Lagrimas Abençoadas

Chapter 11

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Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.

Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou tambem.

--Vamos, filha--disse elle por fim.

--Já?! de noite?--reflectiu ella.

--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com a nossa familia.

--Pois está tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da sr.^a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos embora.

Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe bebiam as lagrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.

XXVII

A sege parou defronte do mosteiro.

Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que, enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da abafação angustiosa em que penára.

Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda.

D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem confessa a maior culpa de tamanha desventura.

Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.

Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não entendesse a freira condoida, disse:

--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.

Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações. Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.

Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.

XXVIII

Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha, a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o eram.

Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:

--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade para o receberes.

E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes, pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.

Siveira apertava a mão do padre, e dizia:

--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle, e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...

Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.

Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias possiveis n'um convento.

Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um ceitil em quanto pudesse trabalhar.

Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões, demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos, porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.

LIVRO ULTIMO

I

Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de todos os homens perdidos.

A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.

Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o descartára a elle do tropeço conjugal.

O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que, de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a chamada _sociedade do delirio_. Ao estrondo das primeiras impudencias, o pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdém, e repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho coração não podia com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi desamparado dos parentes que o inculpavam na educação licenciosa de Alvaro. Quem lhe ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora da morte, que as dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis vintens para mandar dizer por sua alma uma missa.

II

O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á dissipação.

Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.

Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.

Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca de uma somma quasi egual ao valor d'elles.

Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se arrependesse, apressou o contracto.

O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!

Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe aproveitasse depois de uma lição amarga.

III

Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido.

Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da desgraça, sem honra, se encontram.

Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava. O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.

Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira. Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras, achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do logista.

IV

Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos. Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada, porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.

Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta carta.

Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.

Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.

--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?

--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me d'elle.

--Minha sobrinha?!

--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse dos meus rendimentos por vinte annos...

--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.

--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui creado na opulencia, e ella...

--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha. Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.

--Não entendo...

--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.

--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?

--Migalhas.

--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o homem que teve.

--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.

--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito, esse tudo era meu.

--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!

--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella me repellisse.

--E se ella o abraçasse na sua pobreza?

--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria hoje a feliz virtuosa que foi.

--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela esperança...

--Esperança!...

--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me, sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e esperança...

Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão de palavras qual d'ellas mais tocante.

Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:

--Vae, sr. Alvaro?

--Irei, se assim o quizer.

As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a florir, para fructos abençoados.

V

O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém, desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.

Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.

A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro, tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria constante lh'a estava descarnando sempre.

Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará no coração d'esse Lucifer despenhado.

VI

Maria recebeu esta carta:

«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando, e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!

--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes humilhadora. Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que vivo. A esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.

_Alvaro_».

VII

As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro o padre.

Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:

«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei, e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas esperanças.

_Maria_».

VIII

O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.

Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro, e, só depois da missa, viria ao locutorio.

O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio de uma amiga, um _ai_ que o denunciára. A amiga, electrisada pelas lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar, magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a musica do _Te-Deum laudamus_.

Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as organisações delicadas.

IX

Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria, pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao seio com alvoroço de contentamento.

--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que se póde ser pobre e feliz!

A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança em Deus no coração.

Entraram na grade.

X

Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui affavelmente:

--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não póde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as formalidades de noivo.

--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com jovialidade á graça risonha da prelada.

--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé de nós.

--Como, minha senhora?!

--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão lindos! V. ex.^a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr. Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?

--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a.

--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.

Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da ainda formosa Maria.

XI

--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.

--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.

--Não está?!--interrompeu a prelada.