Julio Diniz (Joaquim Guilherme Gomes Coelho) Esboço Biographico

Chapter 2

Chapter 23,645 wordsPublic domain

A 2 de maio de 1867, afoitado pelo successo d'este romance, encetou a publicação da sua estreia litteraria--_Uma familia de inglezes_,--que no anno seguinte sahiu á luz em volume com o titulo de _Uma familia ingleza, Scenas da vida do Porto_.

Este livro já teve duas edições.

A _Morgadinha dos canaviaes_ foi escripta com extrema rapidez e começou a publicar-se no _Jornal do Porto_ a 14 d'abril de 1868, sendo reimpressa em volume logo depois.

Em março d'esse anno subiu á scena em Lisboa o drama que o snr. Ernesto Biester extrahiu do romance _Pupillas do senhor reitor_. Gomes Coelho foi a Lisboa, acompanhado pelo seu amigo o snr. José Augusto da Silva, no proposito de assistir como simples e obscuro espectador á estreia do drama. Estava elle no theatro da Trindade, pensando de certo em gozar a modesta tranquillidade do incognito, quando o snr. Henrique Nunes, distincto photographo portuguez, que o conhecia do Porto, o denunciou como author das _Pupillas_. A noticia circulou com a rapidez da electricidade, e para logo proromperam as plateias em enthusiastica ovação, sendo Gomes Coelho victoriado pelo publico e cumprimentado por alguns litteratos distinctos que estavam presentes.

O _Diario Popular_, de 24 de março de 1868, escreveu mais circumstanciadamente do assumpto, quando pela terceira vez se representaram no theatro da Trindade as _Pupillas do senhor reitor_:

O exito d'esta peça correspondeu ao muito que esperavam d'ella os que prezam as boas lettras e se occupam com interesse de novidades theatraes. E na realidade é tão raro vêr sobre a scena portugueza dramas puramente nacionaes, que não podemos deixar de applaudir a apparição de uma comedia que pelo desenho dos costumes, pela contextura, e pela linguagem honra o magro repertorio dramatico do nosso paiz. Dividida em sete quadros, resume a comedia todas as principaes scenas e peripecias, que dão vida ao romance com que o snr. Gomes Coelho enriqueceu a litteratura moderna, e cuja primeira edição foi esgotada em menos de um mez.

Como os leitores sabem já, as _Pupillas do senhor reitor_ foram representadas no sabbado em beneficio da actriz Delfina. A mais escolhida sociedade occupava os camarotes, balcões e plateias.

El-rei D. Luiz, não querendo deixar de honrar com a sua presença a festa da distincta actriz, foi primeiro do que a nenhuma outra parte, provar a Delfina o muito apreço que liga ao seu talento.

Desde o final do primeiro acto até que o pano baixou terminando o espectaculo, os applausos repetidos e enthusiasticos testemunharam o prazer com que era recebida a producção, que o snr. Biester com tanta habilidade desentranhou d'aquella chronica d'aldeia, que n'um só dia deu nome ao que a havia escripto. Na primeira representação o publico chamou no fim do terceiro quadro o snr. Biester, que veio á scena agradecer. Quando novamente foi chamado no fim do sexto quadro, sabendo já que o celebre author do romance, o snr. Gomes Coelho (Julio Diniz) se achava na plateia, veio ao palco o snr. Biester, pediu silencio, e disse pouco mais ou menos as seguintes palavras:

«Aquelle que realmente merece os vossos applausos está entre nós. Eu não fiz mais que apresentar debaixo da fórma dramatica um dos mais notaveis livros que se tem publicado n'este paiz. A esse escriptor já coroado dos applausos publicos peço eu agora a honra de permittir-me que o apresente n'este logar ao publico que o deseja vêr.»

A plateia levantou-se para applaudir o snr. Biester e o snr. Gomes Coelho, que se recusou a subir ao palco. Veio buscal-o á plateia o snr. Biester, e, mal appareceram ambos no palco, o enthusiasmo do publico chegou ao delirio. A todos commovia a modestia dos dois escriptores; um escondendo-se na plateia e furtando-se aos applausos, outro pretendendo que toda a gloria coubesse ao snr. Gomes Coelho.

Os actores que ainda estavam em scena abraçaram o snr. Gomes Coelho que profundamente commovido mal podia proferir uma palavra.

O correspondente de Lisboa dizia na sua carta para o _Jornal do Porto_ no mesmo dia e mez de março de 1868:

O Porto teve dois triumphos em Lisboa nos ultimos dias--o da opera _Arco de Sanct'Anna_, do snr. Noronha, e o das _Pupillas do senhor reitor_, do snr. Gomes Coelho (romance transformado em drama pelo snr. Biester.)

Ambos estes filhos do Porto foram victoriados delirantemente, o primeiro no theatro de S. Carlos, e o segundo na Trindade.

O drama agradou, e o desempenho foi bom por parte dos actores Taborda, Izidoro, Queiroz, Emilia Adelaide e Rosa: pelos outros apenas supportavel.

Quanto ao merecimento do drama, consignemos de passagem que não satisfez a critica litteraria senão por ser um reflexo, ainda que pallido, do romance de _Julio Diniz_.

Pinheiro Chagas revelava-o em folhetim do _Jornal do Commercio_, poucos dias depois da primeira representação:

A luz do proscenio,--escrevia elle--digamol-o emfim, é uma luz mentirosa; a perspectiva do theatro tem condições especiaes. Ponham os frescos de Raphael recortados nos bastidores, e eu lhes juro que não produzem metade do effeito de quatro borrões espraiados na lona pelo snr. Procopio.

Em 6 de julho do mesmo anno, estando no Porto a companhia do theatro da Trindade, pôz em scena o drama _Pupillas do senhor reitor_. Copiemos ainda do _Jornal do Porto_ o que no dia seguinte escrevia a tal respeito:

É muito difficil adaptar bem á scena o entrecho d'um romance. Para que qualquer obra litteraria se considere absolutamente boa é preciso que os factos que n'ella se expressam, debaixo de nenhuma outra fórma se manifestem melhor. Um bom drama feito com o mesmo assumpto que inspirou um romance, seria a condemnação d'este, e equivaleria a dizer o dramaturgo ao romancista: «As tuas trabalhadas descripções e a esmerada pintura dos teus typos estavam de mais nas trezentas e sessenta paginas do teu livro: aqui tens os mesmos effeitos n'um só dialogo em tres actos.»

A razão de não ser mais perfeito o drama que vimos hontem consiste em ser muito bom o romance que lemos ha poucos mezes. A unica culpa de Ernesto Biester é Julio Diniz.

E mais abaixo:

A sala estava inteiramente cheia. Pela manhã já não apparecia um bilhete de plateia inferior. De tarde pedia-se libra e meia por um camarote de terceira ordem.

V

Já seria occasião de estudarmos a _maneira_ do romancista. Todavia, attendendo a que _Julio Diniz_ primeiro se revelou ao publico poeta que romancista, corre-nos obrigação, por amor da chronologia, de primeiro o avaliarmos, consoante nossa opinião, nos seus versos, que nas suas novellas.

A pagina 40 do terceiro volume (1860) da _Grinalda_ apparece pela primeira vez o pseudonymo _Julio Diniz_ rubricando uma poesia que se intitula _A J..._ Quem fosse _Julio Diniz_ não se sabia então; não o sabia o mesmo redactor da _Grinalda_, Nogueira Lima, que recebera os versos pelo correio.

Gomes Coelho, apesar de o conhecer pessoalmente, porque Nogueira Lima era tambem amigo dos seus mais intimos amigos, os snrs. A. A. Soares de Passos, Custodio José de Passos, Augusto Luso, José Augusto da Silva e outros, não ousara, por excesso da sua peculiar modestia, impôr-se delicadamente como collaborador da _Grinalda_, procurando o redactor e proprietario, e entregando-lhe os seus versos. Não fizera assim. Enviara-lh'os cautelosamente e, por mais d'uma vez, escutara em silencio Nogueira Lima sobre o merecimento d'uma ou outra composição poetica á medida que pelo correio as ia recebendo com a rubrica _Julio Diniz_.

A inicial que serve de epigraphe á poesia publicada em 1860 na _Grinalda_ envolve de certo um segredo intimo do poeta, e por conseguinte insondavel. Gomes Coelho morreu celibatario, viveu sempre na solidão amiga dos seus livros e, não obstante, em todos os seus versos, em todos os seus romances, modelava o typo da mulher por um formoso ideal de perfeições quasi divinas.

O que é certo é que na sua alma havia a tristeza temperada dos poetas que, como Lamartine, nascem para cantar e soffrer. As paixões revoltas de Byron e Espronceda não as conhecia elle. Era portanto o poeta da solidão, que vivia do seu ideal, longe do bulicio da sociedade, onde outros iam afinando a lyra pela excitação febril dos sentidos.

É justo que transcrevamos na sua integra os versos de que vimos fallando, não só por este destino mysterioso que elle lhes dava, como por serem os primeiros que sahiram publicados com o seu habitual pseudonymo:

A J...

Acredita que os anjos tambem soffrem N'esta mansão de dores, E não olhes o mundo lacrimoso, Quando o vires despido de fulgores.

Mal sabe a rosa, ao vecejar lasciva Em plena primavera, Que é passageira a quadra, que apoz ella, Se despovoa o prado e a morte a espera.

O terreno, que pizas n'esta vida, Occulta um precipicio; O caminho, onde ao fim vemos a gloria, Quantas vezes termina no supplicio!

Eu já vi, junto a um tumulo isolado, Um grupo de crianças, Dando as mãos e travando em chão de morte, Com risos infantis, alegres danças.

Vi-os tambem sorrirem descuidados Se piedoso viandante Parava pensativo e, murmurando Uma humilde oração, passava adiante.

Assim tambem sorris, se melancolico Eu penso no porvir, Quando uma sombra vem turbar-me a fronte, Tu, como elles, contemplas-me a sorrir.

Mas olha, quer's saber a historia triste D'esses tres innocentes, Que, sobre as cinzas frias d'uma campa, Se entregavam a jogos complacentes?

Á noite a mãe, beijando-os, estranhou-lhes Da face a pallidez, E um presagio sentiu ao alvor do dia... Eram frios cadaver's todos tres.

É que os ares do tumulo dão morte Em afago homicida, N'esse ar infecto em que se extingue a chamma Tambem arqueja e expira a luz da vida.

Teme pois tambem tu, candida virgem, O ar que aqui respiras, E não perguntes mais ao viandante, Que pensamentos d'amargor lhe inspiras.

Transparece d'estes versos,--senão os primeiros, uns dos primeiros de _Julio Diniz_,--a luz pallida d'uma alma triste. Em todas as composições posteriores, que litterariamente valem muito mais, especialmente as ultimas, prevalecem as cadencias melancolicas, que fazem lembrar o _Cahir das folhas_ de Millevoie e as _Azas brancas_ de Garrett.

No quinto numero do mesmo volume veem novas estrophes suas, que teem estreita relação com as que acima deixamos transcriptas. Intitulam-se _Apparencias_. _Julio Diniz_ extranha o teimoso sorriso nos labios da pessoa a quem se dirige:

Sempre o riso em teus labios! N'essa fronte Nem uma sombra apenas! Nem uma nuvem só, lá no horizonte A ameaçar-te com futuras penas?!

Presente-se uma alma de poeta em completo antagonismo com outra alma, que ou nasceu fadada para estranhas alegrias ou, menos sincera, sabia concentrar em si mesma o segredo das suas maguas.

Quem sabe! Quantas vezes é mentida Dos labios a alegria? Quantas vezes no peito comprimida Nos devora latente uma agonia!

Ainda na collecção do mesmo anno vem uma terceira poesia de _Julio Diniz_, cujo assumpto é estranho ao das duas precedentes. Todavia o poeta, sempre delicado, compraz-se em cantar os primeiros estremecimentos d'um coração de mulher, e intitula o seu canto--_O despertar da virgem_.

No quarto volume (1862) da _Grinalda_ sahiram duas poesias de _Julio Diniz_. Intitula-se a primeira--_A noiva_. É ainda o coração da mulher o assumpto,--da mulher que está sentindo alternadamente os jubilos e os sobresaltos do noivado. É, podemos dizel-o, um estudo psychologico escondido n'uma tradição da idade-media. A noiva está prompta, toucada, anciosa...

A noite passára em vela. E que noiva a dormiria? E, ao desmaiar das estrellas, Alvoroçada se erguia E a alva flôr da larangeira Ao véo de neve prendia.

Estas alegrias nupciaes não podiam deixar de ser anuveadas pela inspiração melancolica do poeta. Passam-se as horas, e o noivo não chega. Em compensação, vem a noticia de ter sido morto em combate. A noiva succumbe

E a alva flôr da larangeira Com ella á campa descia.

A segunda poesia denomina-se _Thereza_, e na ideia tem alguma coisa d'aquella suavidade dolorida dos versos de Soares de Passos. O ninho querido onde o poeta modula os sens carmes é o coração da mulher. _Thereza_ é a historia d'uma creança pallida e triste, d'aquella tristeza scismadora das almas fadadas para o soffrimento, que só tem sorrisos nos labios no dia em que presente a morte...

Era uma criança loira Quando a vi na sepultura; Da açucena tinha a alvura, Teve o seu curto durar.

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Folheando o quinto volume da _Grinalda_ encontramos tres poesias de _Julio Diniz_. A primeira é uma versão de Henri Heine, que de certo Gomes Coelho escolheu pela delicadeza peculiar das legendas allemãs, que a caracterisa. A segunda,--_No altar da patria_--é uma formosa composição realmente, em que o coração da mulher lucta entre duas forças igualmente poderosas,--o amor da patria e o amor de mãe.

--«Ó mãe, da-me uma espada. Ouço da patria a voz» --«Eil-a! É immaculada. Era a de teus avós.»

--Pura a trarei, voltando... Se não morrer alli.» --«Vai», disse a mãe, chorando, «Eu rezarei por ti.»

E trava-se o combate, e sibila a metralha, mas o soldado não volta. É ainda,--e sempre,--a ideia da morte que inspira o poeta. A terceira poesia, que tem por titulo--_A despedida da ama_--e é offerecida ao snr. José Joaquim Pinto Coelho, é igualmente inspirada pelo coração feminino em lucta com as praxes sociaes, com o despotismo da superioridade. São lagrimas d'uma mulher que se deixou amar como se fôra mãe uma criança que não era seu filho.

Puz, á volta do teu berço, Todo o amor, que um seio tem, E arrancam-te dos meus braços Porque eu não sou tua mãe?

De anno para anno são sensiveis os progressos do poeta. A fórma desenvolve-se, torna-se flexivel á inspiração, e o colorido vai ganhando em mimo o que jámais á ideia faltou em sentimento.

_Os paes da noiva_, poesia publicada no sexto volume da _Grinalda_, valem muito não só pela correcção metrica, que é irreprehensivel, como pelo thema, que é terno, mavioso, commovente. Tudo é festa em derredor da noiva. Só duas pessoas, os paes, teem lagrimas nos olhos. Quando a rapariga parte sob uma chuva de flores, recolhem-se os dous velhos para chorarem em segredo a sua profunda saudade. Está de lucto o lar; a velhice saudosa é peior do que a morte. Seis dias volvidos é tristemente verdadeiro o lucto. Os paes da noiva não poderam com o fardo de tamanhas tristezas. Succumbiram ambos.

Do mesmo volume quizera poder transcrever na sua integra a poesia--_A esmola da pobre_--que é uma delicadissima composição, em que duas creanças, uma rica e outra pobre, soccorrem uma velha mendiga, a rica dando-lhe esmola, a pobre beijando-lhe a mão...

No primeiro dos folhetins que em 1864 publicara no _Jornal do Porto_ sob o titulo de _Impressões do campo_ veem estes formosos versos que são, a meu vêr, um modelo de naturalidade e singeleza:

O BOM REITOR

Sabem a historia triste Do bom reitor? Misero! toda a vida Levou com dor.

Fez quanto bem podia... Mas... a final Morre e na pobre campa Nem um signal.

Nem uma cruz ao menos Se ergue do chão! Geme-lhe só no tumulo A viração.

Vedes, alem... na relva... Junto ao rosal Flores que ha desfolhado O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa humilde; A creação Paga-lhe assim a divida De compaixão.

Pobres, que amava tanto, Nunca, ao passar, Choram, curvando a fronte Para rezar.

Nunca, ao romper do dia, O lavrador Pára e lamenta a sorte Do bom reitor.

As criancinhas nuas, Que estremeceu, Já nem sequer se lembram Do nome seu.

No salgueiral visinho, Ao pôr do sol, Vai-lhe carpir saudades O rouxinol.

Lagrimas... pobre campa! Ai, não as tem. Só da manhã o orvalho Rocial-a vem.

Da solitaria lua A triste luz Grava-lhe em vagas sombras Estranha cruz.

E elle repousa, dorme... Vive no céo; Dorme, esquecido e humilde Como viveu.

Ha n'esta vida amarga Sortes assim. Vive-se n'um martyrio, Morre-se emfim...

Sem que memoria fique Para dizer Ás gerações que passam Nosso viver.

Quem me escutar, se um dia Ao prado for, Ore pelo descanso Do bom reitor.

Quem sabe se a inspiração d'estes versos, que se nos afiguram escriptos muito antes de serem publicados, foi ainda o germen de que desabrochou, recendente ao perfume das serras e colorido com as tintas mimosas das flores do campo, o romance _Pupillas do senhor reitor_? Cremos que sim. O grão que o semeador deixa cahir na leiva é na primavera flor, no outomno fructo, e no inverno riqueza.

Assim tambem a ideia, que o espirito recebeu um dia, póde florir ámanhã, fructificar depois, e opulentar para todo o sempre os celleiros onde se apascenta a intelligencia humana. Toda a primavera foi botão, e o mesmo sol, que ao meio-dia deslumbra, primeiro se mostrou dilucúlo...

No _Almanach das senhoras para 1871_ appareceu uma poesia de _Julio Diniz_ epigraphada--_A folha solta do ulmeiro_--uma formosa allegoria em que o coração da mulher, sedento de liberdade, é comparado á folha do ulmeiro que, anciosa de desprender-se do tronco, voa um dia, após as borboletas, impellida pelo ar, até que, depositando-se na terra, fica perdida no monturo...

Virgens, gravae na memoria Este conto verdadeiro; Que póde ser vossa a historia Da folha solta do ulmeiro.

Outros versos escreveria _Julio Diniz_ de que não obtivemos noticia; e alguns deixou elle ainda por corrigir, motivo por que não podem e não devem ser publicados.

Além d'estes, outros se encontram disseminados pelos seus romances, como a lenda da _Cabreira_ e a _Trigueira_, nas _Pupillas do senhor reitor_; o _Tabaco_ na _Familia ingleza_; e especialmente aquellas formosas quadras da _Flor d'entre o gelo_, uma das quaes, em que o poeta apostropha ás andorinhas,

Só eu, que vos sigo com vistas saudosas Ao vosso desterro, dos mares além, Já quando ao prado brotarem as rosas, Talvez não reviva co'as rosas tambem,

parecia encerrar uma prophecia que infelizmente já se converteu em realidade.

VI

Os padecimentos de Gomes Coelho aggravaram-se sobremodo desde 1868, especialmente depois de escripto um pouco afadigosamente o romance _Morgadinha dos canaviaes_.

Nem a ida a Lisboa, nem as distracções e passeios que os seus amigos lhe proporcionavam, poderam suster o curso progressivo da doença, accidentada no mez de setembro d'esse anno por uma dor nevralgica. A 20 d'outubro, dia em que se celebrava intimamente a festa natalicia do snr. J. J. Pinto Coelho, assistiu, como tinha de costume, ao jantar de familia, se bem que visivelmente incommodado. Os dias que se seguiram foram para Gomes Coelho de verdadeira reclusão. No mez de novembro augmentaram os padecimentos, e a pneumo-hemorrhagia foi mais violenta do que precedentemente havia sido.

Em janeiro do anno seguinte (1869) resolveu-se a ir passar uma temporada a Lisboa, hospedando-se n'uma casa da rua Direita da Graça, á Cruz dos quatro caminhos, onde se conservou cerca d'um mez.

A vida de Gomes Coelho na capital foi triste e concentrada, chegando a passar dias inteiros sem fallar com outras pessoas além das que estavam de portas a dentro. Aconselhado pela medicina, cremos que pelo doutor May Figueira, tomou a rapida resolução de partir para a Madeira. Tirou passagem no vapor d'Africa e sahiu o Tejo no dia 5 de fevereiro. A cento e sessenta leguas do continente, n'essa pyramide de terreno vulcanico que se estende de leste a oeste sobre o oceano occidental,--a Madeira--como disse o desventuroso Arnaldo Gama,[1] devia de encontrar Gomes Coelho a pittoresca realidade d'esse formoso quadro que traçara na _Flor d'entre o gelo_, «d'essa collina elevando-se graciosa do meio de uma amplissima e vicejante bacia», onde uma constante chusma de invalidos ia pedir allivio á piedade da milagrosa _Senhora da Saude_ e á profunda sciencia do doutor Jacob Granada.

A maior parte d'estas casas (as que alvejavam por entre a verdura da encosta)--dizia elle--era habitada por uma população fluctuante de valetudinarios ou convalescentes que procuravam vigorar forças, respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas e dos bosques.

Pela manhã, quando as névoas principiavam a dissipar-se e, por entre a folhagem das arvores, o sol penetrava mais fomentador de vida e ia evaporar o orvalho que ainda rociava as hervas dos caminhos, viam-se subir a collina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses pallidos doentes, que pareciam renascer só ao receberem aquellas auras embalsamadas pelos perfumes das flores, e suavisadas pelos primeiros calores da manhã.

Era o velho quebrantado e tremulo, parando a meio caminho da ladeira que subia, a fitar o céo, como se d'antemão procurasse decifrar o problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e pensativo, de aspirações ardentes e subidas e em tão alto gráo que no empenho de as realisar lhe falleceram as forças e no forte da lucta sentia-se succumbir; a virgem, meiga e melancolica, como uma das mais ideaes creações ossianicas, errante por entre as arvores seculares ou pendida á borda das correntes, escondendo uma lagrima ou simulando um sorriso, manifestações diversas na apparencia e ambas denunciadoras tantas vezes d'uma grande tristeza interior; a mãe joven e doente, em torno á qual brincava um bando de creanças alegres e cheias de vida, ignorando, os innocentes, que todo o seu destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam agora d'aquellas arvores, onde se balanceavam risonhas, d'aquellas virações que lhes açoutavam os cabellos soltos e annelados.

Assim pois o luctar da vida e da morte era o que por toda a parte se via. Contrastes de esperança e de desalento, antitheses de sorrisos e de lagrimas formavam a feição mais caracteristica do quadro.»

Esta devia de ser a realidade do seu poetico ideal, ideal dizemos, se bem que as almas privilegiadas pelo talento possuam a excepcional intuição de lerem atravez do futuro os caracteres do seu mesmo destino...

Em maio d'esse anno, regressou Gomes Coelho da ilha da Madeira, posto que bastante enfermo, relativamente muito melhor. Conservou-se no Porto, tomando parte nos trabalhos escholares, e nos principios d'outubro partiu para Lisboa, sahindo para a ilha no dia 15 do mesmo mez. Regressou em maio do anno seguinte (1870) e nos primeiros dias d'outubro tornou a embarcar para a Madeira, voltando á patria em maio de 1871.

Cumpre notar que em 1870 sahiram em volume, editados pela casa Moré, e sob o titulo de _Serões da provincia_, os quatro romancezinhos--_Apprehensões de uma mãe_,--_O espolio do senhor Cypriano_,--_Os novellos da tia Philomella_, e--_Uma flor d'entre o gelo_.

Durante as tres epochas que demorou na ilha foi que _Julio Diniz_ escreveu o seu ultimo romance--_Os fidalgos da casa mourisca_,--posto que das duas ultimas alternasse os trabalhos de redacção com estudos de economia politica. Em maio, como já dissemos, regressou ao Porto, gravemente doente, atacado, além dos seus padecimentos chronicos e fataes, d'uma dor sciatica.

Então devia já ter-se feito noite n'aquelle grande espirito, e a ideia da morte havia de interpor-se, cada vez mais intensa e melancolica, entre o presente e o futuro.

Declinava o sol; o occaso estava proximo.