Chapter 9
O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos; e, depois de alguns segundos, disse:
--Queria.
--Queria assim dar-me um esposa?
--Queria. E serias tu digno d'ella?
--Não ouso responder.
--Pois medita.
Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção, dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:
--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua crueldade. Medita, Alvaro.
E deixou-o.
VIII
Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte dialogo:
--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?
--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...
--Que se não dizem a uma amiga?
--Que se não dizem por que se não sabem dizer...
--E sentir, sim?
--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de mim, não?
--Pois eu vou queixar-me, Maria?!
--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...
--De que?
--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa se esconde aos meus.
--Nada tens dito a teu tio, filha?
--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?
--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em tua alma.
--E eu sei!...
--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas, Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?
«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo, Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas. Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se povoam de anjos.
«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua sensibilidade não póde ser só da tua familia: deve extender-se a tudo que te rodeia.
«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança? Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo, filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...
«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!
«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz, diz, Maria...
A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.
Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.
IX
--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.
--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de Maria.
--Pois então dizei-me por que choraes.
--Logo, logo...
Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.
--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.
--Vou trabalhar, meu tio.
--Havemos de falar logo.
Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:
--Vá chamar seu marido e venha com elle.
O coronel entrava n'este momento.
--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?
--Bem; parece-me um bom moço.
--E o vosso, minha irmã?
--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o conhecesse desde creancinha.
--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?
--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.
--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.
--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.
--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a Providencia quer que se amem...
--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.
--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus paes...
--Se elles a approvarem, meu irmão.
--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós não defendermos, defende-se ella.
--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.
--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle pede-a para sua filha. Que respondeis?
--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o coração--disse a mãe de Maria.
--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a minha vontade.
--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu conheço pouco do mundo.
--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo. Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher. Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e concederam-m'a. Casei... e depois...
--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.
--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular. Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada. Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá. Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que tu sabes, meu irmão.
«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella: cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo, agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu, porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente. Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.
X
Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma familia, á qual devia a regeneração de seu filho.
O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo. «Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado o edificio da virtude de Alvaro.
O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel. Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.
Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.
XI
Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites, via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe perguntava que mal fizera ella a Alvaro.
A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua imaginação.
Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de seu pae a febre constante que a extenuava.
Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:
--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças, sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.
Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue. Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra, quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.
XII
E dizia o coronel a seu irmão:
--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz. Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de arrependimento.
--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.
--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente. Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim; não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria o que as flores foram na minha?
XIII
Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se expansões sem testemunhas aos dois amantes.
A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino, afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se quererem.
Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre como todos.
XIV
Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.
--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.
--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de emprestimo.
O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:
--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua familia?
--Não...--disse a mãe de Maria.
--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que deixou.
--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão dos meus irmãos, aqui...
Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas carruagens.
--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de vos querer elevar com ella!» Não te parece?
--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.
XV
Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do prazer esconde no fundo.
Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados horisontes do meu destino?
O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de infeliz?
Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te busca na terra, a esponja acerba do desengano?
Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de sangue no cadafalso as tuas grinaldas?
Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua mãe.
Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.
Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?
Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre espirito, o premio benemerito do coração immaculado?
Na gloria da sabedoria?
Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?
Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?
Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra, se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.
XVI
--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.
--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!
--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o, e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me que rogue a Deus por ella.
--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só! Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso, sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...
--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa. Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha: augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.
XVII
O velho Silveira chamou seu filho, e disse:
--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?
--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.
--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este anjo?!