Lagrimas Abençoadas

Chapter 12

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--Se estivesse ao pé de v. ex.^a... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no coração arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte de asfixia. Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer mais nada.

--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e contemplando-a, mudamente.

XII

Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora limpava as lagrimas.

--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado? Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã ha de ter um quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração até Deus; são um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que significa o throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da gloria eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia, desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro; eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?

Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de Alvaro, e conheceu-o opprimido.

--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.

--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma... diz-me: «perdôo-te.»

Maria exclamou entre soluços:

--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira, pedia-te perdão agora.

--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.

--O que?--perguntou a prioreza.

--É certo que é possivel a felicidade para mim?

XIII

Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com a rehabilitação de Alvaro.

Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo livre.

Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.

O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:

--Estou punido, meu Deus!

XIV

Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:

--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.

Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.

--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as nossas ultimas migalhas de pão.

XV

Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.

--Já sabe tudo?--perguntou o padre.

--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.

--É pouco de mais o que elles têem para viverem.

--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.

Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de lagrimas felizes.

Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua acção de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel rejuvenescia da intempestiva velhice.

--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.

--A providencia de Deus--respondia o irmão.

--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.

--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.

XVI

Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.

O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:

--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem, procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino.

«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel. Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da liberdade.

«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos: dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas, até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.

«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros e de baixa condição.

«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.

«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei. Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.

«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos braços.

«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na esperança de uma vida melhor.

«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo, creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha rehabilitação.»

Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de felicidade inexprimivel.

XVII

N'um dia de 1839[NT], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.

--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta o sr. Alvaro?

--Melhor do que as minhas ambições.

--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?

--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.

--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?

--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.

--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...

--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.

--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um creado antigo da sua casa, doente?

--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença estava eu para pedir-lh'a...

--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais breve que possa ser.

XVIII

No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o merceeiro Joaquim Nunes.

As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de humilhar-se para rehavê'-los.

--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.^a D. Maria e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?

--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para a nossa companhia!--exclamou a sobrinha do padre.

--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr. padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.

Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito, limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr. Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.

XIX

Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.

Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo physico e moral da mudança.

Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos facultativos. Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um mez de alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a restabelecer-se.

No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um tabellião.

Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados excediam a meio milhão.

XX

Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só vontade.

E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos. Cumpriram-se os seus bons desejos.

A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.

Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias. Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.

Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!

FIM

[NT] Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data correcta.

End of Project Gutenberg's Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco