Lendas do sul

Part 2

Chapter 2 4,088 words Public domain Markdown

Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça sonando como um sino de catedral...

Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!...

Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.

Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.

Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os Cavaleiros da Tábola...

Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.

E eu, agora!...

E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...

E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam...

E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...

E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como o mato virgem...

E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os meus paióis.

E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...

Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir...

Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre, dobradiças de bronze!...

Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...

Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres, na minha falta.

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.

Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de lechiguana, por ser o mais fino.

E fui; melei; e voltei.

Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.

E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração mermou no compassar do sangue!...

Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...

Que disse:

IV

— Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo...

Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos, relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça transparente...

Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro; e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.

Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás senhor do muito, do mais, do tudo!...

A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também a princesa moura...

Sou jovem... sou formosa..., o meu corpo é rijo e não tocado!...

E estava escrito que tu serias o meu par.

Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não esconjurar... se não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...

Si a cruz do teu rosário não me esconjurar...

Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente dos infiéis...

E foi se adelgaçando

no silêncio a cadencia em balante da fala induzidora.

A cruz do meu rosário...

Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na primeira... e quando tenteei a ultima... e que entre as duas os meus dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador... fui levantando o Crucificado... bem em frente da bruxa, em salvatério... na altura do seu coração... na altura da sua garganta... da sua boca... na altura dos...

E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil vidas de homem como o aroma sai da flor que vai apodrecendo...

Cada noite

era meu ninho o regaço da moura; mas quando batia a alva, ela desaparecia ante a minha face cavada de olheiras...

E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém, e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a benção sobre a gente ajoelhada, que rezava para alivio dos seus pobres pecados, que nem pecados eram, comparados com os meus...

Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado, todo lavorado de palma e resplendores; e trouxe-o, transbordante, transbordando...

E embebedados caímos, abraçados.

Sol nado, despertei

estava cercado pelos santos padres.

Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela... E acharam a canastra guampa e no porongo o mel... e até no ar farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda...

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados... dobrando a finados...

Era por mim.

V

E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor...., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...

E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos, de os animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras, agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...

E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente...

Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados... dobrando a finados!...

Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro...

A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...

A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!

Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas de homens outros se não viram!...

E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...

O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver...

Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira...

Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade distilara.

Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso...: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!...

A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.

— Que a Missão de S. Tomé ia perecer... e dasabar a igreja... a terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as roças o plantio, os homens a coragem...

Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando...

Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!... o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!...

Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.

Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava... mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria...

E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!...

Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.

Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.

VI

Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um peso entre o mandar e o ser mandado...

Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso...

Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins, que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e escarlates e azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...; há poços largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais, tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de Castela e Aragão...

E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que não possuía...

O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.

Muitos tem vindo... e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...

Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente o que eu prometo, nem retoma o que dá!

E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso livramento um dia...

Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus...

Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou arrependido... e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.

Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim, quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá: quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar... para vencer... tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa dos tesouros...

Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.

Pois bem:

alma forte e coração sereno!... Quem isso tem, entra na salamanca, toca o condão mágico e escolhe o quanto quer...

Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra! Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de candeia... e tramado nele corre outro vento frio... que corta como serrilha e geada.

Não há ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de gente, vozes que falam... falam, mas não se entende o que dizem, porque são línguas atroadas que falam, são os escravos da princesa moura, os espíritos da teiniaguá... Não há ninguém... não se vê ninguém: mas há mãos que batem. como convidando, no ombro do que entra firme, e que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo...

Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá dentro assim, podes então querer e serás servido!

Mas governa o pensamento e segura a língua: o pensamento dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua língua é que os amesquinha...

Alma forte e coração sereno!... Vai!

Blau, o guasca,

apoiou-se; meneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto prendeu-o a um galho de camboim que verga sem quebrar-se; rodou as esporas para o peito do pé; aprumou de jeito o facão; santiguou-se, e seguiu...

Calado fez; calado entrou...

O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra na sombra da reboleira.

O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas: metia medo...

VII

Blau Nunes foi andando.

Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro...

Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda; sete corredores ancião deste.

Blau Nunes foi andando.

Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu. Sempre escuro. Sempre silêncio.

Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.

Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir de muitas espadas, seu conhecido.

Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.

Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando umas nas outras, no silencio.

Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno...

E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino das pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.

Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.

Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido do cabrestilhos das suas esporas.

Blau Nunes foi andando.

Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente, patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando, numa fúria...

E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco...

As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros, sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...

A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...

Blau Nunes foi andando.

Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas, partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando, tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado, outras em saracoteio...

Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal da cruz;... porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas juntas bolorentas.

As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros...

Blau Nunes foi andando.

O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando, fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão...

Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas.

As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer— muito bem!—

Blau Nunes foi andando.

Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.

Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...

Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um muito jejum de mortandade, lá fora...

A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava, chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como por prova...

Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o peito e passou, vencendo sem olhar, a boicininga altear-se e descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não perdoa, o silbido da que não esquece...

E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera sem temer — de alma forte e coração sereno — logo então as mãos voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais chegadas os ombros.

Blau Nunes foi andando.

Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce que ele não conhecia; em toda a volta arvores enfloradas e estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre; veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta de samambaias, um olho d'água, que saía em toalha e logo corria em riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areião solto, palhetado de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...

E logo uma roda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau, gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...