Julião e a Biblia

Part 9

Chapter 94,024 wordsPublic domain

—Porém—disse o confessor dos condes de X...—se o não faz por si, faça-o ao menos por sua esposa e filho. Vocemecê é senhor da sua vontade para se deixar morrer á fome, porém não deve obrigar os outros a que o façam.

—Julião—disse o padre Francisco—é tão credulo que julga ver entrar por aquela porta o corvo de Elias com um pão no bico.

—Sr. padre Francisco, eu não estranharia ver entrar um corvo com pão; pois Aquele que o mandou a Elias vive ainda e é todo poderoso para mandar-me a mim, não um corvo, mas sim um anjo, que me conforte.

—Vá lá—disse o padre Francisco, levantando-se—apezar de não querer ceder, e para que veja que não somos tão maus como julga, ahi tem essa libra para que se remedeie; entretanto pense bem na sua situação.

O padre Francisco dirigiu-se a Dôres para dar-lhe a libra, mas, antes de lha deixar cair no regaço, Julião suspendeu o braço do padre, dizendo-lhe:

—Agradeço-lhe do coração a esmola, porém guarde o seu dinheiro, pois que nós para nada o queremos.

O padre Francisco, sem poder responder uma palavra, e metendo o dinheiro no bolso, saiu furioso do quarto, seguido do outro sacerdote.

Quando os dois esposos ficaram sós, Julião exclamou:

—_Até quando, Senhor, Te esquecerás de mim? para sempre? Até quando afastarás de mim a Tua face?_

«_O nosso Deus é refugio, e esforço, favorecedor nas tribulações_» (Sal, 12:1; 45:1).

—Dôres, o Senhor põe á prova a nossa fé; e sabe que o Senhor prova até ao ultimo momento. Tem fé, que «Deus providenciará».

Passados uns momentos, durante os quaes Julião esteve exortando sua esposa, bateram de novo á porta. Julião foi abril-a, e um carteiro apareceu com uma carta para o vidraceiro.

Julião fechou a porta, e, dirigindo-se a sua esposa, disse-lhe:

—Será esta carta a resposta á nossa oração de hontem á noite?

Antes que Dôres respondesse, rasgou o _envelope_, e tirou de dentro dele uma carta e uma letra de dezoito libras. Julião leu em voz alta:

«Povoação de ***

Querido visinho

«Desejo do coração que ao receber esta passe sem novidade em companhia de sua mulher e seu filhinho. Eu gózo saude e alegria, graças a Deus.

«Porém, como teve coragem para sofrer tanto sem...? Vamos, digo-lhe que eu não tenho paciencia, e que o padre Francisco não faria o que fez se eu ahi estivesse.

«Pensando bem, eu devia zangar-me comsigo, porque estar em necessidade e não me pedir nada é coisa que não compreendo, e que não é de amigo. Porque não me escreveu?

«Emfim, agora nada se remedeia do que deixo dito, visto o mal já estar feito.

«Remeto-lhe essa letra para que torne para a sua loja, e continue no seu negocio.

«Não se aflija com a idéa de que tem de me pagar essa quantia; somos amigos e irmãos em Jesus; assim é que, emquanto não tiver dinheiro de sobra, não mo pagará. Falei com o administrador das obras onde estou trabalhando, e pode vir esta assinar a escritura, cujas condições lhe remeto, para tomar a empreitada da obra de pintura; é um bom negocio...»

Daqui em deante a carta falava de coisas relativas ao negocio de ambos, e por fim dizia:

«Não o incomodo mais, senão para dizer-lhe que aqui não trabalhamos aos domingos, e que o trabalhador que solta más palavras eu o despeço.

«E minha mulher e minha filha continuam de saude?

«Faça-me muito recomendado a Dôres, á minha Brigida e á minha filha; tambem me fará lembrado aos meus oficiaes, muitos beijos no seu filhinho, e o visinho receba o carinho deste que deseja muito vêl-o.

_João._»

Quando Julião acabou de ler a carta, olhou durante alguns momentos para sua esposa, que parecia estar imersa num sonho, e por fim exclamou:

—«_Quando me via atribulado clamei ao Senhor, e Ele me respondeu_» (Sal. 19: 1). Eis aqui, Dôres, a resposta á nossa oração de hontem á noite. Crês que Deus sempre providenceia?

—Sim, Julião, e peço perdão a Deus pela minha falta de fé.

—Este dinheiro é mandado por Deus, e devemos aceital-o; agora demos graças ao Senhor por Sua misericordia.

Ambos os esposos se ajoelharam, e a voz de Julião se fez ouvir, dizendo:

—«Louva, ó alma minha, ao Senhor; eu louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei salmos ao meu Deus por quanto tempo eu viver. Não queiras confiar nos principes, nem nos filhos dos homens, em quem não ha salvação. Sairá o seu espirito e tornará á sua terra; naquele dia perecerão todos os pensamentos deles. Ditoso aquele de quem é protector o Deus de Jacob e cuja esperança é no Senhor seu Deus, o qual fez o céu e a terra, o mar e todas as coisas que neles ha; o que guarda verdade para sempre, faz justiça aos que sofrem injuria; dá sustento aos famintos. O Senhor desata os que estão em grilhões; o Senhor alumia os cegos; o Senhor levanta os oprimidos; o Senhor ama os justos; o Senhor guarda os peregrinos, ampara o orfão e a viuva, e destruirá os caminhos dos pecadores. O Senhor reinará pelos séculos; o teu Deus, oh Sião, reinará por todas as gerações».

(Sal., 145). Senhor, graças Te damos por tudo o que tens feito para nós, em nome de Jesus. _Amen._»

Depois duma curta pausa, Dôres disse:

—Senhor, aumenta a nossa fé e perdôa os nossos momentos de duvida, por amor de Jesus. _Amen._»

Quando se levantaram de orar, Julião correu a dar noticias de João a Brigida e a Antonia, e em seguida foi ao banco receber a letra. Uma hora depois Julião e Dôres almoçavam, e duas horas mais tarde já Julião tinha falado com o senhorio, ficando outra vez senhor da loja, pelo que foi tirado o papel que anunciava que a loja se alugava.

O padre Francisco notou aquilo, e disse comsigo, esfregando as mãos de alegria:

—Olá! Então já está alugada a loja! Agora, se o vidraceiro quizer estabelecer-se, terá que ir procurar outra. Sinto com isto um grande prazer. Oh! como estou alegre!...

CAPITULO XVIII

Pobre padre Francisco

Depois dum dia em que a Providencia de Deus havia tão misericordiosamente tirado a Julião dos apuros em que se achava, este, com o coração inundado de gozo, preparou-se para prégar na casa que o visinho, por um impulso espontaneo, lhe havia cedido para lá falar de Deus.

O padre Francisco não podia levar a bem estas coisas. Sagaz e manhoso, media a grandes passos o soalho do seu gabinete, vestido de habitos talares, com um barrete de veludo preto na cabeça, e o cigarro na boca; passeava ali, meditando no modo de exterminar Julião e com ele a _má semente_, quando umas ligeiras pancadas soaram na porta.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada foi dizer-lhe que a sr.ª Joana desejava vêl-o.

—Que entre—disse o padre.

Momentos depois entrou uma mulher, que saudou o padre, beijando-lhe a mão, e dizendo-lhe:

—Disseram-me que vossa senhoria deseja falar-me, e por isso venho aqui para saber o que deseja.

—Os meus agradecimentos. Diga-me: hontem á noite foi ouvir o vidraceiro?

—Sim, senhor; agora já não fala no corredor, mas sim em casa do sr. Hipolito. Á noite foi lá muita gente; e olhe que disse coisas muito boas; falou de Deus, das tentações de Jesus, quando o diabo Lhe disse que convertesse as pedras em pães, e quando o Senhor lhe disse que a Deus sómente se deve adorar... A este respeito disse que era um grande pecado a gente pôr-se de joelhos deante dos santos... finalmente, falou muito bem...

—Basta, basta—exclamou o padre Francisco.—Senhora Joana, aquilo que Julião disse não foi mais do que uma serie não interrompida de erros, condenados pela egreja, pelo papa, pelos concilios e por todos aqueles que teem sido reconhecidos por santos. Aposto que não falou bem dos padres?

—Nem bem, nem mal.

—Aposto que não falou bem da egreja romana?

—Não disse nem uma palavra.

—Não importa, esse silencio é um pecado. Disse alguma coisa de Maria santissima?

—Não, senhor.

—Já se vê; pois se os protestantes não crêem nela!... Todos esses propagadores de nova especie não são senão pessoas que teem por oficio enganar os outros, a troco duma certa quantia que recebem para isso.

—E com que interesse?...

—Oh!—interrompeu o padre Francisco—Vocemecê não pode compreender o interesse que teem, nem o fim que teem em vista. Se não fossem os sacerdotes, já teria desaparecido a religião dos nossos paes! Para socego da sua alma, eu peço-lhe que não vá ouvir essas más doutrinas.

—Muito bem, senhor padre Francisco—respondeu a mulher, farei tudo o que mande.

—Porém é mister, em troca, ajudar a egreja.

—Sim, senhor, sim, eu a ajudarei.

—Bem; pois pode fazer com que nessa casa não se préguem mais heresias, e eu a recompensarei.

—Como?

—A habitação onde mora fica pelo lado de cima do quarto onde préga esse doido. Agora o que podemos fazer é arranjarmos gente para fazer muito barulho, correr dum lado para o outro, assobiar, arrastar as cadeiras, etc. etc. Deste modo, como o ruido os distrairá, não poderão entender-se, e acabará por não ir ninguem á reunião. Eu darei duas pesetas por cada noite em que haja reunião.

—Será servido, senhor padre Francisco, não pelo interesse do dinheiro, mas sim para agradar a Deus, e esta mesma noite começaremos a tarefa; asseguro-lhe que esta noite não se entenderão. Porém o meu quarto é muito pequeno, e não alcança senão uma parte da sala onde eles se reunem: seria bom dizer áquele que vive no quarto do lado para que faça o mesmo.

—Bem; arranje tudo e faça o que bem lhe pareça, comtanto que consigamos o fim desejado: interromper as reuniões.

—Bem; assim se fará.

O padre Francisco deu tres pesetas á mulher, que hipocritamente não queria recebel-as; porém por fim aceitou-as e saiu.

Poucos momentos depois de ficar só, o padre Francisco tornou a encetar o monologo interrompido pela chegada da sr.ª Joana.

—Deste modo—dizia comsigo—não poderão durar muito as reuniões, porém o caso é que todos falam bem do que dizem essas pessoas. Não, pouco tempo lhes durará o passatempo; agora já é outra coisa: se o meio de fazer barulho não surtir efeito, vou ter com o senhorio, ofereço-lhe cinco pesetas mais do que Julião lhe dá, e com certeza que o despede.

De repente olhou para o relogio de parede e exclamou:

—Com a bréca! Dez horas menos vinte, e ás dez tenho de dizer missa!... Vamos!

Em seguida poz a capa, e, depois de recitar algumas orações em latim deante dum crucifixo de marfim, saiu.

—Terão já aberto a loja que pertenceu a Julião?—pensava ele ao descer a escada;—sendo assim, entro e direi ao novo inquilino que deite bastante agua benta em todos os cantos para afugentar o diabo.

Nisto chegou á rua, e efectivamente a loja do vidraceiro estava aberta, se bem que nas estantes não houvesse nada e os vidros estivessem sujos. Evidentemente o novo inquilino estava-se mudando.

O padre Francisco foi pôr por obra o seu pensamento; chegou á porta da vidraça, levantou o fecho, abriu, e um grito saiu de sua boca. No meio da loja estava um homem dando ordens para a colocação dos objetos, e esse homem era... era... Julião.

A surpreza não permitiu que o padre Francisco dissesse uma palavra. Voltou a fechar a porta, e, palido e convulso, entrou outra vez no portal para perguntar ao porteiro como é que Julião estava na loja, donde dias antes havia sido despedido.

—Porque voltou de novo a alugal-a—respondeu o porteiro.

Tal abalo produziu esta noticia no sacerdote que, cambaleando, como se estivesse ébrio, subiu com custo os degraus da escada, recolheu-se em casa, e naquele dia não disse missa.

CAPITULO XIX

Evangelicos e romanos

Ao aceitar o dinheiro que tão generosamente lhe mandou o seu visinho João, Julião aceitou tambem as condições das obras que ele lhe ofereceu para tomar de empreitada. Por este motivo foi forçado a sair de Madrid, mas, como não queria que se suspendessem as reuniões, encarregou delas um joven evangelista, o qual continuou prégando durante o tempo em que Julião esteve ausente.

O joven a quem Julião deu o encargo de continuar a obra por ele principiada fêl-o apezar de quantos obstaculos lhe pozeram para o dissuadir disso o padre Francisco e os seus.

Entretanto, os costumes duma grande parte dos visinhos iam-se reformando notavelmente, graças á poderosa influencia do Evangelho.

—Bons dias, senhora Dôres—diziam á esposa do nosso amigo.

—Bons dias—respondeu ela—; então como vamos?

—Muito bem. Diga: haverá esta noite culto?

—Sim, senhora; esta noite, como todas as outras.

—Alegro-me muito com isso, porque não quero que meu marido perca um. Não sabe que desde que ouviu o Evangelho está mudado? Não sabe que já no domingo não foi jogar á bola?... Nem se embebedou. Saiu pela manhã, ás dez e meia; e eu desde logo voltei-me para Deus para pedir-Lhe: «Senhor, permiti que o meu José não se embebede hoje». Á meia hora depois do meio-dia disse-me: «Francisca, prepara-te e prepara o pequeno, que vamos dar um passeio». Acredite-me, Dôres, que julguei que estivesse sonhando. Quando fui para a alcova para vestir-me, pulava de alegria.—Imagine, ha doze anos que estamos casados e ha onze que não sahia com ele. Vesti-me, arranjei o pequeno, e quando chegámos á porta da rua, sabendo o seu costume de, logo que sahia, se dirigir para o jogo da bola, encaminhei-me para esse lado, mas ele disse-me: «Vamos por este lado, pois que odeio o sitio onde se joga a bola: quantas bofetadas te dei por ir ali!». Interroguei-o ácerca do caso, e disse-me que desde uma noite em que o seu marido leu e falou sobre um texto que diz, «Não vos enganeis, porque nem os que se dão a bebedices entrarão no reino de Deus», essas palavras gravaram-se-lhe de tal modo no coração, produzindo-lhe tal impressão, que desde então até agora não tornou a embebedar-se.

—Muito me alegro pelo que me diz ácerca da mudança de seu marido—disse Dôres—; pelo que deve dar graças a Deus, não a meu marido; pois só Deus é o que pode mudar os corações, e Ele é quem mudou o coração de seu marido.

—Diga-me, senhora Dôres: sendo tão bom aquilo que o seu marido diz, porque é que os padres lhe fazem tanta guerra?

—Pois a razão é clara: emquanto eles, por exemplo, dizem que ha um purgatorio, meu marido e todos os que crêem na Biblia, que é a Palavra de Deus, negam a existencia de tal logar; porque na Palavra nada se diz a tal respeito. Emquanto os padres, dizendo que são os sucessores dos apostolos, asseguram que praticam o que aqueles praticaram, nós, os cristãos evangelicos, lhes perguntamos com a Biblia na mão em que logar disse missa algum dos apostolos, ou lhes pedimos que nos mostrem as indulgencias concedidas por S. Pedro ou S. Paulo.

—Tem toda a razão. Até depois.

Entretanto, os visinhos partidarios do catolicismo, ou, antes, aqueles que, sendo indiferentes a toda a denominação religiosa, eram cegas maquinas do padre Francisco, faziam os maiores esforços, já que não podiam impedir as reuniões, ao menos para estorvar a tranquilidade que deve reinar nelas.

Para que os nossos leitores possam formar uma idéa do que costumam fazer os inimigos do Evangelho, referiremos o que se passou um domingo á noite em casa do sr. Hipolito, emquanto se celebrava o culto.

Como dissemos, era domingo.

Ás oito horas da noite, a habitação do sr. Hipolito estava cheia de gente. Num dos extremos da sala ha uma mesa, e por detraz dela está um joven de vinte a vinte e cinco anos de edade, vestido modestamente: fala sobre o que está escrito no Evangelho de S. Mateus, cap. 7:16. _«Pelos seus frutos os conhecereis»._

Emquanto ele se esforçava por demonstrar aos seus ouvintes como cada um mesmo podia conhecer-se e dar a conhecer aos outros se era cristão, o teto da sala parecia vir abaixo.

Pancadas no soalho, gargalhadas, cantigas em altas vozes, ruido de objetos que rodavam em direcções opostas, um barulho similhante ao duma habitação de loucos, e não dum aposento onde vivessem creaturas racionaes.

Além do incomodo que isto causava, distraindo aqueles que escutavam, não pode dizer-se o mal que isto causava ao prégador, distraindo-o tambem e obrigando-o a levantar a voz e a não descançar um momento afim de manter a atenção do auditorio.

—Sim—dizia ele,—pelos frutos bons ou maus de cada um, isto é, por meio das nossas obras na vida diaria, é que conhecemos e damos a conhecer se somos cristãos...

Neste momento uns fragmentos de gesso cairam do teto, emquanto que se sentia um ruido infernal.

Alguns dos que estavam escutando sairam e dirigiram-se á habitação do visinho de cima para pedir-lhes que fizessem menos barulho.

Penetremos nós ali para ver em que se ocupam aqueles servos de Roma.

Em uma pequena habitação acham-se umas vinte pessoas de ambos os sexos, que ao som duma guitarra desafinada saltam, pateiam, correm, vão e veem.

Sobre uma mesa suja e imunda está um grande jarro com vinho.

A desordem que reinava era medonha. Ao principiar a festa, a dona da casa havia-lhes dito que o objeto da reunião era impedir, por meio do barulho, os cultos protestantes que se celebravam no quarto que ficava pelo lado de baixo. Para melhor os animar, disse-lhes um sem numero de desatinos que devemos calar, e por fim declarou-lhes que o padre Francisco lhes pagava aquele jarro de vinho, pão e queijo, para passarem agradavelmente aqueles momentos.

Quando souberam que o fim com que ali se reuniam era para dar escandalo, fizeram-no com a maior alegria.

Cantavam as mais grosseiras canções, misturadas com freneticos _morras_ dados aos protestantes; e não é de estranhar que fizessem tudo aquilo em nome da religião, visto que era um sacerdote quem pagava a despeza, e tudo era feito por inspiração sua.

As pessoas que se dirigiam a este foco de infamia chegaram por fim. Ao aparecerem, cessou o barulho, e um deles, que vivia na casa, disse á senhora Joana:

—Vimos pedir-lhes que façam menos barulho, pois aquilo que estão fazendo é indicio de má creação, que não podemos tolerar.

—Nós—replicou a senhora Joana—estamos em nossa casa, onde ninguem manda, e onde podemos fazer o que muito bem nos der na vontade.

—Sim, menos incomodar os visinhos; é esta uma casa em que vivem muitos moradores, e portanto não ha que atender á comodidade particular, mas sim á geral.

—Sabe o que lhe digo?—respondeu, desagravando-se, a senhora Joana—pois se nós os incomodamos com o barulho do baile, bailem vocês tambem: e incomodar-nos-hemos dessa maneira mutuamente e... Além disso, se vocês não estivessem fazendo bruxarias, não teriam dado logar a isto. Sobretudo, estou em minha casa... e o que disse está dito.

—Olá!—acrescentou, dirigindo-se aos seus amigos,—toca a bailar. Viva a religião! Morram os protestantes!

Era quasi certo que romanos e protestantes viriam ás mãos, se não se apresentasse a autoridade do logar, acompanhado do dono da casa em que se celebrava o culto evangelico.

A dita autoridade foi presenciar a reunião evangelica, e foi testemunha ocular de tudo o que se passou; pelo que, chegando á porta do quarto, no momento mesmo em que Joana pronunciava as palavras que já conhecemos, disse:

—Boas noites, senhores.

Aquelas «boas noites» fizeram com que o socego se restabelecesse.

—Parece-me que é demasiado o barulho que vocês fazem, e venho dizer-lhes que isso incomoda os visinhos.

Um dos homens, que estava tocando a guitarra, levantou-se e, dirigindo-se ao recemchegado, sem saber quem era, disse-lhe:

—Quem é você para falar assim? Creia que já me aborrece tanto palavriado, e, se me chega a mostarda ao nariz, nem você nem nenhum dos protestantes que estão lá em baixo fica com um cabelo na cabeça.

—Parece-me que o vinho faz com que fale desse modo, aliás...

—Se não se cala—interrompeu o homem,—arremesso-lhe daqui mesmo onde estou com... Já lhe disse, quem é você? É porventura algum protestante?

—Sou quem agora mesmo o leva para a casa de detenção; sou o regedor da freguezia.

E ao ouvir isto todos ficaram como estatuas.

—Senhor regedor—disse, passados alguns momentos, a dona da casa, com uma entoação tão servil agora como antes tinha sido insultante—senhor regedor; eu lhe confessarei por que razão estamos fazendo o que vê, se nenhum mal nos fizer.

—O escandalo sempre é escandalo, e o meu dever é castigal-o; porém queira dizer.

—O padre Francisco, que vive no andar superior, dá-nos algumas pesetas para fazermos barulho e interrompermos as reuniões protestantes que se celebram lá em baixo, e nós sem saber... pois... o faziamos.

—Bom; vamos ter com o padre; porém venha a senhora comigo.

Todos desceram, e, ao passarem pela porta, aberta de par em par, da casa do sr. Hipolito, ouviam a voz do prégador, que, terminando o culto, orava, dizendo naquele proprio instante:

—«Senhor, perdôa aos nossos visinhos lá de cima, que em sua cegueira profanam o Teu santo dia, dando escandalo. Senhor, eles crêem que desse modo abafarão a Tua palavra; já vês o seu erro. Entretanto faze que nós demos frutos que manifestem a diferença que ha entre os que Te conhecem e os que Te não conhecem.

CAPITULO XX

O Cristo das Completas e um lignum crucis

Como acabamos de ver, o regedor, acompanhado da senhora Joana, entrou na casa do padre Francisco. Não nos dizem os nossos apontamentos o que se passou entre eles, porém o que sabemos é que as reuniões evangelicas continuaram com toda a regularidade.

O mesmo padre Francisco parecia ter perdido o seu antigo ardor, e agora nada fazia contra aqueles a que ele chamava seus inimigos, se bem que não cessasse de pensar e tornar a pensar comsigo sobre o caso.

Depois de pensamentos desencontrados, acabou por desejar ter uma conferencia com o joven que dirigia os cultos.

Esta solução pareceu-lhe a melhor de todas.

—Sim—disse ele comsigo,—esse joven é muito creança ainda, e com habilidade poderei informar-me por ele do que realmente ha nessas sociedades. Ao mesmo tempo poderei convencel-o dos seus erros, e não me será impossivel conseguir dele que uma noite, em vez de celebrar o culto, como eles dizem, faça uma retractação das suas doutrinas; nesse caso eu triunfava, e acabava com essa maldita obra, e depois...

O padre esfregou as mãos de contente, e depois tratou de indagar onde e como poderia dirigir-se ao joven evangelista.

Cheio de alegria, pegou na pena e escreveu a seguinte carta:

«Madrid... Embaixadores n.º...

Sr. Mateus N.

Se bem que não tenha a honra de o conhecer, senão por tel-o visto algumas vezes, peço-lhe me conceda o especialissimo favor de aceitar um talher á minha meza, ás tres horas da tarde do dia de ámanhã, ou do dia que designe.

Espero que não verá nisto qualquer traição: estou disposto a dar-lhe quantas provas de segurança julgue convenientes, pois tenho sómente por objectivo falar-lhe sobre religião.

Seu afectuosissimo

_Francisco Maria dos Anjos_.»

Ao anoitecer daquele mesmo dia, o padre Francisco recebeu uma carta nos seguintes termos:

«Madrid...

Sr. P.ᵉ Francisco Maria dos Anjos

Aceito a honra que me concede, e ámanhã ás tres horas da tarde estou á sua disposição. Nada receio, porque Deus irá na minha companhia; sómente peço a V. que, se vamos tratar de assuntos da religião, seja com a Biblia na mão.

Seu afectuosissimo servo, que deseja ser seu irmão em Jesus,

_Mateus N._»

No dia seguinte, poucos minutos antes das tres, o joven evangelista batia á porta do padre Francisco, que veiu logo receber o seu hospede, estendendo-lhe a mão com a expressão mais afectuosa, e dizendo-lhe:

—Seja bemvindo, senhor Mateus; entre, entre na minha habitação, onde descançará e jantará comigo.

Entraram juntos na sala, e, passados alguns momentos de silencio, disse o padre Francisco:

—Queira desculpar que, sem o conhecer, lhe oferecesse um talher á minha meza.

—É para mim subida honra—respondeu o joven—o receber uma tal prova da sua bondade para comigo.

Seguiram-se alguns momentos de silencio, durante os quaes o joven não desviava os olhos dum precioso armario de pau preto, que o padre tinha em frente da meza de jantar.

—Bonito movel!—exclamou Mateus.

—Realmente—exclamou o padre Francisco—é uma bonita peça, porém o que é mais bonito e tem mais valor é o que está dentro.