Julião e a Biblia

Part 8

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P. S.—Lembre-se daquilo que Dôres fez por mim quando estive doente, e de que os desgostos que isso lhe ocasionou, e aquilo que agora está sofrendo, tudo isso é consequencia do que fez por mim. Os nossos amigos perdem-se se de pronto não os socorremos».

—Bem, bem, filha—exclamou Brigida ao ouvir a leitura da carta;—escreves melhor do que um ministro. Anda, vae deitar a carta no correio.

CAPITULO XV

Já começa!...

No dia seguinte ao dos acontecimentos referidos no capitulo anterior, os tranzeuntes da Rua dos Embaixadores, ao passarem por certa casa, poderam ler—JULIÃO, VIDRACEIRO, CHUMBEIRO, CHOCOLATEIRO—e colocado sobre a porta um papelinho escrito pelo porteiro da casa, em pessima ortografia, com os seguintes dizeres: «_Aluga-se esta loja; o porteiro tem as chaves e dirá as condições_».

Sim, Julião tinha deixado a loja por não poder pagar o aluguer, e agora vive na agua-furtada n.º 12, da mesma casa.

Como é costume entre amigos mostrar a casa em que vivem, Julião o faz a todos os que se interessam na sua historia.

Depois de se subirem cento e quinze degraus, chega-se a uma galeria, ou, melhor, a um corredor, em que fica a morada de Julião.

Consta de tres compartimentos—sala, cosinha e alcova.

Agora que estamos dentro da casa, ouçamos o que dizem o nosso amigo e sua mulher.

—Crê-me—dizia Julião,—o Senhor tirou-nos a loja, fazendo-nos vir viver para aqui. Por alguma coisa foi que o Senhor fez isto.

—E para que o fez Ele?

—Olha, Dôres, não crês que neste corredor se pode anunciar o Evangelho a mais de duzentas pessoas?

—Creio, Julião, que não terás necessidade de chamar o ministro para isso.

—Não, realmente. Porque hei de ceder a outro as bençãos que eu posso receber? Por certo que seria uma loucura.

—E que tencionas fazer?

—Uma coisa muito simples. Hoje mesmo convidas as visinhas para uma reunião religiosa. Dizes que todo aquele que deseje ouvir as novas do Evangelho pode vir aqui esta noite, ás oito horas em ponto.

—Bem, farei o que tu desejas, e que o Senhor nos abençôe.

Julião saiu de casa, e em poucos momentos Dôres estendia no corredor algumas peças de roupa que tinha lavado.

—Bons dias, visinha—disse-lhe uma mulher do corredor em frente.

—Bons dias, senhora—lhe respondeu Dôres.

Dentro de si sentia uma coisa que lhe dizia: «Começa a trabalhar para Jesus.»

—Está hoje um bonito dia!—disse a visinha.

—Realmente está um dia muito bonito. Veja que formoso está o céu! Quem seria capaz de fazer um céu similhante a este? E ainda dizem que não ha Deus!

—E quem se atreve a sustentar similhante disparate?

—Não faltam, infelizmente, pessoas que o façam; pessoas que não teem religião nem consciencia.

—A proposito, Dôres, permite-me que entre em sua casa para lhe perguntar umas coisas?

—Com muito gosto.

—Vou ver se fervem as panelas que deixei ao lume, e depois irei ter comsigo.

Quando Dôres se viu sósinha, exclamou:

—Senhor, dá-me forças e aumenta a minha fé, se queres que faça alguma coisa por Ti. Por amor de Jesus, concede-me o Teu santo Espirito. Amen.

—Posso entrar?—disse uma voz do lado de fóra.

—Entre—respondeu Dôres.

No mesmo momento entrou a mulher que tinha falado com Dôres.

Esta ofereceu-lhe uma cadeira, e ela, depois de tomar assento, disse-lhe:

—Então porque deixou a loja?

—Que quer a visinha—respondeu Dôres.—Caprichos da sorte, ou, melhor, azares da vida.

—A mim disseram-me que foi por vocemecês serem protestantes que os despediram da casa.

—Pois não é verdade: fomos nós que nos despedimos, porque o meu esposo perdeu de repente o dinheiro que tinha, e bem assim a freguezia, por causa das suas idéas religiosas.

—Porém, Dôres, perdôe-me que lhe diga. Eu não entendo uma palavra ácerca das suas crenças religiosas. A mim disseram-me que os protestantes não crêem em Deus, nem na Virgem, nem nos santos. Quando morreu sua mãe, ouvi tudo o que o padre disse, e pareceu-me que no que dizia tinha razão; assisti ao enterro, e fiquei impressionada: mas porque é que todos são contra vocemecês?

—Por que razão foram todos contra Jesus? Eis aqui a causa: os que crêem em Jesus são perseguidos porque o seu Divino Mestre o foi.

—Porém vocemecês crêem em Deus e na Santissima Trindade?

—Sim, senhora; nós cremos em tudo isso, e mais ainda cremos em tudo o que está escrito na Biblia.

—Muito desejaria tornar a ouvir falar algum dos que pensam como vocemecês.

—Pois olhe, se tem esse desejo, Julião vae fazer algumas reuniões neste mesmo quarto, e pode assistir a elas.

—Não sabe quanto me alegro em saber isso. Não faltarei; porém diga-me: Quando é que seu marido principia?

—Esta mesma noite ás 8 horas, e, visto que a senhora é a primeira moradora da casa que o sabe, peço-lhe que...

—Não diga nada? Descance que...

—Pelo contrario, peço-lhe que o diga a todas as pessoas que muito bem lhe parecer. Seria um grande prazer para nós que todos os moradores e a visinhança ouvissem o Evangelho.

—Pois então eu lhe asseguro que toda a visinhança o saberá.

Em poucos momentos, todos os moradores da casa sabiam que Julião ia dar reuniões protestantes, e todos se dispozeram a ir ouvil-o, uns por curiosidade e outros por zombaria.

Quando o padre Francisco soube isto, exclamou:

—Já começa! e eu que julgava que esse homem cederia á fome e á miseria! Na minha vida não tenho visto pessoa mais teimosa! Que fazer? Ah! se se promovesse um escandalo, podia suceder que o senhorio os despedisse da casa; e o escandalo, sim, ha de dar-se. Parece mentira que os homens se obcequem a este ponto... No emtanto, isto faz-me supôr que Julião recebe alguma paga.

Assim continuou o padre, falando comsigo.

Por fim veiu a noite, e, ainda que alguma coisa fria por ser outono, a gente apinha-se nos corredores, por não caberem todos os que haviam concorrido dentro do quarto.

Ás oito horas em ponto da noite, Julião entrou no quarto, saudando todas as pessoas.

Depois dirigiu-lhes a palavra da seguinte maneira:

—Amigos, bastante embaraçosa é para mim a situação em que me encontro ao dirigir-vos a palavra. Falo-vos por duas razões: a primeira porque a isso Deus me envia, para que vos anuncie as novas de salvação que se encontra em Jesus Cristo; a segunda, a menos importante, para me justificar do que dizem, pois que, na opinião de muitos, duvida-se do meu caracter e da minha honra. Parece que muitos dos que estão presentes estranharão que um protestante vá falar do cristianismo, quando, segundo dizem por ahi, nós os protestantes somos uns herejes, uns incredulos, que duvidam de tudo. Se isto é ou não verdade, ides vós julgal-o ouvindo dos meus labios a minha profissão de fé, na qual eu, bem como todos os cristãos evangelicos, a quem vós chamaes protestantes, cremos. Para que bem o compreendaes, escutae com atenção.

«Creio em Deus Pae Todo Poderoso, Creador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo seu Unico Filho, Nosso Senhor; O qual foi concebido por obra do Espirito Santo; Nasceu de Maria Virgem; Padeceu sob o poder de Poncio Pilatos; Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu aos infernos; Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos; Subiu ao céu; Está sentado á mão direita de Deus Pae Todo Poderoso; Donde ha de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espirito Santo; Na Santa Egreja Catolica; Na comunhão dos santos; Na ressureição da carne; Na vida eterna. Amen.»

Um murmurio de vozes de aprovação e surpreza rompeu de todos os labios. As vozes que mais se distinguiram foram:

—Esse Credo é egual ao nosso!

—Crêem em Deus!

—E na Virgem!!!

—E em que Cristo foi concebido pelo Espirito Santo!!!

—Sim, meus amigos—continuou Julião,—nós, isto é, os cristãos do Evangelho, cremos em tudo o que está escrito na palavra de Deus. Quanto dizem de nós é uma completa calunia. Jámais duvidámos da virtude de Maria, mãe, não de Deus, porque Deus não teve pae nem mãe, porém sim mãe de Jesus, emquanto homem como nós. Nós não confiamos em ninguem senão em Cristo, porque sabemos que em nenhum outro ha salvação; _porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual os homens devem ser salvos_ (ATOS 4:12). Não confiamos nas obras que possamos fazer, pois que, por melhores que elas sejam, não são mais do que «trapos de imundicie». Não nos submetemos ao jugo de Roma, porque na palavra de Deus não se ordena que o cristão esteja sujeito a tal ou qual egreja, mas sim a Cristo, e porque esta egreja tiranisa as consciencias, obrigando a crer em dogmas taes como a infalibilidade, que nos faz ver a figura do papa retratado na segunda Epistola de S. Paulo aos Tessalonicenses, cap. 2.º, ver, 3 e 4, onde se diz, falando da segunda vinda do Senhor: _«Ninguem de modo algum vos engane; porque não será sem que antes venha a apostasia, e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe, e se eleva sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus»._ Nós, os protestantes, não fazemos caso dos dias de jejum, porque S. Paulo diz: «_Ninguem vos julgue pelo comer nem pelo beber_» (Col. 2: 16). Tambem sabemos, para que nos acautelemos deles, que «_alguns prohibirão casar-se, e mandarão abster-se das coisas que Deus creou para que com acção de graças participassem delas os fieis e os que teem conhecido a verdade_» (1.ª a Tim. 4: 3). Não fazemos caso algum dos mandamentos romanos, no que diz respeito a dar dinheiro ou velas, ou coisas similhantes para o culto, pois que na Palavra de Deus achamos escrito: «_Ninguem vos desencaminhe, afectando parecer humilde, e dar culto aos anjos, que nunca viu no estado de viador, inchado vãmente no sentido da sua carne_» (Col. 2: 18).

Algumas vozes de aprovação sairam dentre os ouvintes.

—Sim, meus amigos—prosseguiu Julião,—dos protestantes dizem-se muitas coisas que assim não são.

«Nós, os protestantes, cremos na Virgem dos Evangelhos, mas não na Virgem da egreja romana, porque a Virgem desta egreja em nada se parece com aquela. Não lhe rezamos por duas razões: a primeira porque não sabemos rezar; sabemos sim orar a Deus; e a segunda porque nem os apostolos, nem as tres Marias, nem nenhuma das personagens do seu tempo o fizeram. E que diremos ácerca das bulas? As bulas! Famosa chave romana que abre e fecha as portas do céu, desde o minimo preço de dois reales[3] até somas um tanto consideraveis. Roma tem bulas para todos, já vêdes—acrescentou em tom ironico.—Roma tem bulas até para defuntos. Emfim, Roma não perde ocasião de tirar dinheiro. Desde que uma pessoa nasce até que morre, paga dinheiro e mais dinheiro para os cofres da egreja. Dinheiro para baptizar, dinheiro para casar, dinheiro para enterrar, dinheiro para missas, dinheiro para tudo. Ah! os sacerdotes desta egreja não teem em conta que S. Paulo vivia á custa do trabalho de suas mãos, e que nem S. Pedro nem os demais apostolos foram subvencionados pelo Estado: não tiveram pé de altar, nem direitos paroquiaes, nem casulas batidas a oiro, nem calices de prata, nem baculos do mesmo metal, nem tiara, nem mitra, nem chapéu cardinalicio, nem foram abades, nem conegos... Porém, se não tinham nada disto, em troca recebiam, para administral-o, o dinheiro dos ricos, e com isso a egreja vivia com algum desafogo. Este era o costume apostolico, e por ser este costume que nós defendemos acusam-nos de herejes e nos excomungam, e não fazem mais porque Deus não lhes permite. Meus amigos, já vos são conhecidas em parte as doutrinas dos cristãos evangelicos; agora julgae por vós mesmos. Ámanhã á mesma hora de hoje, se vos dignardes vós escutar-me, falaremos dalgum ponto do Evangelho; porém, antes de vos retirardes, sabei duas coisas: primeira, que «_de tal maneira Deus amou o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigenito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna_» (S. João 3: 16). A segunda é que «_nenhuma condenação ha para os que estão em Cristo Jesus_» (Rom. 8: 1). Que o Senhor nos abençôe. Amen.

Julião retirou-se para a alcova, e a gente tambem saiu, discutindo entre si; alguns foram felicital-o.

O padre Francisco, que havia estado observando tudo, dizia a sós comsigo:

—E não houve escandalo! E esse homem que vae convencel-os! Como evitar isso?

O bom do padre trazia a cabeça numa braza viva, pensando como havia de inutilizar o seu inimigo, sem se lembrar de que era melhor tomar o parecer que o fariseu Gamaliel deu no conselho de Jerusalem, celebrado contra os apostolos, em que disse: «_Não vos metaes com estes homens, e deixae-os; porque, se este conselho, ou esta obra, vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de Deus, não a podereis desfazer, para que não pareça que até a Deus resistis_» (Atos 5: 38-40).

CAPITULO XVI

Um sermão, um desafio, e uma hora de fé

Os visinhos da casa de Julião estavam alvoroçados. Entre eles tinha-se despertado um movimento religioso como poucas vezes se tem visto.

Merecia a pena ás oito horas da noite o ir ver o interior da casa; pateo, corredor, janelas, tudo estava atulhado de pessoas, que levantavam a cabeça para olhar para um corredor do quarto andar, donde um homem lhes falava.

Tinham decorrido cinco noites desde que Julião pela primeira vez falára no corredor, e coisas maravilhosas tinham acontecido.

Na sexta noite do culto, achava-se Julião prégando, e tinha tomado para texto as palavras de Jesus: «_Porque onde estão dois ou tres reunidos em Meu nome, ahi estou Eu no meio deles_» (S. Mat. 18: 20).

O nosso amigo estava quasi no fim da sua prégação, depois de ter exposto aos seus ouvintes quão grande era o amor do Salvador, que, depois de ter dado a vida pelos pecadores, estava disposto a recebel-os, pois que, só com invocal-O, Ele Se aproximava dos corações. Depois de tudo isto, disse:

«Temos, pois, que onde se reunem dois ou tres em nome do Senhor, ali está a egreja. Portanto, meus amigos, não é necessario ir a tal ou tal egreja, nem escutar esta ou aquela pratica, não; se dois ou tres cristãos se unem em um caminho ou num deserto, e ali elevam os seus corações para orar, ou antes para falar de Jesus, ali está a Egreja com o seu divino Esposo no meio.

«Mais facil é que o Senhor habite em uma pobre agua-furtada, onde uma familia faz a sua oração matutina, do que num templo onde os sentidos se deleitam e o espirito se distrae com o som do orgão, o espectaculo do luxo e os perfumes do incenso. Sabei que o Senhor «não habita em templos feitos por mãos de homens», como diz o profeta: «_O céu é o Meu trono, e a terra o estrado dos Meus pés. Que casa Me edificareis vós, diz o Senhor, ou qual é o logar do Meu repouso? Não fez, porventura, a Minha mão todas estas coisas?_» (Atos 7: 49—50). Assim fala o Senhor. Não são, pois, as afilagranadas cupulas duma catedral, ou os sumptuosos tetos dum templo, nem os canticos latinos, nem o incenso, nem as luzes, nem o luxo, os objetos que fazem com que o espirito de Deus desça das mansões celestes onde habita; antes pelo contrario, essas coisas afugentam o Espirito de Deus.

—As suas malditas idéas, sim, que o conduzirão a si e áqueles que o escutam aos infernos—disse uma voz do fim do corredor.

Todos os olhares se dirigiram para o sitio donde havia saido a voz, e deram com o padre Francisco, que, aceso em ira, apostrofava o vidraceiro.

Taes insultos lhe dirigiu que os assistentes começaram a gritar:

—Fóra, corvos! Fóra, corvos! Não queremos latinorios.

—O Evangelho é claro, e os padres não querem que a gente o leia, para que se não venham a descobrir os seus embustes.

—Fóra, fóra o padre!

—Silencio, meus amigos—gritou Julião.

A vozeria cessou, e então o vidraceiro, dirigindo-se ao padre Francisco, disse-lhe:

—Podia não interromper a nossa reunião por um modo tão pouco delicado. Não sei porque seja tratado assim aquele que diz a verdade.

—Você nem diz nem conhece a verdade—exclamou o padre Francisco.

E acrescentou com concentrado odio:

—Você é um miseravel que recebe dinheiro dessas malditas sociedades inglezas para perder a Hespanha, para subjugal-a...

—Sr. padre Francisco—disse Julião num tom veemente—O senhor é um caluniador. Certamente que a si é que eu devo o prégar o Evangelho; pois saibam todos que, por causa desse senhor, perdi a minha loja e a minha posição. Tão caritativo, fez quanto pôde para a minha miseria e para a miseria da minha familia.

—Fóra, fóra o padre!—gritaram de novo as pessoas presentes.

—Silencio!—tornou a exclamar Julião—O sr. padre Francisco é um dos padres de mais talento da freguezia; tem estudos, e diz que estou no erro; eu, pelo contrario, não sou mais do que um pobre artista sem estudos, e, mais ainda, com um futuro bem triste. Pois apezar disso, eu desafio-o a discutir comigo na vossa presença.

—Bem, bem—exclamaram os circunstantes.

—Senhores—disse o padre Francisco, um tanto embaraçado,—eu não posso discutir com este homem sem licença dos meus superiores; portanto não lhe aceito o repto, antes o desprézo.

—Parece-me—disse Julião—que isso é uma evasiva; o senhor, se é, como diz, ministro do Evangelho, não pode deixar de combater o erro onde quer que se encontre; a sentinela que vê como o inimigo se aproxima da brecha que ela guarda não espera que os seus chefes lhe mandem fazer fogo: assim o senhor deve colocar-se em frente do erro sem aguardar licença de ninguem.

—Este—exclamou furioso o padre Francisco—não é logar proprio para discutir. A casa é propriedade do senhorio, e não para que você venha com o seu palavriado escandalizar os visinhos com suas corrompidas doutrinas.

—Fóra! fóra o padre!—disse uma voz.

—Fóra?—repetiu o padre.—Ámanhã vou dar parte ao senhorio de tudo quanto aqui se está passando, e veremos se se lhes prohibe ou não amontoarem-se nas escadas e no corredor, interrompendo a passagem.

—Pois senhores—gritou um dos moradores—em minha casa, de ámanhã em deante, ha logar para nos reunirmos. Se o sr. Julião quizer, podem todos juntarem-se ali sem escrupulo, e assim deixaremos as escadas livres, para que o sr. padre Francisco possa descer e subir, sem que a sua sotaina se amarrote.

Todos os moradores aplaudiram, emquanto que o padre Francisco entrou em sua casa aceso em colera.

Julião concluiu o sermão, e, depois de ficar convencido de que na noite proxima se celebraria culto em casa do visinho, que a tinha oferecido, cada qual foi para sua casa, e meia hora depois o socego e silencio reinavam em todas as habitações.

Julião e sua esposa estavam sentados em casa, conversando.

—E que vaes fazer?—disse-lhe a esposa.

—Não sei—respondeu Julião,—não sei; todas as portas se fecham; hontem esperava trabalho, porém o mestre não ficou com a obra e não me pôde admitir. Bem sabe Deus, querida esposa, que sómente sinto isto por ti e por nosso filho. Os recursos esgotaram-se, e não vejo de pronto como poderemos obter remedio. Eu sei que «Deus providenciará», sim, indubitavelmente tem que o fazer. Fui vender a ferramenta, porém querem valer-se da ocasião, e por aquilo que me custou duas libras sómente me dão uma.

—Julião, já te disse que não vendas a ferramenta; se ámanhã nos estabelecermos de novo, far-te-ha falta.

—Certamente, e não sei que estranho pressentimento me diz que tornaremos para a loja que deixámos.

—Muito me alegraria com isso—disse Dôres,—porque foi naquela casa que morreram os nossos paes. Sabes—acrescentou—que ámanhã tenho de ir ao _Monte dos socorros_ empenhar alguns objetos.

—Ah! Dôres!—exclamou Julião—se tu tivesses fé! Dize: crês com todo o coração o que está escrito na palavra de Deus?

—Sim, Julião.

O vidraceiro pegou na Biblia, que estava em cima da meza, e disse:

—Dôres, não temos dinheiro para comprar pão ámanhã, e, se não vaes empenhar alguns objetos, nem mesmo umas tristes sopas podes dar ao nosso filho, não é verdade?

Estas palavras arrancaram silenciosas lagrimas dos olhos de Dôres, que apertou ao peito o filhinho, que ela beijou sofregamente, entretanto que a creancinha se sorria, indiferente aos pezares daquela que a estreitava em seu seio.

—Não chores—continuou Julião,—o Senhor mesmo nos ensinou a dizer: «Dá-nos o pão nosso de cada dia»; pois bem, vamos orar, pedindo-Lhe esse pão.

Julião abriu a Biblia no Evangelho de S. João, cap. 16, e leu os versiculos 23 e 25, dizendo:

—Escuta esta preciosa promessa feita por Jesus; «_Na verdade, na verdade, vos digo: se vós pedirdes a Meu Pae alguma coisa em Meu nome, Ele vol-a ha de dar. Vós até agora nada pedistes em Meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo seja completo». «Tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis»._ Agora, com tão ricas promessas, e tão bom Intercessor, prostremo-nos deante de Deus.

CAPITULO XVII

O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus

Ás onze horas do dia seguinte áquela noite de que acabamos de falar, achavam-se Julião e Dôres em sua casa, dialogando assim:

—Com que, nada encontraste?—dizia Dôres.

—Nada, Dôres, nada absolutamente.

—E vamos ficar assim todo o dia? Não temos dinheiro para comer, e nem ainda acendi lume por não ter que cosinhar. O menino mama muito, e eu sinto-me cair de fraqueza. Que vamos fazer?

Julião permaneceu em silencio por alguns momentos, e em seu rosto via-se retratada a luta que atormentava a sua alma.

Nunca a tentação o havia perseguido com mais força. Via sofrer sua esposa, e tudo o levava a perder a sua confiança em Deus. Por fim, depois dum breve espaço de tempo, abanou a cabeça, como se quizesse afastar dela alguma idéa que mais o atormentava, e disse em resposta a sua esposa:

—O que faremos? Esperar.

«Esperar que Deus responda á nossa oração.

Neste momento o padre e outro sacerdote apareceram á porta.

—Bons dias, senhores—disseram eles ao verem o vidraceiro e sua mulher.

—Bons dias—responderam eles, e Julião acrescentou:—Que pretendem?

—Vimos—respondeu o padre Francisco—falar comsigo.

—Nesse caso entrem.

Ambos entraram, e, emquanto Julião fechava a porta, Dôres ofereceu uma cadeira a cada um deles.

O padre Francisco tomou a palavra, e disse a Julião:

—Julião, certamente estranhará a minha vinda a sua casa, não é verdade?

—E a que devo eu a honra da sua visita?

—Vimos ver se afinal nos harmonizamos.

—Não entendo.

—Pois olhe, a loja que ocupava está ainda por alugar; quer tornar a ocupal-a?

—Não, senhor, porque para isso parece-me que seria preciso fazer alguma coisa que nem sequer desejo que se me proponha.

O amigo do padre Francisco tomou a palavra e disse:

—Apezar de não ter a honra de o conhecer, fui convidado por este amigo para lhe falar.

O padre calou-se, e depois duma breve pausa continuou:

—Eu sou o confessor da sr. condessa de X... e tenho bastante influencia sobre ela. O amigo trabalhava naquela casa, e por suas exquisitas idéas perdeu o trabalho. Porém, é a coisa mais simples eu falar com a condessa e imediatamente poderá de novo ser readmitido ao trabalho no palacio. Já falei com o sr. padre Francisco sobre aquilo que poderemos fazer por si, e se abandona o mau caminho que trilha pode ainda ser feliz.

—Senhor padre—respondeu Julião,—agradeço o interesse que a minha situação lhe desperta, porém é inutil que fale por mim á condessa. Hoje é um dia em que ainda não almoçámos; porém, antes morrer de fome do que negar o meu Salvador.

—Vamos, está resolvido a continuar a prégar aqui na casa?

—Mais do que nunca, respondeu Julião.

—Bonita prégação ha de fazer, se ainda não comeu.

—O Senhor me alimentará com a Sua palavra, pois que está escrito: «_Não sómente o homem viverá do pão, mas de toda a palavra que sae da boca de Deus_».

—Muito bem; pois agora mesmo lhe daremos duas libras se não prégar.

—Não prégar? Ora sempre os senhores teem coisas! O seu dinheiro pereça com os senhores, que julgam amordaçar com ele a palavra nos meus labios. O Senhor dá-me alguma coisa que vale mais do que algumas libras. Cristo deu-me uma coisa, a minha salvação, a qual, apezar de os senhores julgarem vendel-a a tanto por _missa_, não é comprada com todo o dinheiro do mundo. Não prégar!