deu em cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele cerco de isolamento, que o ralava e esmorecia...

Montou a cavalo e foi ao serro. Na trepada sentiu nos dois lados barulho nos bamburrais e nas restingas, mas pensou que seria alguma ponta de gado chucro que disparava e não fez caso; foi trepando, nem guaraxaim corrido, nem tatu vadio; era gente, que se escondia uns dos outros e dele...

Assim que chegou à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada, e como chegou, deu de cara com o vulto de face branca e tristonha, o sacristão encantado, o santão.

Ainda desta vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar; saudou, como da outra:

— Laus’ Sus’ Cris’!...

— Para sempre, amém! respondeu o vulto.

Então Blau, de a cavalo, atirou-lhe ao* pés a onça de ouro, dizendo:

— Devolvo! Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!... Adeus! Fica-te com Deus, sacristão!

— Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos postas, como numa reza.

Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele quebraste o encantamento!... Graças! Graças! Graças!...

E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Serro do Jarau, tremeu de alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo em cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu aprumo-se, brilhou, apagou-se uma língua de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o vento ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas, sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar, dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se em altos e baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e se desmancha como água passada em regador...

Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.

Sobre as caídas do Serro levantou-se um vozerio e tropel: eram os maulas que andavam rastreiando a furna encantonada e que agora fugiam desguaritados, como filhotes de perdiz...

X

Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça... e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do serro.

Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá... e a teiniaguá na princesa moura... a moura numa tapuia formosa;... e logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado...

E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho de repouso!...

Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde...

E agora estava certo de que era pobre como dantes que comeria em paz e seu churrasco...; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida!...

Assim acabou a salamanca do Serro do Jarau, que aí durou duzentos anos,11 tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram.

Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que a teiniaguá era mulher...

*Elucidação*

*1 Serro do Jarau* —Na Coxilha Geral de Sant’Ana, sobre a linha divisória com a República do Uruguai.

Fica um pouco ao N. da cidade de Quaraí, em campos da família Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (...metros) daquela zona, sendo avistado de muito longe. No fim da guerra do Farrapos (1845) notaram-se sobre o espigão do Serro, e parecendo dele sair, grossos rolos de fumaça. É essa a primeira notícia que há do fenômeno.

Outras combustões registraram-se depois, notadamente por 1904, em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.

*2 Salamanca* —Furna encantada; provém a denominação da cidade de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre escola de magia, no tempo dos Mouros. A seguir a tradição local, o célebre caudilho Bento Manoel deveu a sua sorte guerreira, política, de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do Jarau. Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí obteve mais nada, desde — “que o serro pegou fogo” — quando acabou o encantamento.

*3 Laus’ Sus’ Cris’!* —Forma abreviada e estranha, é certo, porém expressiva da saudação — Louvado seja Jesus Cristo! Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.

*4 Boi barroso* —É a vaga relembrança de um boi encantado, que aparecia porém nunca era encontrado por mais procurado que fosse; e também denominação de uma antiga dança camponesa, cuja música era ornada de versos que eram cantados durante o folguedo.

*5 Anhangá-pitã* — Literalmente, do tupi-guarani: diabo vermelho.

*6 Teiniaguá* — Idem: lagartixa. A teiniaguá encantada também era chamada — carbúnculo, farol — e trazia engastada na cabeça “uma pedra preciosa que cintilava como brasa e de cor de rubim...

Semelhante animal nunca puderam apanhar nem vivo nem morto, porque por suas irradiações desvia os olhos e mãos dos perseguidores”. (Rev°. C. Teschauer, S. J. na Rev. do Instº. do Ceará, 1911).

*7 Zaorís* — V. adiante a lenda referente.

*8 Charruas* — Tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a Coxilha de Aedo, e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para L. até o rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde 1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje por bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e a deturpação das lendas que entre tais gentes floresceram.

*9 Cidade de Santo Tomé* — Na Argentina; sobre o Uruguai, entre o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de S. Borja. “Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos, estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos anos. Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos,

refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para a margem direita do Uruguai, encorporando-se à redução de Santo Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome, quase em frente de S. Borja”. (Revo. C. Teschauer, citado) Existe no arrabalde de S. Tomé a famosa sanga, que aponta como prova do acontecimento e poder da teiniaguá encantada.

*10 ,... tangido pelo Destino* — É característico este traço no indivíduo rio-grandense, que até por hábito doméstico emprega como vulgares as expressões — sorte, destino, fado — Na gente inculta torna-se curiosa a indistinta veneração prestada ao divino e ao diabólico, como forças superiores que atuam sobre os homens.

*11 ...aí durou duzentos anos, etc.* — Coincide com a lamentação do sacristão encantado a era do período do mais calmo das missões sobre o rio Uruguai, 1650, em que formou-se a lenda.

*O NEGRINHO DO PASTOREIO* _A Coelho Netto_

_Pelotas — 1 de janeiro, 1907_

_Meu caro patrício Sr. J. Simões Lopes Netto._

_Venho agradecer-lhe a dedicatória da lenda “O Negrinho do pastoreio” publicada no Correio Mercantil” de 26 de dezembro. Já conversamos sobre a necessidade que, todos quantos nos interessamos pela tradição temos de coligir as trovas e narrativas do velho tempo. Elas representam o sonho dos que passaram, são a bem-dizer o rastro das almas. Entendem muitos escritores que devem corrigir a afabulação e a forma de tais relíquias tirando-lhe o caráter ingênuo, o sabor suave que elas trazem de origem. O meu amigo não incorreu em tal culpa—procedeu como o file celta que, chamado para referir aos da “clan” as histórias dantanho, dizia-as repetindo com respeitosa observância da tradição tal como as ouvira dos maiores. E o que, sobretudo encanta no lindo raconto que me ofereceu, no qual transparece bem a alma do povo pastoral, é a simplicidade.— Lendo-a tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia popular, tão rica em nossa pátria e tão desestimada._

_Reiterando os meus agradecimentos peço-lhe que continue a respigarem tão rica seara trazendo-nos outros presentes como o que me ofereceu com tanta generosidade._

_Muito seu agradecido_

_Coelho Neto_

O NEGRINHO DO PASTOREIO

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.

Não dava posada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo de sua casa não fazia brasas, as geadas e o minuano, podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de boa vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...