Julio Diniz (Joaquim Guilherme Gomes Coelho) Esboço Biographico
Chapter 3
Que dolorosos pungimentos de saudade lhe não havia de dar a cada momento a memoria,--aquella vivaz e fiel memoria dos phtysicos,--ao recordar-se dos tranquillos dias da sua mocidade, das suas excursões a Aveiro, a Felgueiras, a Leiria, sempre rodeado d'amigos, sempre querido d'elles, agora que, por uma barreira invencivel, se via, e para sempre, distanciado d'um amigo que sinceramente o estimava,--o publico!
VII
Em Gomes Coelho tão identificados andavam o homem e o litterato, que não havia surprehendel-os na menor contradicção. O mesmo é lêr os seus versos, os seus romances sobretudo, e descortinar para logo a limpidez, a tranquillidade, a nobreza d'aquella alma. Os quadros que devemos á sua penna são placidos, azues e luminosos, e estes serenos esplendores que lhes davam animação partiam directamente, sem jámais atravessarem um meio viciado, do foco intimo e puro,--do seu grande e nobilissimo espirito.
Eu folgo muitas vezes de, seguindo o rumo da critica moderna, estudar o _eu_ subjectivo no homem material e nas suas mil relações com a sociedade. É um trabalho duplamente interessante, e tão curioso estudo em ninguem mais dará tão promptos e satisfactorios resultados como em Gomes Coelho.
Julio Cesar Machado, escrevendo ha pouco tempo ainda do popularissimo doutor Thomaz de Carvalho, perguntava singela e intencionalmente:
Conhecem o quarto? Gabinete de estudo, e museu de amador, tanto mais interessante que reflecte por alguma maneira o caracter, habitos, genero de predilecções de quem o constituiu com o gosto e cuidado inseparaveis de sua indole. Ha alli muito da sua individualidade; é tudo d'elle e por elle alli; uma especie de transfiguração de sua pessoa; como que o sobretudo d'aquelle espirito multiplice e fecundo. Ao mesmo tempo, quarto modesto e reservado--como convem para o estudo, não tendo sequer a indiscrição de olhar para as ruas.
Ora eu lembro-me de ter em 1868 visitado Gomes Coelho na casa em que então morava no largo de S. João Novo. Entrei para o seu quarto, modestamente mobilado, e pela elegante singeleza que reinava alli, pela regularidade systematica, e pela graciosa disposição dos seus papeis e dos seus livros recordava-se a gente subitamente dos romances de _Julio Diniz_.
Devia de ser traiçoeiro aquelle quarto para os que não soubessem que o mesmo homem absorvia as duas individualidades...
Coração d'ouro, affectuoso, impressionavel, caracter honesto, justo, incapaz d'uma ligeira offensa, a si mesmo se daguerreotypa involuntariamente nos seus romances, nos seus personagens admiraveis de candura e pureza, porque em todos elles havia alguma coisa da sua alma. «Eu encarno-me nos meus personagens--dizia elle a alguem da sua familia--antes de os desenhar. Supponho-me elles, faço-os pensar o que a mim me parece que pensaria em tal caso, obrigo-os a dizer o que eu diria por ventura em identidade de circumstancias.»
Outros escriptores terão colorido mais vivo, mais pittoresco até; poucos lograrão vencel-o na observação escrupulosa, na moralidade dos quadros, na doçura dos assumptos, e finalmente no desenvolvimento dramatico da acção, circumstancia importantissima, porque o romance é simultaneamente narração e drama, dialogo e descripção, como observou Pelletan.
Realista, porque elle o era em litteratura, jamais se occupou em reproduzir os quadros negros da sociedade, as paixões revoltas e baixas, as enormidades do crime, os typos ridiculos ou hediondos.
Suppondo mesmo que o não sabiamos, facilmente conheceriamos que o espirito de Gomes Coelho fôra educado na leitura do romance inglez. Os seus personagens, pelo menos em alguns dos seus livros, se não são tão humildes, se não professam officios mechanicos, como os de George Elliot, são typos escolhidos na galeria rustica do campo.
As suas novellas são chronicas d'aldeia, como elle mesmo as denominava. Nos _Fidalgos da casa mourisca_ está completamente photographada a indole do romance moderno que os inglezes adjectivam de sociologico. Qual é o fim d'este romance? Que problema se propõe resolver? O professor Buchner, da faculdade de lettras de Caen, escolheu ha pouco tempo para assumpto d'uma conferencia interessantissima a nova direcção que a litteratura britanica tem dado ao romance depois de Dickens e Thackeray, «os heroes da satyra e do bom humor», como elle mesmo lhes chama. Não bastavam as zombarias humoristicas d'estes dois romancistas, as suas verberações violentas á burguezia e á nobreza para implantarem a nova reforma social. Era preciso mais alguma cousa do que censurar o mal;--era preciso apontal-o, sondal-o, e cauterisal-o. D'esta missão humanitaria e prestimosa se encarregou o romance sociologico, occupando-se primeiro que tudo da educação nacional, como fez Bulwer no _Pelham_, e passando da familia, onde as creanças lhe merecem sérias attenções, a combater na sociedade os velhos preconceitos, os monopolios escandalosos, as tradições classicas, antigas inimigas da verdadeira liberdade. Tudo isso se presente nos primeiros romances de _Julio Diniz_, nas _Pupillas do senhor reitor_, por exemplo, onde a medicina moderna, representada em Daniel, tem de fazer rosto á velha sciencia hyppocratica de João Semana, e tudo isso se manifesta claramente nos _Fidalgos da casa mourisca_, onde a aristocracia, ciosa dos seus pergaminhos, lucta e porfia com a nobreza do trabalho, onde a civilisação antiga digladia com a sociedade moderna, n'um combate proficuo á humanidade.
Os romances de _Julio Diniz_ resentem-se portanto da sua educação litteraria e, a meu vêr, compartilham das virtudes e dos defeitos do romance sociologico inglez. Reflectidamente accusa o professor Buchner os modernos romancistas da Inglaterra de descurarem um pouco a fórma por attenderem demasiadamente á materia; finalmente de uma exuberancia extrema de pormenores, e até de personagens, exuberancia esta que por mais d'uma vez abafa o centro de gravidade, o verdadeiro heroe do romance.
De resto não ha ahi litteratura mais doce, mais consoladora, mais orvalhada de lagrimas refrigerantes para os que na lucta ficam vencidos, e mais cheia de serenas alegrias para os que, vencedores, recolhem os louros do triumpho.
Na esphera do _realismo_, visto esta palavra andar hoje em voga, Gomes Coelho está no polo opposto ao dos irmãos Goncourts, Zola, Gaboriau, Feydeau, e muitos outros. Nós, «entendendo _realismo_ do unico modo por que póde admittil-o a consciencia e confessal-o a razão, julguemol-o só observador consciencioso, reproductor discreto» para nos servirmos das palavras de Mendes Leal, e veneremos em Gomes Coelho, no _amavel moralista_, como lhe chama o mesmo escriptor, essas qualidades que elle possuia em grau eminentissimo.
Não é nosso intento, nem o comportam as exiguas dimensões d'um esboço biographico, fazermos uma critica especial sobre cada livro de _Julio Diniz_. Propozemo-nos simplesmente estudar-lhe a _maneira_, fazer sentir a sua individualidade exclusivista, e com isso nos contentamos.
Céo limpido, atmosphera pura, montanhas vagamente esbatidas no horizonte, campinas cobertas de flores e esmaltadas por aguas scintillantes e suspirosas, a amenidade da aldeia n'uma palavra, a natureza rude mas casta,--n'isto se resumia a _mise-en-scene_ dos seus dramas. Os seus personagens não eram os pastores anachronicos de Gessner ou Virgilio, os pegureiros ignorantes das alturas de Barroso. Eram, como já deixamos vêr, os corações formosamente singelos, como as flores d'entre as serras, o reitor, o herbanario, o camponez abastado, o cirurgião, o fidalgo, e as mulheres cujos corações desabrochavam para florir na primavera perpetua do bem. A mulher! oh! essa nobilitava-a elle sempre, modelando-a pelo seu ideal de formosura e bondade, pondo-lhe no coração balsamos para todas as chagas, conforto e ensinamento para todos os obcecados pela paixão infrene. Destacam-se sobre um horizonte azul, como a vela branca na amplidão das aguas dormentes, os seus incomparaveis typos de mulher, ou estudemos a Margarida das _Pupillas do senhor reitor_, ou a Jenny da _Familia ingleza_, a Magdalena da _Morgadinha dos canaviaes_ e a Bertha dos _Fidalgos da casa mourisca_. Sempre a mesma doçura, a mesma bondade intelligente, a mesma elevação, a mesma pureza de ideias e sentimentos!
Notaremos de passagem uma circumstancia muito para significar até onde ia a magnanimidade de Gomes Coelho.
Aproveitando o typo do velho cirurgião, mais experiente do que instruido, com maior peculio de anecdotas do que de conhecimentos scientificos, dando-nos aquelle interessante e completo João Semana das _Pupillas do senhor reitor_, não foi para fazer d'elle a caricatura do proto-medicato, um personagem grotesco e risivel, senão para nos obrigar a estimarmol-o e a respeitarmos a sciencia antiga apresentada n'um homem de nobilissimo coração. O mesmo não aconteceu a Silva Gaio, escriptor eminente é certo, mas critico incisivo e quasi sempre apaixonado, mormente em assumptos historicos, que fez do João Marques, do _Mario_, a caricatura cruelmente verdadeira do charlatanismo medico.
Os romances de _Julio Diniz_ foram profusamente apreciados pela imprensa. Além do seu valor real offereciam certa novidade para o publico portuguez,--nacionalisavam o moderno romance britanico, desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, após elle, muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era mais um gravame pesado de que um galardão para a consciencia.
Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um senão apontado pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta, especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na _Gazeta litteraria do Porto_--era que _Julio Diniz_ falseava a cada passo a linguagem dos seus personagens, recrutados na população dos campos, quando esta linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural aos ouvidos menos exigentes.
Pouco é o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciação, assim exigida pela natureza d'um esboço biographico, concentramos as nossas opiniões, que por menos contrahidas, não se alterariam n'um estudo de mais latas dimensões.
VIII
Em junho de 1871 annuiu Gomes Coelho a retirar-se com a familia de seu primo, o snr. José Joaquim Pinto Coelho, para a rua do Costa Cabral, na enganadora esperança, que alimentavam os seus, de que a proximidade benefica dos campos seria obstaculo à marcha, cada vez mais accelerada da molestia.
Levou comsigo alguns livros, especialmente inglezes, a cuja leitura se entregava com interesse. Não obstante os extremos carinhos da familia que o rodeava, e a solicita assistencia dos seus intimos amigos, o primeiro mez foi de continuo definhar, sendo-lhe já motivo d'aborrecimento, muitas vezes, o rever as provas dos _Fidalgos da casa mourisca_, que se estava imprimindo, apesar de auxiliado n'este trabalho por seu primo, e podemos dizer enfermeiro, o snr. Pinto Coelho.
Assim foi declinando a vida de Gomes Coelho, até que á uma hora da madrugada do dia 12 de setembro, tendo passado a noite com seu primo, e o seu intimo amigo o snr. Custodio José de Passos, sem denunciar tão proximo desenlace, exhalou o derradeiro alento, depois d'uma longa agonia de tres quartos d'hora.
O _Jornal do Porto_, que fôra o primeiro a festejal-o, foi tambem a primeira folha do paiz que divulgou a triste noticia do seu passamento, n'estas sentidas palavras escriptas pelo meu amigo Sousa Viterbo, então colaborador effectivo do mesmo jornal:
Aproximam-se as tristezas do outomno e ás tristezas da natureza ajuntam-se as melancholias do coração.
O paiz e as boas lettras acabam de perder um dos seus mais estimaveis talentos. Joaquim Guilherme Gomes Coelho expirou esta madrugada á uma hora.
Mais que a nenhum outro jornal do paiz, ao _Jornal do Porto_ cabe-lhe o dever de derramar uma lagrima de saudade sobre o tumulo do grande romancista. Foi nas columnas do nosso diario que o author das _Pupillas do senhor reitor_ principiou a sua brilhante carreira litteraria.
Era com a maior avidez que os nossos leitores seguiam os folhetins do _Jornal do Porto_, quando esses folhetins publicavam as perolas da nossa litteratura, que se denominam--as _Pupillas do senhor reitor_, _Uma familia ingleza_, e a _Morgadinha dos canaviaes_.
A Providencia não quiz conceder a Gomes Coelho mais um momento de vida para rever as ultimas provas do seu derradeiro romance--_Os fidalgos da casa mourisca_. Que saudades que não levaria elle do seu livro!
Gomes Coelho não era sómente romancista: era tambem um homem de sciencia. Tres vezes concorreu ás cadeiras da Eschola-Medica e de tres vezes o seu talento robusto deixou um rasto fulgurante. Todos o reconheciam como uma das primeiras capacidades d'aquelle estabelecimento scientifico.
Como Soares de Passos, de quem foi amigo, Gomes Coelho deixa uma lacuna difficil de preencher na nossa litteratura. A sua carreira litteraria estava por completar ainda. A sua imaginação estava ainda fresca como um dia de primavera. Que de flores que se não perderam; que de fructos esmagados sob a lousa d'um tumulo!
Gomes Coelho deixou retratado o seu espirito nas paginas suaves, doces, innocentes dos seus romances. Era uma alma singela como as scenas que tão delicadamente nos descrevia. Observador profundo, enamorava-se do que havia de bello na alma popular e deixava no escuro as miserias que ennegrecem a vida. Comprehendia que a litteratura tinha uma sacrosanta missão e nunca manchou a sua penna nas torpezas da comedia humana.
Gomes Coelho ha muito que se debatia com as agonias da doença. O seu espirito de gigante debalde luctava com a debilidade do corpo. Os seus profundos estudos, a sua assiduidade no trabalho deviam-lhe minar forçosamente a existencia. Debalde procurou na ilha da Madeira allivio aos seus padecimentos. Os amigos que o viram partir da ultima vez ficaram nutrindo a esperança de que os ares purificados da perola do oceano lhe dariam novo alento. A esperança foi illudida.
Durante a sua estada na ilha da Madeira, Gomes Coelho conviveu com um talento privilegiado, a quem o _Jornal do Porto_ deveu tambem os thesouros opulentos da sua penna. Mais feliz que Francisco de Paula Mendes, Gomes Coelho veio morrer ao solo natal, entre os amigos que o queriam e a familia que tanto o estremecia.
Entre os membros d'essa familia conta-se um confrade nosso (era o snr. J. J. Pinto Coelho, então nosso redactor) que a estas horas verga ao pêso d'uma dor excruciante. Enviamos ao confrade amigo e aos seus o testimunho da nossa profunda magua.
Na typographia estava-se compondo o segundo volume do seu romance, quando a noticia da morte de Gomes Coelho corria de bocca em bocca, despertando geral commoção. Mezes depois, em janeiro de 1872 sahiam a lume os _Fidalgos da casa mourisca_. E todavia, áquella hora em que a triste nova circulava de praça em praça, de casa em casa, restava apenas do grande talento de Gomes Coelho um cadaver preparado para o sepulchro, ao sopé d'um Christo alumiado pela luz arquejante dos cirios.
O _Jornal do Porto_, fazendo-se cargo de acompanhar á ultima morada os despojos mortaes do escriptor cuja gloria primeiro prophetisara, escrevia no dia seguinte:
Baixou hontem á terra o cadaver do chorado e talentoso escriptor, cuja morte prematura noticiamos na nossa folha de terça-feira.
Os responsos de sepultura foram rezados na velha Igreja de Cedofeita. Era grande o numero das pessoas que assistiram a este acto funebre: entre ellas o corpo docente da Eschola-Medica, de que o finado fazia parte, e alguns professores de outras corporações scientificas e litterarias.
Pegaram ás azas do caixão seis dos antigos condiscipulos do snr. Gomes Coelho, a quem elle tinha na conta de seus mais caros amigos. Foram os snrs.: Ernesto Pinto d'Almeida, Augusto Luso da Silva, Eduardo Augusto Falcão, José Augusto da Silva, Miguel Teixeira Pinto e José de Macedo Araujo Junior.
A chave do caixão foi depositada nas mãos d'um dos mais intimos do fallecido, o irmão do grande poeta que escreveu a _Visão do Resgate_. No rosto do snr. Custodio de Passos desenhava-se a dor do triste sacrificio que lhe impunha a amizade.
Entrou no seio da natureza o corpo d'aquelle que tão bem a tinha sabido representar nos seus quadros de poesia campestre. O seu espirito, porém, ficou encarnado nos seus livros e viverá entre nós emquanto se souber prezar a belleza das grandes obras d'arte.
O nome de Gomes Coelho não é d'estes nomes ephemeros que se gravam em lettras douradas no marmore d'um tumulo luxuoso.
Eu, profundamente impressionado pela morte de Gomes Coelho e obrigado a sahir do Porto, por motivos extranhos á minha vontade, no dia do seu enterro, fui dos primeiros a depôr uma flôr de saudade no tumulo havia pouco cerrado, porque era realmente um dos seus mais sinceros admiradores. Nas ultimas paginas do livro--_Esboços e episodios_--escrevia eu emboscado n'umas paragens sombrias do concelho de Sinfães:
D'esta vez já cá não encontrei as andorinhas. Sahi do Porto dias depois d'ellas partirem, e mais uma vez averiguei que sempre com ellas emigra para mais lucidas espheras a alma d'um poeta que succumbe á melancolia do outomno. Este anno as andorinhas e a alma de _Julio Diniz_ partiram ao mesmo tempo. Estava a natureza de lucto, e a litteratura tambem.
Era um dia triste, pesado, chuvoso.
As andorinhas poisaram em bando nas cornijas musgosas da igreja de Cedofeita. Estavam a discutir provavelmente a necessidade de emigrar, a combinar talvez a hora da partida.
Michelet no seu formoso livro denominado--_L'Oiseau_--cita um exemplo eloquente d'estas discussões animadas das andorinhas momentos antes da partida. As pobrezinhas sacudíam, tremendo, os pingos d'agua que lhes emperlavam as pennas. Estavam amedrontadas da neblina. Deviam partir. De repente reboam os echos do campanario com uma toada lugubre. Era a voz do sino que annunciava o passamento de Gomes Coelho. Não pensaram mais um momento, não reflectiram siquer.[2]
Partiram em direcção ao mar, atravessando os campos.
Pobre scismador, que sentia dentro do craneo a chamma dos predestinados para a gloria e no peito a urna embalsamada d'um coração sem macula, com que inexplicavel melancolia, e porque longas horas de dilacerante angustia, não veria elle destacarem-se, nos campos visinhos, sobre o céo pardacento do outomno, os troncos das arvores cada vez mais despidos e solitarios! Era aquelle um sentir-se resvalar para o tumulo, dia a dia, um despedir-se lentamente das suas affeições, dos seus romances que resumiam horas de enlevo e melancolia, e do seu ultimo livro, especialmente do seu ultimo livro, folha, que, ao voar do recinto da familia para a officina typographica, fôra talvez rociada pelas lagrimas furtivas d'um presentimento pungente.
Era que tinha de ser a ultima d'uma primavera que, em pleno esplendor de suas galas, via enovelar-se ao longe, avançando sempre, a nuvem negra do simoun que levaria após si folhas e flores para abysmar umas e outras nos despenhadeiros do sepulchro.
E a nuvem aproximou-se, e o simoun passou, e tudo o que estava ainda enthesourado nos cofres opulentos da primavera perdeu-se, mas a folha verde dos intimos vergeis tinha já voado, nas brisas suavissimas da gloria, a enastrar-se n'uma corôa entretecida por outras, suas irmãs, porque da mesma seiva se nutriram, e que pairava a uma altura superior ás impetuosas correntes que impellem o homem desde a vida inconsciente do berço até aos abysmos insondaveis da eternidade.
De Gomes Coelho só morrera o homem; o escriptor ficara.
FIM
[1] _A Caldeira de Pero Botelho_, romance, pag. 200.
[2] N'esta ruim profissão das lettras, tão escassa de rendosos benesses, é licito orgulhar-se a gente de certos galardões espontaneos que lhe dão á alma um momento de conforto. Por tal razão se transcrevem as palavras que nos enviava o snr. D. Antonio da Costa com relação ao artigo transcripto:
«Mando-lhe um abraço pelo sentido artigo biographico que escreveu a respeito do pobre _Juio Diniz_. Li-o, e muito gostei d'elle.»