Part 5
—Pois no proximo domingo não o reze; pois que, quando chegar áquelas palavras, «Perdôa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores», pedirá a Deus, a quem vocemecê é devedor, que lhe perdoe como está disposto a fazer ao P. Francisco. Jesus disse: «Mas, se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tão pouco o vosso Pae vos perdoará as vossas».
—O visinho tem sempre maneira de me convencer.
—Não, meu amigo, a palavra de Deus é que o convence.
—Agora vou pedir-lhe um favor, e é que me permita que eu ponha á sua disposição tudo o que houver em minha casa e de que sua mãe precise.
—Muito obrigado, em breve nós o incomodaremos. Todavia ainda não chegou a ocasião de incomodar ninguem, a não ser o ministro da nossa egreja, a quem já mandámos chamar.
—Como! Tão perigosa está sua mãe!
—Não, senhor; porém não devo aguardar que ela esteja nos paroxismos da morte para que lhe falem de Jesus, seu Salvador.
João saiu, e Julião fechou a loja.
Assim que o carpinteiro contou em sua casa o que se estava passando em casa do visinho, Antonia, que se ia deitar, mostrou desejos de ir a casa de Dôres, e, como não houvesse ninguem que podesse dissuadil-a de tal, pois que ainda não era de todo bom o seu estado de saude, ela e seus paes, depois de fechada a loja, foram visitar Josefa.
Quando iam a entrar, chegava tambem um sujeito que batia á porta.
Julião foi abrir, e, ao ver esse sujeito, tirou o _bonet_, que costumava trazer em casa, e saudou-o respeitosamente, dizendo-lhe:
—Boas noites, sr. ministro.—E em seguida aos seus visinhos:—Boas noites, senhores.
Entraram todos, e chegados á sala, depois de trocados os primeiros cumprimentos, o ministro, dirigindo-se a Julião, disse-lhe:
—Então que ha, amigo Julião?
—Minha mãe tem uma pneumonia, e desde que caiu doente não cessa de chamar pelo senhor.
—E posso vêl-a?
—Sim, senhor; tenha a bondade de entrar na alcova.
Entraram todos.
O ministro, chegando-se junto do leito e inclinando-se um pouco para a doente, disse em voz baixa:
—«A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja comsigo, irmã.»
—Ah! é o sr. ministro?—exclamou a enferma, procurando erguer a cabeça.
—Sim, sou eu, porém esteja quietinha. Como está?
—Muito mal e muito bem.
—Vejamos; queira explicar-se.
—Senhor ministro; sinto-me bem, porque creio que muito em breve irei ver o meu Jesus, e sinto-me mal, porque sofro muitissimo no corpo.
Seguiram-se alguns momentos de silencio, findos os quaes disse o ministro:
—Diga-me, querida irmã, se o Senhor a chamasse á Sua presença neste momento, estaria preparada para se apresentar diante d’Ele?
—Oh! sim, senhor. Eu sou uma grande pecadora, porém sei que o sangue de Jesus purifica de todo o pecado. Uma coisa me aflige, sr. ministro, e é o saber que tenho sido ingrata desprezando o amor e a graça de Deus.
—Senhora, o perdão de Deus não tem limites, e Jesus morreu no Calvario, dando a Sua vida pelos proprios ingratos. Agora o que é preciso é que confie no que Ele disse: «Não temas; crê sómente, e serás salva».
—Assim o faço, senhor.
—Pois então esteja certa de que aquilo que agora sofre não é mais do que a preparação para uma coisa melhor.
—Assim o creio; morrer é viver, porque é passar para uma outra vida em que não haverá mais morte.
—Se é do seu agrado, vou ler-lhe alguns versiculos da Palavra de Deus.
—Sim, sim.
O ministro tirou do bolso uma Biblia, e, folheando-a, disse.
—Leiamos o cap. 11 do Evangelho segundo S. João, desde o versiculo 1 até ao 45.
Todos estavam suspensos dos labios do bom servo de Deus.
As cinco pessoas que estavam presentes pareciam nem sequer respirar. A enferma, essa parecia não sentir as dores que a torturavam; seguia até o movimento dos labios do ministro.
Era evidente que o Espirito Santo estava naquela alma.
O ministro, quando acabou de ler, disse:
—Meus amigos, e minha irmã enferma, pouco posso acrescentar áquilo que acabei de ler; sómente desejo que fixem a sua atenção, e especialmente a querida irmã Josefa, nos versiculos 4 e 25; em que Jesus diz: «Esta enfermidade não é para morte, mas para gloria de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.» «Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.» A estas palavras, o Senhor ressuscitou a Lazaro, precisamente porque Jesus é a ressurreição e a vida. Nós estavamos mortos em nossos delitos e pecados, porém veiu Jesus, que é a vida, e cada um que crê n’Ele é um Lazaro levantado do sepulcro. Por essa mesma razão S. Paulo exclama: «Onde está, ó morte, o teu aguilhão?... Graças sejam dadas a Deus, que nos deu a vitoria por Nosso Senhor Jesus Cristo.»
—Ah!—exclamou a senhora Josefa—quanto bem derramou o senhor, com essas palavras, na minha alma!
—Então demos graças a Deus.
Todos tomaram uma atitude reverente, e, ao cabo dalguns segundos, ouviu-se a voz do ministro, que dizia:
«Oh! Senhor, nosso Deus! Tu dás a saude, e Tu dás a enfermidade. Tu dás a morte, porém tambem depois da morte uma vida que nunca acabará. Senhor, acabamos de escutar as palavras consoladoras de Teu Filho Jesus; concede, Senhor, que elas dêem consolação á tua serva que está doente. Sara-a, Senhor, abençôa-a, aumenta a sua fé em Jesus, e o amor para comtigo, e, se fôr do Teu agrado chamal-a a Ti, prepara-a para isso. Ouve-nos, Senhor, pelo amor de Jesus Cristo, _Amen_.
_Amen_—repetiram todos.
A enferma começou a delirar, em virtude da intensidade da febre.
Neste momento, Julião, inclinando-se para sua mãe, perguntou-lhe:
—Como está, minha mãe?
—Dentro em pouco não haverá para mim nem dôr, nem aflição, nem morte... Tudo estará acabado... e eu com Jesus no céu, e Jesus comigo...
—Não falem com ela—disse o ministro;—está sob o dominio da febre.
Fez-se um profundo silencio, e depois ouviu-se a enferma, que com voz debil dizia:
—Vejo um logar magnifico... ali ha um Cordeiro... vêdel-o? vêdel-o? É o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
A enferma, depois duma breve pausa, exclamou:
—Tenho sêde.
Dôres embebeu uma pequena esponja num liquido que tinha num copo, e chegou-lha aos labios, chupando ela com avidez.
Seguiu-se outra pausa; o delirio aumentava, e tornou a ouvir-se a voz da enferma:
—«A Jehovah chamei, estando em angustia, e Ele me respondeu...» «Jehovah, ouve a minha oração e chegue o meu clamor á Tua presença...» «No dia da minha angustia Te chamarei, porque Tu me respondes...» «Porque a minha alma está cheia de males... e a minha existencia... proxima do sepulcro...» «Agora, pois... nenhuma condenação ha... para os que estão em Cristo Jesus.»
—Feliz delirio—exclamou Julião em voz baixa;—ele te faz gozar antecipadamente da presença de Jesus, teu bemdito Salvador!
Dôres e Antonia choravam em silencio.
—Senhor!—disse com voz debil a enferma, dirigindo-se ao ministro:—Sinto que morro.
—Bemaventurados—disse o ministro—os que morrem no Senhor.
—Eu sou uma grande pecadora.
—Pois precisamente porque todos somos grandes pecadores é que morremos... O estipendio do pecado é a morte... Porém o bom Deus, que não quer a morte do pecador, mas sim que ele se arrependa e viva, eis que á raiz do pecado promete um perdão, dizendo: «Se o Meu povo se humilhar, e orar e procurar o Meu rosto, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu o ouvirei desde os céus e perdoarei os seus pecados.» «Se os vossos pecados fôrem da côr da escarlata, ficarão brancos como a neve; se fôrem roxos como o carmezim, ficarão como a branca lã.»
—Eu tenho sido muito pecadora—disse Josefa, profundamente comovida.
—Jesus Cristo—continuou o ministro—veiu salvar os pecadores. Ele mesmo disse: «Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
Vou ler o capitulo 5 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.
O ministro leu-o, e tal impressão produziu, tanto nos circunstantes como na enferma, que era profundissimo o silencio que reinava ali.
Evidentemente o Espirito do Senhor estava ali. Os textos que mais chamaram a atenção de Josefa foram: «Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Jesus Cristo, porque, sendo ainda pecadores, morreu Cristo por nós; logo muito mais agora, que somos justificados pelo Seu sangue, seremos salvos por Ele da ira; porque, se, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando reconciliados, seremos salvos por Sua vida.»
—Oh!—exclamou a enferma—confio em Ti, bom Jesus, confio em Ti. Tu me salvas, Tu me redimiste para Deus com o Teu sangue.
—Deseja que oremos?—perguntou o ministro.
—Sim, sim, senhor, oremos.
O ministro levantou-se da cadeira, no que foi imitado pelas pessoas presentes, ficando os visinhos bastante surpreendidos, por ser a primeira vez que presenciavam semelhante coisa.
—Oh Senhor!—exclamou o ministro com voz solene.—Perante um espirito prestes a abandonar a materia, perante um corpo que vae descançar, porém cuja alma vae viver, não podemos deixar de louvar e bemdizer o Teu nome. Senhor, ainda que Tu não tenhas necessidade disso, nós vamos recordar-Te as Tuas promessas, pois que nisso encontramos grande consolação. Tu enviaste Jesus Cristo ao mundo, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna. Oh bom Deus, cumpre esta promessa na pessoa enferma por quem Te suplicamos. Teu Filho Jesus disse: «Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá». Senhor, infunde a fé de Jesus Cristo na enferma por quem Te rogamos. Tu prometeste arremessar para as profundidades do mar os pecados daqueles que confiam em Jesus; que isto seja assim para comnosco, e em especial para com a nossa irmã enferma. Dá-lhe fé, para que ela tenha animo para o tranze por que está passando; saude, se lhe convem, e sobretudo uma abundante efusão do Teu Santo Espirito. Oh! Deus, pelos merecimentos de Jesus, concede-nos isto... _Amen._
—_Amen_—repetiram todas as pessoas ali presentes, verdadeiramente impressionadas.
—Senhor—exclamou Josefa, em voz fraca,—tenho a certeza de que Jesus está á cabeceira do meu leito, com os braços abertos, aguardando a minha alma.
—Sim, minha irmã—disse o ministro.—Jesus está aguardando-a para a conduzir á presença de Seu Pae, para receber a corôa de justiça que Ele adquiriu para si por meio do Seu sangue. Não esqueça que Jesus disse: «Não vos hei de deixar orfãos; virei ter comvosco. Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.»
E, tendo dito isto, fez sinal de se retirar.
—Vá com Deus, senhor ministro—disse Josefa, procurando erguer a cabeça:—que o Senhor o abençôe, assim como a sua congregação; se quando voltar já tudo tiver acabado para mim..., recomendo-lhe meus filhos...
Josefa não poude continuar. Um ataque de tosse não lhe permitiu falar, e, quando socegou, o ministro, depois de dirigir algumas palavras de consolação á familia, saiu.
Depois dalguns momentos de silencio, Josefa chamou.
—Que deseja, minha mãe?—perguntou Julião.
—Traze-me cá o menino—respondeu ela com voz quasi ininteligivel;—quero dar-lhe o ultimo beijo.
—Minha mãe, socegue. Para que afligir-se se todavia...
—Não, meu filho, esta lampada vae apagar-se; não trateis de infundir-me esperanças. Para que quero viver, se Jesus me espera?... Trazei-me o meu neto.
Dôres entrou na alcova, levando nos braços o menino adormecido.
Ajudaram a levantar a enferma, que ficou por alguns momentos encostada a umas travesseiras, e tomou o menino nos braços.
Extraordinario contraste! A vida nos braços da morte!
—Está a dormir—disse Dôres.
—Não importa—respondeu Josefa;—traze-me... traze-me cá uma luz, quero vêl-o bem á vontade... a lamparina não dá bastante luz.
Uma das pessoas presentes foi buscar um candieiro.
A enferma ficou durante alguns momentos contemplando o menino.
—Oh!—exclamou—assim devia dormir Jesus quando era menino... Desejaria vêl-o acordado, e que se risse para mim. É tão doce o sorriso duma creança!
Naquele instante o menino abriu os olhinhos, cujas finissimas palpebras haviam sido feridas pela forte luz do candieiro.
O pequeno Paulo olhou para um lado e para outro e começou a sorrir-se.
—Oh!—exclamou Josefa.—Que bom é Deus, que me concede até as consolações dos pequeninos!
Em seguida beijou Paulo, dizendo:
—Senhor, abençôa este menino e prepara-o para o Teu serviço por meio de Jesus.
Tornou a beijal-o e entregou-o a Dôres.
Ás quatro horas da manhã a febre havia desaparecido.
A enferma, mais aliviada, chamou seus filhos, que entraram na alcôva.
—Chamo-vos—disse ela—porque vou para a minha morada.
Julião e Dôres choravam em silencio.
—Porque choraes?—perguntou ela.—Vou viver com Jesus, e ali vos espero. Podereis desejar-me coisa melhor do que esta?
—Minha mãe—disse Julião,—minha querida mãe, nós amamol-a tanto que não podemos deixar de sentir a sua falta.
—Não tendes nada que sentir... Escutae os meus ultimos conselhos.
A enferma tinha entre as suas mãos as mãos de seus dois filhos.
Depois duma curta pausa, Josefa falou assim:
—Meus queridos filhos, lembrae-vos de mim... Sêde fieis á fé do bom Jesus, para que vejaes vir a morte com a mais completa tranquilidade. Educae o vosso filho no amor de Deus... Ah!... todo o carinho que me tendes a mim transferi-o para ele... Amae-vos muito, muito, muito. Orae ao Senhor, e agora recebei a minha benção.
Julião e sua mulher ajoelharam-se, e a velha, voltando-se, ainda que com custo, para o lado em que eles estavam, estendeu a mão sobre a cabeça deles e disse:
—Senhor, por amor de Jesus, rogo-Te que abenções meus filhos. Que o amor de Deus, a graça de Jesus Cristo e a comunicação do Espirito Santo seja comvosco. _Amen._ A morte começa a vir... já a sinto. Sim, sim, minha amiga, vem, vem, aproxima-me de Jesus... Dizem que a morte é horrivel... Oh! não! Quão bela me parece!
Todos choravam.
A moribunda prosseguiu:
—Não choreis, mas alegrae-vos... Julião, meu filho, não te aflijas... Hoje é domingo: no domingo vou para o céu; oh! que domingo mais ditoso vou passar ao lado de Jesus!... Quando tinha saude, reunia-me com os irmãos na egreja... Hoje me reunirei com os anjos e santos no céu... Ouvi o meu ultimo desejo... Quando pela manhã vier o ministro, rodeae o meu corpo e fazei aqui um pequeno culto. Agora dae-me um beijo.
Julião e sua mulher beijaram a enferma.
Depois, com as mãos de seus filhos entre as suas, disse:
—Já está aqui; vejo a Jesus, que estende para mim os Seus braços... Vou para Ti, doce esposo da minha alma. Adeus, amigos... Adeus, Dôres... Adeus, meu filho... Jesus... rece...be... meu espiri...to...
A enferma, que havia erguido a cabeça, pousou-a de repente sobre a travesseira.
Um grito unanime ressoou na habitação.
—Adeus, minha mãe—exclamou Julião com o coração partido de dôr.—Adeus, minha querida mãe. Goza em paz o descanço eterno... O Senhor o deu, o Senhor o tirou... bemdito seja o nome do Senhor.
CAPITULO X
De corpo presente
Passados os primeiros momentos de confusão, que sempre sucedem num caso como o que acabamos de presenciar, Julião, com uma tranquilidade de espirito admiravel, principiou a dispôr tudo o que era preciso para as ultimas homenagens que devia tributar áquela que fôra sua mãe.
Ás oito horas da manhã, um grupo de mulheres estava conversando num dos corredores, e, antes de entrarmos no quarto mortuario, escutemos o que dizem.
—Sabem vocês o que sucedeu?—dizia uma das mulheres.
—Sim—respondeu uma delas;—morreu a mãe de mestre Julião.
—Sim, morreu! exclamaram todas, menos uma que disse:
—Pois não senti vir o _Viatico_.
—É claro—disse outra—que não veiu o _Viatico_; pois que a defunta não se confessou nem sequer recebeu a _extrema unção_.
—Jesus, Maria, José!—exclamaram todas em côro.
—Pois não sabem vocês que ela era protestante?—disse a primeira que falou.
—Ah!!...
—Os protestantes não comungam nem se confessam.
—Então morrem como cães?
—Sim, senhora.
—Sabe a visinha o que fazem?—disse uma;—eu presenciei-o quando Antonia esteve doente. Lêem um livro a que chamam a... a... Biblia. E na verdade que esse livro tem coisas muito bonitas: fala de Deus, de Jesus Cristo e...
—Por muito bom que isso seja—interrompeu outra,—não se confessar a gente e não comungar é mau. Pelo menos deviam fazel-o á hora da morte. Eu, pela minha parte, não sou daquelas que comem com os santos; desde que me casei, e já lá vão vinte anos, que não tornei a confessar-me; porém á hora da morte não passarei sem o fazer. Deve forçosamente ficar com cara de excomungada, essa gente, depois de morta!
—Sim, sim, ficam negros como o carvão.
—Porém ainda não sabe o melhor—acrescentou outra.
—O que é?—perguntaram as outras com interesse de o saberem.
—É que, se não comungam, não querem, em compensação, que os seus mortos morram á fome.
Uma ruidosa gargalhada soou no corredor.
—Porém, se estão mortos—disse uma,—como hão de morrer de fome?
—Pois ouça—disse um tanto irritada a outra;—eles crêem que depois de mortos comem, e por isso põem-lhes no caixão um pouco de presunto, uma garrafa de vinho e dois pães.[1]
—Ah!—exclamou uma—isso não é verdade. Quando o padre protestante veiu ajudar a sr.ª Josefa a bem morrer, eu estava em sua casa, e ouvi-lhe dizer umas coisas muito bonitas... e... por tal modo o disse que nos fez chorar.
—Isso não é motivo para que eles não creiam que os mortos comem; olhe a visinha: no outro dia leu meu marido um livro intitulado _O monstro das sete cabeças_, que dizia que ha uma nação, lá muito longe, em que se crê que os mortos veem do outro mundo a este chupar o sangue dos vivos; chamam-lhe lam... lam... vampiros.
—Sim, sim, eu não os vi, porém sei que os protestantes metem no caixão do morto o que já disse.
—Porém—disse uma—para que mais questões sobre este assunto? Vamos ver a morta e dissiparemos estas duvidas.
—Sim, sim—exclamaram todas.
No mesmo instante dirigiram-se a casa de Julião.
Vamos nós tambem com elas.
Quando alguem se aproxima do logar onde ha um cadaver, parece que se respira uma certa atmosfera glacial. Ao mais indiferente e ao mais frivolo oprime-se-lhe o coração.
Quando as mulheres entraram na sala, havia nela varias pessoas, entre as quaes estavam Antonia, sua familia, Julião e Dôres.
Um profundo silencio reinava ali.
No meio da sala, e sobre uma mesa coberta com um pano de baeta negra, estava um caixão, e dentro dele o cadaver de Josefa vestido de preto, o que fazia ressaltar a brancura dum lençol que havia de servir de sudario, e que estava agora estendido ao lado do caixão.
O cadaver tinha na cabeça uma touca engomada e adornada com uma linda renda, o que lhe dava ao rosto um aspeto agradavel.
Nenhum sinal havia imprimido a morte naquele rosto, que estava branco como o arminho, sulcado de veneraveis rugas, com os olhos naturalmente fechados, os labios ligeiramente entreabertos, como se ainda respirasse, e, a não ser pela falta de movimento no peito, qualquer pessoa teria dito que Josefa estava dormindo um sono tranquilo.
Em suas mãos, estendidas naturalmente, tinha uma _sempre-viva_, e em seu peito seus filhos haviam colocado um _amor-perfeito_, como a ultima e eterna recordação que os acompanharia durante toda a sua vida.
Entretanto as mulheres que tinham ido ali com o proposito de ver o presunto, o pão e o vinho esforçavam-se inutilmente por descobrir aqueles objetos. Porém tudo foi em vão.
Mas, se não viam a comida nem a bebida, descobriram em troca outra coisa não menos importante. A sr.ª Josefa não tinha luzes!!!
Uma nova personagem entrou na sala, acompanhada duma mulher, um homem e uma creança—uma familia das relações intimas de Julião e sua mulher.
Quando apareceu na sala, passou-se uma scena de lagrimas que não tentaremos descrever.
Depois de darem desafogo ás lagrimas, aproximou-se do caixão essa pessoa que havia entrado, e que era o ministro. Depois de contemplar por alguns instantes o cadaver, disse:
—Ditosa tu, que estás agora gozando as delicias eternas na presença do Senhor.
—Não é verdade, sr. ministro—disse Julião—que o rosto de minha mãe não ficou desfigurado?
—Não; parece melhor do que quando estava doente. A que horas morreu?
—Ás cinco.
—Quaes foram as suas ultimas palavras?
—Jámais as esquecerei!... «Senhor Jesus, recebe o meu espirito.»
Houve uma pequena pausa. Por fim, o ministro disse:
—Vamos agora celebrar um pequeno culto, deixando os que já dormem no Senhor para nos ocuparmos de nós, que ainda peregrinamos pelo mundo. Meus amigos—acrescentou, dirigindo-se aos circunstantes—vamos celebrar o dia do Senhor.
Depois, tirando do bolso um livro de hinos, com não pouca surpreza da maior parte das pessoas presentes, cantaram tres estrofes do seguinte hino:
Olha a linda violeta! Dá na sombra seu odor; Não se queixa, não deseja Ser notavel, nem maior.
Para a violeta humilde, Para a mais soberba flôr, Sopra a mesma brisa amena, Vem do sol egual calor.
Deus a toda a creatura Marca o proprio logar; Dá riqueza, dá pobreza, Tudo como apraza dar.
Jesus ama e convida Todos para os mesmos céus: Ricos, pobres, jovens, velhos, Poderão reinar com Deus.
As vozes do cantico atrairam para a casa de Julião as atenções da visinhança, e por tal modo que se encheu a sala, e era grande o numero de pessoas que escutavam á porta e no passeio aquilo que para eles era uma grande novidade.
Como temos de falar do culto que se celebrou quando tiraram o cadaver de casa, passamos por alto este que ali se realisou, contentando-nos apenas com dizer que todos os que ouviram ficaram extremamente comovidos, e realmente aquela morte serviu para a vida de muitos que até então nada sabiam do nome de Jesus.
Terminado o culto, o ministro saiu, os visinhos foram-se retirando, fazendo comentarios, porém tão grande é a ignorancia que, todavia, não faltavam mulheres que dissessem:
—Não lhe pozeram no caixão nem o presunto, nem o vinho, nem os pães, mas certamente que o farão quando o cadaver sair de casa.
CAPITULO XI
Um culto funebre
Ao cair da tarde do domingo de que nos ocupámos no capitulo anterior, um grande numero de pessoas sahia da casa do nosso amigo Julião.
A maior parte das pessoas que foram ver o cadaver, depois que sahiam, ficavam á porta ou na rua, formando pequenos grupos.
Quasi todos os que ali estavam reunidos eram membros da egreja a que Julião e sua familia pertenciam.
O ministro, ao terminar o culto daquele dia na sua egreja, anunciou do pulpito que tinha falecido uma irmã em Cristo; disse onde morava, a hora a que devia realizar-se o enterro, e por isso se achavam ali tantas pessoas reunidas.
A aglomeração de gente chamava a atenção e atrahia um grande numero de pessoas.
Como era muito natural, entre a multidão não havia conformidade de idéas ou de crenças, e por isso não era raro ouvirem-se dialogos mais ou menos burlescos ou sérios, mas que denotavam a mais completa ignorancia ácerca das Escrituras, e o fanatismo por parte duns e o conhecimento mais ou menos profundo delas por parte doutros.
Ouçamos alguns desses dialogos.
—Que enorme quantidade de gente que vem ao enterro da _protestante_!—dizia uma mulher a outra.
—Sim—respondeu ela.—Vem muita gente. Serão todos amigos de Julião?
—Não; veem para fazer numero e para que se diga depois que ha muitos protestantes em Madrid.
—Ouçam lá—interrompeu outra mulher das que estavam no portal, e que ouvira a conversa,—nós que estamos aqui não viemos para fazer numero, mas sim porque nos amamos uns aos outros, como Cristo nos amou.
As duas visinhas ficaram por um momento silenciosas, fitando de alto a baixo a mulher que havia interrompido a conversa. Por fim uma delas disse:
—E diga-me, minha senhora: neste enterro dão velas?
—Não, senhora, porque não precisamos de velas.
—Como se meteu na nossa conversa julguei...
—Quê?
—Que davam velas.
—Pois já fica sabendo que não.