Lagrimas Abençoadas

Chapter 6

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Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de reconhecimento.

O padre maravilhava-se.

--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle enternecido.

--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.

Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como um propheta, apontou para o crucifixo.

--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v. exc.^a deve ajoelhar e agradecer.

Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.

O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!

Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do levita, recuou machinalmente.

Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se vangloriava de um cynismo inalteravel!

--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio, collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.

--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.

--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a entrada de v. exc.^a não podia distrair-nos para mal.

Alvaro tinha entrado.

Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto guardasse um justificado silencio na materia.

Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.

Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os licenciosos _Paulo de Kock_ e _Pigault Lebrun_ assignalaram os seus thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.

Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:

--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...

--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.

--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...

--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. exc.^a, sr. Alvaro.

--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.

--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua familia... É isto que v. ex.^a chama «mulher romantica?»

Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e transigiu discretamente.

--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu posso conscienciosamente asseverar a v. ex.^a, é que minha sobrinha está tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o meu amigo acaba de dar.

XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu filho.

Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.

XVII

O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma vae fenecendo.

O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo, aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.

Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?

O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta, em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.

Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia, pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas, a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.

Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.

Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho, deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.

Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal, com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de virtudes christãs... _extra-muros_. A educação ahi é mais religiosa que scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos, enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro encontrareis no colo materno, uma creança de sangue _illustre_, como lá se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.

Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um acto providencial.

XVIII

Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão rico e tão nobre como elle.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas praças, ou nos salões.

Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E, depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua liberdade.

Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.

XIX

A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu conteudo:

«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco. Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem, se me amam?!

«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.

«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como a sua sobrinha

_Maria._»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!

XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho... Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.

--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_. Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma solemne pirraça á tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que nunca ouviram.

XXI

Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.

--Que tens tu?--repetiu o conde.

--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...

--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...

--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.

--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.

--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava romantico.

--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?

--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.

--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.

--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?

--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia humana!

--É um padre!

--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...

XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra reverendissima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com acatamento ironico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem, buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei, falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa philosophia emprega contra Deus.

--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu agora, quaes são os mais reflectidos?

--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!

--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?

-É.