Chapter 8
Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do homem que fôra mau e parecia bom.
A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo, cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho, e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.
E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.
Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.
Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no espirito.
Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero agouro. Seriam illusões de uma boa alma?
III
O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as minhas culpas... Não temas, meu irmão.»
Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.
Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser recebido como amigo no seio de sua familia.
Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.
IV
A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na sua sala um extranho.
Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.
Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.
E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?
Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor possa ver a de Alvaro da Silveira?
Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da face e os da alma?
E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...
Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de Maria dos Prazeres.
A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros tempos, poderia abater-lhe o orgulho.
Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.
O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la com um momento semelhante na sua vida.
Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava. Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz tremula:
--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre. Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia deve fazer de mim uma idéa triste...
--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.
--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto, entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de um modo que v. ex.^a de certo não esperava receber um hospede que vive na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.
--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas da côrte é talvez v. ex.^a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idéas a respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relações com esta familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o receber.
V
Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os corações para o rosto incendiado da formosa menina.
O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos ultimos mezes da sua existencia.
Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade de uma senhora.
Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade, sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances, depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.
VI
Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. _Amigo_ é uma palavra profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.
As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os vicios dos seus hospedes _espirituosos_.
D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado pelo conde de *** primára como bom artista de _equivocos_, e trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.
Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e tão fascinadora no dom da palavra.
Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina, ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias, se diria a frei Antonio dos Anjos.
Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era, que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa, merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos se interessavam.
Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor. Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.
--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é; matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem aborrecer o que é virtude...
--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas tintas da seducção?
--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade: mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado, outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!... Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer. O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...
Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o desgosto de ouvi'-la.
Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz, que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos, sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do espirito.
Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter concorrido para a regeneração de um anjo.
VII
Á primeira visita succederam outras.
Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.
Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de Maria dos Prazeres.
Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que frequentaram juntos a casa do coronel.
--Parece-me que és feliz, Alvaro.
--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato a Deus.
--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a tempestade vier depois da bonança...
--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.
--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.
--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração que se morre...
--Se a virtude nos não vale...
--A intenção com que me diz essas palavras...
--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam vencer por pequenas resistencias...
--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que me anime a falar-lhe.
--Adivinhei a tua alma?
--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...
--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.
--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?
--Que sentes por ella, Alvaro?
--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...
--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.
--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, provocar as tempestades do coração?
--É, filho.
--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...
--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e grandes expiações a soffrer na terra.
--Pois bem, meu pae...
Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas se mostraram.
--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?
--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.
--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas palavras, na educação...
--Não é o coração de Maria dos Prazeres.
--Pois qual?
--O de meu pae.
--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?
--Gosta de Maria dos Prazeres?
--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?
--O pae quereria ter uma assim?
--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...
--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.