Lagrimas Abençoadas

Chapter 3

Chapter 33,737 wordsPublic domain

«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze, que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande. Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo, como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus, e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos. _Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de estertor; e senti que alguns vinham arrastados.

«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas. Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei depois.»

XXI

--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum mal?

«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica. Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios, bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.

«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes. Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus matadores!»

Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre, entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote no espirito do christão agonisante.

«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo e da terra.

«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas guardas.

«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se, reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso carcere.

«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador, cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes, mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.

«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.

«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar. Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.

«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a «arreata» como elles nos disseram.

«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração, todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus, complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio aos labios queimados da febre.

No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte. Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar a morte das espingardas dos teus soldados.[1]

Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?

--E tenho chorado... o tio não vê?

--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?

--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu tio?

--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da minha triste peregrinação até á casa de teus paes?

--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.

--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.

--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um sorriso de candida alegria e admiração.

--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.

[1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho, seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade, afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos...

XXII

«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo, como foi chorado aquelle adeus... _para sempre!_ «Antes o martyrio, e que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos? Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.

«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido, convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos... Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.

«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa. Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre, em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.

«Adormeci.

«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros. «Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.

«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa. Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle, é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação bastante de suas faltas.

«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas, alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes, depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia! parecia-me um conto disparatado!

«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me. Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo áquelles que o confessam!

«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande. Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»

«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando prelado.

«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.

«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas dos meus desgraçados companheiros!»

E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.

XXIII

Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.

«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»

O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:

«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que parece firmar-se nas cristas das montanhas.

--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.

«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.

--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu nascimento.

«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse? Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias, que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o ouvimos gemer... e gememos todos.

--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga como vivia...

--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.

--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. _Roçar um carro de tojo_ é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela, durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia do homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas. E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo, nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de uma herança!...

XXIV

«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?» perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.

«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote? perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava. Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um epitheto injurioso.

«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui instrumento de fortaleza.

«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»

--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.

--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me querem: é assim, Maria?

--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o todos.

Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou, exclamando:

--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia! Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro fosse quebrado.

LIVRO II

I

Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por todos os homens.

Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que Jesus nos deixou recommendado.