Lagrimas Abençoadas

Chapter 4

Chapter 43,824 wordsPublic domain

O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem laborioso.

A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia flores.

--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual uma familia alegremente saboreava um parco jantar.

Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva da necessidade?

Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.

--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, e recortando a folha de um lyrio.

--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os olhos do seu trabalho.

--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os cabellos negros de Maria.

--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a mãe... senão... o tio bem sabe...

--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.

--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.

--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e violentamente sorrindo.

--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um tom de risonha ameaça.

--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no meu amor?!...

--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito feliz...

E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a transportava.

O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.

Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.

--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as vossas inspirações.

--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio, tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.

II

A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.

Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava, não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria, frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se, commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade. O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio, quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica» accrescentava o mestre.

Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos. Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o, quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a felicidade d'aquella familia.

Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres, ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.

III

O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual elogio.

Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos, rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia depois os outros a empobrecerem-se.

Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia remunerar-lhe o seu trabalho.

O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente. Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo perdido.

Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida. Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto repartia com ella.

--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito, reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?

--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.

--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro tio?

--Sim, tudo, minha menina.

--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui, se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[2]

--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me pareceram tuas...

E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.

[2]Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia: mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em _Fr. Luiz de Sousa_, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes verdadeiro, assim como

_Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable._ (Boileau, _Art. poet. c. 3.^e_).

--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá fazer um bom filho, e um bom cidadão?

--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.

--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?

--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle; trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de, inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.

IV

Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este mancebo.

Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_, _B_, _C_, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo impotente de vingança.

Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a honra, levando-o pela vereda da religião.

V

Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este homem?

Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem religiosa?

Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.

Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada, em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.

VI

Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas immoralidades do discipulo.

Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E, então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma esperança infallivel no refrigerio do céo.

A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e comendo promiscuamente.

Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu na porta um toque.

--Entre quem é!--bradou elle.

Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com que o sacerdote o saudára.

--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.

--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, não é verdade?

--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua extranheza n'estes dialogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não alvorecer para nós. Fique v. ex.^a com Deus.

E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas impressões. Aquelle _memento_, áquella hora, por aquelle homem, acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino eterno.

O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no alarido das turbas amotinadas.

VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste, profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

PRESENTIMENTO

«Minha paz no infortunio, Minha alegria na dôr, Quem m'a déra, qual a tive, Qual m'a déstes, vós, SENHOR!