Chapter 2
E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou? onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa sina_, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?...
A providencia é a acção da Divindade.
O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande, só, e proscripto das ovações, _em que elle fôra o menos laureado_, era ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e na confiança.
Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo, onde o rico deixa debitos enormes a solver.
Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no dia das tremendas explicações dos mysterios, incompreensiveis aqui. Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante d'aquelles, que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu passado orgulho.
Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade; quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do mundo, sem adulterar as mercês do Creador.
Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.
VIII
Não é assim o cynico.
Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em seu coração todos os elementos para augmenta'-lo.
Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no proprio coração, outro no coração que lhe pede o obulo.
É assim o cynico.
Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam, fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da irreligião.
Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade.
Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas e sangue, fôra a impiedade.
Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a impiedade.
Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir, nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir, nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade.
IX
E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.
No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle fizera.
E riu-se.
Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu carro insultuoso.
E riu-se.
Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.
E riu-se.
Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo: pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.
E riu-se.
Este é o cynico.
E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a morte de cynico é uma risada na blasphemia.
X
Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.
Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração, era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.
Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre duas idéas: pobreza e impotencia.
Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal, que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o sacrifica á justiça de Deus.
O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.
A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.
O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro são machinas de morte.
XI
E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.
Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas tu.
XII
E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança, nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera, gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos uma nova desgraça?
Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma colheita de lagrimas na seara das esperanças.
E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura. Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola.
XIII
O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.
Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os poetas.
Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz; desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões; ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do espirito.
Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz.
O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita desventura.
A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as gerações de ingratos.
Era esta a sua oração:
«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...»
XIV
Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o opprobrio não o desanima, nem o envergonha.
A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim, decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece um triumpho, ultraje dos oppressores.
O coronel, se tivesse a receber as felicitações _vendidas_ á sua patente de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua porta.
Abriram-n'a.
O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.
Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio, acha'-la-ia n'aquelle homem.
E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua esposa, a contempla'-lo rodeado dos filhos, que pareciam perguntar-lhe quem era o extranho hospede.
Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos corações anciosos.
--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel.
--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!...
O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa, que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo. As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr.
XV
Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança de avós corajosos de braço e espirito, o seu patrimonio de resignação não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça. Affeito a encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a dôr extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo, e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira.
XVI
--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros abraçados.
--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade.
--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o receio de outras maiores...»
--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...»
--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a terna inflexão de uma supplica.
E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna, contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:
«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer, e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da humanidade, que se espedaça.
«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha, e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel que o não sejam. Sabias tu que eu existia?»
--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o coronel.
--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os vinculos do sangue, se os tem no mundo.
A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas, que traíam a sua serenidade contrafeita.
Seguiram-se o silencio, e a anciedade.
Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.
Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem, fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!
É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns pelo menos, é verosimil e explicavel.
Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos incendios philosophicos.
XVII
Frei Antonio continuou:
«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza, quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas amarguras não adoçarei as tuas?
--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»
--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante... Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»
O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S. Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia, e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria, pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.
Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica das almas flexiveis.
XVIII
Proseguiu o frade:
«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella. Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus companheiros!
«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal, apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade. Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha, lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão natural.
«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte, porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de disciplina. A sua resposta foi simples:
«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que sou chamado ao côro.»
«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo, humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.
--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos turvos de lagrimas.
--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.
--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?
--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o perdão dos seus matadores.
--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus paes e meus irmãos!
--E para o tio padre, não, meu anjinho?
--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?
--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?
--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os façam ter dó dos que soffrem.
Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade; e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...
XIX
«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: _morram os frades! abaixo os ladrões!_
«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...
«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»
--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda? perguntou Maria.
--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação, a vida da alma. A morte não nos atormentava: poderia a natureza estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu entendeste-me?
--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?
--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.
XX
«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que, depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares. Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado e magestoso como um _de profundis_.
«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel, que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!
«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as portas á chusma de povo.